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POST-MORTEM LAB. ĠNCELEMELERĠ

Belgede TIP HUKUKU TANIM (sayfa 125-135)

Alguns entrevistados trouxeram conteúdos que dão o tom da relação existente entre estudantes e os docentes. Especialmente entrevistados do campus Guarulhos questionam a relação de poder e hierarquia do saber que é afirmada em momentos de conflito e a postura de alguns docentes que, por exemplo, se orgulham por serem detentores de tão alto grau de conhecimento que reprova a maioria dos matriculados na disciplina ou outros que preferem legitimar incoerências da dinâmica burocrática da instituição a fazer pequenas concessões de mudança de horário (como se irá observar nos trechos de entrevistas selecionados). Longe de enaltecer as queixas estudantis referentes às dificuldades e também à necessidade de dedicação, inerentes a qualquer processo de ensino-aprendizagem, o que se coloca em pauta é a própria dinâmica deste processo, na forma como é, muitas vezes, imposta pelo

95 E mais determinadas do que os estudantes entrevistados que pertencem a grupos privilegiados – e

educador.

"... E o professor se orgulha de que a matéria dele é tão difícil que cerca de 80 por cento reprovam todos os semestres... Tem alunos que já conseguiram cumprir todos os créditos e não conseguem se formar por causa deste único professor. Tem como amar isso? Teve um professor que deu as boas vindas ao curso: ‘bem-vindos ao curso X, a matéria que mais reprova neste curso’... Isso é motivo de orgulho? (...) Eu também não estou dizendo que eles não são competentes, eles são muito competentes para fazer pesquisas. Mas para dar aula, não.” (Lucas, 20-25 anos, escola pública, Guarulhos)

" ... Eu não esqueço que no primeiro semestre um professor perguntou um conceito e eu estava feliz, porque eu sabia, eu tinha lido tudo e eu escrevi tudo que eu tinha lido mais algumas anotações de sala e, na hora de dar nota, o professor me deu 6! Nossa, eu fiquei tão frustrada e pensei ‘onde eu errei?’ (...) Como ele colocou que a resposta estava correta, eu perguntei: ‘se está correta, por que você é me deu só 6?’ e ele disse: ‘Porque a escrita filosófica requer uma introdução, não vai direto ao assunto.’ Aí eu perguntei por que estava direto ao assunto e ele falou: ‘Você colocou o conceito, você poderia contextualizar’, aí eu falei que eu tinha contextualizado o porquê chegou a esse conceito, aí ele falou: ‘Mas você precisa melhorar a escrita filosófica. Aí eu fiquei com aquilo [na cabeça]: como escreve o filósofo?” (Joana, > 40 anos, escola pública, Guarulhos)

“Eu acho que a intenção foi [a universidade] se preparar... Eu acho que muitas vezes ela... Ela tenta! (risos) Ela disfarça muito. Mas não é o suficiente. Eu acho que a organização institucional da universidade é retrograda, sei lá, dos anos 60, quando o filhinho que era sustentado pelo pai vinha estudar aqui... Os professores também não estão acostumados com esse tipo de público. Eles (...) se esforçam, isso a gente tem que admitir. (...) Mas eles também não estão preparados...” (Simão, 20- 25 anos, escola pública, Guarulhos)

Uma prática docente que foi relatada por entrevistados de ambos os campi é a verbalização de que os estudantes escolheram entrar em uma universidade federal e que tem que “se virar”, ou seja, tem que encontrar maneiras de corresponder às expectativas deles e da universidade conforme se configura. Parece ponto inequívoco

que o estudante é um dos principais agentes da aprendizagem e esta demanda investimentos (tempo, estudo, dinheiro). Entretanto, deve-se considerar que esta fala de alguns docentes conota, embora veladamente, que alguns não consideram o processo de ensino-aprendizagem como dependendo de ambas as partes envolvidas (educador e educando), mas como a transmissão de um conhecimento, unilateralmente, que pode ser aproveitado se houver dedicação por parte dos estudantes, ou seja, pode-se afirmar que esta postura contradiria práticas pedagógicas existentes, já em voga. Neste sentido, deve-se levar fortemente em consideração um desconhecimento, por parte de muitos docentes de ensino superior, que tem sua formação estritamente voltada à área profissional em que atuam e à pesquisa. Em outras palavras, eles são pesquisadores de determinada área do conhecimento e não necessariamente são formados à docência, aspecto que mereceria ser reavaliado e reformulado nas instâncias cabíveis (Lessa, 1999).

Além disso, existe a nuance, possível em alguns casos, de que os docentes, aptos a promover transformações, até mesmo por representar categoria social e científica privilegiada, justamente por ter alcançado esta posição, muita das vezes (não incorrendo em generalizações) não estão predispostos a promover estas transformações ou mudanças, justamente porque conquistaram sua posição graças à escola e acreditam no referencial meritocrático (Bourdieu & Passeron, 2014).

Outro fato recorrente nas entrevistas dos estudantes do campus Guarulhos é que durante a greve dos docentes em 2012, um grupo de professores lançou um dossiê96 que ganhou grande repercussão na mídia, no qual apontavam a precariedade infraestrutural e um suposto “isolamento cultural” atribuído à localização do campus. Além dessas informações, este documento denso explicita em 50 itens aquilo que este grupo de docentes atribuía como razão para a crise da EFLCH. Um ponto de comoção entre os estudantes foi a maneira pela qual o documento os designava, como “semialfabetizados”.

“...O que contribuiu para a nossa baixa estima na universidade também foi o que um professor escreveu, chamando os alunos de semialfabetizados!...” (Joana, > 40 anos, escola pública, Guarulhos)

96 Disponível para consulta em: https://greveunifesp.files.wordpress.com/2012/08/dossie-sobre-a-crise-

“... Ele escreveu um dossiê dizendo que ele não era obrigado a dar aula para semianalfabetos, (...) porque hoje vestibular aceitava de tudo... O pessoal ficou muito revoltado depois que esse homem publicou isso...” (Mafalda, 30-40 anos, escola pública, Guarulhos)

Bourdieu e Passeron (2012) explicitam que os efeitos das mudanças morfológicas e sociais são expressos por meio das dificuldades pedagógicas, o que aliado às informações apresentadas no Capítulo 2 deste estudo permite compreender que falas como as que foram apresentadas pelos entrevistados consistem em subsídio, sintoma ou característica de um campo escolar (universitário, no caso) que está concretizando mudanças sociais no perfil de seus agentes, neste caso especialmente os estudantes; outro elemento importante é que se faz necessária uma atenção específica aos aspectos pedagógicos (tanto na formação do docente- pesquisador, que precede a sua atuação profissional, como em capacitações oferecidas pelas instituições de ensino superior) que permeiam a relação docente- discente.

Apesar de menos frequente97, também foi mencionada, a exemplo da fala de

Joana citada a seguir, a tensão com o servidor com funções técnicas (técnicos- administrativos) por limitações destes em lidar com o perfil estudantil democratizado, (assim como os casos em que foram citados docentes): “Aí eu fui [em um atendimento da Unifesp], aí começou aquelas perguntas: nome, idade, família, se tem filhos... Aí ela [a técnica] começou a rir – ria, ria, ria – e pediu desculpa. Eu falei ‘o que aconteceu que é tão engraçado?’ e ela falou: ‘ai, você me desculpa, porque você não é o perfil que eu estou acostumada a atender!’ Ria tanto que pediu licença, saiu da sala. Quando ela voltou, eu falei: ‘qual é o seu perfil de atendimento?’ Ela falou: ‘é porque eu atendo os jovens, alunos aqui que, no limite, tem problemas com drogas ou de se adaptar fora da família’ Aí eu falei: ‘então você tem que se atualizar e se preparar, porque a Unifesp não é mais só [isso]. Aí ela falou: ‘não, não é por mal não’.”

O estudo articulado por Lugli (2014) traz contribuições a respeito do perfil dos

97 E a menor frequência pode ser somente em decorrência de que estudantes se relacionam

docentes do campus Guarulhos e explicita conflitos gerados nas relações com os estudantes (conforme descrito no Capítulo 2) e uma tese vem sendo desenvolvida na Faculdade de Educação da USP98 que trará noções a respeito dos docentes da

Unifesp que pertenciam a grupos populares.

Belgede TIP HUKUKU TANIM (sayfa 125-135)