O esforço de organização dos profissionais liberais nasceu a partir da tomada de consciência de que, desde a Antiguidade, existiram associações de classe que se organizavam em defesa de seus membros e do controle do exercício de suas profissões. Já no século XI a.C. o arquiteto fenício Hiram, autor do templo de Salomão, organizava o seu ofício dividindo os seus subordinados em três classes: os aprendizes, os companheiros (operários) e os mestres, cada um deles com claras e distintas atribuições, direitos e deveres.
Na Roma Antiga surgiu o Collegium ou Corpus, uma associação de pessoas com poderes limitados que se organizavam para o exercício de determinadas funções. O segundo monarca romano, Numa Pompílio, criou em 712 a.C. as Collegia Artificum, também conhecidas como Collegia Officium ou Corpora
Officium, cujos membros, em número mínimo de três, eram chamados corporati ou fabricatori.
Na Idade Média, os alemães e os escandinavos organizaram a ghilda, um tipo de associação de socorro mútuo, espécie de república voltada para o disciplinamento de certas atividades profissionais.
Do Collegium romano e da ghilda nórdica surgiu a Corporação. Tendo sua denominação derivada do latim: corpus, corporis; era uma organização de pessoas, que exercendo a mesma arte rudimentar, ofício manual, comércio ou tarefa, possuíam suas regras, gozavam de iguais direitos, usufruíam os mesmos privilégios e tinham idênticos deveres. Assim, as corporações foram sendo organizadas com o fim precípuo de proteger os artesãos, artífices, obreiros, mercadores, lavrantes etc. (RIOS FILHO, 1960, p. 247). Ao longo de todo o medievo foram surgindo agremiações dessa natureza nos diversos países da Europa. Corporações de pedreiros livres, ou franco-maçons,
surgiram no século VIII na Itália e por volta do IX na Inglaterra, Alemanha e França. Gozavam de prestígio e tinham influência junto aos principais círculos de poder, merecendo em diversas situações a simpatia de soberanos, que viam nelas instrumentos capazes de contribuir para debilitar o feudalismo – visto que eram geralmente organizações urbanas – em favor do governo central. Apoiadas por muitas das principais autoridades, puderam ser mais bem regulamentadas e ganharam mais poder. (SARAIVA, 2009). Ao longo dos séculos seguintes se disseminaram e se desenvolveram, passando a se tornar conhecidas como Corporações de Ofícios, atuando por quase um milênio na maioria dos países europeus e mesmo em suas colônias.46
Seus regulamentos disciplinavam minuciosamente a atividade profissional – tanto a formação da mão de obra como a organização da produção – se tornando elemento essencial da vida social e econômica destes países, pelo menos até o final do século XVII. Mas, a partir do século XVIII este sistema começou a dar sinais de declínio. Assentado sobre uma rígida estrutura hierárquica, o sistema corporativo se estabeleceu propiciando muitos privilégios a seus mestres e eliminando qualquer possibilidade de concorrência entre eles, o que incluía dificultar a instalação de outros. Além disso, o sistema de formação-produção baseado em práticas exclusivamente empíricas, tornava-se muito avesso à experimentação e à inovação. Este sistema impunha limites muito estreitos à produção, o que se tornara incompatível com as necessidades da sociedade urbano-industrial nascente. Esta se fundamentava no novo sistema fabril, cuja lógica se assentava nas novas manufaturas e nas primeiras “grandes” fábricas, opostas ao sistema corporativo das pequenas tendas e oficinas. (FONTES, 2011).
Desde então, o sistema corporativo deixara de ser viável diante do novo modelo de sociedade, tornando-se alvo das reformas liberalizantes que começaram nos países mais desenvolvidos da Europa, no final do século XVIII, e depois se espalharam pelo resto do mundo.
Tais movimentos renovadores proclamavam os ideais libertários do homem e, por extensão, sua total liberdade frente ao exercício do trabalho. Uma vez que aquelas corporações se colocavam opostas a essa liberdade, começaram a ser
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Em Portugal estas organizações foram bem mais tardias, começando a surgir apenas no final do século XV e passando a se irradiar pelas colônias, inclusive pelo Brasil, ao longo do XVI. (FONTES, 2011).
extintas, inicialmente na França (lei Le Chapelier, de 1791) e na Inglaterra (Combination Act, 1799). Noutros países da Europa e de outras partes do mundo elas ainda se mantiveram em franca atividade por quase meio século, mas os ideais daquela revolução se propagaram pelo mundo afora e com o decorrer do tempo, devido ao caráter de privilégio ou de monopólio que as caracterizavam, essas entidades foram sendo extintas ou amplamente modificadas. (BENÉVOLO, 2006).
No Brasil essas Corporações de Ofício, regidas como em Portugal pelos Regimentos de Oficiais Mecânicos, atuaram até 1824, quando foram extintas pela Constituição Imperial daquele ano (BORBA, 1999), inaugurando um período de um século de quase total liberdade de exercício profissional, situação que somente começou a mudar nas primeiras décadas do século XX, com a aprovação das primeiras normas de controle das profissões liberais.
Contudo, num contexto de consolidação da Revolução Industrial, os fatos logo se encarregaram de demonstrar que um ambiente de total desregulamentação seria insustentável. Questões diversas passaram a exibir sinais da dificuldade de se manter a política liberal tão propagada desde 1789: a deflagração de várias guerras entre as nações européias; a instabilidade na produção agrícola, associada ao aumento da demanda por alimentos em consequência da urbanização; o aumento da demanda por matérias primas para a indústria etc. Nestes termos, na Inglaterra, as determinações do Combination Act começaram a ser relaxadas já a partir de 1824, o mesmo ocorrendo nos demais países. Aos poucos foram surgindo novos modelos de organização e as antigas corporações de ofício, abolidas pelas políticas liberais do último quartel do século XVIII, foram sendo substituídas pelas modernas formas de associação.