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2. KURAMSAL TEMELLER VE KAYNAK ARAŞTIRMASI

2.8. Ekstrüder

2.8.2. Ekstruder Makinesi

Como já dito, a questão fundamental no pensamento de Martin Heidegger foi a questão esquecida pela metafísica: “a questão do ser”. Para ele, mesmo que faça a pergunta pelo ser, a metafísica responde com um ente. Isso ocorreu desde seu início com Platão para o qual, como visto, o ser do ente é determinado pelas “ideias” que são os entes verdadeiros. Tudo fica dividido entre mundo sensível e mundo suprassensível sendo esta uma divisão que perdura na história da metafísica em todas as suas formas e atinge o próprio homem. A filosofia de Friedrich Nietzsche é, por ele mesmo, caracterizada como um platonismo invertido, porém de acordo com Martin Heidegger, a inversão ainda é metafísica. Para Martin Heidegger, o pensamento de Friedrich Nietzsche é a consumação da metafísica.

Após o reitorado, durante os anos difíceis que se seguiram (1936 – 1939), Martin Heidegger, em inúmeras preleções em Freiburg, expõe sua interpretação de Friedrich Nietzsche. Para ele, Friedrich Nietzsche reúne toda a tradição do pensamento ocidental até ele e a consuma e, dessa forma, uma confrontação com o pensamento de Friedrich Nietzsche é uma confrontação com todo o pensamento ocidental,263 diga-se, o esquecimento da questão do ser.

De acordo com Martin Heidegger, a expressão “vontade de poder”, além de ser o título da obra capital de Friedrich Nietzsche (Wille zur Macht) é também sua resposta à pergunta sobre “o que é o ente?”, ou seja, no pensamento de Nietzsche, “todo ente é, no fundo, vontade de poder”264 e o ser do ente é “eterno retorno do mesmo”265.

263

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 6.  

264

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 6.  

265

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 25.  

Para Nietzsche, de acordo com Martin Heidegger, vontade não é outra coisa senão vontade de poder e poder é essência da vontade. Então vontade de poder é vontade de vontade, ou seja, querer é: querer a si mesmo. A expressão nietzschiana “vontade de poder” não significa que vontade seja um tipo de desejo que, por exemplo, ao invés da felicidade, possui outra meta. É preciso, portanto, perguntar à coisa mesma – vontade de poder – o que ela é. De acordo com Martin Heidegger, para Friedrich Nietzsche, “querer é querer-ser-mais-forte” e não a conservação da vida266. Dessa forma, “(...) o que o homem quer, o que cada mínimo pedaço de um organismo vivo quer é mais poder”, afirma Nietzsche, e mesmo o que se denomina nutrição, alimentação é apenas um “emprego utilitário daquela vontade original de tornar-se mais fortalecido”267.

Seguindo Martin Heidegger, quando Friedrich Nietzsche se refere à “transvaloração dos valores”, o que está em jogo é uma instauração de valores, do valor supremo a partir do qual se determina como todo ente dever ser. Mas, por que uma nova instauração de valores? Porque se vive no tempo do niilismo que significa desvalorização dos valores supremos: religião cristã, moral e filosofia268. Corrupção, degeneração não são causas do niilismo, mas suas consequências269.

Com o niilismo há o enfraquecimento da vida criativa e, para Friedrich Nietzsche, a arte é o “contramovimento ao niilismo”. A ela cabe a tarefa de fundamentação da nova avaliação de todos os valores, que deve ocorrer a partir do artista e não daquele que “recebe” a obra. A arte é dizer sim ao sensível e, por conseguinte, dizer não ao suprassensível. Dessa forma, Friedrich Nietzsche vai demonstrando aquilo que ele diz fazer: a inversão do platonismo270.

Como já visto neste trabalho, para o platonismo, o verdadeiro, o verdadeiramente ente é o suprassensível, a “ideia”, embora isso não signifique que o sensível seja um não-ente, porquanto ele tem uma ‘sombra’, um resto da ideia. No

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HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 56  

267

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 354-355  

268

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 25 – 26.  

269

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 26.  

270

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 69.  

capítulo X da República271, Sócrates (Platão) fala a Glauco sobre a arte (mímeses) e logo no início já qualifica os poetas como imitadores. Para mostrar a Glauco como foi correto estabelecer em sua república ideal a proibição da poesia imitativa, Sócrates fala da unidade da forma dada pela ideia e da multiplicidade de objetos aos quais se atribui o mesmo nome. Os móveis e a pintura servem-lhe de exemplo. Há muitas camas e mesas, mas para esses móveis há apenas duas formas (aspecto): uma de cama, outra de mesa. Ninguém modula essas formas . É com elas que o artesão se preocupa272.

Sócrates sugere a Glauco que imagine que exista um artesão capaz de produzir todos os objetos e para auxiliá-lo lhe pede que suponha pegar um espelho e andar com ele por todos os lados. Com isso, fará o sol, céu, terra, enfim, tudo o que há refletirem-se no espelho. A essa possibilidade Glauco se interpõe afirmando que, dessa forma, não produziria propriamente objetos. Sócrates relaciona as imagens assim obtidas com a pintura do pintor. O marceneiro que faz as camas e mesas que utilizamos não faz, afirma Sócrates, a forma, a “ideia”, ou seja “o que é a cama”, pois ele faz apenas um objeto que se assemelha à forma. Portanto, continua Sócrates, há três espécies de camas: uma que existe na natureza das coisas, que é verdade absoluta e criada por deus, outra é aquela que é produzida pelo marceneiro e a última, a que é produzida pelo pintor. São três níveis de verdade associados a três formas de produzir. Deus fez apenas uma cama, única por natureza, que é a cama “real”, a verdadeira, a “ideia” de cama, o que a cama é. O marceneiro é aquele que produz a cama tendo a forma, o eidos, a ideia como modelo, portanto ele é um produtor, um obreiro que produz algo com a aparência de cama, havendo, assim, múltiplas camas. Já, a cama pintada pelo pintor não tem a forma criada por deus como modelo e que é única; seu modelo é a cama produzida pelo marceneiro. Por isso, o pintor é um imitador e está afastado três graus da verdade: sua pintura é a imitação da aparência. Também o tragediógrafo é um imitador273.

Para o platonismo, afirma Martin Heidegger, o carpinteiro só faz esses móveis, as camas, porque há na ideia de cama uma constância que não é arbitrária

271

PLATÃO.A República. Livro VII. Tradução Enrico Corviesi. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Os pensadores. Livro X.  

272

PLATÃO.A República. Livro VII. Tradução Enrico Corviesi. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Os pensadores. p. 321 – 322.  

273

PLATÃO.A República. Livro VII. Tradução Enrico Corviesi. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Os pensadores. p. 323 – 325.  

e que lhe diz o que é uma cama. O carpinteiro produz esta ou aquela mesa, “à media que olha para a ideia”, a forma. Ele não produz a ideia de mesa, uma vez que ela já está pre-ordenada para ele. Então, diz Martin Heidegger: “tão essencial quanto o fato de o carpinteiro não conseguir fabricar a ideia com seus instrumentos é o fato de ele precisar olhar para a ideia para ser quem ele é: fabricante de mesas”274.

Martin Heidegger – e essa questão será retomada adiante - chama atenção para algo que estava claramente dado para os gregos: que o fabricado só é a medida que nele o ser aparece. O artesão é, justamente, aquele que leva o “ser” à presença da visibilidade sensível. Contudo, para Platão, o produtor de sapatos, o sapateiro, olha para a ideia de sapato, que lhe é pressuposta e imposta, e cada sapateiro será tanto mais hábil quanto mais for capaz de olhar apenas para a ideia de sapato. A ideia, de acordo com Platão, é o propriamente ente no ente, a quididade, a essência por meio da qual o ente “em primeiro lugar e derradeiramente é”. O carpinteiro, como todo artesão, não produz a quididade da cama, mas uma cama qualquer que, em relação à ideia, é um ofuscamento, algo que “não tem o poder de presentar do ente mesmo”275.

De acordo com Martin Heidegger, quando Platão diz que a ideia é única por natureza (phýsis), não se refere à natureza como o que compreendemos hoje, como as plantas, rios, céu e mar. Ele ainda fala de natureza como era também evidente ao tempo que lhe antecede e que ainda perdurava. Phýsis, natureza, “significa certamente eclosão, e eclosão no sentido da rosa que eclode e se mostra, desdobrando-se a partir de si”. Phýsis é a palavra para o ser mesmo no sentido da presença que eclode a partir de si e que assim vigora. A arkhé da phýsis, dessa forma, é o que perpassa e vigora na phýsis. O artesão, como o artista, também deixa o ser eclodir, mas não por si mesmo, posto que a eclosão está antes neles – artesão e artista. Essa noção que Martin Heidegger retoma, em um importante texto de sua segunda fase (A questão da técnica), e será vista aqui em titulo próprio, começa se

274

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 157.  

275

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 160 -163.  

alterar com Platão, pois, para ele, como já visto, isso que se essencializa por si é algo fixo e, nesse aspecto, está em contradição com o que o artesão produz276.

Para a unicidade da ideia, Platão instaura um criador que cria a ideia e a mantém fixa para que o homem possa vê-la, tomá-la como medida para a produção que só consegue ofuscar a ideia. É o que faz o carpinteiro, por exemplo, que “produz uma cama segundo a sua essência, mas a deixa aparecer na madeira, isto é, nisso em que a cama se encontra sempre a cada vez à disposição para o uso genérico enquanto cama singular”. Já o pintor é um imitador, ele faz com que a cama se mostre na pintura que, para Platão, “é produção subordinada”. Ele – o pintor - está subordinado a uma situação determinada a partir daquilo que o artesão já produziu. O pintor só “pro-duz” de acordo com um ponto de vista, uma maneira sob a qual a mesa aparece. A mesa “real”, pelo contrário, pode ser vista sob diversos pontos. A arte para Platão, portanto, repita-se, está distanciada da verdade277.

Então, o que significa dizer que Nietzsche inverte o platonismo? “Inverter o platonismo significa inverter o que dá a medida (...)”, posto que o sensível se transforma no ente verdadeiro278. A inversão do platonismo – e do cristianismo que, para Nietzsche, também é platonismo - significa abalo do primado do suprassensível como ideal. “O ente - isso que ele é - não pode ser avaliado segundo o que ele deveria e poderia ser”. Nessa inversão do platonismo operada por Friedrich Nietzsche, evocada e dirigida pela vontade de superação do niilismo, é mantida, porém, como auto evidente uma convicção comum ao platonismo: a verdade, isto é, o verdadeiramente ente, precisa ser assegurada sobre o caminho do conhecimento. Para Friedrich Nietzsche, conhecimento do ente, do sensível, e para Platão, a ideia que é a verdade, fixa e única que o artesão, como nos exemplos acima, precisa conhecer antes de produzir os móveis para o uso. Para Friedrich Nietzsche, portanto, o sensível é o verdadeiro e deve fornecer o âmbito fundamental para a refundação da existência. Contra o platonismo, Friedrich Nietzsche afirma que o verdadeiramente ente é o sensível 279.

276

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 164 -165.  

277

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 166 – 167.  

278

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 140-141.  

279

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 146.  

Em termos formais, afirma Martin Heidegger, a inversão significa que o sensível está acima e o suprassensível embaixo. Pensada a inversão apenas dessa forma, o platonismo continuaria subsistindo em sua essência. A inversão não conseguiria, então, o que ela visa empreender que é a superação do niilismo, ou seja, uma superação do platonismo desde seu fundamento próprio. Isso só ocorre quanto o “lugar acima” no sentido de um ideal, fixo e único é abolido280.

De acordo com Martin Heidegger, num capítulo intitulado Como o mundo verdadeiro se tornou fábula: História de um erro, da obra Crepúsculo dos ídolos é possível ver o posicionamento de Friedrich Nietzsche a respeito do platonismo, pois ali ele fala dessa abolição do mundo suprassensível:

Abolimos o mundo verdadeiro: que restou? O aparente, talvez?... Não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente! (Meio-dia; momento da sombra mais breve; fim do longo erro; apogeu da humanidade; incipit Zaratustra (começa Zaratustra)281.

Para que o mundo verdadeiro – o mundo suprassensível - se tornasse fábula foi preciso a concepção de: “eterno retorno do mesmo” com a qual, para Martin Heidegger, Friedrich Nietzsche consuma a metafísica. A respeito desse conceito, ele falou abertamente na primeira edição de A gaia ciência (1882) reeditada posteriormente com alguns acréscimos (1887). Depois da primeira edição., volta a falar em Assim falava Zaratustra (1884). A terceira e última vez ocorre em Para além do bem e do mal (1886). O penúltimo aforismo da primeira edição de A gaia ciência é denominado “O maior dos pesos”282 e se apresenta da seguinte forma:

E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A

280

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 180.  

281

NIETZSCHE. Friedrich. Crepúsculo dos ídolos. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 32.  

282

NIETZSCHE. Friedrich. A gaia ciência. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 205.  

perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.”283.

E Friedrich Nietzsche pergunta ao final do aforismo: “você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?”. Esse é o peso, o retornar sempre mais uma vez.284 E o que acontece se o pensamento mais pesado for pensado: a tragédia começa. Para que o homem seja capaz de pensar o pensamento mais pesado, é preciso que seja lançado para além de si e metamorfoseado no além-do-homem (Übermensch). E o homem que precisa ser superado é o último homem, aquele homem da felicidade mediana, o homem que tudo conhece, que tudo empreende com a maior esperteza285.

O primeiro a pensar o eterno retorno é Zaratustra. Em Zaratustra, Friedrich Nietzsche resume seu pensamento do eterno retorno (Da visão e do enigma) quando elabora aquele pensamento sob o âmbito do tempo e da eternidade. Zaratustra e o anão estão diante do portal (instante) que tem duas faces, dois caminhos: um para trás (passado) e outro para frente (futuro). Ambos correm para a eternidade onde se encontram. Mas o anel não se fecha em um lugar qualquer do infinito. O fechamento ocorre no instante, e “o que retorna – quando retorna – é decidido pelo instante e pela força da dominação das coisas contraditórias que nele se chocam”. O instante não é o agora fugaz, mas colisão de passado e futuro e “nessa colisão, o instante vem até si mesmo. Ele determina como tudo retorna”. A eternidade está no instante286. No eterno retorno, “cintila a claridade mais clara do ente na totalidade, o instante no qual o todo do retorno é apreensível”.287 O ente na totalidade é o eterno retorno288.

Martin Heidegger afirma, então, “a caracterização do ente como vontade de poder seria apenas o desdobramento do projeto original e primário do ente

283

NIETZSCHE. Friedrich. A gaia ciência. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.  

284

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 211.  

285

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 219-220.  

286

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 241-242.  

287

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 243.  

288

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 214

enquanto eterno retorno do mesmo” ou ainda “o eterno retorno do mesmo é o fundamento e a essência da vontade de poder (...)”289. Portanto: o que é o ente no pensamento de Friedrich Nietzsche? Resposta: vontade de poder. O que é e como é a vontade de poder? Eterno retorno do mesmo.

A determinação ‘vontade de poder’ dá uma resposta à pergunta sobre o ente em vista de sua constituição; a determinação ‘eterno retorno do mesmo’ dá uma resposta à pergunta sobre o ente em vista de seu modo de ser. Constituição e modo de ser se

compertencem, porém, como determinação do caráter ôntico do

ente290.

Para Martin Heidegger o que Friedrich Nietzsche fez não foi apenas permanecer no interior da metafísica, pois ele não apenas repete o início, mas transforma as posições essenciais, ou seja, as posições de dois pensadores: Parmênides (sec. VI e V a.C) e Heráclito (sec. VI e V a.C). Cada um deles dá uma resposta à questão o que é o ente?. A resposta de Parmênides, uma estranha resposta, diz Martin Heidegger, mas que “fixa ao mesmo tempo pela primeira vez e para todo o porvir, mesmo para Nietzsche, o que ‘é’ e ‘ser’ que significam: constância e presença, eterno presente”. A resposta de Heráclito diz: “o ente vem-a- ser, sendo, o ente está num devir constante, em autodesdobramento e em eventual dissolução”291.

De acordo com Martin Heidegger, a filosofia de Friedrich Nietzsche representa a conjunção dessas duas determinações fundamentais, uma vez que nela o ente é vontade de poder, mas a essência do ente, a essência da vontade de poder é eterno retorno do mesmo. Assim a eternização do ente provém do ente mesmo. Em outras palavras, aquela conjunção significa transformar o devir de tal modo que ele seja, ou ainda, transformar o devir em ente. “A reconversão do deveniente em ente – a vontade de poder em sua figura mais elevada – é em sua essência mais profunda instantaneidade, isto é, eterno retorno do mesmo292.

289

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 331-332.  

290

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 361  

291

p HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 362.  

292

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 363.  

Dessa forma, para Martin Heidegger, na filosofia de Friedrich Nietzsche ocorre o mais profundo “acabamento” de todas as posições fundamentais da metafísica desde Platão, pois o ser não é esquecido, é abandonado. Acabamento significa a consumação da metafísica com a qual se dá a “entificação” de tudo.

Isso aconteceu porque Friedrich Nietzsche afirmou de maneira incondicionada e definitiva a predominância do ente e assim se colocou como o ponto de transição da fase preparatória para o começo do acabamento da modernidade. Não é possível dizer por quanto tempo vai durar esse acabamento, afirma Martin Heidegger, contudo, é possível presumir

que será ou bem muito curto e catastrófico ou bem muito longo no sentido de uma instalação, cada vez mais apta à duração, do que foi alcançado. No atual estágio do planeta, não haverá mais lugar para meios-termos293.

Martin Heidegger diz isso no final da década de trinta do século XX. A Segunda Guerra estava em curso, porém suas catástrofes não significaram “fim” do acabamento. Não há sinais de que algo esteja acontecendo que possa levar a um novo começo.

E quanto à essência da verdade? Não foi dito que a metafísica funda uma época, visto que lhe dá o fundamento através de uma determinada intepretação do ente e de uma determinada concepção da verdade294? O que dizer sobre isso no acabamento da metafísica? O que diz Friedrich Nietzsche sobre a essência da verdade? Para ele, a verdade é um erro, uma ilusão. “Verdade é o tipo de erro sem o qual uma espécie de seres vivos não poderia viver”295. Então, mais importante de que algo seja verdadeiro é que tenha de ser considerado verdadeiro296.

Para Martin Heidegger297, com o que diz da essência da verdade, Friedrich Nietzsche a mantém como correção da representação, como avaliação. No fragmento 507 da Vontade de poder, Friedrich Nietzsche afirma, logo no início, que a

293

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 372.  

294

HEIDEGGER, Martin. A época das imagens de mundo. Tradução Claudia Drucker. Disponível em: www.cfh.ufsc.br/~wfil/Heidegger.htm. Acesso em: 05.12.2012. p. 1.  

295

NIETZSCHE. Friedrich. A vontade de poder. Tradução Marcos Sinésio Pereira Fernandes e Francisco José dias de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008. p. 264.  

296

NIETZSCHE. Friedrich. A vontade de poder. Tradução Marcos Sinésio Pereira Fernandes e Francisco José dias de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008. p. 267-268.  

297

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I. Tradução Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense

Benzer Belgeler