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No Brasil, grande parte das idéias do filósofo foi apresentada e representada pelo educador baiano Anísio Teixeira que, em 1927, após já passar pela vida pública de educador, vai pela primeira vez aos EUA, onde estuda e pesquisa a educação norte-americana. Ao retornar ao Brasil, especificamente à Bahia, escreve o primeiro livro denominado Aspectos
americanos de Educação, no qual, além de outras questões, faz um estudo físico-estrutural das escolas americanas. Anísio não era apenas estudioso, mas também tradutor de Dewey. Também foi o responsável por iniciar, no âmbito brasileiro, um movimento denominado de ESCOLA NOVA.
Esta Escola Nova apresentava, de maneira explícita, os aspectos fundamentais da filosofia deweyana na Educação, cujas questões como
democracia, experiência e transformação estavam presentes e eram uma constante no discurso e na perspectiva de mudança do mundo antigo para o “novo”. As citações21, a seguir, referem-se a este panorama de acordo com o que relata o próprio Anísio Teixeira (1930, p. 2-30):
Nessa nova ordem de mudança constante e de permanente revisão, duas cousas ressaltam que alteram profundamente o conceito da velha escola tradicional:
A. Precisamos preparar o homem para indagar e resolver por si os seus problemas;
B. Temos que construir a nossa escola, não como preparação para um futuro conhecido, mas para um futuro rigorosamente imprevisível.
Assim, faz críticas severas ao papel da velha escola, apontando soluções que pressupunham o novo ideal de escola. Conseqüentemente, por detrás deste olhar, havia o sentimento de uma sociedade industrializada, que precisava ser mais humana.
É o próprio Anísio ainda quem menciona que:
Todas as noções, mesmo pedagógicas, relativas à escola velha se prendem a esses pressupostos: Estudo – é o modo de apprender uma licção. Apprender significa acceitar e fixar na memoria ou no habito um facto ou uma habilidade. Ensinar, simplesmente uma doutrinação daquelles factos ou conceitos. O cyclo era simples: professor preleccionava, marcava a seguir a licção e tomava-a no dia seguinte. Os livros eram feitos adrede, em licções. Os programmas determinavam o periodo para se vencerem taes e taes licções. Exames, que verificavam si os livros ficaram apprendidos, condicionavam as promoções. O alumno bom era o mais docil a essa disciplina, aquelle que melhor se adaptava a esse processo livresco de se preparar para o futuro.
21 Cabe neste trabalho salientar a importância da Escola Nova para a compreensão do uso da
filosofia deweyana no Brasil. Além disso, fazemos referência à produção científica de Anísio Teixeira, que é o responsável pelo entendimento de diversas questões referentes a Dewey. As citações do Anísio foram retiradas do site: <http://www.prossiga.br/anisioteixeira/visita.htm>, onde se encontra vasto material do autor, como alguns livros, artigos, e até cartas.
Outro ponto forte, e talvez determinante, da Filosofia de Dewey era o aspecto da experiência, ou seja, a prática orientadora das produções dos saberes do aluno:
Para a nova escola, a materia é a propria vida, distribuida por "centros de interesse ou projectos". Estudo – é o esforço para resolver um problema ou executar um projecto. Ensinar – é guiar o alumno na sua actividade e dar-lhe os recursos que a experiencia humana já obteve para lhe facilitar e economizar esforço.
Outras questões serão referenciadas pelo autor citado. No entanto, fica clara a preocupação em reverenciar as premissas ideológicas, que permeiam o caráter argumentativo da escola nova, que vêm reforçar os ideais da transformação social, da liberdade, da democracia, da autonomia, da crítica e da prática.
Mesmo assim, os estudos de Dewey (os quais foram fortemente divulgados por Anísio Teixeira), deixam de ser explorados de forma tão entusiástica por algumas décadas, no Brasil, em especial nos anos 70 e 80. Tais propostas didático-pedagógicas foram consideradas, por muitos educadores e filósofos, como ideologicamente tecnicistas e “liberais”. Isso ocasionou um afastamento generalizado e preconceituoso do autor.
Segundo Barbosa (2002, p. 15):
No Brasil, com a política anti “escola nova” empreendida pelas Faculdades de Educação hegemônicas, como as da Universidade de São Paulo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Universidade de Campinas, John Dewey, por ter sido inspirador do que pejorativamente se chamou no Brasil de “escola novismo”, foi banido dos estudos educacionais. Passou a ser visto por muito tempo como defensor de uma educação elitista, pelos que se consideravam renovadores, e, pela direita, como um esquerdista americano que era preciso rasurar.
Além desses bloqueios institucionalizados, outras questões, com premissas nacionalistas e ideológicas, foram levantadas. Dando seqüência ao que foi abordado e também de acordo com esta mesma autora:
Havia ainda os que se julgavam de esquerda e nacionalistas por recusarem qualquer influência americana e procuravam, para demonstrar seu esquerdismo, se associar ao pensamento e à pedagogia européia, desprezando tudo que vinha dos Estados Unidos. Como se do ponto de vista de identidade cultural houvesse algum avanço em baixar a bandeira colonizadora e levantar outra igualmente colonizadora.
Frente a tais circunstâncias, neste momento, Dewey se apresenta como o articulador de uma proposta que tende a se vincular (por conta desta pesquisa) a um cenário tecnológico e sofisticado, em que há a proposta da experiência e “fuga” dos métodos convencionais de aprendizagem. Inserido neste processo, é importante perceber a busca de teorias que podem ser utilizadas em nossa realidade. Para isso, aprofundar-nos-emos no que diz respeito à teoria do conhecimento do autor e, conseqüentemente, da sua idealização a respeito da Educação e do aprender pela experiência. Neste sentido, pretendemos, através desse trabalho de pesquisa, retomar a importância de Dewey no pensamento e práticas transformadoras e inovadoras na educação escolar.
Não só Dewey mas, também, outros autores contemporâneos darão suas contribuições ao desenvolvimento desta idéia, ou seja, de uma nova educação, ou uma educação renovada. Piaget, por exemplo, ao estudar as estruturas mentais cognitivas das pessoas, constatou que o conhecimento não é a priori, mas, que é fruto das interações que se relacionam com uma série de outros processos que possibilitam a sua produção.