Entre os marcos teórico-conceituais da APS destaca-se a publicação do livro “Primary Care: Balancing Health Needs, Services, and Technology”, da Professora Bárbara Starfield, em 1998. O livro traz evidências sobre o papel da APS nos sistemas de saúde, evidências científicas dos seus impactos na saúde da população, e compara o custo benefício entre países com diferentes formas e em diferentes graus de implantação dessa estratégia, além de propor uma estrutura para mensuração da APS e definir seus atributos.
Historicamente, a APS tem sido caracterizada pelo tipo de profissional que nela atua, em que espera-se que haja predominância de especialistas em APS nas unidades de saúde. Entretanto, a maior limitação para esse tipo de caracterização é que o perfil de profissionais que atuam em serviço de APS pode variar de país para país. A primeira descrição sobre APS que considerou a natureza dos problemas de saúde, pelo local da prestação do atendimento, pelo padrão de encaminhamento, pela duração da responsabilidade, pelas fontes de informação, pelo uso de tecnologia, pela orientação do interesse e pela necessidade de treinamento foi feita em 1961 por White, Willians e Greenberg. O estudo revelou que em uma população de risco de 1000 pessoas adultas, com 16 anos ou mais, 750 experimentaram algum episódio de doença, 250 procuraram médicos generalistas, destes 9 foram hospitalizados, 5 encaminhados para outro especialista, e 1 referenciado para hospital de alta complexidade.
Entretanto, esta abordagem, embora geralmente útil para ilustrar a singularidade da APS, não oferece uma base apropriada para o estabelecimento de medidas e metas de desempenho nos serviços de APS (STARFIELD, 2002).
Em 1978 o Institute of Medicine American (Instituto de Medicina) sugeriu uma abordagem para avaliar a APS em que listou seus atributos como: acessibilidade, integralidade, coordenação, continuidade e responsabilidade. Este foi um marco importante na tentativa de delinear um método normativo para medir a APS. Contudo, a maioria dos indicadores e definições sugeridas não eram específicos da APS. Os indicadores selecionados exigiam um alto nível de desempenho e eram difíceis de serem atingidos, e centravam-se na capacidade instalada de serviços e não na sua realização concreta (STARFIELD, 2002)
Um relatório de 1996 da mesma instituição, definiu a APS como a oferta de serviços integrados e acessíveis por meio de clínicos que sejam responsáveis por atender a uma grande maioria de necessidades pessoais de atenção, desenvolvendo uma parceria constante com os pacientes e trabalhando no contexto da família e da comunidade. Essa definição não inclui o primeiro contato e enfoca a atenção individual (DONALDSON et al., 1996 apud STARFIELD 2002).
A Associação Médica Canadense, em 1996, considerou a APS como porta de entrada do sistema de saúde e inclui intervenções comunitárias na definição das funções da APS. No mesmo ano é divulgada a Charter for General Practice/Family Medicine in Europe (Carta para Clínica Geral/Medicina de Família na Europa), que descreve 12 características para a APS:
1. Geral: não é restrita a faixas etárias ou tipos de problemas ou condições.
2. Acessível: em relação ao tempo, lugar, financiamento e cultura.
3. Integrada: realiza ações de promoção, prevenção, cura e reabilitação da saúde.
4. Continuada: longitudinalidade ao longo de grandes períodos de vida.
5. Equipe: médico é parte de um grupo multidisciplinar.
6. Holística: perspectivas físicas, psicológicas e sociais dos indivíduos, das famílias e das comunidades.
7. Personalizada: atenção centrada na pessoa e não na enfermidade.
8. Orientada para a família: problemas compreendidos no contexto da família e das redes sociais.
9. Orientada para comunidade: considera o contexto de vida da comunidade; tem conhecimento de necessidades de saúde da comunidade; colaboração com outros setores para desencadear mudanças positivas na saúde.
10. Coordenada: coordenação de toda a orientação e apoio que a pessoa recebe. 11.Confidencial.
12. Defensora: defensora do paciente em questões de saúde sempre e em relação a todos os
outros provedores de atenção à saúde.
Donabedian (1978) sistematizou um conjunto de variáveis importantes que podem avaliar a qualidade de um sistema ou serviço de saúde e classificou de acordo com suas características em estrutura, processo e resultado. A avaliação do processo inclui a qualidade dos serviços prestados pelos profissionais de saúde individualmente ou em grupo e
referem-se à qualificação profissional, organização e coordenação do processo de trabalho das equipes. A avaliação da estrutura abrange as condições do ambiente e equipamentos em que os serviços são prestados e os resultados são avaliados, a partir da verificação de mudanças no estado de saúde de uma população que possam ser atribuídas ao processo de cuidado (Anexo B).
As visões de APS, centradas no indivíduo e na população, ofereceram a base normativa para avaliação da APS dentro de um sistema de saúde e colaboraram na construção da estrutura de avaliação da APS proposta por Starfield (2002).
Starfield (2002) propôs uma estrutura para avaliação da APS que considerou os conceitos dos atributos essenciais e derivativos em medidas de estrutura (capacidade) e processo (desempenho).
Os atributos essenciais e exclusivos da APS compreendem: acesso/atenção ao primeiro contato, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado.
O Acesso/atenção ao primeiro contato é definido como acessibilidade e utilização do serviço de saúde como fonte de cuidado a cada novo problema ou novo episódio de um mesmo problema de saúde, com exceção das verdadeiras emergências e urgências médicas. A acessibilidade é a possibilidade de uma pessoa chegar a um serviço de saúde, é o componente estrutural necessário para a primeira atenção. Para oferecê-la, o local deverá ser facilmente acessível e disponível. A acessibilidade pode ser medida em relação ao tempo (horário de disponibilidade dos serviços, facilidade da marcação de consulta e tempo de espera pela mesma), barreiras geográficas (adequação de transporte, distância a ser percorrida até a unidade), e psicossocial (barreiras linguísticas ou culturais) (STARFIELD, 2002; BRASIL, 2010).
A Longitudinalidade conceituada como existência de uma fonte continuada de atenção, assim como sua utilização ao longo do tempo, é alcançada mediante alguma forma de registro do paciente, manutenção de cadastro de pacientes na unidade. É a fonte habitual onde um paciente procura atenção à saúde, dependente da relação profissional paciente, promovida por meio de vinculação formal da população com a unidade de APS. A essência da longitudinalidade é uma relação ao longo do tempo, seus benefícios não podem ser alcançados em períodos inferiores a um ano. (STARFIELD, 2002; BRASIL, 2010).
A Integralidade compreende o leque de serviços disponíveis e prestados pelo serviço de atenção primária. Ações que o serviço de saúde deve oferecer para que os usuários recebam atenção integral, tanto do ponto de vista do caráter biopsicossocial do processo saúde-doença, como ações de promoção, prevenção, cura e reabilitação adequadas ao contexto da APS, mesmo que algumas ações não possam ser oferecidas dentro das unidades de APS. Incluem os encaminhamentos para especialidades, hospitais, entre outros. Adequação e qualificação dos profissionais, das unidades, dos equipamentos e serviços de apoio. A APS deve obter um alto nível de desempenho no reconhecimento das necessidades existentes na população para alcançar a integralidade. O desafio é reconhecer as situações nas quais uma intervenção é necessária e justificada. Inclui a disponibilidade de realização de visitas domicilares pelos profissionais quando necessário (STARFIELD, 2002; BRASIL, 2010).
A Coordenação da atenção pressupõe alguma forma de continuidade, seja por parte do atendimento pelo mesmo profissional, seja por meio de prontuários médicos, ou ambos, além do reconhecimento de problemas abordados em outros serviços e a integração deste cuidado no cuidado global do paciente. O provedor de atenção primária deve ser capaz de integrar todo cuidado que o paciente recebe, através da coordenação entre os serviços. A coordenação será facilitada por meio de vínculos formais entre os níveis de atenção e linhas de comunicação. A essência da coordenação é a disponibilidade de informações a respeito de serviços e problemas anteriores, e as relações com o presente atendimento. A integração das informações sobre o paciente deve acontecer dentro da própria equipe e com outros especialistas (BRASIL, 2010b; STARFIELD, 2002).
Um alto nível de alcance dos atributos essenciais da APS resulta em três aspectos adicionais denominados aspectos derivativos (STARFIELD, 2002). Esses aspectos derivativos da APS qualificam as ações e serviços deste nível de atenção. Por isso, nesta pesquisa, o termo “atributos qualificadores” foi utilizado como sinônimo de “atributos derivativos”.
Os aspectos qualificadores da APS são: centralização na família, competência cultural e orientação comunitária.
A Centralização na família ou Orientação familiar abrange a avaliação das necessidades individuais para a atenção integral e considera o contexto familiar e seu potencial de cuidado e, também, de ameaça à saúde, incluindo o uso de ferramentas de
abordagem familiar. Um segundo aspecto da centralização na família requer um reconhecimento dos problemas de saúde dos membros da família (BRASIL, 2010b; STARFIELD, 2002).
A Competência cultural requer o reconhecimento das necessidades das subpopulações que podem não estar em evidência, como características éticas, raciais e outras. Este aspecto consiste na adaptação do provedor (equipe e profissionais de saúde) às características culturais especiais da população para facilitar a relação e a comunicação com a mesma (BRASIL, 2010b; STARFIELD, 2002).
A Orientação comunitária é o reconhecimento por parte do serviço de saúde das necessidades em saúde da comunidade através de dados epidemiológicos, distribuição das características de saúde e doença da comunidade, e o contato direto com a comunidade; sua relação com ela, assim como o planejamento e a avaliação conjunta dos serviços. O quanto o profissional envolve o paciente em questões relativas a sua prática (sugestões, para melhoria, pesquisa de satisfação) é o reconhecimento das necessidades dos pacientes e seu contexto social, expressa o quanto os profissionais se envolvem nos problemas da comunidade e o seu conhecimento em relação aos equipamentos sociais (BRASIL, 2010b; STARFIELD, 2002).
Na maioria dos países nem a centralização na família, nem a orientação para a comunidade são um enfoque dos sistemas de APS. A orientação para a comunidade é um ideal, mais do que uma realidade (STARFIELD, 2002).