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33Şerrin Siyasi Anlamı ve Bir Siyaset Teodisesi Olarak

III. Post-Temelciliğin Demokrasisi Olarak Radikal Demokrasi?

Ponto bastante interessante a ser discutido atine à apreciação do poder normativo diante da teoria fundante do Estado moderno que separa as funções a serem exercidas pelo ente estatal entre três órgãos: o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário.

Primeiramente, é necessário fazer uma observação de ordem terminológica. Embora a expressão “separação de poderes” seja tradicionalmente utilizada, não se pode olvidar que o poder é uno e a divisão incide, na realidade, sobre as funções realizadas pelo Estado424.

Note-se que, apesar de a teoria da separação de poderes ter sido consagrada por Montesquieu, em O espírito das leis, a primeira menção relativa à divisão das funções estatais foi feita por Aristóteles, na obra A Política, sendo ulteriormente mencionada por

423

Conflitos coletivos de trabalho: fundamentos do sistema jurisdicional brasileiro. São Paulo: Saraiva, 1978, p. 108 e 110.

424

FAVA, Marcos Neves. O esmorecimento do poder normativo – análise de um aspecto restritivo na ampliação da competência da Justiça do Trabalho, p. 277; FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional. 27 ed. atual. São Paulo: Saraiva, 2001, p. 129, e DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do Estado. 22. ed. atual. São Paulo: Saraiva, 2001, p. 215.

John Locke em Segundo tratado sobre o governo425. É um equívoco, entretanto, considerar que a mencionada teoria foi criação individual de determinado pensador. Na realidade, essa visão favorável à descentralização no exercício do poder estatal surgiu no decurso da evolução histórica, como forma de proteger as liberdades individuais e estabelecer limites ao governo após a experiência do período absolutista em que os monarcas exerciam o poder de maneira irrestrita426. Os mais relevantes diplomas legislativos históricos que consagraram a teoria em estudo foram a Declaração de Direitos da Virgínia, de 1776, e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789427. A separação entre os poderes está consagrada, no Brasil, no artigo 2° da Constituição da República, sendo considerada cláusula pétrea, conforme preconiza o artigo 60, parágrafo 4°, inciso III, do mesmo diploma normativo.

O principal instrumento de sustentação da teoria da separação de poderes é o sistema de freios e contrapesos (ou checks and balances, conforme a doutrina americana)428, o qual confere equilíbrio de forças no exercício do poder estatal, protegendo a sociedade de eventual desvio ou excesso nas atividades governamentais429.

São três as principais críticas referentes à teoria de divisão das funções estatais. A primeira alude ao fato de tal separação não ser tão estanque como poderia ser deduzido a partir da teoria, pois, na prática, sempre foi observada grande interpenetração no exercício das funções. Um segundo ponto concerne ao fato de a propalada separação de poderes nunca ter conseguido garantir a liberdade individual em sua plenitude, diante dos inúmeros exemplos históricos antidemocráticos. Mais recentemente, tem havido uma nova crítica vinculada à inadequação da teoria à complexidade da sociedade atual e à elevada demanda dirigida ao Estado que, sob as limitações da separação de funções, não pode atender às expectativas sociais de maneira satisfatória. Para solucionar os problemas apontados por

425

MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p. 383; DALLARI, op. cit., p. 217, e FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Op. cit., p. 131.

426

COSTA, Carlos Coqueijo Torreão da. O poder normativo, a Justiça do Trabalho, a convenção coletiva e o sindicalismo, p. 44; ACKER, Anna Brito da Rocha. Poder normativo e regime democrático. São Paulo: LTr, 1986, p. 16; FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Op. cit., p. 130, e MORAES, Alexandre de. Op. cit., p. 387.

427

DALLARI, Dalmo de Abreu. Op. cit., p. 217/219.

428

COSTA, Carlos Coqueijo Torreão da. O poder normativo, a Justiça do Trabalho, a convenção coletiva e o sindicalismo, p. 46; MORAES, Alexandre de. Op. cit., p. 387, e DALLARI, Dalmo de Abreu. Op. cit., p. 219.

429

COSTA, Orlando Teixeira da. A intervenção do poder judiciário nos conflitos coletivos de trabalho. São Paulo: Revista de Direito do Trabalho, a. 9, n. 47, jan./fev. 1984, p. 13.

essa última crítica, foram desenvolvidos dois métodos: a delegação de poderes e a transferência constitucional de competências430.

Quanto à primeira crítica acima mencionada, nota-se que, de fato, a separação é relativa, sendo melhor definida como predominância do exercício de uma função em certo órgão431, a qual é denominada função típica. Muitas vezes, porém, o mencionado órgão estatal cumpre funções que, originalmente, não seriam suas, as quais são chamadas de funções atípicas. Exemplo dessa situação ocorre quando o Poder Executivo julga servidor em processo administrativo ou legisla por meio da edição de medidas provisórias432.

No tocante ao segundo argumento, é possível notar que, sempre que houve a instauração de governos autoritários ao longo da história, observou-se concentração de funções em uma pessoa ou em um colegiado, de forma a corromper o postulado da separação de poderes. Destarte, embora a teoria em estudo represente importante instrumento a favor da manutenção do regime democrático, não representa óbice intransponível a eventuais governos de exceção.

A terceira crítica é precisa na constatação da alteração da situação fática e consequente mudança no papel exercido pelo Estado, cuja atividade é, atualmente, mais demandada do que em certos períodos do passado. Daí o surgimento de institutos como o poder normativo que, na tentativa de conferir maior eficiência à atuação estatal, atribui ao Poder Judiciário atividade típica do Poder Legislativo433.

A atividade jurisdicional consiste na aplicação de normas existentes em período anterior ao surgimento do conflito. Há quem vislumbre no poder normativo a aplicação de normas latentes no ordenamento jurídico, o que seria suficiente para atribuir a tal instituto a natureza jurisdicional434. Coqueijo Costa entende a sentença normativa como um ato misto, no qual estão presentes aspectos legislativos e jurisdicionais, não questionando, porém, a prevalência do caráter jurisdicional435.

430

DALLARI, Dalmo de Abreu. Op. cit., p. 220/221.

431

ACKER, Anna Brito da Rocha. Op. cit., p. 17; HINZ, Henrique Macedo. Op. cit., p. 26 e 27; ROMITA, Arion Sayão. O poder normativo da Justiça do Trabalho na reforma do Judiciário, p. 57, e FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Op. cit., p. 133.

432

SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Op. cit., p. 71.

433

ARAÚJO NETO, José Nascimento e MENEZES, Cláudio Armando Couce de. Op. cit., p. 9 e 14; FAVA, Marcos Neves. O esmorecimento do poder normativo – análise de um aspecto restritivo na ampliação da competência da Justiça do Trabalho, p. 279.

434

MAGANO, Octavio Bueno. Manual de direito do trabalho. Vol. III, p. 207/208. Em sentido semelhante, cf. ARAÚJO NETO, José Nascimento e MENEZES, Cláudio Armando Couce de. Op. cit., p. 15.

435

Não concordamos com essa visão, diante da inexistência de normas a serem concretamente aplicadas às relações de trabalho. A edição de normas abstratas que deverão, posteriormente, ser individualizadas, é atividade típica do Poder Legislativo436. A despeito desse entendimento, enquanto houve atribuição de tal competência ao Poder Judiciário pela Constituição, como forma de contornar a teoria de separação de poderes, aceitou-se que o poder normativo vicejasse no ordenamento jurídico nacional.

Com a alteração do texto do parágrafo 2° do artigo 114 da Carta Magna de 1988, porém, houve uma mudança no panorama acima apontado, com a supressão da competência normativa anteriormente atribuída à Justiça do Trabalho, a qual foi materializada pela substituição da expressão “estabelecer normas e condições” por “decidir o conflito”. A partir de então, foi subtraída do Poder Judiciário a possibilidade de realizar atividade estranha à esfera jurisdicional diante da inexistência de fundamento constitucional. Como não há a autorização na Carta Magna para o exercício da mencionada função atípica, a Justiça do Trabalho deverá restringir-se, ao analisar os conflitos coletivos de natureza econômica, aos lindes da tradicional separação de funções do Estado437.

Benzer Belgeler