Durante muitas décadas os pesticidas organoclorados foram utilizados de forma indiscriminada na agricultura e no controle de pragas, entretanto, o uso destes compostos foi proibido devido à constatação de efeitos acumulativo e prejudicial.
Desde a década de 80 o uso de pesticidas organoclorados está proibido no Brasil, no entanto, em inúmeros casos, os resíduos destas espécies químicas têm sido encontrados nos solos, água, sedimentos, organismos terrestres e aquáticos, cuja origem está relacionada ao combate de pragas em diversas culturas agrícolas (SILVA; TONIAL, 2004a).
A entrada de pesticidas no ambiente aquático pode ocorrer de diversas formas, sendo que as fontes principais são provavelmente seu uso na agropecuária, esgoto industrial e municipal, controle de ervas aquáticas e de insetos, e ainda acidentes em depósitos ou durante o transporte de pesticidas ou por descarte inadequado de embalagens utilizadas (DORES; DE-LAMONICA-FREIRE, 1999).
Os compostos organoclorados são os que mais causam impactos no ambiente, uma vez que suas características químicas lhes conferem persistência no ambiente aquáticos por longo período de tempo, podendo levar à sua acumulação na cadeia alimentar em níveis que possam produzir efeitos nocivos principalmente aos organismos que ocupam o topo da cadeia, incluindo o homem. Pesquisas demonstraram que a bioconcentração de compostos lipofílicos, como é o caso dos organoclorados, é mais elevada em organismos que ocupam os níveis tróficos maiores (STEVENS et al., 2003).
Uma vez na água, os pesticidas organoclorados, dependendo de suas características químicas, podem tanto se ligar ao material particulado em suspensão quanto se depositar no sedimento ou ser absorvido por organismos, podendo então ser detoxicados ou acumulados (NIMMO, 1985).
O destino e a distribuição deste compostos na água irá depender de suas propriedades inertes, como estrutura molecular, estabilidade, concentração, solubilidade em água, polaridade, pressão de vapor, reatividade, polaridade e da natureza do ambiente no qual ele está presente, isto é, quantidade de matéria
orgânica, pH, temperatura, materiais em suspensão, etc. (PELAÈZ-RODRIGUES, 2001).
No presente trabalho, os pesticidas organoclorados analisados foram os mais utilizados em culturas de cana-de-açúcar para o combate aos insetos, ou seja, aldrin, heptacloro e endosulfan (BRONDI, 2000; CBH-Mogi, 1999), os quais têm o uso proibido no Brasil desde 1985 (Portaria 329/85, Ministério da agricultura), no entanto, ainda utilizados com freqüência em áreas agrícolas.
A análise destes compostos na água revelou a presença de aldrin, heptacloro e endosulfan em todos os pontos de amostragem, em pelo menos um período de estudo. De uma forma geral, as concentrações de aldrin e heptacloro ultrapassaram, em todos os pontos de coleta durante o estudo, os limites estabelecidos pela resolução CONAMA 357/05 para rios de classe dois. Já o endosulfan, apenas no ponto USP no período chuvoso a concentração esteve acima do CONAMA 357/05 (0,056 µg/L), com valores variando entre 0 e 0,113 µg/L. Vale lembrar, que entre os pesticidas organoclorados, o endosulfan é o único que ainda tem seu uso permitido no Brasil.
Os valores de heptacloro estiveram entre 0 e 0,0381 µg/L (Usina, julho/03), ou seja, chegando atingir cerca de 38,1 vezes acima do CONAMA 357/05 (0,01 µg/L). Na nascente, foi possível verificar concentrações cerca de 5 vezes acima do CONAMA 357/05 em janeiro/04 (0,148 µg/L) e 5 vezes acima do padrão de potabilidade estabelecido pela Portaria nº 1469/2001 (0,03 µg/L).
As concentrações de aldrin foram as mais elevadas encontradas em todo o sistema, sendo possível detectar cerca de 124,2 vezes acima do limite permitido pelo CONAMA 357/05 (0,005 µg/L), no ponto USP no período chuvoso. Em relação ao padrão de potabilidade, todos estiveram acima do limite estabelecido (0,03 µg/L), sendo que na Nascente, foi registrada uma concentração cerca de 5 vezes acima no período chuvoso.
Em relação ao endosulfan, foram registradas concentrações abaixo do padrão de potabilidade (20 µg/L), sendo que no período seco, o pesticida só foi detectado no ponto Cancã (0,015 µg/L) e na Nascente (abaixo do limite de detecção).
Os resultados obtidos permitem observar que os pesticidas organoclorados apresentaram uma variação espacial e temporal no sistema, podendo estar presentes em um determinado local no período seco e ausente neste mesmo local
no período chuvoso e vice-versa. Em geral, as concentrações de heptacloro nas amostras de água foram mais elevadas no período seco, enquanto que as concentrações de endosulfan foram mais elevadas no período chuvoso. Em relação ao aldrin, não foi possível determinar um padrão temporal.
Os organoclorados estão sujeitos à degradação e transformação no ambiente, cuja concentração varia muito dependendo do composto e das condições ambientais. As maiores concentrações de heptacloro no período seco podem estar relacionadas ao regime pluviométrico do período, no qual ocorre menor diluição dos poluentes. No entanto, as elevadas concentrações de endosulfan no período chuvoso, podem estar relacionadas ao uso destes compostos em maior quantidade nesta época, demonstrando que o mesmo possa ter chegado ao rio via escoamento superficial dos resíduos agrícolas, bem como pela ressuspensão dos sedimentos, os quais podem ter liberado o pesticida para a coluna d´água.
Pelaéz-Rodrigues (2001), avaliando a água e do sedimento da bacia do alto Jacaré-Guaçu, quantificou 16 tipos de pesticidas organoclorados e de policlorinados bifenis. Em relação aos ciclodienos avaliados no presente estudo, o autor encontrou cerca de 0,010 a 0,195 µg/L de aldrin; 0,049 a 1,036 µg/L de heptacloro e 0,014 a 0,028 µg/L de endosulfan, sendo que as concentrações de aldrin e heptacloro foram mais elevadas no período de estiagem e os valores de endosulfan maiores no período chuvoso, corroborando de certa forma com o presente trabalho.
É importante lembrar que a CL50 de aldrin para diferentes espécies de peixes
varia entre 0,013 e 0,089 µg/L (CALHEIROS, 1993), ou seja, as concentrações de aldrin detectadas no rio Monjolinho estiveram cerca de 7 vezes acima da concentração superior estabelecida, indicando potencial tóxico deste produto nos pontos onde foram detectados. As elevadas concentrações de aldrin e heptacloro podem estar relacionadas com o emprego das mesmas nas culturas de cana-de- açúcar e em áreas de reflorestamento que são predominantes em grande parte da bacia hidrográfica. Além disto, o uso do aldrin ainda é permitido em tratamento de sementes (fungicida).
As concentrações mais elevadas, em relação aos três compostos avaliados, foram encontradas nos pontos Usina e USP, ou seja, localizados dentro da área urbana de S. Carlos. Assim, os resultados obtidos permitem considerar que apesar de proibidos por lei, os compostos organoclorados continuam sendo utilizados na
bacia hidrográfica do rio Monjolinho, sejam nas grandes áreas com cultivo de cana- de-açucar ou reflorestamento (depois da área urbana), ou até mesmo por pequenos proprietários que utilizam áreas da bacia para pastagem e culturas temporárias, onde poderiam estar sendo utilizados os compostos em questão.
Um estudo no rio Chopim (Palmas-PR) e seus afluentes (SILVA; TONIAL, 2004a) demonstrou a presença dos organoclorados χBHC, clordano, DDT, isoclordano, aldrin e metoxicloro em praticamente todas as amostras de água (nove resultados positivos de dez amostras). Em quase toda extensão do rio Chopin, foram encontrados os pesticidas analisados, sendo que para clordano e isoclordano as concentrações estiveram cerca de 2 vezes acima do CONAMA20/86 (0,04µg/L); para DDT cerca de 6 vezes acima (0,002 µg/L). Ainda, os autores detectaram no afluente Caldeiras, onde existe uma captação de água para abastecimento da cidade, concentrações de aldrin cerca de 3 vezes acima do CONAMA20/86 (0,01µg/L).
Moraes et al. (2003) detectaram pesticidas organoclorados e organofosforados em todas as amostras de água de rios pertencentes à reserva de floresta brasileira PETAR. Dentre os organoclorados, o heptacloro foi registrado em concentrações cerca de duas vezes acima do CONAMA 20/86, indicando riscos à proteção da vida aquática. Ainda, foram detectados DDT e isômeros (DDE, DDD) e heptacloro nos tecidos de peixes em todos os pontos de coleta.
Rissato et al. (2004), avaliando as concentrações de organoclorados em amostras de água de mananciais, água potável solos da região de Bauru (rios Batalha e Bauru) observaram a presença do compostos BHC, dieldrin, endosulfan, aldrin, heptacloro e DDT nas três faces avaliadas, sendo que estiveram acima do CONAMA 20 o dieldrin (cerca de 23 vezes), o aldrin (cerca de 44 vezes) e o heptacloro (cerca de 18 vezes). Os autores relacionaram as elevadas concentrações ao uso intensivo destes compostos nas culturas de cana-de-açúcar.
A TABELA 52 mostra as concentrações máximas registradas em amostras de água dos organoclorados aldrin, heptacloro e endosulfan em diversos corpos de água do Brasil, inclusive os resultados obtidos no presente trabalho.
TABELA 52: Concentrações máximas dos organoclorados aldrin, heptacloro e endosulfan (µg/L) em amostras de água de diferentes corpos d´ água do Brasil, inclusive o presente trabalho.
Corpo de água Aldrin Heptacloro Endosulfan
Rio Monjolinho a 0,621 0,381 0,113 Rio Monjolinho b 0,019 1,036 0,028 Alto Jacaré-Guaçub 0,195 0,941 nd Rio Chopimc 0,003 nd - Rio Caldeirasc 0,032 nd - Rio Bandeirac nd nd - Rio Lontrasc nd nd -
Rios Bauru e Batalhad 0,440 0,180 0,810
Rios do PETAR e - 0,020 -
Ribeirão do Feijãob 0,098 0,411 0,020
Rio Paraná (Km 600) f 0,018 0,005 -
a (Presente trabalho); b (PELÁEZ-RODRIGUES, 2001); c (SILVA; TONIAL, 2004);
d (RISSATO et al., 2004); e (MORAES et al., 2003); f (LENARDÓN.; LORENZATTI; ENRIQUE,
1998); nd – não detectado; - não analisado.
Comparando-se os resultados obtidos no presente trabalho com alguns reportados na literatura, é possível observar que as concentrações dos pesticidas organoclorados analisados no presente trabalho, estão em concentrações próximas ou superiores nas águas dos rios reportadas por diferentes autores. Entretanto, quase todas as concentrações detectadas em todos os corpos de água estão acima dos limites estabelecidos pela resolução CONAMA 357/05, exceto para aldrin no Rio Chopim (0,003 µg/L); heptacloro no rio Paraná (0,005 µg/L) e endosulfan no rio Monjolinho em 2001 (0,028 µg/L) e no Ribeirão do Feijão (0,020µg/L). Portanto, o uso dos pesticidas organoclorados no Brasil nos dias atuais é fato, podendo estes ser comercializados de forma ilegal, o que torna mais difícil a fiscalização por parte das autoridades.