A revisão bibliográfica relativa à abordagem do saneamento pelos meios técnico e acadêmico, pelo poder público e pela mídia permitiu a verificação da diversidade de definições e conceitos existentes. A tendência de, no Brasil, se considerar como integrantes do saneamento as cinco áreas mencionadas é fato que pode ser constatada ao se analisar as definições constantes na atual Lei 11.445/07, na Política de Saneamento de Belo Horizonte, na Constituição do Estado da Bahia e em quatro das publicações do Manual de Saneamento da FSESP/FUNASA. As citações apresentadas referentes ao conceito de saneamento possibilitam a observação de diferentes formas existentes de explaná-lo, e acredita-se que há muitas outras, com características semelhantes e diferentes.
O caráter abrangente da definição atribuída à OMS, em função da menção a “todos os fatores do meio físico do homem”, é compartilhado por outras definições que foram apresentadas (EHLERS, 1961; SALVATO, 1958; SIQUEIRA, 1959; OPAZO e CORDERO, 1969). Em contrapartida, há citações nas quais saneamento é conceituado relacionando-o unicamente a esgoto (MONTSORÍU, 1995; WHO, 2005).
Destaca-se também, como aspecto que distingue algumas definições, de um lado, a apresentação de forma mais genérica (SANEAMENTO, 1987; HOPKINS, 1939; ART, 2001), e de outro o detalhamento das ações atribuídas ao saneamento (EHLERS, 1961; SALVATO, 1958; SIQUEIRA, 1959; DACACH, 1981). Há a inclusão de outras áreas ao escopo do saneamento, além daquelas tradicionalmente adotadas no Brasil, sendo assinaladas medidas relativas ao cuidado com a qualidade do ar, a habitação, o ambiente onde vive a população, o solo, os alimentos e o corpo.
Outra característica que pode ser observada é a abordagem, na maioria dos casos, exclusivamente voltada a ações técnicas, e em outros casos, menções à formação de profissionais da área (SALVATO, 1958) e à educação dos indivíduos como ações intrínsecas ao saneamento (SIQUEIRA, 1959).
É interessante ressaltar que na definição do Manual da FUNASA (1999; 2004; 2006) e de Siqueira (1959) há a citação dos locais de residência, rural e urbano; e que na definição apresentada na Enciclopédia Barsa (SANEAMENTO, 1987) cita-se a quem compete o saneamento.
Expostas algumas diferenças, cabe salientar a principal semelhança. Nota-se que, à exceção das citações de Montsoríu (1995) e WHO (2005), todas as demais definições apresentadas fazem alusão explícita à finalidade de proteger e/ou promover a saúde e prevenir doenças. A relação de citações apresentadas e suas distinções permitem constatar a ausência de consenso e a variedade de abordagens, com distinta abrangência, adotadas ao longo dos anos, por autores brasileiros e estrangeiros.
A desuniformidade nas formas de se referir aos serviços de saneamento é identificada quando analisadas as fontes de dados oficiais no Brasil sobre o tema – Censo Demográfico, PNAD, PNSB e SNIS. A não inclusão das cinco ações integrantes do saneamento nestas pesquisas também é percebida. Tendo em vista a relevância dos dados oriundos destas pesquisas para orientar ações, planejamentos e formulações de políticas públicas, assume-se que, apesar das diferenças de foco, seria viável buscar uma padronização da forma de se referir às citadas ações facilitando o entendimento dos dados divulgados e o diálogo com (e entre) os vários setores da sociedade.
Observa-se que, embora no Brasil sejam realizados levantamentos referentes à situação sanitária e exista um sistema de informações relativo ao tema bastante amplo, há que se considerar a prevalência de informações que valorizam a dimensão quantitativa dos indicadores. Destaca-se a necessidade de não só quantificar a população que tem ou não acesso aos serviços, como também identificar informações sobre a qualidade desse acesso, isto é, buscar indicadores que qualifiquem como o serviço é recebido pela população. Como exemplo pode-se citar a avaliação da cobertura por rede coletiva de abastecimento de água sem se levar em consideração, por exemplo, fatores como a intermitência no fornecimento de água, a qual resulta em danos à saúde pública.
Verifica-se a deficitária abordagem do saneamento rural, tanto nas legislações como nas definições apresentadas. Algo que chama a atenção é a utilização do adjetivo “urbano” na denominação de serviços considerados como constituintes do saneamento na legislação vigente no Brasil, podendo caracterizar até a não existência, ou a falta de necessidade, destes serviços em áreas rurais. No caso da drenagem de águas pluviais é aceitável a maior ênfase para áreas urbanas, em função do elevado índice de impermeabilização do solo e suas conseqüências, embora não se possa descartar sua necessidade em áreas rurais. No entanto, com relação ao serviço de limpeza e manejo de resíduos sólidos, não é possível desconsiderar a necessidade de cobertura em áreas rurais. Nesta perspectiva, é importante chamar a atenção
107 para a polêmica existente no tocante à definição do que vem a ser urbano e rural, tema em constante debate por pesquisadores (CAIADO e SANTOS, 2003; MONTE-MÓR, 2006; REIS, 2006).
A vulnerabilidade a que estão sujeitas algumas das pesquisas sobre saneamento no Brasil e a carência por indicadores que qualifiquem a prestação como é recebida e percebida pela população, em especial a população rural, destacam a importância de se rever procedimentos metodológicos de forma a viabilizar a aquisição de mais e melhores informações e sua divulgação com maior fidedignidade.
Outro obstáculo que pode ser identificado como empecilho para a adequada divulgação de informações sobre saneamento, nos âmbitos nacional e internacional, é o diálogo, relativamente equivocado, sobre o tema entre profissionais do Brasil e de outros países. Identifica-se que a tendência de se adotar as cinco áreas mencionadas como integrantes do saneamento não é compartilhada, ao menos em publicações recentes, por investigadores e instituições internacionais. A apresentação de exemplos deixa claro que a adoção dos termos “sanitation” e “saneamiento” tem sido no sentido de esgotamento sanitário, conforme o conceito técnico brasileiro. Portanto, observa-se um conflito ao se tratar destes termos que vêm sendo traduzidos para o português como “saneamento” e interpretados com o respectivo conceito adotado no Brasil. Verifica-se que, até mesmo profissionais da área de engenharia sanitária estão equivocando-se no que se refere à comunicação com outros idiomas como é demonstrado pela divulgação pela ABES do Ano Internacional do “Saneamento” promovido pela ONU.
Cogita-se que a maior carência por serviços de esgotamento sanitário pode ser provável justificativa da consideração de saneamento como sinônimo destes serviços.
As deficiências de diálogo demonstradas pelas conflituosas abordagens do tema no Brasil, e, principalmente, nos idiomas inglês e espanhol, determinam a necessidade de debates a respeito para permitir que todos se expressem e se entendam mutuamente.
Informações fornecidas por indicadores que caracterizam algumas situações de acesso aos serviços de saneamento também são focos de destaque em função de sua fragilidade, o que vem gerando polêmica entre estudiosos e organismos (SATTERTHWAITE, 2003). Constata- se a necessidade de aprofundamento de discussões que viabilizem a qualificação e adequação das informações fornecidas por indicadores, de forma a retratar a realidade vivida pelas populações, suas efetivas necessidades e qual seria o atendimento desejável pelos serviços de
saneamento, cercando-se de cuidados com relação à obtenção de dados por metodologias diferenciadas e relativos a culturas distintas (HELLER, 2006a).
Ao se avaliar a situação sanitária no Brasil e as formas como o conceito é abordado, constata- se a existência de uma discrepância, tanto na teoria como na prática, com relação às perspectivas do saneamento urbano e rural.
As considerações sobre a abordagem sistêmica do saneamento e a necessária interação com outras áreas do conhecimento, levam à reflexão acerca de como deveria ser a acepção de saneamento: de caráter mais abrangente ou mais restritivo.