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DÖRDÜNCÜ BÖLÜM GALATASARAY’DA POPÜLİZM

4.4. Popülist Kayırmacılık: ultrAslan ve Yönetim İlişkis

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INÊS CABRAL in ABRANTES, 2011, p. 114.

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A esquerda é a posição da vida autêntica. Nem é a morte morta, nem a vida morta, isto é, ordinária, corriqueira, do conformismo, do assujeitamento a ordem hegemônica – é a potência vital, polimorfa pois errante. A amorfia da morte propriamente dita é da ordem da inexistência, portanto, não é liberdade, pois é nada, a nadificação propriamente dita do ente e do ser. A forma fechada, evidente, é da ordem do dia, da hegemonia, do engessamento, da garantia policialesca – covardia. Nem todos conseguem enxergar no escuro, andar pela noite, na faixa da esquerda. E não estamos aqui falando de posicionamento político, dessa política dos cidadãos; estamos falando de resistência, pois a vida é resistência, a forma autêntica da vida que só se dá com o entrelaçamento da pulsão de vida e da pulsão de morte. O mal de braços e abraços com o bem num romance astral, como dizia Raulzito.

Bernardo Carvalho, que é escritor, aborda em sua conferência na Escola Letra Freudiana a questão da resistência na literatura. Discorre sobre o plano social da literatura, o estrondoso crescimento do mercado e consumo norte- americano no qual autores como Kafka, Borges, Beckett e Bernhard já não representam referência para nada.

A literatura hoje ou é expressão da experiência ou então é memória, diário, autobiografia. Ou quando é romance é um tipo de literatura que toca direto no mais básico do humano, é o realismo que emociona, um realismo psicológico, dramático, com grande apelo sensibilizador. (CARVALHO, 2011, p. 134).

Diz ainda que Maurice Blanchot funciona hoje, para ele, como uma resistência, ao ponto de considerar que esteja numa posição crítica quase militante. Para exemplificar o atual estado das coisas no plano socioeconômico da literatura, menciona o fato de que mesmo numa revista de prestígio como a estadunidense New Yorker, “existe uma tendência, muito comum no mundo anglo-saxão atual – que por questões econômicas óbvias se impôs como o padrão –, de ironizar e desvalorizar quase tudo o que vem da tradição literária francesa”. E complementa: “Uma editora me disse outro dia que ‘literatura francesa não viaja bem’”. Segundo Bernardo ela estava apenas reproduzindo o que dizem os norte-americanos e os ingleses, isto é, que “a literatura francesa acabou, no fundo porque é um modelo diferente do deles”. Conclui

rapidamente que “se literatura tiver de ser cultura de massa, e vender como cultura de massa, a francesa não viaja bem. A tradição francesa foi associada a uma literatura ‘cerebral’, mais ‘experimental’, tipo fria, que é um saco de ler”. Não é segredo para ninguém, e bem ressalta o escritor, que “essa é a percepção do mercado americano que, para completar, é naturalmente protecionista e paroquial”.217

Estamos de acordo com Bernardo ao sustentarmos que a literatura não

é isso, não se compactua com qualquer modelo ideal, essencialista, pois,

segundo o que apreendemos até então, o próprio da literatura é justamente o contrário. O próprio da literatura é o ímpeto poético que não é outra coisa senão a afirmação da vida, afirmação da vida mesmo na morte, isto é, na dissolução das formas já constituídas em que se brota algo autêntico, algo verdadeiramente novo porque atemporal, fora do tempo. O fato do ímpeto literário, o fazer poético se manifestar e se traduzir no tempo, na história, não implica uma subordinação à cronologia, ao Kronos, pois é sempre da ordem da irrupção, do tempo oportuno, do Kairós. É o corte de uma linha vertical na linearidade horizontal da história. O que fazem as bestas americanas é tentar reduzir a literatura cada vez mais a “um único gênero e a um único modelo e essa redução é contrária à própria ideia de literatura como ela acabou sendo definida na modernidade ocidental”.218

Mas embora Blanchot e Beckett pareça a Bernardo de Carvalho uma alternativa a um mundo do consenso, uma resistência, este considera que “[...] parece que dentro da própria tradição francesa, em Blanchot sobretudo, existe um germe do suicídio da literatura”. A percepção de Bernardo é que cria-se “uma tal consciência da língua e da linguagem, que é impossível continuar produzindo, porque é como se você teorizasse tudo aquilo de tal maneira, que esgotasse a própria possibilidade de criação”.219 Consideramos isso, todavia, algo como uma experiência de sideração semelhante ao caso de Paloma Vidal ao se deparar com A paixão segundo G. H. de Clarisse Lispector. Após tomar fôlego acima do nível do mar, alguns voltam a mergulhar.

217 CARVALHO, 2011, pp. 134-135. 218 Ibidem, p. 35.

Mas para Bernardo algo está claro, “a história funciona por dualismos, tem sempre um embate e uma hora ganha um lado, outra ganha o outro” 220. Esses lados que o escritor cita é de todo modo os lados da vida ordinária, que toma as maiores partilhas dos movimentos sociais como realidade, mas que não passa de uma simplificação de muitas outras oposições, conglomerados ideacionais que no fim das contas se repartem indefinidamente até as primeiras oposições significantes de cada sujeito. Olinto Pegoraro já tentara estabelecer em termos freudianos esse dualismo já proposto por Freud, mas estendendo-o ao nível, nunca ambicionado pelo fundador, de uma metafísica, isto é, transformando o dualismo pulsional numa proposta de filosofia psicanalítica. Embora discordemos do objetivo proposto por Pegoraro, seu estudo redunda num dualismo tanto macropolítico como metafísico, algo talvez próximo àquilo que Bernardo identifica no âmbito literário. Mas o que nos importa não é tanto o conteúdo das obras que tomamos como sendo de resistência, mas a própria resistência que representa que algo germina mesmo em solo ressequido, de desenvolvimento improvável. É o próprio ímpeto poético, o caldo fantasmático que se situa entre a morte e a vida – entre o irrepresentável e a potência representacional, entre o fator disjuntivo (pulsão de morte, de destruição) e o fator conjuntivo (pulsões de vida), entre o caos e a ordem, entre o além do psiquismo e o aparelho ficcional, gerador de representações – a verdadeira resistência, que excita e ateia fogo a mente, que faz a alma flamejar e elevar o nível psíquico, que nos potencializa a viver autenticamente – é isso que nos importa.

Trocando em miúdos, o que Bernardo critica é a posição hegemônica de um determinado gênero literário que ofusca ou mesmo desqualifica os demais, e cuja estrutura vem a responder a esse desejo estereotipado, de massa:

[...] o que o cara que está comprando um livro hoje quer é exatamente a identificação mais imediata com os personagens ou com a história. Não quer saber de ideias ou mediações literárias. Por isso é que a autobiografia, a literatura de expressão, de experiência, é cada vez mais forte (CARVALHO, 2011, p. 136).

Contra essa hegemonia é preciso que alguém resista e tenha coragem de dizer “Eu estou escrevendo, mas dane-se se vão ler, dane-se se isso faz

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parte do mundo, se vai ser inserido nesse mundo do consenso ou não”.221

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