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O campo dos media é hoje para muitos indivíduos o principal meio para acederem à informação, ao saber e à cultura, tornando de certa forma menos atractivos os saberes veiculados pela escola. Contrariamente à tradicional legitimidade do campo educativo, predominantemente simbólico, a natureza da legitimidade do campo dos media assenta na legibilidade fragmentada da experiência social e na elaboração, gestão e transparência da sua reconstrução. Referindo-se à heterogeneidade do campo dos media e aos constrangimentos económicos e políticos que lhe são impostos, Pierre Bourdieu (2005:41) reconhece a influência cada vez maior dos meios de comunicação social sobre os restantes campos sociais, em especial na produção dos bens culturais. Também o monopólio televisivo está a

ser acompanhado e até mesmo posto à prova pelos novos media electrónicos, que têm vindo a subverter o tradicional sistema de transmissão dos saberes disciplinares que antes decorria de uma relação unilateral (Grillo, 2001: 149) e semi-privada entre docente e discente.

Na procura de matérias noticiáveis, que se prestem a ser criadoras de audiências e produtos vendáveis junto do público, os media, regidos pelo princípio de mediação e validação dos diferentes campos sociais, passaram a integrar com alguma regularidade na sua agenda, a partir dos anos 80, o tema da educação, que beneficiou assim de invulgar visibilidade no espaço público. Semelhante relevo, com foco em matérias como a violência escolar, originou debates públicos e políticos e críticas à acção dos media, não por «desocultarem» (Stoer, 2001) os fenómenos sociais, tornando-os públicos, mas por contribuírem para a sua ampliação, com base num sensacionalismo desproporcionado em torno da violência, que parece fragilizar a instituição escolar. Os media são acusados de se interessarem quase exclusivamente pela vertente dos incidentes mais graves, silenciando os projectos estruturantes positivos, desenvolvidos na Escola, e o que testemunha o espírito de inovação e criatividade dos professores (Darmame, 2001:86).

As modalidades estratégicas destes dois campos – educação e media – resultam ora numa relação de «cooperação» e «sedução», ora numa relação de «desconfiança» e «conflito», entre os actores da instituição escolar e da instituição jornalística, ligação esta que não tem sido pacífica ao longo dos últimos anos, como se verá em algumas reflexões de especialistas em educação. Recordamos que este facto se deve, em grande parte, ao enfoque mediático na «quebra da ordem escolar» ou «clima escolar», sugestivos de uma espécie de «crise» de valores que parece desprestigiar e enfraquecer o papel social da escola (Payet, 2001:154). Concomitantemente, a divulgação jornalística, centrada nas tensões escolares, contribui voluntária ou involuntariamente para desmistificar o ideal educativo da escola tradicional que incarnava o mito de valores sociais hegemónicos, distintos da actual diversidade cultural dos sujeitos.

Pretendemos, pois, apurar na literatura mais recente como é que os dois campos disciplinares – educação e media – numa envolvente social e política instável, têm vindo a construir um novo percurso conjunto de “educação para os media”. Embora embrionário, o projecto pretende mobilizar esforços de todos para vencer rivalidades e protagonismos que estão subjacentes à sua orgânica específica e à sua função social, política e cultural. Os media podem assim constituir plataformas de esclarecimentos dos problemas, promover a

cidadania, observando o respeito por cada membro do público (Esteves, 2003:61) e dos membros que constituem o espaço semi-público da escola. Veremos como é que professores, jornalistas e académicos encaram tais relações e a construção social da Escola Pública e dos seus actores.

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Estrutura da pesquisaEstrutura da pesquisa

A presente investigação está dividida em três partes: a primeira parte intitula-se A

violência escolar como matéria noticiável; a segunda, Quadros histórico e metodológico do estudo de caso e a terceira Estudo de caso: A violência escolar na imprensa diária portuguesa (1998-2002).

Os capítulos que integram a Primeira Parte do estudo descrevem o quadro teórico eleito para a pesquisa, com definição das noções do que se entende por agressividade, violência, violência escolar e construção jornalística da violência escolar. Procede-se à revisão da literatura, nacional e internacional, para aceder à progressiva constituição do campo teórico-científico, de referência transnacional, sobre a representação jornalística da violência escolar.

O Capítulo I encerra a revisão da literatura “Em torno do conceito de violência humana” e apresenta os pressupostos teóricos e modelos explicativos, fazendo referência às acepções, valor etimológico e formas de nomear e definir o fenómeno na sua relação com a agressividade e o conflito. Este capítulo finaliza com a menção à delinquência juvenil e ao sentimento de insegurança, no tecido social, e suas repercussões no espaço escolar.

No Capítulo II, intitulado “As violências na geografia escolar”, é realizada a revisão da bibliografia sobre a emergência e construção social da noção de “violência na escola”, descrevendo-se as várias formas de nomear e definir esta modalidade de violência, dando conta da investigação internacional sobre o fenómeno, evidenciando os modelos mais recorrentes e respectivos campos de análise. É feita a descrição dos recentes recursos para a sua quantificação, designadamente através da aplicação de inquéritos de vitimização, numa sociedade global, com uma escola de massas em que actuam factores predicadores de comportamentos percebidos como violentos. São apreciadas as variáveis exógenas e endógenas, com ênfase na delinquência juvenil e na componente étnica em conexão com a

violência. O capítulo termina evidenciando algumas medidas preventivas de natureza pedagógica e de vigilância no combate e resolução dos conflitos internos à escola.

No Capítulo III, aprecia-se como se realiza a “Noticiabilidade da violência escolar” e é referida a pesquisa sobre as representações sociais do fenómeno com cobertura jornalística. Seguem-se as estratégias enunciativas para a construção jornalística das violências escolares, na constituição da agenda temática, descreve-se a identidade dos jornais e a gestão das fontes de informação, dando conta da pesquisa sobre a cobertura jornalística do fenómeno na imprensa.

Conclui-se a Primeira Parte com algumas questões pertinentes para a Segunda Parte do estudo, que compreende os “Quadros histórico e metodológico do estudo de caso”.

No Capítulo IV, são delineados os “Percursos da investigação sobre violência escolar em Portugal”, e respectiva contextualização histórica, com caracterização social e política do período em análise, marcado por um alargado debate sobre as mudanças na composição social dos alunos e consequente regulamentação disciplinar. São traçadas as diferentes linhas condutoras da investigação em Portugal, com foco no fenómeno, e revisitados os estudos sobre a noticiabilidade da violência escolar na imprensa portuguesa. Conclui-se com a definição de linhas de questionamento para orientação da pesquisa empírica e estudo de caso, a desenvolver na Terceira Parte da presente investigação.

No Capítulo V, descrevem-se as “Orientações metodológicas” para o estudo de caso, são avançadas as perguntas da investigação, os procedimentos de selecção dos jornais e perfil dos títulos seleccionados, os critérios de recolha da informação e constituição do

corpus do período abrangido para a pesquisa. Neste capítulo, são também apresentadas as

categorias temáticas, com pertinência para a pesquisa quantitativa pelo recurso à Análise de

Conteúdo dos textos jornalísticos. Para o estudo da linguagem, das estruturas textuais e

discursivas, funções e processamento dos textos dos jornais seleccionados, no âmbito da violência escolar na imprensa portuguesa, são expostos os pressupostos teóricos da pesquisa transdisciplinar de Análise Crítica do Discurso (ACD). É proposto um subcorpus de textos e imagens para a análise qualitativa de categorias temáticas como a representação dos actores sociais, eventos, tempo, lugar, estilos e identidades com que se encerra a Segunda Parte.

Na Terceira Parte, intitulada “Violência Escolar na Imprensa Diária Portuguesa (1998-2002) ”, são apresentados os resultados do “estudo de caso”. No Capítulo VI, são apreciados e discutidos os resultados da “Análise longitudinal da violência escolar na

imprensa diária”, em articulação com a Análise Crítica do Discurso. O enfoque recai em (in)variáveis consideradas relevantes para a definição do padrão de noticiabilidade dos quatro diários em análise, ao longo de cinco anos (1998 a 2002). São identificados os tópicos com destaque em primeira página (na forma de chamada ou manchete), os temas principais e secundários em agenda, o género e autoria das peças jornalísticas, a presença e nomeação das pessoas em texto e imagem, o contexto nacional e o alargamento internacional. São reconhecidos os padrões dominantes na cobertura jornalística das violências escolares e identificadas as fontes de informação intervenientes para aferir linhas de pensamento, ideologias e paradigmas emergentes para uma análise mais fina no capítulo seguinte.

No Capítulo VII, são apreendidas as “Marcas da representação jornalística da violência escolar”, reconhecidas as designações e metáforas evidenciadas nos discursos dos diferentes actores, associados ao universo de referência da Escola. São igualmente identificados os discursos de outras entidades e pessoas singulares que conferem formas de nomeação e legitimam a sua presença, em texto e imagem, na cobertura jornalística da violência escolar. Aprecia-se o debate social e político que emerge da cobertura jornalística do fenómeno com expressividade nas escolas portuguesas e lá fora, além da polémica em torno dos números e da medição oficial e policial das ocorrências com visibilidade nas páginas dos jornais. Por fim, são apresentadas considerações e conclusões finais a partir da investigação e do estudo de caso.