Obedecendo aquele movimento pendular que caracterizou a Idade Média, do qual já falamos, foi no século XII que a Europa conheceu, simultaneamente, um grande impulso de exaltação à Virgem bem como uma fase de crescimento e prosperidade.
Entre os séculos XI e XIII, foi que se apresentou plenamente formado aquilo que tem caracterizado a Idade Média, quase que como seu sinônimo, o Feudalismo. Ele teria nascido no século X e atingido sua fase áurea entre os séculos XI e XIII.
Nesse período, a sociedade ocidental foi palco de um forte crescimento populacional e, por conseqüência, também de uma importante expansão territorial, cuja expressão mais conhecida foram as Cruzadas. Em função desses fenômenos de incremento populacional e de expansão territorial, ocorreu um rearranjo dessa sociedade que passava a ser mais e mais diversificada tanto econômica quanto socialmente.
Esse quadro de importantes alterações também pode ser observado no plano cultural, acarretando mudanças no plano dos comportamentos, das sensibilidades e das crenças. Nesse aspecto, pode-se dizer que ocorre um duplo movimento: as estruturas culturais da sociedade medieval são ao mesmo tempo determinadas e determinantes do processo histórico em curso.
Na Idade Média, não há dúvidas quanto ao fato de Maria ser realmente especial porque ninguém duvida de sua divindade. Desde os começos da era medieval que sua natureza divina já é celebrada. Nos concílios de Éfeso de 431 e da Calcedônia, de 451, já estava dada a idéia de que Ela era a Mãe de Deus.
Foi nessa complexa conjuntura de transformações que emerge o culto mariano, com uma força até então desconhecida. O século XII é também o século de Maria. Ela é, ao mesmo tempo, miraculosamente mãe, filha e esposa, e sobre sua imagem se projeta a nostalgia da mãe. Ela era a possibilidade de diálogo com o feminino ao alcance desses jovens celibatários os quais em geral, eram afastados de suas mães biológicas bem cedo. Além disso, para Duby, “Maria é um símbolo,
um signo abstrato, uma das metáforas da Igreja”.74
A história do culto a essa mulher se confunde com a história da Igreja. Esta, como aquela, se apresenta de forma multifacetada, num mesmo movimento elas se espacializam como patronas de inumeráveis lugares de culto. Se os séculos XI e XII, se constituem em uma época de intenso fervor marial, é, sobretudo, por ser uma época de profunda reflexão eucarística.
A história do culto dessa personagem é, antes, a história do esquadrinhamento de suas funções que foi feito das interações entre os ideais religiosos e seculares ou, ainda, entre o presente medieval e o passado clássico, enfim, entre as posições masculinas e femininas no seio das sociedades consideradas. La Vierge représente ainsi un “système de valeurs”.75
Poderíamos dizer, ainda, que no estudo da história do culto mariano, é possível observar a constituição de um sistema de gênero que visa a ordenar e classificar a sociedade, atribuindo papéis para homens e mulheres, leigos e religiosos, ricos e pobres, etc. De qualquer forma, assiste-se a montagem de um sistema de poder, ora com a hegemonia do poder clerical, ora com a do poder laico.
O começo do século XIII marca a idade de ouro das aparições marianas. As aparições da Virgem faziam da terra um espelho do céu. “En las visiones se había
visto la Reina del cielo poner algo de eternidad en el presente y algo del orden divino en el seno del desorden humano”.76 A nova pastoral, que se inicia a partir do IV
Concílio de Latrão (1215), teve por objetivo eliminar as heresias, fortalecer a fé e fazer prevalecer a unidade da Igreja em todas as partes. Assim, os relatos de visões da Virgem se prestam para essa urgente tarefa. A Igreja quer alcançar a todos os crentes, clérigos e leigos e, em particular, as mulheres.
Contudo, esse amor marial não significa, de imediato, uma forma de elogio às mulheres em geral. É preciso ter cuidado em não estender imediatamente às descendentes de Eva, os frutos desse ardor destinado à Maria, pois as demais
74
Sobre o culto à Virgem Maria e suas múltiplas relações com a sociedade medieval consultar entre outros: IOGNA-PRAT, Dominique; PALAZZO; Eric; RUSSO, Daniel. (Org.). Marie. Le culte de la Vierge dans la société médiévale. Paris: Beauchesne, 1996. Esse livro é resultado de uma atividade acadêmica do Centre d’Études Médiévales d’Auxerre, prefaciado por Georges Duby. 75
Ibid., p. 5. 76
BARNAY, Sylvie. El cielo en la tierra. La apariciones de la Virgen enla Edad Media. Madrid: Ediciones Encuentro, 1999, p. 72-145.
dessa espécie continuam sendo filhas de Eva, a pecadora. Maria é “Única, sem exemplo, virgem e mãe Maria”.77
Adorar Maria, sim, mas sem que isso se dilua ou se faça esquecer da responsabilidade que recaiu sobre a primeira mulher, e por castigo também sobre suas herdeiras. Essa diferença entre Eva e Ave é apresentada numa Cantiga de louvor à Virgem, em que o trovador marca enfaticamente as características de uma e outra:
Entre Av’ e Eva gran departiment’á.
Ca Eva nos toleu o Parays’ e Deus, Ave nos y meteu; porend amigos meus:
Entre Av’ e Eva [...] Eva nos foi deitar do dem’ en as prijon,
e Ave en sacar; e por esta razon: Entre Av’ e Eva [...] Eva nos fez perder amor de Deus e bem,
e pois Ave aver no-lo fez; e poren: Entre Av’ e Eva [...]
Eva nos enserrou os çeos sem chave,
e Maria britou as portas per Ave. Entre Av’ e Eva [...].78
Pela falta de discernimento de Eva encontra-se a razão de termos perdido as chaves do paraíso; porém, Maria surgiu para nos reenviar ao encontro do Pai. Ela, assim como a Igreja, cumpre um papel de mediadora entre a humanidade pecadora como Eva, e a salvação.
77
Cf. DALARUN, apud DUBY; PERROT, 1993, p. 40. 78
Além disso, pode-se interpretar que a Virgem é apresentada para toda a cristandade como modelo, na medida em que se mantém casta. Só a castidade a tornou diferente das demais. Acreditava-se que as mulheres, e provavelmente, inclusive Maria, são seres naturais governados pelos seus órgãos, sobretudo pelo útero. Ela também é corpo, um corpo especial, sagrado, por ter viabilizado o nascimento do Messias, pois só um corpo casto poderia conter a vida daquele que veio para salvar toda a humanidade. Na concepção dos Padres, o Deus feito homem só poderia ser concebido num corpo imaculado.
Ela foi celebrada, por isto, pelos séculos afora. Esse elogio à virgindade de Maria foi muito celebrado tanto entre aqueles senhores da Igreja como entre aqueles da sociedade laica. Podemos observar a importância da castidade de Maria na seguinte Cantiga:
Tod’ aqueste mund’ a loar deveria A virgiidade de Santa Maria. Ca ela foi virgem ena voontade, e foi-o na carne com tan gran bondade,
por que Deus do ceo com as deidade en ela pres carne que el non avia, Tod’ aqueste mund’ a loar deveria [...] Ond’ ela foi prenne. Mas como x’ant’ era
ficou virgen, que foi maravilha fera; ca tant’ ouve door com[o] ant’ ouvera
que ouvesse fillo. Queno cuidara Tod’ aqueste mund’ a loar deveria [...].
Contudo, a Virgem permanece presa ao corpo, útero ou matriz. Da mesma forma que as mulheres comuns, sua principal e maravilhosa característica é procriar. Maria é como um vaso que contém o Divino: “Los clérigos escribieron de ella como
de un -receptáculo milagroso-, comparando su cuerpo al sagrario que se guarda tras el altar y que contiene la hostia, ambos receptáculos de Jesu Cristo”. Não deve ter
sido muito fácil empreender essa classificação do feminino e criar uma mulher à imagem e semelhança deles.
Maria, aquela que será para sempre adorada, é também governada pelas suas fraquezas, pois ela é o símbolo da bondade e da meiguice, características dos fracos:
Así María vivió, prudente, humilde, imflamada com la caridad del alma, cordial com todos, resplandecente de todas las virtudes. Jamás oído humano laoyó hablar de modo improprio, nadie supo que hubiera ofendido de ningún modo [...] noble ejenplar de la rectitud universal.
A fragilidade de esse ser constitui-se na sua força. Ela parece afirmar uma verdade bíblica: que é dos humildes o reino dos céus e, dessa forma, sendo por eles celebrada.
De qualquer modo, Maria é sempre apresentada como uma mãe de família atenta às necessidades dos seus, poderíamos arriscar dizer que, nesse período é fartamente representado do amor materno, um sentimento muito antigo.
Essa personagem sofreu ao longo de sua história algumas transformações, sendo constantemente ressignificada. Na bíblia, encontram-se rápidas menções a Ela. De qualquer forma, já é apresentada como, primeiramente, virgem e cheia de graça.79 Para María Isabel Pérez De Tudela y Velasco, desde os primeiros tempos do cristianismo Maria é caracterizada como alguém repleto de qualidades que foi sofrendo alterações, mas sempre sendo adaptada às necessidades das relações sociais em jogo:
La Virgen de los Evangelios, La madre de Jesús, “llena de gracia” y “bendita entre las mujeres” se reviste, ya en los primeros tiempos del cristianismo, de todo género de excelsitudes y magnificencias físicas y psíquicas, al par que se le asignan nuenos y80 relevantes papeles dentro del complejo engranaje de las relaciones entre los hombres y la divindad.
É necessário dizer que entre as muitas formas que assumiu, ao longo de sua história, o que nos chama a atenção em Maria é a sua maternidade virginal. Nessa economia da salvação, recordemos que a possibilidade de perdão dos pecados da humanidade caída se encontrava numa vida de preferência absolutamente celibatária, na castidade encontrava-se a forma mais evoluída de exercício da fé.
79
BÍBLIA. Lucas, 1,28. Português. 2002. 80
PÉREZ DE TUDELA Y VELASCO, María Isabel. María en el vértice de la Edad Media. Las mujeres e el cristianismo medieval. Madrid, 1989, p. 59-69.