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Na tese intitulada Intelectuais, política e literatura na América Latina: o debate sobre revolução e socialismo em Cortázar, García Márquez e Vargas Llosa (1958-2005), a historiadora Adriane Vidal Costa esclarece que o processo revolucionário cubano, “num contexto e conjuntura particulares” (COSTA, 2009, p. 22), teria possibilitado, especialmente nas décadas de 1960 e 70, um vigoroso debate sobre revolução e socialismo, eventos capazes de agrupar intelectuais, literatos e críticos literários que “se engajaram em relações recíprocas, mas nem por isso menos tensas, em defesa da Revolução.” (COSTA, 2009, p. 22).

Adriane Costa afirma que quase todos os escritores listados na abertura desta seção86 já vinham publicando seus romances na América Latina e Europa antes do boom. “Contudo, eram obras que não alcançavam uma difusão massiva e eram conhecidas apenas por um pequeno círculo de leitores.” (COSTA, 2009, p. 133).

É preciso considerar que, antes dos anos 1960, as obras de Cortázar, Asturias, Onetti ou Borges “apenas alcançavam edições de 2.000 exemplares”, e que ficavam encalhadas nas livrarias por longos anos. No entanto, com o boom “as mesmas obras alcançaram tiragens de 20.000 exemplares anuais e com bastante frequência se esgotavam, o que exigia duas ou três edições ao ano.” (COSTA, 2009, p. 133).

prisma, o que afetaria, sobretudo, por ser um processo exclusivamente romanesco, o julgamento da produção anterior dentro desse mesmo gênero.”

86 A esses nomes podem ser acrescentados outros como: Miguel Ángel Asturias e José Donoso, além de

“Juan Rulfo, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, Alejo Carpentier e Guillermo Cabrera Infante [que] ganharam projeção internacional em seguida.” (COSTA, 2009, p. 132).

54 Para se ter uma ideia de tal mudança, é preciso destacar que somente em seis anos (de 1962 a 1968) foram publicados os livros Rayuela, Cien años de soledad, Sobre héroes y tumbas, La ciudad y los perros, entre outros. Foram obras que, além de significarem uma radical tentativa de experimentação, apresentavam características bastante peculiares no que dizia respeito a forma, estrutura e linguagem, e ultrapassavam o tradicional realismo (fórmula bastante presente na narrativa latino- americana até então).

O boom teria funcionado como uma espécie de ímã que atraiu a atenção sobre alguns autores novos e sobre seus mestres e antecessores, criando desse modo um mapa estratégico que permitia a leitura e a compreensão da literatura latino-americana, especialmente do gênero romance.

Para muitos, o que motivou o boom, a nível (sic) comercial, além da qualidade literária das obras, foi o impulso das editoras (sobretudo europeias) e a irrupção da Revolução Cubana, que motivou inúmeros leitores, pelo mundo afora, a conhecer a literatura, a cultura e a história latino-americanas. (COSTA, 2009, p. 134).

Para muitos escritores, o boom não foi apenas um fenômeno com caráter mercantilista, e sim a oportunidade de apoiar decididamente as revoluções e os projetos socialistas na América Latina. “Nesse período, foram produzidos vários livros de alto valor literário que ganharam projeção internacional.” (COSTA, 2009, p. 132).

Nesse contexto, a criação da Casa de las Américas e da Prensa Latina, os discursos de Fidel Castro e Che Guevara, os encontros realizados em Cuba e as “cartas abertas” entre os “agentes” da Revolução e os intelectuais latino-americanos foram uma tentativa do governo revolucionário, com suas instituições e atividades político- culturais, de moldar a “capacidade de ação e de decisão dos intelectuais latino- americanos de esquerda.” (COSTA, 2009, p. 22), como ela explica:

Tudo isso possibilitou a formação de um espaço comum Ŕ o qual podemos chamar de rede Ŕ de intervenção intelectual em revistas, jornais, conselhos editoriais, editoras, reuniões, encontros, conferências e correspondências que, por sua vez, promoveu a formação de uma rede de sociabilidade e solidariedade intelectual que foi fundamental para alimentar o debate sobre revolução e socialismo, e oportunizar o boom da literatura latino-americana nos anos sessenta. (COSTA, 2009, p. 22).

55 A Revolução Cubana teria sido um “acontecimento fundador” (COSTA, 2009, p. 25) para o surgimento de uma geração intelectual fundamentalmente política, da qual faziam parte autores como Gabriel García Márquez, Vargas Llosa e Julio Cortázar.

A identificação do autor colombiano com a Revolução, assim como sua postura crítica em relação a esse evento e seus desdobramentos, já foi mencionada no início deste capítulo. Vale ressaltar que, para além do caráter positivo ou negativo do regime socialista, García Márquez fez uma opção por defender o que para ele detinha a natureza de uma verdade: a de que “a solidão será sempre o contrário da solidariedade.” (SALDÍVAR, 2000, p. 344). E que era preciso tomar uma atitude, fazer determinadas escolhas para coibir as arbitrariedades dos poderosos.

Curiosamente essa postura é mais evidente na arquitetura de suas narrativas que propriamente em sua vida social. Ainda que o autor se tenha movido em várias esferas do poder e a despeito de ter colaborado (como dito anteriormente) como uma espécie de negociador político em questões melindrosas, sempre preferiu agir nos bastidores, fazendo de sua literatura um elaborado meio de expressão de ideias que compartilhava com amigos mais próximos.

Desse modo a Revolução Cubana se configurou como “uma instância identificadora de máxima autoridade para um amplo e diverso segmento da esquerda socialista” (COSTA, 2009, p. 43), composto por socialistas, comunistas ortodoxos, marxistas independentes, teólogos revolucionários, nacionalistas e anti-imperialistas de vários matizes.

Muitos intelectuais latino-americanos, nos anos 60, acreditavam que o socialismo era a única possibilidade de suprimir as diversas formas de dependência que vinculavam a América Latina aos países centrais do Norte capitalista, principalmente aos Estados Unidos. Nesse caso, Cuba revolucionária, ao resistir a todas as pressões dos Estados Unidos, passou a representar idealmente toda a América Latina e adquiria um prestígio enorme e duradouro perante as esquerdas. (COSTA, 2009, p. 43).

É preciso considerar que neste trabalho destaco algumas questões que julgo pertinentes para a compreensão do cenário de surgimento das obras de García Márquez. Acredito que a Revolução Cubana tenha efetivamente sido um dos paradigmas para uma discussão a respeito das configurações sociais, culturais, econômicas e políticas que naquele período ressoaram como sendo as mais adequadas para a América Latina, aos ouvidos do jovem escritor colombiano. Para além de identificações e críticas ao regime

56 (com ou sem razão), o que remanesceu foi a tentativa de questionar as estruturas consolidadas do capitalismo e também vislumbrar novas possibilidades para o continente latino-americano.

Em seu estudo, Adriana Costa afirma que tanto García Márquez quanto Cortázar e Vargas Llosa teriam articulado e defendido não apenas uma literatura latino- americana, mas também uma política, uma cultura e uma revolução (real ou imaginária) latino-americanas. Além disso, os três escritores teriam promovido, por meio de contos, romances, ensaios, correspondências, debates e polêmicas, “a construção de uma representação cultural e política, com o intuito de valorizar e legitimar o que eles concebiam como América Latina.” (COSTA, 2009, p. 394).

É por esse viés que analiso a obra Cien años de soledad, ou seja, por um prisma que não só reúne as condições ideais para o questionamento do status quo, como se vale de mecanismos que contemplam o que há de mais regional e também de mais inovador e moderno no contexto literário da Colômbia de meados do século XX.

Benzer Belgeler