A dimensão de justiça é intrínseca aos serviços públicos. A forma de avaliação mais comum de justiça é a das condições de acesso ao serviço (MOORE, 1995; ZARIFIAN, 2001c). O acesso universal ao serviço sem distinções de renda e de origem social representa um avanço da cidadania. Geralmente, o direito a serviços como educação, saúde, segurança pública, advocacia pública e à Justiça, entre outros, estão prescritos em documentos legais, ou seja, são pré-definidos juridicamente. Assim, como a dimensão seguinte, a de solidariedade, a dimensão de justiça está imbricada com a questão dos direitos humanos. Inclusive a Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê o acesso de igual forma de todos os cidadãos aos serviços públicos de seu país (ONU, 1948, art. 21).
A preocupação com a universalização do serviço pericial está presente em documentos políticos, entre eles o Plano Nacional de Direitos Humanos III (PNDH 3): ―Recomenda-se aos estados e ao Distrito Federal a ampliação das unidades de perícias para o interior, garantindo o atendimento universal da Perícia Oficial, principalmente para exames de corpo de delito e de local de crime‖ (BRASIL, 2009a, Diretriz 12, Objetivo estratégico III, alínea f).
Segundo Moore (1995, p. 47), se a sociedade reconhece que o serviço tem valor coletivo, deve haver justiça na sua produção e em sua distribuição. O autor admite que a justiça na distribuição e na produção dos serviços e a eficácia são mais importantes que a eficiência, embora insista que os gestores públicos não podem ser mais indiferentes à questão da eficiência (MOORE, 1995, p. 48). Neste ponto corrobora Zarifian (2001c), para quem um serviço não pode ser produzido a qualquer custo, tem que ter eficiência. A exceção são os casos em que a verdade estiver em jogo, conforme sustenta Koppl (2006) e colocado no início dessa seção 5.3.
Para Moore (1995, p. 47 – tradução nossa), justiça quer dizer ―que as pessoas em situações semelhantes sejam tratadas com equidade‖. Segundo o autor, a justiça tem valor não só para os clientes, usuários e beneficiários do serviço, mas também para os cidadãos enquanto coletividade (oposto de clientes) que autoriza um empreendimento público e demanda um serviço justo e eficiente. A distribuição justa pressupõe justiça na distribuição dos custos e dos benefícios e também em termos geográficos, étnicos, de classes sociais e de membros de partidos políticos.
Os critérios de distribuição variam. Um critério é a maximização do bem-estar, que consiste em distribuir os serviços onde eles gerarão os maiores benefícios em razão dos custos necessários para produzi-los e onde já haja investimentos privados, de forma a estimulá-los. Outro critério é o social, que consiste em prestar o serviço nas áreas de maior necessidade, estabelecendo um nível mínimo de prestação. Um terceiro critério é distribuí-los em função da justiça, ou seja, supri-lo de forma equânime, e deixar que as diferenças apareçam em razão de condições pré-existentes (MOORE, 1995, p. 49). Segundo o autor, há uma tensão e uma competição entre os princípios acima e, na prática, a distribuição do serviço é decidida pelo processo político-administrativo, de acordo com a demanda ou moda política.
Segundo Zarifian (2001c, p. 108), ―estes direitos são, antes de tudo, de ordem moral: eles exprimem uma certa concepção do bem comum, e do que todo cidadão deve usufruir, qualquer que seja a sua origem social ou a sua renda‖. O problema é que estes serviços se apoiam em regras jurídicas abstratas, que são iguais, padronizadas e válidas para todos, ou seja, elas não consideram a diversidade da clientela, nem necessidades específicas dos diversos stakeholders.
Zarifian (2001c, p. 109) propõe uma avaliação de justiça baseada em sua definição de serviço. A avaliação de justiça proposta pelo autor significa ir além do princípio da igualdade e universalidade do acesso ao serviço. Segundo Zarifian (2001c, p. 109-10), ―existe serviço efetivo quando a avaliação de justiça pode se reportar a uma transformação concreta e real das condições de atividade do destinatário desse serviço [...] a avaliação de justiça tem o dever de ser específica, de considerar pessoas reais, singulares, diversificadas‖. Para que o acesso seja semelhante, a oferta deve ser flexível, e não padrão, a fim de permitir o acesso de qualquer pessoa que precise do serviço, ou seja, os prestadores do serviço devem providenciar os meios para o acesso ao mesmo (ZARIFIAN, 2001c, 108-9). Ainda, segundo o autor, o conceito de serviço (no singular), no sentido de relação, deve penetrar e permear os serviços públicos, com o objetivo de que o prestador conheça melhor os usuários e clientes do serviço e o que deva ser produzido, para que o serviço tenha consequências úteis para eles.
Esta avaliação pode ser feita, também, sob uma perspectiva de injustiça, quando se verificar que nem todos são tratados de forma equitativa. Segundo Zarifian (2001c, p.111) a avaliação da dimensão justiça do serviço ―provém de uma avaliação de justiça social: a injustiça faz parte dos critérios de avaliação do serviço e pode ser fonte de mudanças importantes na produção dele‖. Portanto, o prestador do serviço deve perseguir, além de uma dimensão de utilidade, entregar uma dimensão de justiça.
Zarifian (2001c) recomenda que a avaliação de justiça seja realizada de duas formas: uma pela coletividade, pelos cidadãos, representados pelo Estado por meio de seus agentes políticos ou instituições criadas para estes fins; e outra pelo destinatário do serviço, ou por aqueles com legitimidade de representá-los, para verificar se o serviço foi realmente prestado a uma pessoa ou a um determinado segmento, com base nas normas morais e legais.
Em Minas Gerais, o serviço cobre geograficamente todo o Estado em função da existência de sua sede na capital (Instituto de Criminalística) e em unidades descentralizadas em 61 (sessenta e uma) Seções Regionais de Criminalística, as quais atendem a um conjunto de municípios, conforme já visto. Porém, sob a alegação de falta de capacidade diante do volume de casos, observou-se que não são feitos todos os exames que, de acordo com a legislação (CÓDIGO..., 2008, art. 158-184), deveriam sê-lo. Por exemplo, a perícia nem sempre é realizada em alguns locais de furto de objetos de pequeno valor por meio da prática de arrombamento em residências, quando não há suspeitos. Não é por iniciativa dos próprios profissionais, que gostariam de que todos os casos recebessem o mesmo tratamento. Mas, como o volume de serviço é grande, há que se priorizarem determinados casos em função de sua gravidade e repercussão.
Profissionais entrevistados afirmaram, também, que os casos de maior repercussão, principalmente na mídia, ou que envolvam pessoas importantes, são tratados de forma diferenciada. Para os entrevistados, este fato ocorre porque as chefias praticam uma cobrança maior destes casos. Então, os exames e os laudos são realizados com maior cautela e em um prazo menor.
Como se vê nas situações acima, não há aquela diferenciação no tratamento, proposta por Zarifian (2001c, p. 108-9; p. 114), para que as pessoas, independente de sua condição social e econômica, tenham acesso ao serviço, muito pelo contrário, o serviço em certa medida privilegia aqueles casos, cujos envolvidos já têm uma situação socioeconômica melhor ou quando a mídia repercute o caso. É a avaliação sob uma perspectiva de injustiça, proposta por Zarifian (2001c, p. 111). Enfim, o serviço reproduz as hierarquias sociais presentes na sociedade brasileira (JESUS, 2009, p. 237). Há na prática, ainda que em princípio de forma inconsciente, um critério de distribuição de maximização da utilidade, preconizado por Moore (1995, p. 49), no sentido de investir no serviço em que ele gere maiores dividendos, principalmente políticos para a instituição e o governo, embora, oficialmente, o critério geral seja o da equanimidade. Portanto, este acesso ainda não é universal e o serviço ainda não entrega uma dimensão de justiça em sua plenitude.
No serviço de perícia criminal esta situação é um pouco mais grave, porque a prova pericial é uma daquelas cuja repetição nem sempre é possível. Um local de furto ou homicídio, por exemplo, após desfeito, os vestígios desaparecem, ou seja, um eventual exame a posteriori terá pouco valor em termos de utilidade e mesmo de justiça. Conforme abordado, quando da análise da dimensão utilidade, houve casos de absolvição, por falta da perícia, prejudicando neste caso o acesso da vítima de uma ação criminosa ao serviço pericial e posterior entrega do valor de Justiça, que se materializaria na punição do autor da prática delituosa.
Nesse aspecto, é importante reiterar que a perícia não age de ofício, isto é, sem ser provocada (Vide Seções 3.1 O macroprocesso de produção do serviço e 3.2.3 A simultaneidade da produção e do consumo). Quando a perícia criminal é provocada – requisitada, a regra geral é que os exames sejam realizados pelos peritos, pois a requisição tem uma natureza jurídica de obrigação de fazer. Em caso de impossibilidade de atendimento da requisição, o perito criminal terá que justificá-la por escrito, sob pena de sofrer sanção.
Talvez pelas razões acima, observou-se que os documentos produzidos pelos agentes políticos externam uma preocupação com universalização do acesso ao serviço de Perícia Oficial criminal e médico legal, sendo este, inclusive, um dos argumentos utilizados por aqueles políticos e organismos que defendem a autonomia do serviço. A avaliação por parte do usuário, normalmente é realizada através dos clientes do serviço - juízes de direito, promotores públicos, advogados e delegados de polícia, os quais dispõem dos meios legais e das prerrogativas para fazê-lo -, porque conforme explicado no capítulo 3, quando da análise dos stakeholders, o usuário é cliente final de toda a rede, que lhe entregará o valor de Justiça.