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1. POPÜLER KÜLTÜR KAVRAMI ÜZERİNE

1.5. POPÜLER KÜLTÜR

A psicologia de grupos é caracterizada pela abrangência conceitual e pela multiplicidade de suas raízes. O resultado dessa complexidade é a variedade de concepções teórico-práticas que será possível explanar aqui somente de forma panorâmica, dado o foco principal do objeto desta pesquisa. Segundo Zimerman (1999), os principais referenciais teóricos vieram de áreas como a sociologia, a antropologia, a psicologia social e a psicanálise, criando, assim, mesclas no campo das ciências sociais. Dessa maneira, os sociólogos descreviam as formas de organização das famílias, das gangues, dos grupos de trabalho, dos grupos militares, dentre outros; por sua vez, os psicólogos estavam interessados na influência que os grupos tinham nos indivíduos e, de forma dialética, nas formas como os indivíduos influenciavam as dinâmicas dos grupos. Os antropólogos, por sua vez, estudavam grupos tradicionais e com funcionamento muito diverso dos enraizados na cultura industrial contemporânea. Os psicanalistas abordavam os grupos transpondo a dinâmica de leitura clínica para as formas de organização e manutenção dos mesmos. De forma resumida, segundo Zimerman (1999) as principais vertentes da psicologia de grupos podem ser classificadas em:

• Empírica – desenvolvida por J. Pratt, a partir de 1905, num hospital nos Estados Unidos, consistia numa reunião com os pacientes para falar sobre o tratamento deles.

• Psicodramática – inaugurada por Jacobo Levy Moreno e baseada em práticas de encenações conhecidas hoje como teatro de improvisação e na corrente de teoria grupal chamada psicodrama.

Sociológica – inspirada em Kurt Lewin, criador da expressão dinâmica de grupo e responsável por importantes contribuições nesta área.

• Filosófico-existencial – com contribuições de Jean Paul Sartre, que cunhou a expressão totalidade grupal.

• Grupos operativos – desenvolvida por Pichon Rivière, que propõe o foco na “tarefa do grupo”, ampliando o referencial teórico-prático para além dos conteúdos terapêuticos.

• Institucional – mais desenvolvida por Elliot Jacques, com foco nos jogos de papéis e posições nos grupos.

• Grupos comunitários – teoria centralizada na formalização e institucionalização de “comunidades terapêuticas”.

• Comunicacional-interacional – focalizada nos tipos de comunicação dos grupos e desenvolvida principalmente pelo psicanalista D. Liberman.

• Gestáltica – interessada na melhora da percepção e comunicação nos grupos a partir da teoria da Gestalt.

• Teoria Sistêmica – interessada no mapeamento do “equilíbrio do grupo” a partir da distribuição dos papéis de seus membros, principalmente dentro da família.

• Cognitivo-comportamental – de origem comportamentalista e com foco na reeducação.

• Teoria psicanalítica – com abordagem do imaginário e do inconsciente dos grupos, dos processos de identificação, dinâmicas de transferência e contratransferência, dentre outros termos transpostos da atividade clínica psicanalítica.

Ainda que diversos, Zimerman e Ozório (1997) propõem separar as abordagens de grupos pela sua finalidade e, por isso, partindo de uma divisão genérica, classificam-nos em operativos e psicoterápicos. Os grupos operativos são organizados a partir de seu esquema conceitual-referencial-operativo (Ecro), conceito desenvolvido por Pichon Rivière e que diz respeito a uma tarefa objetiva do grupo, como, por exemplo, a de ensino-aprendizagem, a de saúde-cuidado, dentre outras. Apesar de os grupos operativos desenvolverem funções terapêuticas, o foco deles são seus esquemas referenciais, ou seja, a tarefa. A segunda classificação, os grupos terapêuticos, “se destinam prioritariamente à aquisição de insight, notadamente, dos aspectos inconscientes dos indivíduos e da totalidade grupal” (ZIMMERMAN e OZÓRIO, 1997, p. 78). Esses autores ressaltam que não há um corpo teórico-técnico que possa ser considerado comum às psicoterapias de grupo e, por isso, nessa categoria podemos incluir as abordagens psicodramática, sistêmica, cognitivo- comportamental, psicanalítica e holística, a despeito de suas diferenças conceituais.

Como a diversidade está presente nas concepções teórico-práticas dos grupos, conceituar o que seja um grupo é tarefa repleta de tensões. Para Bleger (1980, p. 87),

um grupo é um conjunto de pessoas que entram em interação entre si, porém, além disso, o grupo é, fundamentalmente, uma sociabilidade estabelecida sobre um fundo de indiferenciação ou de sincretismo, no qual os indivíduos não tem existência como tais e entre eles atua um transitivismo permanente.

No entanto, para Zimerman e Ozório (1997, p. 27), a linha que separa indivíduo e grupo parece ser mais tênue, pois eles afirmam que

todo indivíduo é um grupo (na medida em que, no seu mundo interno, um grupo de personagens introjetados, como os pais, irmãos, etc., convivem e interagem entre si), da mesma maneira como todo grupo pode comportar-se como uma individualidade.

Continuando sua proposição, Zimerman e Ozório (1997, p. 27) acrescentam que

a palavra “grupo” tanto define, concretamente, um conjunto de três pessoas (para muitos autores uma relação bipessoal já configura um grupo) como também pode conceituar uma família, uma turma ou gangue de formação espontânea; uma composição artificial de grupos como, por exemplo, o de uma classe de aula ou a de um grupo terapêutico; uma fila de ônibus; um auditório; uma torcida num estádio; uma multidão reunida num comício, etc. Da mesma forma, a conceituação de grupo pode se estender até o nível de uma abstração, como seria o caso de um conjunto de pessoas que, compondo uma audiência, esteja sintonizado num mesmo programa de televisão; ou pode abranger uma nação, unificada no simbolismo de um hino ou de uma bandeira, e assim por diante.

Os autores propõem subdividir os grupos em grandes – pertencentes à área da macrossociologia – e pequenos – da micropsicologia. Eles advertem que, apesar da subdivisão, não significa que as dinâmicas dos dois grupos sejam tão diferenciadas, pois os pequenos grupos guardam profundas relações e características socioeconômicas e políticas com os grandes grupos. Ainda com relação aos pequenos grupos, principal foco desta pesquisa, Zimerman e Ozório (1997) e Zimerman (1997) diferem de agrupamento. O espaço de inter-relacionamento de pessoas em um ponto de ônibus, por exemplo, guarda o sentido de que elas compartilham o mesmo interesse, apesar de não haver vínculo, ou seja, as pessoas são um agrupamento, uma serialidade. No entanto, se ocorre algum incidente em que esse agrupamento passe a funcionar de modo interativo, ele se transforma em um grupo, pois de interesses comuns eles se transformam em aqueles que têm interesses em comum.

Um grupo não é só um aglomerado de pessoas: ele tem sua própria dinâmica, que é regulada, principalmente, pelos interesses em comum de seus membros, e se caracteriza também por ter um certo enquadre (setting), ou seja, regras, atitudes e combinados, dentro do grupo; funciona como uma totalidade, pois está organizado em torno de seus membros, que também retroalimentam o seu processo; e deve preservar a identidade individual, constituindo-se, concomitantemente, como entidade, como identidade grupal própria e genuína. Em todo grupo há forças contraditórias e paradoxais, pois alguns movimentos e dinâmicas inerentes ao processo de grupo propiciam a coesão, e outros, a desintegração; há, necessariamente, interações afetivas variadas, múltiplas e cambiantes; há hierarquia (em maior ou menor grau) de distribuição de papéis; e, por fim, há o denominado campo grupal dinâmico, em que gravitam forças coesivas e destrutivas, mecanismos de obscurecimento e/ou

revelação de afetos, fantasias e ansiedades, jogos e estratégias de compartilhamento de valores, dentre outros.

Dada essa explanação, é possível entender que um grupo funciona como uma espécie de microcosmo, pois podemos encontrar nele toda a dinâmica de relações humanas, com suas forças, configurações e dinâmicas. Nesse sentido, o conceito de campo grupal é de importância fundamental para esta pesquisa, pois ele explica o movimento do grupo, ou seja, seus múltiplos elementos, fenômenos e composições. No campo da psicologia, é comum explicitar o campo grupal como uma espécie de ambiente com características intra e intersubjetivas. No primeiro caso, os conteúdos inconscientes, os mecanismos defensivos intrapsíquicos, a estrutura de formação psíquica, com suas diversas formas e dinâmicas, são temas centrais que configuram as chamadas características intrapsíquicas, que, no caso do grupo, se organizam naquele contexto específico. No segundo caso, as dinâmicas intersubjetivas dizem respeito a um jogo ativo de relações no contexto do grupo, ou seja, o foco sai do interior, do individual e se direciona para os processos interacionais e microssociais do grupo. Esta pesquisa focalizará este segundo aspecto, ou seja, as dinâmicas intersubjetivas e, mais especificamente, os jogos de posicionamento e as configurações vinculares do grupo, como explicitado a seguir.

Os jogos de posicionamento, em primeiro lugar, dizem respeito aos diversos lugares que os participantes assumem na interação. Eles não são fixos, mas intercambiantes, construídos e reconstruídos através das práticas discursivas que os sujeitos veiculam, ou, melhor dizendo, constituem-se como formas identitárias, com diversas posições pessoais e morais. Muitas vezes, os posicionamentos dentro do grupo podem se apresentar com formas estereotipadas, tais como o líder, o engraçado, o raivoso, assumindo, assim, configurações mais cristalizadas. No entanto, a partir de uma perspectiva semiótica, o que nos interessa neste estudo é identificar os movimentos e forças dos participantes dentro do grupo, especificamente, como eles manejam e constroem os significados de suas posições identitárias e de poder na dinâmica do grupo.

Em segundo lugar, identificar as configurações vinculares dentro do grupo assume ponto central nesta pesquisa, pois o significado é produzido numa interação como laço, como união e como articulação. Assim, preferimos a expressão configurações vinculares no lugar de vínculo grupal, pois ela diz mais do processo de articulação e sua dinâmica, que pode ser também, à equivalência dos jogos de posicionamento, móveis e com múltiplas configurações. As configurações vinculares podem ser identificadas quando os participantes expressam afetos, chamam os colegas para assumir com eles a cumplicidade de uma proposição e/ou não

reconhecem algo que outro membro do grupo está dizendo ou assumindo, ou seja, as semióticas que eles usam para produzir determinado significado relacionado com a busca de vínculos no processo grupal.

Os jogos de posicionamento e as configurações vinculares acontecem concomitantemente no grupo e são separados aqui por uma questão de pedagogia, já que a linha que separa um e outro é opaca, com pouca definição. Isso se dá por causa da própria dinâmica do grupo, pois no momento em que há a expressão de um posicionamento, há também a criação de vínculos que podem referendá-lo ou rejeitá-lo. Dessa forma, o grupo vive uma complexa rede semiótica de articulação entre seus membros, atraindo ou repelindo posições e valores, numa constante negociação compartilhada.

Entender a semiótica de um grupo como complexas junções de elementos está condizente com uma tendência atual dentro dos estudos linguísticos que propõem estudar os significados como formas combinadas de escolhas na rede do sistema linguístico (KNIGHT, 2010). Tal conceito linguítico será mais desenvolvido no capítulo 2 deste trabalho, e o importante a ser destacado aqui é a congruência de formas de leitura de um fenômeno a partir de sua complexidade, articulação e arranjo sistemático, ou seja, olhando para o todo e, ao mesmo tempo, visualizando suas partes constituintes, movimento analítico que se apresenta como tendência em campos aparentemente distintos, como a psicologia social, como suas leituras dos processos grupais, e como a linguística e a semiótica, com suas leituras de produção de significado. Segundo Martin (2008 apud KNIGHT, 2010), para os estudos linguísticos, tal perspectiva pode se tornar fonte inspiradora das análises, pois amplia o olhar dos pesquisadores ao sair da descrição da frequência de determinadas expressões particulares e focaliza as formas de produção de significados com/por meio de vários modos e recursos semióticos.

No capítulo a seguir, veremos, de forma detalhada, o referencial teórico dos estudos sócio-semióticos utilizados nesta pesquisa.

Benzer Belgeler