O Afrasiático é uma língua hipotética deduzida pela comparação entre diversos ramos que se espalham pelo norte da África e pelo Oriente Médio. Correspondem aos grupos Berbere, Chádico, Egípcio, Semita e Cuxita (LEHMANN, 1969; MILITAREV, 2011) e alguns estudos incluem o Omótico, mesmo que de forma controversa (CAMPBELL, 1999; DOLGOPOLSKY, 2008; STAROSTIN, DYBO, 2008; THEIL, 2007).
As línguas Afrasiáticas são caracterizadas pelo molde da raiz. Apesar de ser bem mais forte nas línguas semitas e no egípcio, a raiz afrasiática é quase sempre
37 δembὄando ὃue “o canto, paὄa aὃuele ὃue o naὄὄa [έέέ], conὅtitui a ὄealiὐação ὅimbólica de um deὅejoλ a
identidade virtual que, na experiência da palavra, se estabelece um instante entre o narrador, o herói e o
ouvinte, cria, segundo a lógica do sonho, uma fantasmagoria libeὄtadoὄa” (ZἧεἦHηἤ, 1ιιγ, pέ εε)έ
consonantal, de duas ou três consoantes (GREENBERG, 2005; MILITAREV, 2011). Sua estrutura é quase sempre CCC – tripla consoante –, na qual alternam vogais dentro de um padrão pré-estabelecido de inflexões, chamadas transfixos. A princípio, a classe de palavras que se utiliza de fato de transfixos é o verbo (KLEIN, 1987; MENDES, 1981), apontando o Proto-Afrasiático como uma língua verbal, ou focada na ação. Nesse sentido, todas as palavras são, de certa forma, derivações de formas verbais. Em torno desse núcleo consonântico modificado pelas vogais inserem-se prefixos, sufixos e desinências que auxiliam a compreensão da palavra (MENDES, 1981; MILITAREV, 2011).
As classes nominais apresentam flexão em número – singular, dual, plural –, gênero – masculino, feminino – e caso – nominativo, acusativo, genitivo (KLEIN, 1987; LOPRIENO, 1995; MENDES, 1981). As flexões de número e gênero costumam vir valoradas em uma única desinência, enquanto que o caso tende a aparecer como desinência separada (KLEIN, 1987). Ao mesmo tempo, há uma grande profusão de plurais internos nas línguas semitas, como ocorre no Árabe, com o singular sadd e o plural sud̄d (= mal). Fenômeno similar observa-se no Indo-Europeu, como se vê no inglês tooth (= dente), cujo plural se faz teeth (KLEIN, 1987; MILITAREV, 2011).
ρὅὅim, uma ὄaiὐ como √yqd significa qualquer coisa relacionado ao fogo, à queima e às cinzas. Uma palavra como ȳqadh ὅignificaὄia “ele ὃueimou”, hoyəq̄dh “ele foi ὃueimado”, yəq̄dh “ὃueima” e ȳq̄dh “fogo” (ἥἑHWρζἦEἥ, 1ιθ1)έ ρpeὅaὄ da altamente permissiva flexibilidade vocálica, as consoantes são fixas.
O verbo é todo um sistema complexo de combinações de transfixos, prefixos e sufixos para indicar variações em tempo-aspecto – completo, incompleto –, modo – indicativo, imperativo, optativo, jussivo –, pessoa – primeira, segunda, terceira –, grau - – normal, intensivo, causativo –, voz – ativa, passiva, médio-passiva. As línguas afrasiáticas também têm uma complexa estutura de particípios para cada combinação pessoa-grau-voz (KLEIN, 1987; MILITAREV, 2011).
Não há um apanhado das raízes afrasiáticas com o significado de alma, exceto enquanto desdobramento de suas línguas descendentes. Porém, seu vocabulário original levantado por Militarev (2011) pode elucidar um pouco sobre o modo de pensar a respeito da morte e da vida após a morte para o povo afrasiático original.
1) A raiz afrasiática*( -)lib(b)- “coὄação”, que possui a variante *la/lip “óὄgão inteὄno”, pode ser encontrada em diversas línguas, como no egípcio ̉b “coὄação”, e no bura (do ramo chádico central) libu “eὄva com folha em
forma de coὄação”. As línguas cuxíticas apresentam o somali laab “coὄação”, o oromo lubbuu “coὄação, alma, eὅpíὄito”, o amárico lubbo “alma”, e o afar lùbbi “coὄação, alma”έ Militarev também acusa a palavra semita na língua ma a lubúra “baço”έ Em hebraico há o termo lebh “coὄação”, ὃue paὅὅou a ὅignificaὄ “alma” no peὄíodo helênico (KδEIζ, 1ιθἅ)έ
2) O Afrasiático*n∇f∇s- “ὄeὅpiὄação”, como visto no primeiro capítulo, é visto no Semita *√npš “ὄeὅpiὄaὄ, alma, peὄὅonalidade”, no berbere ahaggar unfas “ὅopὄo”, e no cuxítico saho nafse “ὄeὅpiὄação”έ Como visto no primeiro capítulo, todaὅ aὅ deὄivaçὴeὅ poὅὅíveiὅ ὄefeὄenteὅ a “alma” ocoὄὄem ὅomente dentro das línguas semitas.
3) O afrasiático *maw∇t- “moὄὄeὄ” apὄeὅenta algumaὅ palavὄaὅ iὅoladaὅ referentes à vida após a morte em algumas línguas isoladas como o Egípcio (LOPRIENO, 1995) e o Hebraico (SCHWANTES, 1981), este derivando do Proto-Semita *mwt “moὄὄeὄ”έ As demais línguas preservam o significado original para a morte, como no protoberbere *immut “moὄte”, no protochádico ocidental *mawut- “moὄte”, no protochádico central *m∇t∇- “moὄte”, no protochádico oriental *mawut- “moὄte”, e no cuxítico, com as línguas somali m̄d/t “moὄte” e oromo a-mutaa “luto, funeὄal”έ Portanto, é um termo ligado unicamente à cessação da vida, e menos a uma vida após a morte.
4) Militarev aponta a raiz proto-semita *√˼dr “peὄnoitaὄ, moὄaὄ” e * ạr- “feὅtim, banὃuete, tempo, eὅtação, noite”, ὃue ὅe veὄifica no hebraico ̣̆r̄ “feὄiado, dia ὅanto, celebὄação, aὅὅembleia feὅtiva”, no siríaco ̣̄art- “ὅacὄifício”, no sabaico ̮dr “funeὄal” e no etíope selti ar̄t “noite”έ θoὄém, apesar de Militarev indicar essa como uma raiz primitiva do Afrasiático, faltam exemplos de línguas de outras famílias para reforçar esse argumento. 5) O afrasiático *g∇b(b)- ou *g∇bb-∇r/l- “ὅentaὄ, pὄoὅtaὄ-ὅe, banco ὅagὄado”
pode ser encontrado em egípcio ̱bʒ (< *gbr/l) “altaὄ, templo assentado no gὄanito, tὄono ὅocado”έ Essa raiz apresenta cognatos nas línguas cuxíticas, como no somali gämbär “peὃuena cadeiὄa ciὄculaὄ com ὃuatὄo peὄnaὅ”, e no amárico gwəbbalä “ὅentaὄ-ὅe”έ
6) O vocábulo afrasiático *yada - ~ *daya “conheceὄ, ὅabeὄ” foi veὄificado no primeiro capítulo. Ele evoluiu no Chádico Central, na língua Mandara, para o vocábulo diya “conheceὄ, ὅabeὄ”έ ἤaíὐ ὅemelhante ὅe veὄifica no ὅemita
iraqw da -ati “bὄuxaὄia” e da -ari “ὃueimaὄ”έ Lembrando o primeiro capítulo, é a mesma raíz que em Hebraico evoluiu para yidhə ̄n̄ “eὅpíὄito familiaὄ, adivinho”, derivado da raiz √yd “ὅabeὄ, expeὄimentaὄ, ὄeconheceὄ, preocupar-se, conhecer, aprender, compreender, distinguir, mostrar, confeὅὅaὄ e pὄoclamaὄ”έ Verifica-se ainda o aramaico yədh
a “ele conheceu”, o ugarítico yd , o acadiano e o assírio id̄ “conheceὄ” e o fenício √yd “anunciaὄ, naὄὄaὄ”έ Essa mesma raiz está presente no etíope ayde a “faὐeὄ conheceὄ”έ ζa contὄoveὄὅa família omótica (THEIL, 2007), observa-se na língua Bworo a palavra daan “conheceὄ”έ
7) O afrasiático *d∇w/y∇n- “ofeὄeceὄ um ὅacὄifício” é o único exemplo de vocabulário sagrado levantado por Militarev. Esse termo pode ser encontrado no Semita, principalmente no acadiano nad̄nu “ofeὄeceὄ um ὅacὄifício”, e na raiz árabe √dyn “ὄeὐaὄ, empὄeὅtaὄ, ὄetὄibuiὄ”έ Ambas derivam do semita *√nήytn “daὄ, ofeὄeceὄ”έ Em Egípcio há a raiz wdn “ὅacὄifício”, e no Chádico, na língua Angas, a palavra t̄n “tuwo como uma ofeὄenda”έ
Portanto, como observa-se nesses casos, não existe um vocabulário comum no Afrasiático para reportar o sentido de alma ou espírito. O vocabulário levantado por Traunecker (1995), Curtiss (1902) e Militarev (2011) refere-se a uma vida religiosa comum somente quanto à oferta de sacrifícios, apesar de não especificar o tipo de sacrifício a que se refere essa terminologia.
As populações afrasiáticas apresentam uma dúbia origem. Análises do DNA do Cromossomo-Y sugerem que os povos afrasiáticos apresentam elementos fortes do haplogrupo do clado E1b1b, originado na Somália e na Etiópia 22.000 AEC. Porém, algumas evidências podem apontar um outro clado para o Afrasiático, a saber, o haplogrupo J, fortíssimo na Península Arábica desde 25.000 AEC - o grupo J originou- se em meados de 40.000 a 34.000 AEC -, mais especificamente o J1c3, cuja distribuição também se assemelha à dos grupos linguísticos Afrasiático e Dravídico. Porém, os povos afrasiáticos sugerem também uma origem asiática, como apontam as evidências genéticas do grupo R1b1a, surgido há 18 mil anos a.C. e espalhado por boa parte da África, Ásia e Europa. Portanto, o mais provável é que as populações afrasiáticas na
África sejam povos aculturados ou descendentes de povos que retornaram à África em busca de melhores condições de vida (SYKES, 2003) 39.