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4. Gereç ve Yöntem

4.5. Polimeraz Zincir Reaksiyonu

Em muitos artigos, tanto do pré quanto do pós-golpe, houve a crítica à demagogia dos agentes políticos, principalmente dos parlamentares. Além disso, a crítica à corrupção do aparato estatal recaía não apenas a estes, mas também aos funcionários públicos, compreendidos como meros alimentadores da máquina burocrática que trabalhavam de forma ineficiente e geravam, assim, prejuízos para o desenvolvimento do Brasil. Conforme parte das esquerdas, a culpa dos problemas brasileiros era das empresas privadas e das multinacionais. No entanto, segundo o empresariado vanguardista, a culpa era, do próprio Estado brasileiro. Os questionamentos não eram direcionados ao governo de João Goulart, e muitas vezes assumiam um ar de crítica generalizada à gestão do país, afirmando que os problemas já existiam há muitos anos, formando características do Estado brasileiro.

Uma das principais críticas no pré-golpe se referia à falta de pessoal capacitado para trabalhar no governo e no aparato estatal. A idéia a seguir faz parte de um artigo escrito provavelmente pela equipe de redação do IPESUL, já que não há citação de fonte original nem autoria explícita, intitulado “Slogans” e que abre a edição de março de 1963 da revista DE. Nele, há críticas contra a argumentação “slogâmica” da propaganda dos esquerdistas que “mistificariam” as causas dos problemas brasileiros e também as suas possíveis soluções. Contra o “comunismo” milagroso, o artigo afirma que

o bem-estar social só será possível quando o Estado possuir meios (não esbanjados) para entender os problemas das classes de menores recursos, e isso só se conseguirá com dirigentes sérios e capazes. Não será com demagogos, pregadores de ódio, mistificadores e incapazes; êstes o que desejam é restringir a liberdade dos outros para se perpetuarem no poder; servirem-se do Estado sem que ninguém possa censurá-los.478

Os donos do poder, naquele contexto, não estariam aptos a compreender a realidade nacional e lidar com as demandas da sociedade. Estariam preocupados apenas com a manutenção do poder, e que estariam se utilizando do Estado em benefício próprio. As críticas à inaptidão dos governantes eram constantes. Retiramos um trecho de um depoimento do diretor do Jornal do Brasil, M. F. do Nascimento Pinto, a respeito da visita que fez à União Soviética, onde fala dos horrores do “comunismo”. Neste extenso artigo de 18 páginas, transcrito da Revista da Confederação Nacional do Comércio de novembro/dezembro de 1963, o autor faz uma comparação com o Brasil, analisando a realidade de seu país à luz do que viu na União Soviética, fazendo analogias com a falta de “liberdade” que teria no país se o “comunismo” tomasse o poder:

O povo está cansado das discussões políticas estéreis, visando a vantagens pessoais. Está farto de ouvir explicações de interessados em confundir os fatos. O perigo que ronda o Brasil é o engalfinhamento a que estamos assistindo e que não deixa lugar para julgamento daqueles que sabem avaliar as liberdades e não aceitam nenhum valor material em troca de um patrimônio muito mais valioso. [...]

Não são os debates o mal do Brasil, pois apenas representam um sinal de que os responsáveis pela vida nacional não estão à altura da realidade brasileira. Mas, havendo debates, quem se fortalece é a liberdade. O Brasil, estamos certos, não será jamais campo de experiência social infeliz como aquela que acabei de conhecer e onde um povo admirável se afirma sôbre uma ordem social que é sinistra. E é preciso esclarecer o povo brasileiro, porque só esclarecido, devidamente esclarecido, êle poderá fazer a opção que desejar.479

Fica evidente na leitura do texto que a opção correta é pela “democracia”. O problema é que os debates “estéreis” evidenciam o fato de que não há pessoas capacitadas no poder para governar o país. Esta mesma crítica é feita em vários outros textos, como neste de Paulo Tollens, retirado de um artigo sobre a agricultura e a indústria no Rio Grande do Sul:

O que tem havido é falta de seriedade, de espírito público, de patriotismo, como sempre, neste país infeliz; é golpismo, falso e espúrio nacionalismo feito por semi-alfabetizados (os piores) e aproveitadores; é ausência de coragem e sinceridade, em resumo, e sobretudo, muita, mas muita mesmo, ignorância que tudo invade e se espraia dominadora nesta nação em que para o poder sobem os mais atrevidos e broncos, quando deveria ser o contrário por precisar o Brasil, fundamentalmente, de “organização” como dizia o grande Alberto Tôrres, organização que só se pode empreender na base da inteligência e do conhecimento.480

479 BRITO, M. F. do Nascimento. Depoimento Sôbre a União Soviética. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre,

v. 2, n. 6, p. 30-47, mar. 1964. p. 47. Transcrito da “Revista da Confederação Nacional do Comércio”, nov./dez., 1963.

480 TOLLENS, Paulo. Agricultura ou Indústria? Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 1, n. 3, p. 35-38, dez.

Na referência acima, além de haver menção ao pensador conservador Alberto Torres481, podemos identificar uma caracterização altamente negativa dos responsáveis pelos

rumos do país. De golpistas a semi-alfabetizados, passando por ignorantes, broncos e atrevidos. Desta temática, podemos interpretar que havia a proposta de substituição dos agentes políticos do Estado por outros mais qualificados para compreender a realidade nacional e transformá-la. Quem seriam os substitutos? Ao longo dos anos 1950 e principalmente no início dos anos 1960 a tecnocracia estava no auge de seu prestígio. O conhecimento técnico, principalmente dos economistas, possuía um reconhecimento social muito grande, e os complexos problemas que o Brasil enfrentava no período eram discutidos por pessoas como Roberto Campos, Eugênio Gudin e Otávio Gouveia de Bulhões, economistas que ocuparam ministérios responsáveis pelos rumos da economia no Brasil em contextos diferentes. Campos e Bulhões, por exemplo, ocuparam respectivamente o Ministério do Planejamento e Ministério da Fazenda no governo de Castelo Branco. O principal Instituto que congregava intelectuais, empresários, políticos, militares e técnicos em geral era o IPÊS, do qual os três citados anteriormente eram membros. Embora o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) também tivesse técnicos em seus quadros482, era

considerado foco de “comunistas” pelos setores mais conservadores da sociedade. O IPÊS teve como objetivo, dentre tantos outros, fazer frente ao ISEB.483 O que fica implícito na

crítica à inaptidão dos agentes políticos do governo de João Goulart e de outros governos é que seus possíveis substitutos deveriam ter conhecimento e inteligência para lidar com os problemas nacionais, e estas características eram atribuídas aos membros e dirigentes do IPÊS. Ao propor discutir os problemas do país de maneira neutra e imparcial e projetos de vários tipos de reforma a serem implantadas, os ipesianos se colocavam como a vanguarda habilitada para conduzir os rumos do país. Após o golpe, o que efetivamente ocorreu foi a integração de diversos membros do IPÊS em cargos de alto escalão do aparato estatal484,

ratificando o reconhecimento da importância do saber técnico dos ipesianos.

481 Não analisaremos a referência a Alberto Torres, nome importante do pensamento conservador brasileiro, pois

não é o foco deste trabalho. Há diversas referências a estes pensadores nos artigos das revistas DE, e a análise da mobilização de suas idéias no contexto dos anos 1960 mereceria um trabalho específico.

482 Para mais informações sobre o ISEB, ver TOLEDO, Caio Navarro de. ISEB: fábrica de ideologias. São Paulo:

Ática, 1977; TOLEDO, Caio Navarro de (org.). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.

483 DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. op. cit., p. 258. Para uma comparação entre o ISEB

e o IPÊS, ver TOLEDO, Caio Navarro de. A luta ideológica na conjuntura do golpe de 1964. Revista de Estudos Estratégicos E-Premissas, Campinas, v. 1, n. 1, p. 120-130, jun./dez. 2006. Disponível em: < http://www.unicamp.br/nee/epremissas/pdfs/01.08.pdf>. Acesso em: 7 jan. 2012.

484 Para maiores informações sobre membros do IPÊS e cargos que ocuparam no aparato estatal, ao menos no

Além da inaptidão para governar, os agentes políticos também tinham a característica de utilizar a “demagogia” para enganar a sociedade:

Eis aí – e é o que se passa aqui no Brasil – a inversão completa de tôda a técnica de govêrno: ao invés de se captar a livre aquiescência dos cidadãos, falando à inteligência dêles, procura-se estabelecer certa unidade social apelando para as fôrças instintivas, para a coação física e moral, ou mesmo para o franco e aberto derramamento de sangue. Isso se revela nìtidamente no sistema de propaganda que – di-lo um sociólogo – não pretende mudar nem instruir o povo, antes sujeitá-lo e fazê-lo leal.485

Trata da idéia de dialogar diretamente com a emoção da população, e não com a sua racionalidade. Habilmente, os demagogos se utilizam destas técnicas sem interesse algum no bem-comum, visto que “a astúcia, o cambalacho, o artifício, a esperteza, a mentira erigiram-se em armas de uso comum para alcançar ou manter o poder, à custa da ingenuidade e da ignorância do povo”486. Deste modo, o poder existia para a sua própria reprodução, e não para

buscar alguma transformação social, política ou econômica. O uso de discursos e imagens para seduzir a sociedade e ganhar popularidade, dialogando com ela e flertando com o radicalismo era denominado de “populismo” pelos opositores de João Goulart. Fica implícita a crítica de que a sociedade estava sendo “treinada” para ser leal e submissa ao governo, e não para que esta fosse efetivamente livre e dominasse os instrumentos de sua própria emancipação. A submissão e a sujeição ao Estado estavam a um passo do “comunismo”, e só a “democracia” serviria para emancipar o ser humano.

Outra crítica importante encontrada nas páginas das revistas DE era à tática constante dos “demagogos” de colocar a culpa dos problemas brasileiros na iniciativa privada, devido aos abusos dos chamados burgueses. Em parte, o próprio empresariado vanguardista afirmava que havia empresários que ainda estavam presos a uma “mentalidade” retrógrada na condução de seus negócios e não praticavam a “humanização do trabalho”, mas sim o abuso do capitalismo individualista e egoísta. No entanto, tal fração da classe empresarial criticava os “demagogos” quando eram estes que colocavam a culpa da chamada “espoliação nacional” nas empresas. Em um artigo de crítica ao emissionismo e empreguismo do governo, que, supostamente, provocava muito desperdício, afirma-se:

No entanto, vêm certas figuras políticas atacar firmas e emprêsas particulares, taxando-as de incapazes, ineptas, impatrióticas, açambarcadoras, etc., quando a

485 TOLLENS, Paulo. Não é sufocando a liberdade que iremos resolver o problema brasileiro. op. cit., p. 19. 486 VIANNA, Carlos Roca. O processo espoliativo. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 1, n. 2, p. 44-45,

técnica do emprêgo de um “bode expiatório” é visível no caso: atacando a iniciativa particular e o livre empreendimento procuram desviar a atenção do povo para as falhas, os erros e desacertos que êles próprios, demagogos, cometem.487

Culpar a empresa privada seria apenas uma maneira de desviar a atenção da sociedade para os reais causadores dos problemas do país: os demagogos e inaptos da política brasileira. Além disso, estes detratores esqueciam-se das dificuldades “que encontram os homens de emprêsa para manter os seus negócios em andamento [...] tais são os tropeços e os óbices que o poder político vem criando à expansão da atividade econômica, pelo empreguismo, por uma inepta burocracia, por leis zarolhas...”488 Conforme o empresariado vanguardista, o outro bode

expiatório dos problemas brasileiros era a “espoliação” do Brasil devido a fatores externos ao país, que pode ser interpretada como a presença do capital estrangeiro e das multinacionais:

Nenhuma dessas explicações simplistas ou “slogâmicas” [dos demagogos] resiste a qualquer análise. Mas são exatamente encantadoras para comícios de arrabalde. E a popularidade de algumas dessas explicações (particularmente as que lançam a culpa sôbre fatôres externos ao País) entre os nossos políticos revela o baixo grau de educação técnica, o desamor à investigação científica e a propensão ao animismo pré-lógico.489

Aqui, também se faz referência à mesma crítica à inaptidão técnica dos governantes, que podemos interpretar como uma proposta sutil de substituição dos dirigentes que ditariam os rumos do desenvolvimento do país.

Após o golpe, a visão difundida nas páginas da DE foi a de que a deposição de João Goulart livrou o país da corrupção: “Em movimento que passará à História, como verdadeiro marco de libertação, o que contou com o apoio, solidariedade e cooperação dos ‘verdadeiros

democratas’, afastaram o Govêrno a máquina corrompida e corruptora”490. Nesta passagem,

podemos identificar o apoio do empresariado vanguardista ao golpe, cujos integrantes se consideravam “verdadeiros democratas”. Da mesma forma, podemos ver tal adjetivação no Anexo B, onde consta um panfleto de divulgação para assinatura da DE. Além disso, o novo regime foi visto como “salvador”, na medida em que livrou o país também dos “comunistas”, que estavam associados pelo empresariado vanguardista aos “demagogos”, de acordo com a construção do inimigo “comunista”, que foi analisada no capítulo anterior.

487 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. Emissão, empreguismo, desperdício. Porto Alegre, v. 1, n. 4, p. 3-4, jan. 1963.

p. 3.

488 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. O que existe é um poder econômico nas mãos do poder político. Porto Alegre,

v. 1, n. 4, p. 5-6, jan. 1963. p. 6.

489 CAMPOS, Roberto. A imbecilidade dos “slogans”. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 1, n. 5, p. 25-27,

fev. 1963. p. 26. Transcrito da revista “Brasil em Marcha”, ago. 1962.

490 SANTOS, Fábio Araújo. Intervencionismo e livre iniciativa. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 2, n. 9-

Benzer Belgeler