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Porselen Karo Parlatma Atıklarından Üretilen Gözenekli

Os seres humanos se “apresentam” ao mundo por meio de feitos e palavras (ARENDT, 1995a, p. 28). Os seres humanos, eles próprios, indicam como

querem aparecer, isto é, aquilo que deve ou não ser visto pelos demais. Esta

característica de escolha deliberada parece ser específica dos seres humanos e não provém de nenhum aparelho interno, pois se assim o fosse, todos os seres humanos se mostrariam da mesma maneira, agiriam e falariam do mesmo modo e teriam idênticas impressões acerca do mundo. Como ilustração, pode-se ver isto demonstrado nos sintomas típicos de uma doença qualquer, isso é, as queixas fisiológicas são muito parecidas, porque os aparelhos internos são quase idênticos, mas a intensidade e as emoções decorrentes causam queixas muito distintas. Disso se conclui que a individuação e a distinção dos seres humanos ocorre no discurso.

Aristóteles pode auxiliar mais uma vez para confirmar a ideia de que a distinção e a individuação ocorrem no discurso, isto é, no uso dos verbos e substantivos, que são produtos do espírito e não da alma. As afecções da alma são naturalmente expressas por sons inarticulados – aqueles produzidos pelos animais – que, por sua vez, também revelam algo, mas esta revelação sempre está ligada a algum processo interno físico, como por exemplo, dor, fome, medo etc:

O que é proferido são símbolos de afecções da alma, e o que é escrito são símbolos de palavras faladas. Como a escrita, também a fala não é a mesma para todos. Entretanto, aquilo de que estas [a escrita e a fala] são símbolos, as afecções [pathemata] da alma, são as mesmas para todos. [...] Os substantivos e os verbos assemelham-se [oeiken] ... aos pensamentos [noemasin]. (ARISTÓTELES apud ARENDT, 1995a, p. 28. Grifos no original).

Os indivíduos se apresentam ao mundo através do discurso e podem escolher como querem se apresentar. “[...] o sucesso e o fracasso da iniciativa de auto-apresentação dependem da consistência e da duração da imagem assim apresentada ao mundo [...].” (ARENDT, 1995a, p. 29). Há, portanto, que se ter o cuidado em diferenciar autoapresentação e autoexposição. A autoexposição refere- se à exibição das características que o ser vivo já possui; a autoapresentação

refere-se ao uso que o indivíduo faz da capacidade reflexiva inerente às atividades espirituais, conseguindo com isso perceber-se a si mesmo – autoconsciência. Pode- se dizer que a reflexão inerente à atividade do pensar conjuntamente com a atividade da vontade leva o indivíduo a escolher como ele quer se “apresentar” ao mundo. Esta autoapresentação pode ser sincera ou hipócrita e somente a consistência da autoapresentação e sua permanência no tempo poderão dizer se ela foi “real” ou não (ARENDT, 1995a, p. 28 e 29). É possível inferir, a partir do exposto, que há uma certa associação entre autoexposição e alma e entre autoapresentação e espírito. A alma e a autoexposição têm um nível de expressividade rápido, pois estão relacionados às reações e às características físicas; por outro lado, o espírito e a autoapresentação necessitam do discurso para poderem se mostrar efetivamente, portanto, são mediadas pela reflexão, pelas atividades contemplativas. Mesmo que a reflexão aconteça na interioridade, só se torna manifesto pelo discurso, que, por sua vez, exige espectadores para atestar sua realidade; o mundo público permanece essencial. É como dizer que o significado só faz sentido no mundo público, quando aparece na esfera da ação, no entre-os-homens.

Para tornar mais claro o conceito de aparência de Arendt, pode-se tomar um dizer de Sócrates: “Seja como quer aparecer.” (SÓCRATES apud ARENDT, 1995a, p. 30). Para a autora, esta assertiva significa que cada um deve ser como quer aparecer para os demais; mesmo quando se está em solidão, deve- se seguir esta máxima, pois o indivíduo aparece não apenas para os outros, mas para si mesmo. Assim, Ser e Aparecer coincidem. Além disto, se o indivíduo assim agir, estará realizando um ato de escolha deliberada – liberdade da vontade –, pois fez uma escolha entre outras tantas potencialidades de conduta. Seria destes atos de escolha deliberada que surge, para Arendt, o caráter ou a personalidade do indivíduo. O caráter seria:

[...] conglomerado de um número de qualidades identificáveis, reunidas em um identificável todo compreensível e confiável, e que estão, por assim dizer, impressas em um substrato imutável de talentos e defeitos peculiares à nossa estrutura psíquica e corporal. (ARENDT, 1995a, p. 30).

É possível entender, a partir de Arendt, que o indivíduo é autor de sua identidade – singularidade. E como ser singular, ele aparece. Aparece porque pode comunicar, pode mostrar-se aos demais – condição para a pluralidade. Assim, o ser

humano apresenta-se numa condição paradoxal, pois é um ser que, ao mesmo tempo, participa do mundo humano, do mundo das aparências e pode se retirar deste mundo de aparências, uma vez que possui faculdades espirituais – pensamento, vontade, juízo – sem, contudo, jamais poder deixar definitivamente o mundo humano. O que não se pode perder de vista jamais é o todo da condição humana, a relevância de todos os aspectos da condição humana. Enquanto seres humanos, homens e mulheres são condicionados tanto ativa quanto contemplativamente e, por isso, é fundamental estabelecer que os seres humanos

são do mundo e não apenas estão no mundo. Por outro lado, isso pressupõe que as

atividades do espírito estão ligadas de alguma maneira ao mundo da aparência, isso é, que as atividades do espírito são visíveis, se mostram, na esfera da ação pelo discurso.

O mais importante acerca da discussão sobre a aparência empreendida até o momento parece ser a pista encontrada para a pergunta: as atividades do espírito estão destinadas a aparecer ou estas atividades invisíveis e sem som nunca encontrarão lugar neste mundo? Procurou-se demonstrar que cada indivíduo é dotado de identidade própria e única, que é reconhecida através e pelo outro; cada um é visto e ouvido pelos demais, que por sua vez, também são vistos e ouvidos; tudo isto dentro de um intervalo de tempo que vai do nascimento a epifania. Assim, ser e aparecer coincidem: sem este mundo, o das aparências, em que as interações acontecem, não seria possível ao ser humano ser. Os seres humanos participam do mundo das aparências e, ao mesmo tempo, podem se retirar dele, uma vez que possuem a faculdade de pensar – faculdade esta que permite a este ser vivo se retirar sem, contudo, jamais poder deixar ou transcender definitivamente o mundo das aparências.

3.1.3 Busca Por Significado, Não Por Verdade