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Dentre os elementos sobre os quais a infância se fundamenta, Sarmento (2003) destaca as culturas da infância, as quais compreendem maneiras particularmente infantis de inteligibilidade, representação e simbolização do mundo. Não obstante a importância das culturas da infância como um todo para o estabelecimento do discurso lúdico para crianças, uma vez que os responsáveis pela produção e difusão desse discurso se valem, mesmo que não conscientemente, do conhecimento sobre essas culturas, ou seja, do modo pelo qual as crianças significam o mundo, entendemos que a ideia de cultura lúdica infantil, como nos apresenta Brougère (1998a), interessa mais de perto para o estudo da concepção de discurso lúdico para crianças, visto que esse discurso se caracteriza não apenas como um discurso ou produto cultural destinado à infância, mas também como um discurso lúdico, isto é, um

discurso que tende à polissemia e que compreende o uso da linguagem que se volta fundamentalmente ao prazer, o que não significa que não possa agregar também finalidades práticas.

Enquanto as culturas da infância, segundo Sarmento (2003), consistem em modos sistematizados de significação do mundo e de ação intencional produzidos de forma autônoma pelas crianças, a cultura lúdica infantil, conforme Brougère (1998a), trata de um conjunto de significações específicas à brincadeira e que servem, para a criança, de parâmetro para definir uma atividade como lúdica. Portanto, a cultura lúdica infantil compreende um conjunto de significações menos abrangente do que o das culturas da infância.

É tendo em vista, portanto, a infância e, no seu âmbito, particularmente, a cultura lúdica infantil, que entendemos que o discurso lúdico para crianças cumpre a função de ser fonte de prazer, estando a esta frequentemente atrelada uma finalidade educativa. Por um lado, considerando a infância, tem-se em mente sujeitos que passam por grandes transformações físicas, por profundas modificações de suas habilidades, motoras ou de

linguagem, e isso “temos o costume de chamar de desenvolvimento ou aprendizagem”

(BROUGÈRE, 2004, p. 197). A infância é, assim, um momento de desenvolvimento, de

aprendizagem e, por isso, “é marcada pelo investimento educativo dos pais e de toda a sociedade, com o risco e ocultar os outros aspectos desse período da vida” (p. 197). Isso

evidencia e fundamenta o fato de que a finalidade prática a que o discurso lúdico para crianças pode se voltar é, principalmente, a educativa. Por outro lado, considerando a cultura lúdica infantil, tem-se em mente “os outros aspectos desse período da vida”, destacando-se a brincadeira, através da qual o discurso lúdico para crianças busca atingir a finalidade de ser fonte de prazer, de diversão, de entretenimento. É consenso que a brincadeira é uma atividade caracterizadora da infância, não porque ela seja natural ou porque os adultos também não a

pratiquem, mas porque “as crianças brincam contínua e abnegadamente. Contrariamente aos

adultos, entre brincar e fazer coisas sérias não há distinção, sendo o brincar muito do que as

crianças fazem de mais sério” (SARMENTO, 2003, p. 15).

Levando em conta, desse modo, a infância, enquanto fase de aprendizado e de brincadeira, o discurso lúdico para crianças visa não só divertir, mas também, em diversos momentos, ensinar, ou melhor, divertir ensinando, o que não significa que esse discurso não possa ser gratuito, mas até mesmo nesses casos ou por conta mesmo dessa gratuidade ou frivolidade ele pode ser um espaço de aprendizagem, pelo menos em relação ao uso da linguagem.

Portanto, assim como Brougère (2004, p. 335) defende que “aqueles que concebem o brinquedo integram a ele, e também aos relatos que os acompanham, uma visão da brincadeira extraída da cultura lúdica infantil, quer baseada em conhecimentos intuitivos ou

em estudos mais estruturados das crianças”, também defendemos a ideia de que, na produção

do discurso lúdico para crianças, integra-se a ele uma visão da brincadeira extraída da cultura lúdica infantil, baseada ou não em estudos sistematizados. Desse modo, as crianças com sua cultura lúdica encontram-se na origem desse discurso, intervindo ativamente. Por outro lado, esse discurso também intervém nessa cultura, propagando-a, propondo estruturas e/ou conteúdos para novas brincadeiras etc. Podemos dizer, portanto, que o discurso lúdico para crianças não só pressupõe e atua na construção da infância, como, particularmente, pressupõe e atua na construção da cultura lúdica infantil. O recurso à infância e, especialmente, à cultura lúdica infantil é um fator, portanto, caracterizador do discurso lúdico para crianças.

A brincadeira ou o ato de brincar aparece de diversas maneiras no discurso lúdico: sendo referido de forma genérica, como na canção “Agenda infantil”8 (Paulo Tatit / Zé Tatit, por Palavra Cantada, 2012); sendo tematizada de maneira particular, como no poema

“Campeonato”9

, de Manoel de Barros; configurando o próprio texto, como no poema

“Adivinha”10, de José Paulo Paes e na canção “Ciranda dos Bichos”11

(Sandra Peres / Zé

8

“Segunda-feira tenho aula de inglês / Na terça-feira curso de computação / Na quarta-feira faço uma terapia / Que me dá muita preguiça / Não tenho problema não / Na quinta-feira dia de ortodontista / Na sexta-feira é minha recuperação / Até no sábado acordar às sete horas / Pra treinar na minha escola / Capoeira e natação / Eu já falei pra minha mãe milhões de vezes / Meu Deus do céu eu não sou relógio não / Eu sou criança e criança nessa idade / Quer brincar bem à vontade / Sem ter tanta obrigação/Eu já falei mamãe mil vezes / Além de tudo tem um monte de lição!/Eu sou criança e criança nessa idade / Quer brincar bem à vontade/Sem ter tanta obrigação”.

9“Nos jardins da Praça da Matriz, os meninos urinavam socialmente. / A gente fazia campeonato pra ver quem mandava urina mais longe. / O menino que mandasse mais longe era campeão. / Mas não havia taça nem medalha. Umas gurias iam ver por trás dos muros a competição. / Acho que elas tinham alguma curiosidade ou inveja porque não podiam participar do campeonato. / Os meninos ficavam sérios como se estivessem defendendo a pátria naquele momento. / As meninas cochichavam entre elas e corriam de lá pra cá, rindo. / O campeonato só era diferente da Fórmula Um / Porque a gente não tinha patrocinadores”.

10

“Quem tem cama no mar? O camarão. / Quem é sardenta? Adivinha. A sardinha. / Que não paga o robalo? Quem roubá-lo. / Quem é o barão no mar? O tubarão. / Gosta a lagosta do lago? Ela gosta. / Quantos pés cada pescada tem? Hem? / Quem pesca alegria? O pescador? / Quem pôs o polvo em polvorosa? A Rosa”.

11 “A dança do jacaré quero ver quem sabe dançar. / A dança do jacaré, quero ver quem sabe dançar. / Rebola pra lá, rebola pra cá / E abre o bocão assim. / Remexe o rabo e nada no lago / Depois dá a mão pra mim. / A dança da cascavel, quero ver quem sabe dançar. / A dança da cascavel, quero ver quem sabe dançar. / Rebola para lá, rebola ondulado / E estica o pescoço assim. / E sobe no galho, balança o chocalho / Depois dá a mão para mim. / A dança do caranguejo, quero ver quem sabe dançar. / A dança do caranguejo, quero ver quem sabe dançar. / Rebola para lá, rebola para cá / Belisca o meu pé assim. / E mexe o olho e ande de lado / Depois dá a mão para mim . /A dança do peixe boi, quero ver quem sabe dançar. / A dança do peixe boi, quero ver quem sabe dançar. / Rebola pra lá, rebola pra cá / E abre a boquinha assim . /Me dá um beijinho e nada um pouquinho / Depois dá a mão para mim. / A dança do tuiuiu, quero ver quem sabe dançar. / A dança do tuiuiu, quero ver quem sabe

Tatit, por Palavra Cantada, 2014) etc. A brincadeira pode se manifestar também exclusivamente através das palavras, das rimas, da rítmica, ou seja, de elementos linguísticos e / ou sonoros. No discurso lúdico para crianças, estão presentes esquemas clássicos de

brincadeiras de imitação, como do tipo “bandido x mocinho”, “mãe e filha”, “bem x mal”. A

personificação e o animismo são outras estratégias bastante comuns nas brincadeiras de ficção e a elas o discurso lúdico recorre com frequência. Na verdade, existe uma relação tão estreita entre a cultura lúdica infantil e o discurso lúdico para crianças que se torna inviável a discussão sobre o que influencia o quê. Se é inviável essa discussão, por outro lado, essa imbricação entre discurso lúdico para crianças e cultura lúdica infantil revela a necessidade de se estudar um sempre em relação ao outro e vice-versa.

Essa produção discursiva para criança parece ser uma prática própria dos discursos lúdicos, visto que entre os discursos sérios (autoritário e polêmico) não se constata uma produção discursiva voltada para o público infantil. Tomemos como exemplos destes discursos, respectivamente, o discurso religioso e o discurso científico. A esses discursos não é comum ser associada subtipologia como discurso religioso infantil ou discurso científico infantil, embora, na prática, existam textos religiosos e científicos para crianças. Talvez a ausência dessa classificação se dê ao fato de que esses textos religiosos e científicos destinados à infância, na verdade, constituem mais uma adaptação, uma retextualização de textos feitos a priori para adultos. Os livros didáticos, que circulam tanto nas escolas quanto no contexto de igrejas, por exemplo, consistem em textos que parafraseiam textos-fonte, ocorrendo uma espécie de adaptação, diferentemente do que ocorre com os textos literários infantis ou com as canções para crianças que não são o produto direto da modificação de textos específicos, mas se configuram como textos “originais”, um uso da linguagem onde prima a polissemia e a criatividade. Outros exemplos de discursos autoritários, como o discurso militar e o discurso pedagógico e de discursos polêmicos, como o discurso político e o discurso jurídico, parecem também ratificar a ideia de que uma subtipologia que leve em conta as crianças enquanto interlocutores é bastante própria às práticas discursivas lúdicas, o que reforça a necessidade de se pensar um discurso lúdico para crianças.

O discurso lúdico infantil aparece, assim, como uma derivação do discurso lúdico. Seguindo o paradigma que vemos na subtipologia da literatura (literatura infantil) e do teatro

dançar. / Rebola para lá, rebola para cá / E voa no ar assim. / E sobe um pouquinho e desce um pouquinho / Depois dá a mão para mim. / A dança da criançada, quero ver quem sabe dançar. / A dança da criançada, quero ver quem sabe dançar. / Rebola para lá, rebola para cá / Faz uma careta assim . /E dá uma voltinha, sacode a cabeça / Depois dá a mão para mim”.

(teatro infantil), entendemos ser desnecessário falar de discurso lúdico para o público em geral, quando estamos nos referindo a um discurso que não foi produzido para um público específico. De outro modo, entendemos ser necessária a especificação “discurso lúdico infantil” quando o discurso lúdico visar justamente ao público infantil. Portanto, a partir desse momento, neste trabalho, utilizaremos o termo “discurso lúdico” para referirmos ao discurso lúdico para o público em geral e o termo “discurso lúdico infantil” para designarmos o discurso lúdico produzido para o público infantil.

Benzer Belgeler