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Na corporificação tecnoautobiográfica dos narradores, buscamos suas perspectivas de si, ao reviverem suas experiências frente ao uso das TDIC no seu cotidiano pessoal e profissional. Pois ao se autoconstruírem-se por meio de suas narrativas, os enunciadores o fazem como o pintor que sai de si mesmo e se autorretrata na tela. E nisso não há mistério algum, “há apenas corpo e olhar movendo-se em torno do princípio de todo movimento, o sujeito que habita o mundo” (TEIXEIRA, 2005, p.

127). Portanto, o autorretrato pode ser compreendido como um movimento de interiorização que visa à exteriorização de si num movimento reinventivo (TEIXEIRA, 2005).

A metáfora que construímos para compreender esse fenômeno metamórfico (re)inventivo de si se ancora na ideia de elaboração de um “autorretrato dinâmico” (JOSSO, 2012, p. 22). Nas palavras de Josso (2007, p. 422), empreendidos na dinâmica dialética de elaboração e de análise na perspectiva singular-plural, os autorretratos dinâmicos “permitem progressivamente evidenciar as dinâmicas dos processos de formação de nossa existencialidade”. Essa dinâmica nasce da confrontação entre as lógicas e desejos individuais e as lógicas e pressões coletivas. As potencialidades humanas surgem diante dessas pressões de diferentes contextos de inserção e/ou pertenças simbólica (JOSSO, 2007, p. 422).

Destarte, esse processo de corporificação tecnobiográfica é consciente e analítico, de modo que o narrador busca empreender seu melhor ângulo na sua autoconstrução. O narrador constrói a imagem de si de maneira autorreflexiva. Portanto, compreendemos a corporificação tecnobiográfica como um projeto artesal de si. Passamos, pois, a problematizar o conceito projeto artesal de si por meio do processo metamórfico da ressignificação da imagem de si no récit de vie dos professores, considerando a relação metafórica autorretrato musivo e corporificação tecnobiográfica.

Concebemos, pois, que o conceito de projeto artesal de si é um processo multifacetado que compreende pelo viés metafórico três propriedades interdependentes, a saber, o caráter dinâmico, que simboliza o processo de apreensão de valores e/ou paradigma regulador de uso das TDIC pautado num filtro sócio-cultual; o caráter musivo70, que remete à essência singular e autorreflexiva de cada narrativa autobiográfica; o caráter artesanal, que diz respeito à essência autopoiética e reinventiva da narrativa autobiográfica. Respectivamente, temos três princípios subjacentes aos caracteres apresentados: o princípio temporal, o material e o modal.

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A palavra "mosaico" tem origem na palavra grega mouseîn, que também deu origem às palavras música e museu, e significa "próprio das musas". A arte musiva, ou simplesmente mosaico, é uma forma de arte milenar [...]A técnica da arte musiva consiste na colocação de tesselas - pequenos fragmentos de algum material como vidro, mármore, pedras semi-preciosas, cerâmica, etc. - sobre uma superfície, produzindo padrões monocromáticos ou desenhos policromáticos. Como produto de trabalho artesanal, cada obra em mosaico é única em sua criação e muito difícil de ser reproduzida. Disponível em: http://www.vidrotil.com.br/mosaico-arte.asp Acesso em: 01/05/2015.

Vislumbremos esses três princípios primeiramente pela perspectiva analítica da ação social de construir um autorretrato. Iniciamos, portanto, pontuando o aspecto temporal, houve um tempo no qual retrato e biografia eram “artigo de luxo”, objeto de desejo da nobreza, de ricos e de poderosos. Hoje, ambas, autorretrato e autobiografia são mais acessíveis e como práticas sociais, elas evoluíram/cambiaram plasticamente ao longo da história de modo a se adequarem às novas ordens sociais. Fotografar está na moda. Há redes sociais71 para o espetáculo da fotografia. Estamos vivendo um tempo no qual fazer uma self72

significa estar em dia com os tempos modernos e escrever uma (auto)biografia é privilégio acessível a todos que se predispuserem à aventura (auto)biográfica.

Quanto ao aspecto material, na constituição do autorretrato, e, por conseguinte, do mosaico também, a luz é indispensável para que ele tenha cor, para que, assim, ganhe vida. O processo de percepção das cores além de ser um fenômeno subjetivo depende de variáveis externas ao objeto como natureza da radiação incidente e estrutura dos receptores que irão decodificar a informação visual (GALVÃO, 2011, p.1). Através de um olhar analítico podemos perceber que a cor é na realidade uma categoria de sensação que nós temos do mundo que nos cerca. Para a efetivação do processo perceptivo da cor são necessários três elementos básicos: luz, o objeto e o observador. Três variáveis independentes entre si que quando interagem resultam em um significado. [...] Ainda temos os aspectos psicológicos, sociais e culturais envolvidos no processo (GALVÃO, 2011, p.2).

Remetemos também à pesquisa de Guimarães (2006), que se volta para a captação e transmissão de imagens, pautada na relação entre cores e seus significados, por meio da qual ele estabelece a ontogenia das cores na mídia. No entanto, a relação

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Instagram é uma rede social de fotos para usuários de Android e iPhone. Basicamente se trata de um aplicativo gratuito que pode ser baixado e, a partir dele, é possível tirar fotos com o celular, aplicar efeitos nas imagens e compartilhar com seus amigos. Há ainda a possibilidade de postar essas imagens em outras redes sociais, como o Facebook e o Twitter. No Instagram, os usuários podem curtir e comentar nas suas fotos e há ainda o uso de hashtags (#) para que seja possível encontrar imagens relacionadas a um mesmo tema, mesmo que as pessoas que tiraram essas fotos não sejam suas amigas. Disponível em: http://canaltech.com.br/o-que-e/instagram/O-que-e-Instagram/ Acesso em: 01/05/2015. No mundo, o Instagram reúne mais de 300 milhões de usuários ativos mensais, que compartilham cerca de 70 milhões de fotos e vídeos por dia. Disponível em: http://g1.globo.com/economia/midia-e- marketing/noticia/2015/04/instagram. Acesso em: 01/05/2015.

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Selfie é uma palavra em inglês, um neologismo com origem no termo self-portrait, que significa

autorretrato, e é uma foto tirada e compartilhada na internet. Normalmente uma selfie é tirada pela própria pessoa que aparece na foto, com um celular que possui uma câmera incorporada, como um smartphone, por exemplo. Disponível em: http://www.significados.com.br/selfie/ Acesso: 02/05/2015.

entre as cores e os seus possíveis significados não é tão reducionista assim. Guimarães (2006) afirma que esse reducionismo pode minar nossa competência comunicativa diante do uso das cores. Em relação à autobiografia essa característica remete à capacidade reflexiva de o enunciador compreender os matizes que compõem a aquarela de sua existência. E como diz o compositor73: “Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá/ O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar/ Vamos todos numa linda passarela/ De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá”.

Chegamos, finalmente, ao aspecto modal, atrelado diretamente à atitude do observador em relação ao objeto a ser retratado. Como estamos falando de autorretrato, estamos tratando de uma olhar para si mesmo. E como fazê-lo se não lançarmos mão de um necessário distanciamento de nós mesmos?

O distanciamento do objeto a ser retratado é fundamental. Como estamos saindo de nós para visualizarmos a nós mesmos, daí surge a ideia de eu refletido, uma vez que corresponde a uma dinâmica de olhar-se através do espelho. Na perspectiva do autorretrato na tela, Teixeira (2005) afirma que pouco importa essa explicação científica de que a imagem no espelho é invertida. Para a pesquisadora importa a ideia de que incorporado à tela o autorretrato desfaz-se como inverso e torna-se um rosto possível, um eu possível. E assim sendo, esse autorretrato se torna um retrato. “E se assim o é, também o retrato pintado é outro rosto, e aquele que se esconde, porque não é a mim que olha, é também outra face – e há muitas, tantas... É dessa inapreensibilidade de uma única face, de um sujeito uno e fixo que falam todos os auto-retratos[sic]”74 (TEIXEIRA, 2005, 126,127).

Para a narrativa de si na autobiografia, essa questão da imagem refletida é extremamente pertinente. A observância desse detalhe nos leva à consciência de

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Trecho da composição: Aquarela de Toquinho ,Vinicius de Moraes, M. Fabrizio e G. Morra. Disponível em: http://www.letras.com.br/#!toquinho/aquarela Acesso em: 02/05/2015.

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Teixeira (2005) faz uma discussão mais consistente em relação aos diversos autorretratos de famosos pintores da história. A visão da pesquisadora ao analisar os autorretratos pela perspectiva pictórica dialoga com nosso conceito de autobiografia de desnudar-se diante do outro de modo a lançarmos luz sobre o nosso melhor ângulo. Ela afirma, pois, que a criação dos autorretratos dos pintores não correspondiam a cópias fiéis dos pintores. “Mentia o Leonardo que se retratava muito mais velho, para figurar como o sábio que gostaria de legar como imagem ao futuro; mentia o Rembrandt de baixa estatura ao se monumentalizar nas pinturas, mentia Bacon quando apagava o rosto que lá estava, mentiram todos, para nos iludir, nós que queríamos tanto saber exatamente como eram, de que cor eram seus olhos, quantas rugas tinham na testa, de que modo seus braços pendiam sobre o corpo. Mentiam para nos certificar que é de ilusão que a arte se faz, para que saibamos ver neles a ilusão do que somos” (TEIXEIRA, 2005, p. 126,127).

sabermos que ao construímos a imagem de si, o fazemos numa perspectiva de projeção, o que implica na narrativa do si como se fosse si (MAIA-VASCONCELOS)75.

Pensemos inicialmente nos elementos que corroboram para uma autorreflexão pictórica no autorretrato musivo. Linhas, cores e formas são avaliadas, reavaliadas e combinadas sob diferentes ângulos e perspectivas.

Ao abordar a ontogenia das cores e a organização do seu repertório simbólico, Guimarães (2006) afirma que mesmo que as cores não possuam autonomia significante suficiente, elas participam da informação visual. Este fato se deve justamente porque a cor pode incorporar valores, como já foi mencionado, a partir de regras, valores e parâmetros constituídos por sistemas ou campos semânticos (religião, política etc.) e sua influência na comunicação visual merece atenção diferenciada. Desse modo, ao organizar o repertório simbólico das cores, subjacente aos princípios norteadores da cor- informação, o autor pressupõe que as camadas de significação das cores funcionam como filtros na construção da expressão das cores.

Na mesma perspectiva de que existem parâmetros que norteiam o senso comum a considerar simbolicamente, na nossa sociedade, que o branco simboliza paz, que o preto simboliza luto, que o amarelo simboliza alegria e tantas outras relações possíveis76, há igualmente também parâmetros constitutivos, subjacente a filtros sociais, que são levados em consideração quando o sujeito, mediante o pacto autobiográfico, constitui-se enunciador na autobiografia e se propõe a construir sua narrativa e olhar reflexivo sobre si.

No que tange à materialização pelo viés metafórico do autorretrato musivo, ela se engendra na junção paulatina e combinatória de várias tesselas77

, já a materialização linguística da corporificação tecnoautobiográfica é apreendida a partir da junção combinatória das vivências episódicas78 que ao serem combinadas vão engendrando a inscrição do corpo na narrativa na medida em que as cadeias de mudanças também vão sendo constituídas na intriga narrativa, conforme propõe Ricoeur (1994) na mimese II.

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Maia-Vasconcelos ressalta que o Grupo Gelda trabalha com a perspectiva do reflexo, e todo reflexo é uma visibilidade distorcida de uma imagem que organizamos como sendo nossa. Dessa maneira, todo “si” é sempre “como se fosse si”.

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Padrões reducionistas estabelecidos pelo senso comum (GUIMARÃES, 2006).

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Cubo ou peça de mosaico.

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Sendo assim, metaforicamente, as tesselas estão para a composição do mosaico como as vivências episódicas estão para a contextura da narrativa tecnoautobiográfica.

Novaes (2007, s.p.) afirma que autorretrato “é um instantâneo do momento em que o sujeito se encontra, mas não por muito tempo”. Para a autora o autorretrato pode ser traduzido como a “metáfora da contemporaneidade e suas identidades nômades”. Destarte, toda construção mosaica é única em cada associação feita, se pensarmos nas infindáveis viabilidades de fixidez das tesselas que garantem as incontáveis possiblidades de construção do mosaico.

De acordo com o viés linguístico a corporificação tecnoautobiográfica, nossas vivências episódicas nos garantem também uma infinidade de possibilidades de narrativas de si. Mesmo que tenhamos os mesmos episódios formando o todo que é a nossa história de vida não teremos a repetição exata de uma mesma combinação narrativa, uma vez que, assim como cada instante vivido é único, cada percepção que temos a respeito desse instante é única também. Assim sendo, sempre que contamos a nossa história, ela será ressignificada e nessa mesma proporção a incursão corpórea atestará sua sensibilidade ao ressonar subjetivamente a experiência vivida de modo a revelar-se como experiência somato-psíquica (BOIS, 2006) sempre como uma experiência original de reinvenção de si. Do mesmo modo, sempre que o mosaicista elenca tesselas para sua obra, nessa fase pré-figurativa, elas representam apenas o estado de vir-a-ser um mosaico. Até que chegue o momento de criação e a obra figure produzida na sua materialidade artesanal e simbólica.

A título de exemplificação, escolhemos algumas tesselas e cores para um mosaico que a posteriori figurará como uma amostra digital do nosso autorretrato musivo baseado na nossa tecnoautobiografia apresentada no avant-propos da tese. Elas continuariam sendo apenas tesselas digitais dispersas e coloridas, tais como a figura 3, se não fosse o nosso desejo de empreender uma criação musiva de si. É a ação subjetiva de uni-las e buscar um arranjo harmônico que torna possível a criação musiva de si.

Figura 3 - Tesselas de mosaicodigital

Cores e formas foram inúmeras vezes alinhadas e combinadas sob diferentes ângulos e perspectivas para que o mosaico, finalmente, criasse a forma desejada. Como podemos visualizar na junção imagético-discursiva na figura 4.

Destarte, considerando o caráter autopoiético das narrativas autobiográficas e toda carga simbólica da arte musiva, finalizamos a presente subseção sumarizando nossa proposta conceitual na apresentação de um quadro síntese do projeto artesal de si mediante a corporificação tecnoautobiográfica e o autorretrato musivo, pelos viéses linguístico e metafórico respectivamente.

Figura 4 - Autorretrato digital musivo

Quadro 5- Síntese do Projeto artesal de si

PROJETO ARTESAL DE SI

Corporificação tecnoautobiográfica Autorretrato musivo Princípio temporal Princípio

material Princípio modal Princípio temporal Princípio material Princípio modal caráter dinâmico caráter

musivo caráter artesanal caráter dinâmico caráter musivo caráter artesanal Adequação moral ao contexto histórico Essência autorreflexiva (referente aos hábitos, modos e costumes) Essência Autopoiética Adequação estética ao contexto histórico Essência figurativa (Linhas, cores e formas) Essência reiventiva79 Contexto histórico subjacente à narrativa tecnoautobiográfica Vivências episódicas rememoradas Constituição da narrativa a partir das vivências episódicas rememoradas Contexto sócio- histórico subjacente à criação artística Tesselas Constituição do mosico a partir da junção/arranjo das tesselas Fonte: elaborado pela autora.

Ressalatmos, mais uma vez que a originalidade de cada produção musiva assemelha-se à essência das narrativas autobiográficas, que, dado seu caráter ressignificativo, assegura a cada história narrada sua singularidade. Sendo assim, um projeto mosaico, embora com tesselas semelhantes, implica num processo criativo de distintas nuances, novos olhares, novas formas. A arte musiva também tem seu caráter simbólico e para que seja possível esse processo de visualização metafórica, é necessário um olhar analítico, para além da observação apenas de suas formas e de suas cores constituintes.

Encerrada a etapa de fundamentação da narrativa autobiográfica como um projeto artesal de si. Nessa subseção seguinte, abordaremos o ethos discursivo. Iniciamos fazendo uma breve contextualização histórica de abordagem sobre a noção de sujeito que figurará como enunciador na narrativa tecnoautobiográfica e, por conseguinte, à isntância discursiva (fiador) ao qual o ethos discursivo está atrelado. Discorremos também brevemente sobre a natureza da narrativa tecnoautobiográfica sobre a qual se incursionará o sujeito em questão. Todas essas questões postas se justificam pela natureza não mecânica que interliga qualquer prática humana (FERRAROTTI, 2010) e, por conseguinte, também a construção do récit de vie pelo professor. Salientamos, ainda, que ao considerarmos a existência do pacto

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Diz respeito à infinidade de formas possíveis de arranjo das tesselas no processo criativo do mosaico, considerando a circunstância temporal de sua criação.

tecnoautobiográfico (LEUJENE, 2014), assumimos a existência (e mesma correspondência de identidade) dos sujeitos autor e narrador na escrita do récit de vie. A esse narrador, Maingueneau (2011) se refere como sendo o enunciador e ao leitor como coenunciador, o enunciador também pode ser referido por locutor. Nessa subseção optamos por usar o termo enunciador, por vezes, usamos também o termo narrador (do récit de vie) como seu sinônimo.

Benzer Belgeler