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O mundo do trabalho sofreu e vem sofrendo significativas transformações. Sob os imperativos da microeletrônica e da automação, o capital vem substituindo o trabalho de homens e mulheres pelas ―máquinas inteligentes‖. Em verdade, o capital, fundado nas forças produtivas cibernético-informacionais, vai prescindindo da presença física e do próprio ―saber‖ e do próprio ―fazer‖ dos trabalhadores, transferindo tudo para as máquinas que, cada vez mais, se fazem indispensáveis e imprescindíveis. Assim, nos tempos contemporâneos, a expansão capitalista se dá colocando ―para fora‖ grandes contingentes de trabalhadores que passam a constituir uma população supérflua sobrante, em meio ao desemprego e às formas precárias de trabalho (CARVALHO, 2007).

Nestas mudanças e reviravoltas, redefine-se o perfil do trabalhador do nosso tempo, colocando-se toda uma ênfase na qualificação, restrita ao desenvolvimento de habilidades e competências para se adaptar às exigências deste novo mundo do trabalho.

Segundo Velasco (2007), o discurso corrente - que está impregnado na vida

social e em nossos corações e mentes - é como se tudo dependesse unicamente do

trabalhador que passa a ser visto e considerado como responsável pela sua ―empregabilidade‖, pela sua carreira, pelo seu sucesso e insucesso. A questão- chave, a ―pedra de toque‖ desta ideologia é que se deixa de considerar, não se leva em conta esta dimensão estrutural excludente, característica da forma de funcionamento do capitalismo no tempo presente que desemprega, que precariza, que deixa de fora...

Um dilema do nosso tempo, que fortemente nos interpela, é a emergência desta população sobrante/descartável. E, esta população sobrante cresce a cada

seja, pessoas de mais de 40 anos que não conseguem mais um lugar no mercado de trabalho e não atingiram a idade definida para a aposentadoria, estando, portanto, no ―não-lugar‖, no vazio; e os ―jovens refugados pelo capital‖, sobretudo as juventudes pobres que não conseguem entrar no mercado de trabalho porque não tem lugar para eles... E, assim, a população sobrante perambula sem projeto de vida, sem perspectivas, tentando equilibrar-se - sem uma rede de proteção social-no fio da navalha das exclusões e inclusões precárias e indecentes. É o ―refugo humano‖, nesta civilização do capital, no dizer do sociólogo Zygmunt Bauman. Assim, o capitalismo do nosso tempo encarna a ―cultura do descartável‖, como ―modo de ser contemporâneo‖: é a descartabilidade das mercadorias; é a

descartabilidade dos trabalhadores supérfluos; é a descartabilidade das pessoas; é a descartabilidade de sentimentos e afetos (CARVALHO, 2007).

Atualmente, observamos a era do capital rentista que prega o individualismo exacerbado e onde a revolução eletrônica impõe outras formas de aprendizagem, fazendo surgir um ―novo‖ trabalhador, em oposição àquele da era fordista. (CARVALHO, 2007). Marx (1982), comentando que a sociedade se distingue de todas as que a precedem porque, naquelas, o modo de vida quase não se altera. A sociedade capitalista, pelo contrário, transforma incessantemente suas relações sociais, políticas, econômicas, processos de organização, de divisão e de gestão do trabalho e suas relações educacionais.

Para Saviani, só com o conhecimento da lógica do capital será possível se chegar a um conhecimento mais profundo da realidade e da própria educação. Em suas palavras, temos que ―não é possível, portanto, compreender radicalmente a história da sociedade e, consequentemente, a história da educação contemporânea, sem se compreender o movimento do capital‖ (SAVIANI, 2005).

Nesse contexto surgem duas indagações: de que qualidade de ensino os trabalhadores necessitam em um mundo onde o trabalho se desenvolve a custa do trabalho ―qualificado‖? E colocando o problema de outra forma, pergunta-se que tipo de educação necessita uma massa de desempregados que são obrigados a viver de excluídos do mercado de trabalho?

Essas perguntas indagam a imensidão dos desafios educacionais, que é ilusão pedagógica, a crença de que a escola por si mesma tem o poder de resolver um problema que é social. O socialismo utópico evidencia lições históricas aos reformadores dos tempos modernos. Fourier, Sant-Simon e Robert Owen, indignados com as condições de vida do emergente proletariado, com a degradação das crianças e das mulheres submetidas ao trabalho fabril, pensam que uma educação de qualidade pode livrar as crianças das consequências funestas do trabalho. (FIOD, 1995).

Esse contexto faz compreender que os problemas, ao qual, permeiam o mundo educacional sugerem que a educação e o trabalho precisam ser vistos em consonância com o movimento geral da sociedade. Um exemplo seria quando Smith (1988) no século XVIII reivindica para o operariado ainda embrionário, o ensino público, gratuito e estatal. Pois, para ele as operações simples e repetitivas da produção fabril, além de imbecilizar os indivíduos, eram prejudiciais às crianças que não tinham acesso a qualquer instrução.

Ainda para Smith (1988), a divisão do trabalho que obriga o indivíduo a repetir por toda a vida uma quantidade de operações simples, transformava o trabalhador em estúpido e ignorante tanto quanto uma criatura humana pode ser. Segundo ele, uma massa ignorante e analfabeta não condiz com uma sociedade civilizada e que a escolarização obrigatória é uma forma de impedir a total degeneração e a corrupção do corpo da nação: o povo.

Além disso, a própria crise do capital reflete na educação, pois no reino do capital, a educação é ela mesma, uma mercadoria. Daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital e pelo esmagamento dos cortes de recursos dos orçamentos públicos. Nesse sentido, Mészáros (2002) afirma:

[...] é a crise estrutural profunda do sistema do capital global que exige e impõe cortes em uma escala sempre crescente [...] o sistema do capital em crise estrutural não consegue mais produzir os recursos necessários para manter a própria existência, muito menos para expandir, de acordo com a necessidade crescente, o Estado de bem-estar social, que há muito tempo chegou a constituir sua finalidade justificadora.

Mészáros coloca que o objetivo central dos que lutam contra a sociedade mercantil, a alienação e a intolerância é a emancipação humana. E a educação, que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança, tornou-se instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista: ―fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes‖. Em outras palavras, tornou-se a educação uma peça do processo de acumulação de capital e de estabelecimento de um consenso que torna possível a reprodução do injusto sistema de classes, exatamente em consonância com que Smith cita acima.

Talvez nada exemplifique melhor o universo instaurado pelo neoliberalismo, em que tudo se vende tudo se compra, tudo tem preço, do que a mercantilização da educação. Devido a esse fato Mészáros diz que a educação tem duas funções principais numa sociedade capitalista: a produção das qualificações necessárias ao funcionamento da economia, e a formação de quadros e a elaboração de métodos para um controle político.

Então necessitamos aqui de uma educação de sujeitos no exercício da responsabilidade social, uma educação crítica, capaz de desenvolver subjetividades questionadoras, rompendo o “silêncio cúmplice da dominação”. É um processo

formativo que faça florescer o senso de justiça e de partilha. É uma educação de qualidade articulando as diferentes dimensões da pessoa, em sua plenitude: dimensão cognitiva, perceptiva, emocional, afetiva, criadora. É uma educação que viabilize a democratização da ciência e da tecnologia, na construção de um indivíduo social, capaz de colocar saberes e fazeres a serviço do bem-comum.