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competência da Justiça Federal para aplicação dos referidos tratados internacionais.

Seção 2 – A Competência da Justiça Federal para aplicação dos Tratados Internacionais de Direitos Humanos

A Constituição Federal de 1988 reconhece em vários dispositivos a natureza de fonte do Direito aos tratados internacionais, principalmente aos que versam sobre Direitos Humanos. Nos termos do § 2º do art. 5º, ao nosso sentir, os tratados internacionais de direitos humanos internalizados pelo Estado brasileiro são elevados à categoria de normas constitucionais. Dessa forma, todos os órgãos do Poder Judiciário, sejam a nível Federal ou Estadual, da Justiça Comum ou da Especializada, devem aplicar as normas contidas nos tratados incorporados ao ordenamento jurídico pátrio. Mesmo não aceitando o devido valor

731“O papel da Corte é central para o desenvolvimento de jurisprudência e parâmetros (Standards) internacionais

que potencialmente têm profundo impacto para a defesa dos direitos humanos a nível local, quando implementados através dos Poderes Judiciais nacionais ou outros mecanismos criados para este fim”. DULITZKY, Ariel E; GALLI, Maria Beatriz; KRSTIVEVIC, Viviana. Ob. cit., pg. 83.

732

185 das normas protetivas dos direitos humanos no ordenamento jurídico, o Supremo Tribunal Federal reconhece que tais tratados devem ser aplicados pela Jurisdição doméstica733.

Em análise breve ao próprio texto constitucional de 1988, observa-se que o constituinte distribuiu entre diversos órgãos jurisdicionais a competência para aplicar os tratados internacionais celebrados e incorporados pelo Estado brasileiro. Com efeito, compete ao Superior Tribunal de Justiça julgar, em recurso especial, as causas decididas, em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos tribunais dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando a decisão recorrida contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência734. Esse dispositivo demonstra claramente a vontade do legislador constituinte de obrigar os Tribunais pátrios a aplicarem as normas contidas em tratados internacionais.

Com relação à competência da Justiça Federal, a CF/88 preceitua que aos Juízes Federais compete processar e julgar as causas fundadas em tratado ou contrato da União com Estado estrangeiro ou organismo internacional735; os crimes previstos em tratado ou convenção internacional; os crimes de ingresso ou permanência irregular de estrangeiro; a execução de carta rogatória, após o "exequatur", e de sentença estrangeira, após a homologação; as causas referentes à nacionalidade, inclusive a respectiva opção, e à naturalização736. Não sendo nossa intenção os comentários pormenorizados de cada uma das competências descritas, vale destacar que o constituinte reconheceu a possibilidade de uma norma prevista em um tratado internacional preceituar um novo tipo penal no ordenamento jurídico brasileiro737.

Na Justiça Federal especializada também é inegável a possibilidade de aplicação dos tratados internacionais de direitos humanos no exercício de suas competências. A Justiça Trabalhista738, a Eleitoral e a Militar têm a incumbência de observar os ditames emanados do

733 Cf. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário 71.154/PR. Voto do Rel. Min. Oswaldo

Tribueiro. Brasília. 04.08.1971. Publicado em 25/08/1971, pg. 08.

734

Cf. art. 105 da Constituição Federal de 1988.

735 Essa competência já era prevista na Constituição Federal de 1891. Art. 60. Compete aos Juízes ou Tribunais

Federais, processar e julgar: f) as ações movidas por estrangeiros e fundadas, quer em contratos com o Governo da União, quer em convenções ou tratados da União com outras nações.

736 Cf. art. 109 da Constituição Federal de 1988.

737“Para a aplicação dessa norma, deve-se observar que não basta a ocorrência de conduta criminosa prevista em

tratado ou convenção internacional, deve-se demonstrar um nexo de internacionalidade que, se ausente, prevalecerá a competência da Justiça Estadual”. APOLINÁRIO, Silvia Menicucci de O. S.; CARNEIRO, Wellington Pereira. A Proteção contra o Genocídio no Ordenamento Jurídico Brasileiro. In: AMARAL JUNIOR, Alberto do; JUBILUT, Liliana Lyra. (org.) O STF e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. São Paulo: Quartier Latin, 2009, pg. 401.

738“É preciso que o Judiciário Trabalhista assuma o papel de garante da aplicação das normas internacionais não

186 sistema jurídico internacional, já que não faltam tratados que versam sobre proteção ao trabalhador, direitos políticos e regime militar.

Por fim, também não se pode contestar que a Justiça Estadual também tem o dever de aplicar as normas contidas em tratados internacionais, principalmente os protetivos de direitos humanos. Infelizmente, conforme já fora salientado, raríssimos são os casos em que os Juízes e Tribunais estaduais fundamentam suas decisões com base nas fontes do Direito Internacional dos Direitos Humanos ou mesmo levando em consideração a interpretação que as Cortes e Tribunais Internacionais conferem as referidas normas739.

Diante da distribuição de competências realizada pela Constituição no que tange a aplicação dos tratados internacionais, resta claro e evidente que é atribuição comum de todos os órgãos do Poder Judiciário, conforme já fora afirmado, a defesa dos direitos humanos previstos internacionalmente. Para tanto, é necessário que os órgãos que exercem a jurisdição, principalmente a constitucional, realizem seus melhores esforços para harmonizar o direito estatal ao Direito Internacional dos Direitos Humanos740.

Diante da clara evidência do dever de aplicação dos tratados internacionais pela jurisdição brasileira e constatada a competência da Justiça Federal para tanto, necessário se faz uma breve análise de algumas decisões em que os tratados internacionais de direitos humanos foram especificamente aplicados pela Justiça Federal, seja na primeira ou na segunda instância.

§ 1º Aplicação dos Tratados Internacionais de Direitos Humanos pela Justiça Federal

Os Estados tem o dever inequívoco de adimplir os compromissos internacionalmente firmados em virtude, dentre outros fundamentos, do princípio do pacta sunt servanda. Dessa forma, ao incorporar determinadas fontes do Direito Internacional, como é o caso dos tratados

supranacional. Para tanto, é indispensável a coragem de romper com as tradições hermenêuticas enraizadas na cultura jurídica nacional de primazia do direito interno sobre o direito internacional. Mister superar as fórmulas que empurram as normas internacionais de direitos humanos para um status infraconstitucional, ousando uma

nova exegese constitucional e promovendo a aplicação de tais garantias às relações de trabalho”. REZENDE,

Roberto Vieira de Almeida. O Direito Internacional dos Direitos Humanos, a Constituição e o Papel dos

Órgãos Judicantes no Brasil. Aplicação e Exigibilidade Judicial dos Direitos Humanos previstos no Direito Internacional. Rev. TST, Brasília, vol. 70, nº 2, jul/dez 2004, pg. 109.

739“La circulación de las jurisprudencias no compromete por tanto la identidad de la propia. La comunicación de

experiencias está siempre filtrada porque presupone estándares mínimos de homogeneidad o juicios de congruencia sobre los textos y los contextos jurisprudenciales. Estos juicios son de las cortes nacionales. No

determinan ninguna disminución de su función soberana”. ZAGREBELSKY, Gustavo. Ob. cit., pg. 162.

740 ALCALÁ, Humberto Nogueira. Reforma constitucional de 2005 y control de constitucionalidad de tratados internacionales. Estudios Constitucionales, Centro de Estudios Constitucionales de Chile, Universidad de Talca,

187 internacionais, todos os órgãos públicos e entidades estatais, independentemente da esfera de governo ou mesmo do Poder a que pertencem, passam a estarem vinculadas as normas pactuadas.

Com relação ao Poder Judiciário não poderia ser diferente. Uma vez que os órgãos que exercem a jurisdição fazem parte da estrutura do Estado, também estão claramente obrigados a respeitar as normas provenientes do sistema jurídico internacional. Dessa forma, independentemente de fazer parte da Justiça Comum ou Especializada, Federal ou Estadual, dos Tribunais Superiores aos Juízos Monocráticos, todos devem aplicar os preceitos contidos nas fontes do Direito Internacional, especialmente nos tratados internacionais de direitos humanos.

Conforme fora demonstrado anteriormente, a Justiça Federal brasileira possui competência fixada constitucionalmente para aplicação dos referidos tratados. Dessa forma, torna-se necessária uma breve investigação acerca da aplicação dos tratados internacionais de direitos humanos pela Justiça Federal, tanto em primeira quanto em segunda instância.

A primeira decisão a ser analisada em que a aplicação direta de determinado tratado internacional de direitos humanos resta claramente evidenciada ocorreu num caso de apatridia. Trata-se de ação ordinária que tramitou perante a 4ª Vara Federal da Seção Judiciária do Rio Grande do Norte e que foi julgada pelo Dr. Edilson Pereira Nobre Júnior741, na qual o autor, refugiado de seu país de origem (Burundi) em virtude de violenta guerra civil e étnica, solicitou o reconhecimento de sua condição de apátrida (heimatlos), uma vez que não detém a condição de nacional reconhecida por nenhum Estado.

Apesar de a União Federal ter contestado o pedido feito pelo autor e pugnado pelo seu indeferimento, o citado Juízo entendeu por aplicar as disposições da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, no que toca ao direito a nacionalidade e de ser reconhecido como pessoa, e a Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas de 1954742, para fundamentar o reconhecimento ao autor da condição de apátrida, com todos os direitos que esse status lhe confere, tais como o direito a demandar em juízo, ao exercício de atividade profissional remunerada, benefícios da previdência, saúde e assistência social, livre circulação, obtenção de documentos de identidade, dentre outros.

741 Cf. BRASIL, 4ª Vara Federal da Seção Judiciária do Rio Grande do Norte. Proc. nº 2009.84.00.006570-0.

Juiz Edilson Nobre. Natal/RN, 19/03/2010. Publicado em 20/03/2010.

742 Aprovada pelo Decreto Legislativo nº 38, de 5 de abril de 1995, e promulgada pelo Decreto nº 4.246, de 22 de

188 A decisão em comento, ao aplicar um tratado internacional de direitos humanos, evitou que o seu autor fosse considerado como uma mera coisa pelo Estado brasileiro. Com efeito, pautou-se inegavelmente no postulado da dignidade da pessoa e nos princípios básicos do Direito Internacional dos Direitos Humanos.

Apesar de todo o acerto da decisão em análise, a União Federal optou por interpor recurso de apelação, que foi processado e julgado pela 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, cujo Relator foi o Des. Federal Bruno Leonardo Câmara Carrá (convocado)743. De forma bastante segura, o referido órgão jurisdicional, por unanimidade, negou provimento à apelação da União Federal, com base nas disposições contidas na Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas e no princípio da dignidade da pessoa humana.

O teor das decisões proferidas pelos órgãos citados da Justiça Federal somente demonstram que a aplicação dos tratados internacionais de direitos humanos incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro favorece a proteção dos direitos mais básicos dos indivíduos, como é o caso do reconhecimento da personalidade.

Outras decisões podem ser encontradas em que a aplicação dos tratados internacionais de direitos humanos pela Justiça Federal é bastante nítida.

De suma importância, pode-se citar uma decisão proferida pela 7º turma do Tribunal Regional Federal da 1º Região em que se reconheceu que a prisão civil por dívida do depositário infiel não é mais tolerada em nosso ordenamento jurídico, em face da aplicação do Pacto de São José da Costa Rica, norma de nível constitucional por força do art. 5º, §2º da Constituição Federal de 1988744.

Decisão que também se destaca pela aplicação dos tratados internacionais de direitos humanos foi proferida pela 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, na qual também reconheceu a impossibilidade da prisão civil por dívida do depositário infiel, em virtude do caráter supralegal de tais tratados, como é o caso da Convenção Americana de Direitos Humanos e do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos745.

Além dos tratados internacionais acima citados, outros também foram efetivamente aplicados pela Justiça Federal, como é o caso da Convenção-Quadro para o Combate do

743 BRASIL. TRF 5ª. APELREEX13349-RN. 3ª Turma. Des. Federal Bruno Leonardo Câmara Carrá

(convocado). Julgado em 29/09/2011. Publicado em 18/11/2011.

744 BRASIL. TRF 1ª. APELAÇÃO CÍVEL nº 200040000014865. 7ª Turma. Des. Federal Luciano Tolentino

Amaral. Julgado em 20/10/2009. Publicado em 06/11/2009.

745 BRASIL. TRF 2ª. REMESSA EX OFFICIO nº 354787. 4ª Turma. Des. Federal Luiz Antonio Soares. Julgado

189 Tabaco, no que tange a obrigatoriedade de advertências escritas e imagens em maços, embalagens e material publicitário de derivados do tabaco746.

Não só tratados internacionais, mais também princípios básicos do Direito Internacional dos Direitos Humanos, como o da primazia da norma mais favorável, (interpretação pro homine), também vem sendo utilizados pela Justiça Federal em suas decisões, conforme se depreende do acórdão proferido pela 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em que houve a aplicação do citado princípio hermenêutico como instrumento de proteção ao meio ambiente, a fim de promover a recuperação ambiental de áreas degradadas747.

Por fim, cabe destacar a decisão prolatada pela 6ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em que a União Federal foi obrigada a abrir seus arquivos militares acerca dos fatos ocorridos durante a Guerrilha do Araguaia, a fim de garantir a possibilidade de um sepultamento digno dos restos mortais de dezenas de pessoas, bem como a descoberta da verdade por seus familiares acerca das circunstâncias das mortes748. O que particulariza o acórdão em tela é a aplicação não só das Convenções de Genebra (Direito Internacional Humanitário), mas também a referência expressa a decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos, como as proferidas nos casos Blake e Neira Alegria.

Diante das poucas decisões mencionadas, constata-se que ainda é bastante tímida a aplicação dos tratados internacionais de direitos humanos, bem como dos precedentes de Cortes e Tribunais Internacionais por parte da Justiça Federal brasileira. Espera-se que essa situação ganhe novos contornos com a possibilidade de a Justiça Federal ser, após o advento da Emenda Constitucional nº 45/2004, competente para julgar as graves violações aos direitos humanos.

§ 2º O Incidente de Deslocamento de Competência

Uma nova competência foi atribuída a Justiça Federal pela Emenda Constitucional nº 45/2004. Trata-se da competência outorgada aos Juízes Federais para julgar as causas

746 BRASIL. TRF 4ª. AGRAVO DE INSTRUMENTO nº 200804000462705. 3ª Turma. Des. Federal Roger

Raupp Rios. Julgado em 31/03/2009. Publicado em 22/04/2009.

747 BRASIL. TRF 4ª. AGRAVO DE INSTRUMENTO nº 200704000414457. 3ª Turma. Des. Federal Carlos

Eduardo Thompson Flores Lenz. Julgado em 17/02/2009. Publicado em 25/03/2009.

748 BRASIL. TRF 1ª. APELAÇÃO CÍVEL nº 200301000410335. 6ª Turma. Des. Federal Souza Prudente.

190 relativas a direitos humanos nas hipóteses de grave violação de tais direitos749. Nesse caso, poderá ocorrer o denominado Incidente de Deslocamento de Competência750.

Essa alteração constitucional adveio como forma de evitar que o Estado brasileiro possa ser condenado por Corte e Tribunais Internacionais em virtude da prática de atos que configurem violações aos direitos humanos. Com efeito, no que toca aos Estados Federais, como é o caso do Brasil, o Direito Internacional exige o fiel cumprimento de suas normas sem aceitar que a divisão política e constitucional de competências estatais entre os Entes Federativos possa ser utilizada para legitimar a violação do que fora pactuado no âmbito internacional751.

Para o Direito Internacional, compete à União Federal e não as demais Entidades Políticas (Estados-membros, Distrito Federal e Municípios) fazer cumprir os compromissos internacionais assumidos, bem como representar o Brasil em caso de responsabilidade internacional por violação as citadas obrigações. Dessa forma, em face desta sistemática vigente, a União, ao mesmo tempo em que detém a responsabilidade internacional, não é responsável no âmbito interno, vez que não é competente para investigar, processar, julgar e punir muitas das violações pela qual estará internacionalmente convocada a responder752. Com efeito, tal fato justifica a federalização das graves violações aos direitos humanos753, pois somente dessa forma, os demais Entes Federativos serão encorajados a atuar, sob o risco do deslocamento de competência754, bem como poderá haver certa diminuição no número de casos submetidos à jurisdição internacional, assim como certo aumento no controle à impunidade.

749

Cf. o inc. V do art. 109 da Constituição Federal de 1988.

750 Art. 109. § 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a

finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004).

751 RAMOS, André de Carvalho. O Diálogo das Cortes: O Supremo Tribunal Federal e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. In: AMARAL JUNIOR, Alberto do; JUBILUT, Liliana Lyra. (org.) O STF e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. São Paulo: Quartier Latin, 2009, pg. 842.

752 PIOVESAN, Flávia. Ob. cit., pg. 305.

753“A transferência que se promove para a Justiça Federal poderá ser prestigiada por parte da doutrina, que

vislumbrará nela uma justa adequação entre responsabilidade e poderes da União. É que, sendo o país, por meio da União, responsável internacionalmente pelo cumprimento dos tratados sobre direitos humanos, muito se criticava a circunstância de não ter esta entidade federativa o controle pleno sobre a aplicação das diretrizes internacionalmente assumidas, posto que muitas delas pertencem à alçada dos estados-membros”. TAVARES, André Ramos. Ob.cit., pg. 49.

754

191 Diante do exposto, observa-se que a norma contida no art. 109 § 5º da Constituição Federal de 1988 tem por finalidade ampliar a eficácia da proteção aos direitos humanos, principalmente em face dos compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro ao celebrar tratados e convenções internacionais755, assim como evitar que o Brasil venha a ser responsabilizado por não cumprir adequadamente as obrigações livremente pactuadas756.

Segundo os preceitos trazidos pelo dispositivo acima referido, compete ao Superior Tribunal de Justiça757 julgar o incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal, em qualquer fase do inquérito ou processo758, nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, após ser suscitado pelo Procurador-Geral da República. Desse modo, conforme leciona André Ramos Tavares, são quatro as condições cumulativas para que se possa efetivar exitosamente o deslocamento em comento: a) estar originariamente à competência atribuída a Justiça estadual; b) haver grave violação de direitos humanos; c) obter o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais dos quais o Brasil haja incorporado; e, d) ser suscitado pelo Procurador-Geral da República759.

Alguns questionamentos são trazidos por parte da doutrina acerca do incidente de deslocamento de competência. Inicialmente, discute-se a questão dos processos de competência do tribunal do júri. Poderiam ser deslocado para a Justiça Federal? Seria necessária a criação de varas de júri na Justiça Federal? Essas indagações não foram respondidas até o presente momento760.

Outra questão que merece ser tratada com atenção é a ausência de uma definição

clara do que seja ‘grave violação de direitos humanos’. Com efeito, há certa

755 Cf. MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Ob. cit., pg.

1029.

756 Cf. APOLINÁRIO, Silvia Menicucci de O. S.; CARNEIRO, Wellington Pereira. A Proteção contra o Genocídio no Ordenamento Jurídico Brasileiro. In: AMARAL JUNIOR, Alberto do; JUBILUT, Liliana Lyra.

(org.) O STF e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. São Paulo: Quartier Latin, 2009, pg. 403.

757 O STJ regulamentou a matéria através da Res. nº 6, nos seguintes termos: Art. 1o. Fica criada a classe

processual de Incidente de Deslocamento de Competência — IDC, no rol dos feitos submetidos a esta Corte, em razão ao que dispõe a Emenda Constitucional no 45/2004 mediante o acréscimo do parágrafo 5o ao art. 109 da Constituição Federal. Parágrafo único. Cabe a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça o julgamento da hipótese prevista no caput deste artigo. Art. 2o. Fica sobrestado, até que este Tribunal delibere acerca do assunto, o pagamento de custas dos processos tratados nesta resolução que entrarem no Superior Tribunal de Justiça após a publicação da mencionada Emenda Constitucional. Art. 3o. A Secretaria Judiciária, após aquiescência do Presidente da Corte, implementara todas as providencias necessárias ao cumprimento desta resolução. Art. 4o. Esta resolução entrara em vigor na data de sua publicação. (BRASIL, 2005)

758 “O dispositivo refere-se a ‘inquérito ou processo’, sem qualquer outra restrição. Ora, já de se incluírem,

automaticamente, o inquérito civil, além do criminal, e os processos de qualquer natureza, inclusive por improbidade administrativa ou decorrentes de ação civil pública”. TAVARES, André Ramos. Ob. cit., pg. 50.

759 Ob.cit., pg. 51.

192 discricionariedade no texto trazido pela E.C nº 45/04, o que enseja certa liberdade ao Procurador-Geral da República para dentro dos padrões de proporcionalidade decidir se suscita ou não o incidente, bem como ao Superior Tribunal de Justiça, que o julga761.

Benzer Belgeler