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KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR

2.2. PROBLEM ÇÖZME BECERİSİ

2.2.4 Problem Çözme Aşamaları

A aprovação da Carta Magna de 1988 – a chamada “Constituição Cidadã” – sintetizou as contradições do processo de redemocratização da sociedade brasileira. Diversos projetos econômicos, políticos e sociais estavam em disputa, buscando ora a manutenção de privilégios, ora a obtenção de novas conquistas, “no momento delicado em que estavam sendo delineados os marcos institucionais de uma sociedade em transição de um regime ditatorial para um regime de normalidade democrática” (NEVES, 2005, p. 99).

Nas questões educacionais, o processo constituinte foi palco do embate entre dois blocos com interesses opostos. De um lado, as forças progressistas, comprometidas com a construção de uma escola pública, gratuita e de qualidade para todos, organizadas em torno do Fórum Nacional da Educação na Constituinte em Defesa do Ensino Público e Gratuito (Fórum) e representadas sobretudo por parlamentares do PMDB e do PT. De outro, o bloco majoritário dos deputados e senadores conservadores, autodenominados de “centrão”, defen- sores das posições privatistas em educação. Segundo Neves (2005, p. 99), o resultado desse embate, “como não poderia deixar de ser no quadro de uma transição nitidamente conciliado- ra, foi simultaneamente conservação e mudança”.

Um aspecto inovador pode ser encontrado logo no Art. 6° da Carta Magna, no qual a educação é considerada direito social, da mesma forma que a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos

desamparados (BRASIL, 1988). Assim, “A educação, passando a se configurar como uma política social do Estado, consubstanciou-se em direito social, em direito de cidadania, de pertencimento a uma ordem jurídico-política democrática” (NEVES, 2005, p. 101-102).

O Art. 205 estabelece que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno de- senvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988). Para Oliveira (2007a, p. 23), “Este artigo reafirma a precedência do Estado no dever de educar”. Já Cunha (2001) observa que, com a menção ao dever da fa- mília e à colaboração da sociedade, aliada ao princípio de “pluralismo de idéias e de concep- ções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino” (BRASIL, 1988, Art. 206, III), o bloco do “centrão” conseguiu atenuar o dever do Estado para com a educação.

Tal dever foi detalhado no Art. 208, determinando que ao Estado cabe garantir: ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria; atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferen- cialmente na rede regular de ensino; atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade; oferta de ensino noturno regular, adequado às condições de cada um; aten- dimento ao educando, no ensino fundamental, através de programas suplementares de materi- al didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. Proclama-se, ainda, a pro- gressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio (BRASIL, 1988).

Este artigo registra diversos avanços relativos à efetivação do direito à educa- ção, ao garantir, por exemplo, o atendimento no ensino fundamental inclusive àqueles que não se encontram na idade considerada “ideal” para ingresso. Também ao reconhecer o dever do Estado para com o ensino noturno, que garante ao jovem e adulto trabalhador a possibilidade de freqüentar o ensino regular; ao priorizar o atendimento dos educandos com necessidades educativas especiais na rede regular de ensino; e ao incorporar os programas suplementares (material, transporte, alimentação etc.) “ao rol de deveres do Estado relativos à garantia do direito à educação, pois, de fato, para parcelas significativas do alunado tais serviços são pré- requisito para a freqüência à escola” (OLIVEIRA, 2007a, p. 27).

Além disso, com a garantia de atendimento às crianças de zero a seis anos de idade em creches e pré-escolas, ampliando-se o direito à educação para essa faixa etária,

abre-se a possibilidade de considerá-la parte do conceito de educação “básica”. Com isto, incorpora-se esta etapa da educação básica ao sistema regular, o que exige re- gulamentação e normatização no âmbito da legislação educacional complementar. Isso não ocorria na vigência da Constituição anterior [1967], pois esta etapa era “li- vre”, não sujeita à normatização educacional. Outra conseqüência é a mudança na concepção de creches e pré-escolas, passando-se a entendê-las cada vez mais como instituições educativas e menos de assistência social (OLIVEIRA, 2007a, p. 26).

Outro avanço do Art. 208 está no fato de declarar o acesso ao ensino obrigató- rio e gratuito como “direito público subjetivo” (BRASIL, 1988, Art. 208, §1°), imputando sanções jurídicas às autoridades competentes que não o cumprirem.

Com relação aos princípios que devem servir de base para o ensino, indicados no Art. 206, a Constituição inova ao assegurar a “gratuidade do ensino público em estabele- cimentos oficiais” (BRASIL, 1988, Art. 206, IV). Com isso, ampliou a gratuidade para todos os níveis (creches e pré-escolas, ensino fundamental, médio e superior).

Outro princípio consagrado pela Constituição é o da “gestão democrática do ensino público” (BRASIL, 1988, Art. 206, VI), o qual estava ligado às aspirações dos setores progressistas por um maior controle do Estado pela sociedade civil, num momento em que se deixava o regime autoritário e se voltava à normalidade democrática. Alinhado a essas aspira- ções, o Fórum defendia que “formar cidadãos para uma sociedade participativa e igualitária pressuporia vivências democráticas no cotidiano escolar, traduzidas na presença de mecanis- mos participativos de gestão na própria escola e nos sistema de ensino” (ADRIÃO; CAMARGO, 2007, p. 66). Na Constituição, essa tese saiu parcialmente vencedora, uma vez que se limitou ao setor público. Cunha (2001, p. 447) afirma que a emenda do “centrão” con- seguiu resguardar as escolas privadas de princípios como o da gestão democrática e o da valo- rização do magistério em termos trabalhistas (planos de carreira, piso salarial, ingresso exclu- sivamente por concurso público de provas e títulos), o qual também ficou restrito ao ensino público.

Vitória e derrota das propostas do Fórum também podem ser encontradas no Art. 210. Vitória, ao determinar que “Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino funda- mental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e ar- tísticos, nacionais e regionais” (BRASIL, 1988). Segundo Cunha (2001, p. 451), “esta deter- minação vai ao encontro da reivindicação dos educadores progressistas, que defendem uma base comum nacional para o ensino, referido ao patrimônio cultural dotado de valor univer-

sal”. Mas também derrota ao instituir o ensino religioso como disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, ainda que de matrícula facultativa (BRASIL, 1988, Art. 210, §1°). Com isso, o princípio do ensino laico, historicamente defendido pelos educadores progressistas, acabou sendo derrotado.

Com relação ao financiamento da educação, manteve-se no Art. 212 o avanço já conquistado em Constituições anteriores da vinculação de receita para a área, de forma a tornar a educação uma questão de Estado, e não apenas de governo (OLIVEIRA, 2007b, p. 93). Assim, ficou prevista a aplicação de, no mínimo, 18% da receita resultante de impostos por parte da União, e 25% por parte de Estados e municípios, na manutenção e desenvolvi- mento do ensino. Porém, a proposta do Fórum da destinação de recursos públicos exclusiva- mente para a escola pública saiu derrotada no Art. 213, com a possibilidade de repasse de recursos públicos para as escolas comunitárias, confessionais e filantrópicas.

Por último, a Constituição estabelece no Art. 214 a elaboração do Plano Nacio- nal de Educação, plurianual, “visando à articulação e ao desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis e à integração das ações do Poder Público” (BRASIL, 1988), que deverá bus- car os seguintes objetivos: erradicação do analfabetismo; universalização do atendimento escolar; melhoria da qualidade do ensino; formação para o trabalho; promoção humanística, científica e tecnológica do País.

Ficaram, assim, proclamados os princípios gerais sobre os quais a educação deve se organizar no país. Como foi observado, algumas teses do Fórum em favor da demo- cratização da educação acabaram derrotadas, mas conseguiu-se garantir a responsabilidade do Estado na efetivação desse direito.

O detalhamento das diretrizes e bases da educação nacional em lei complemen- tar permaneceu como competência privativa da União e sua discussão teve início logo após a aprovação do texto constitucional, com ampla mobilização da sociedade civil. No entanto, mudanças no cenário mundial teriam influência decisiva na agenda educacional da década de 1990, refletindo-se no espírito da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional apro- vada em 1996.