A evolução da Sociedade fez desaparecer a idéia de Estado mínimo que caracteriza o Estado Liberal. A concentração do capital tornou-se um grande problema para o próprio Capitalismo, fazendo necessária a intervenção do Estado e, logicamente sob a nova ótica, a ótica do mercado, que se acreditava poder a tudo regular.
É um novo estágio para o princípio da separação de poderes. Desta feita, com um Estado formatado para atender às demandas que lhes são apresentadas sob a ótica prioritariamente de mercado.
Com isso, esboroaram-se as fronteiras entre a Política e a Economia. Tal fato ampliou substancialmente as atribuições do Estado, e o Estado-árbitro passa a ser o Estado-prestação. 156
155 BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 10ª Ed. São Paulo: Malheiros, 1994, p. 143.
156 CLÈVE, Clèmerson Merlin. Atividade Legislativa do Poder Executivo no Estado Contemporâneo e na
Constituição de 1988. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1993, p. 39: “O Estado Social é um Estado que garante a subsistência e, portanto, é Estado de prestações, de redistribuição de riqueza”.
A própria noção de direitos fundamentais que os liberais tinham por limitados à esfera privada da vida foi ampliada no Estado Social para inserir direitos dos cidadãos às prestações do Estado, no âmbito da saúde, segurança, educação, trabalho, moradia, existência digna, além de outros não menos importantes. Cria-se, com isso, uma esfera pública, rica em demandas de toda sorte. Em miúdos, tem-se que, aos direitos negativos, acresceram-se direitos positivos.
O Estado passa, assim, a ser o defensor dos interesses do mercado. A produção legislativa do período dirige-se em larga escala a diminuir a autonomia privada na condução dos negócios, o que acaba por fortalecer a regra mercadológica da livre concorrência.
Desse modo, revelou-se evidente a inviabilidade do capitalismo liberal, o Estado cuja penetração na esfera econômica já se manifestara da instituição do monopólio da emissão da moeda – poder emissor – na consagração do poder de polícia e, após, nas codificações, bem assim na ampliação dos serviços públicos, assume o papel de regulador da economia. 157
No paradigma social, além da necessidade de realizar suas novas atribuições reguladoras, o Estado é chamado a desenvolver participação efetiva no mercado e o faz por meio da constituição de empresas e companhias estatais.
Com a invasão da política pela economia no sistema do Estado Social, é impossível se pensar no princípio da separação de poderes como algo mítico, dogmático, estanque, como durante tempo foi entendido. Em vez de separação de poderes, mais adequado às circunstâncias atuais, é falar em colaboração de poderes, aproximando a compreensão do princípio do Modelo Parlamentar de Governo. 158
157 GRAU, Eros Roberto. A ordem Econômica na Constituição de 1988: interpretação e crítica. São
Paulo: Editora RT, 1990, p. 40.
158 SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo. 26ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Malheiros, 2006, p. 109: “Hoje, o princípio não configura mais aquela rigidez de outrora. A ampliação das atividades do Estado contemporâneo impôs nova visão da teoria da separação de poderes e novas formas de relacionamento entre os órgãos legislativo e executivo e destes com o judiciário, tanto que atualmente se prefere falar em colaboração de poderes, que é característica do parlamentarismo, em que o governo depende da confiança do Parlamento (Câmara dos Deputados), enquanto, no presidencialismo, desenvolveram-se técnicas da independência orgânica e harmonia dos poderes”.
A dinâmica experimentada pela Sociedade nos últimos anos não tem precedentes na história da Humanidade. A velocidade com que os bens e serviços mudam de padrões e de mãos é acompanhada por uma igualmente veloz mudança de valores.
Como sustenta Adeodato, as transformações sociais, econômicas, políticas e jurídicas ocorridas no século XX “provocaram um rompimento com a tradição e o passado comuns, sem oferecer qualquer substitutivo seguro para nortear a ação política e a elaboração das normas jurídicas, rompimento esse que se manifesta na tão falada „crise de poder‟ – que nada mais é que uma crise de legitimidade do poder”. 159
Como o Estado Liberal se consolidou a partir da crise do Estado Absoluto, o Estado Social se consolida a partir das crises do Estado Liberal. Registrem-se como deflagradores de crises a universalização do sufrágio universal, a evolução da Ciência e da Tecnologia, as reivindicações da Classe Operária, as revoluções socialistas, a passagem da empresa individual para a coletiva e da concorrência para o oligopólio. Tudo isso fez emergir a Sociedade de Massas e suas necessidades e, como conseqüência, o nascimento de um novo tipo de Estado. 160
É neste quadro de instabilidades e contingências que o Direito é impelido a olhar para a frente, conformar-se com o futuro, tornar-se menos fechado num esquema de tipificação elaborado segundo eventos ocorridos no passado. 161
A dinâmica ordem econômica impôs à ordem política olhar para frente. Aqui, olhar para a frente tem o sentido de procurar uma alternativa para legitimar, ágil e seguramente, os negócios e as transferências de capitais. Somente assim os novos proprietários têm
159 ADEODATO, João Maurício. Ética e retórica: para uma teoria da dogmática jurídica. SP: Saraiva,
2002, p.53.
160 CLÈVE, Clèmerson Merlin. Atividade Legislativa do Poder Executivo no Estado Contemporâneo e na
Constituição de 1988. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1993, p. 39.
161 GUERRA FILHO, W. S. Teoria Processual da Constituição. São Paulo: Celso Bastos/IBDC, 2000, p.
assegurados os seus direitos, ou seja, têm segurança jurídica. A forma de operar do Legislativo já não oferece a agilidade necessária para o pronto atendimento.
Como fazer isso então? Reabilitando o princípio da separação de poderes e concedendo-lhe maior flexibilidade interpretativa. A razão para tanto se mostra bem simples.
Não há divergência quanto à tripartição de funções do Estado e, se o Estado Social é o Estado da prestação e do serviço, o Poder mais adequado para o cumprimento de tais demandas é o Executivo. Por ser assim, ele carece de maior parcela de poder para desincumbir de sua missão.
Contudo, nem sempre é fácil ao Executivo - que se encaminha no paradigma do Estado Democrático de Direito, assumir o significado de governo -, conciliar tamanhas e tão díspares atribuições do Estado Social com o Estado de Direito.
O veículo que serve à conciliação é o Direito Constitucional. A ele compete encontrar as rotas e os procedimentos que equalizem essas dimensões. Mas é salutar que se tenha, desde já, a consciência de que, no Modelo de Estado Social, a liderança política sempre será do Poder Executivo, a quem “será atribuída boa parte das novas e recentes funções conquistadas pelo Estado. Daí o seu relativo predomínio, especialmente sobre o legislativo”. 162
Nesse Modelo, a Constituição é considerada uma carta política/jurídica e, sendo assim, tem a sua força normativa, o que exige atividade de controle de constitucionalidade das leis que se produzem e, mesmo sobre o seu próprio processo de produção, naquilo que se traduza em ofensa ou violação a direito subjetivo.
162 CLÈVE, Clèmerson Merlin. Atividade Legislativa do Poder Executivo no Estado Contemporâneo e na