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Detendo-se nas culturas da infância, que tem se estabelecido na Sociologia da Infância como um elemento distintivo da categoria geracional, Sarmento (2003) defende que o essencial no estudo dessas culturas é a consideração da autonomia das mesmas em relação aos adultos.

Segundo o autor, as culturas da infância se consolidam e se desenvolvem através de relações tanto entre as próprias crianças, quanto entre elas e os adultos. Essas culturas expressam, distintamente das culturas dos adultos, a cultura societal de onde emergem, enquanto também revelam maneiras particularmente infantis de inteligibilidade, representação e simbolização do mundo. Portanto, ao mesmo tempo que manifestam marcas de uma cultura local também contribuem para a produção das culturas da infância que têm se

mostrado universais. “A relação particular que as crianças estabelecem com a linguagem, através da aquisição e aprendizagem dos códigos que plasmam e configuram o real, e da sua utilização criativa constitui a base da especificidade das culturas infantis” (SARMENTO, 2003a, p. 4). Desse modo, para Sarmento (2003a), faz-se necessário reconhecer os traços distintivos das culturas da infância, ou seja, a gramática dessas culturas, a qual pode ser analisada em quatro dimensões: a semântica, que compreende a produção de significações e referenciações próprias das crianças; a sintaxe, que trata da organização sistemática entre os elementos simbólicos; a morfologia, que consiste na singularidade das formas assumidas pelos elementos constitutivos das culturas da infância; e a pragmática, que, fundamentando-se em Adler e Adler (1999), Sarmento diz tratar-se das relações de comunicação que se estabelecem entre os pares e dos modos pelos quais se realizam os processos de estratificação e cooperação entre as crianças.

Para Sarmento, cada uma dessas dimensões gramaticais apresenta princípios e características próprias que devem ser analisados segundo quatro eixos estruturadores das culturas da infância, a saber: a interactividade, a ludicidade, a fantasia do real e a reiteração.

A interactividade trata da relação da criança com os adultos, mas, principalmente, da interação da criança com outras crianças, estabelecendo-se, a partir dessa interação, a cultura de pares, que consiste na construção e na partilha de atividades, artefatos, valores e preocupações.

A ludicidade, enquanto fundamento das culturas da infância, compreende o brincar, atividade que as crianças praticam de forma contínua e abnegadamente, diferente, portanto, da maneira praticada pelos adultos. O brincar possui uma natureza interativa, logo, é fundamental para o aprendizado e socialização da criança.

Relacionado à brincadeira encontra-se o terceiro eixo: a fantasia do real, pois é através do brincar que a criança cria fantasias e recria o mundo. Assim como o lúdico perpassa a vida adulta, também a fantasia se faz aí presente. No entanto, na infância, a fantasia adquire um outro estatuto, o de fundacional no modo de inteligibilidade das crianças, na constituição do universo infantil e na capacidade da criança processar os acontecimentos de modo suportável.

Por sua vez, a imaginação mantém estreita relação com a reiteração, ou seja, com a necessidade e o prazer de revivenciar e reinventar experiências contínua e incessantemente. Tudo isso repercutindo também num plano diacrônico através da transmissão de brincadeiras de uma geração para outra.

Retomando o lugar da criança, Sarmento conclui que é o lugar das culturas da infância. No entanto, alerta que o lugar dessas culturas se altera segundo os aspectos estruturais definidores das gerações ao longo da história.

Na contemporaneidade ou 2ª modernidade, “as condições estruturais da infância caracterizam-se pela afirmação radicalizada dos paradoxos instituintes da infância” (p. 18). A escola e a família, por exemplo, instituições fundamentais na construção da infância moderna, passam, hoje, por mudanças que implicam no processo de reinstitucionalização da infância. Vê-se, desse modo, que, assim como a criança recria o seu universo, a infância também transforma-se, destaca Sarmento. Nesta reinvenção, as crianças introduzem novos e distintos elementos à sua cultura, o que as revela como construtores ativos do seu próprio espaço na sociedade contemporânea.

Segundo Sarmento, (2003a), é no entrecruzamento entre as culturas produzidas por adultos para as acrianças e as culturas gestadas na relação entre as crianças que são constituídos os universos culturais da infância. E é no âmbito das primeiras culturas que se encontra a canção para crianças, que se configura como a canção autoral feita por adultos destinada ao público infantil. O alcance desse público depende da compatibilização dessa canção com as especificidades da infância, ou seja, a eficácia da canção para crianças está atrelada à empatia que consegue estabelecer com as crianças. Não é à toa que é uma constante, nas canções infantis, a criança assumir o papel do enunciador, mesmo sendo adulto o intérprete. Essa empatia, claro, passa, mesmo que seja a partir de uma outra sistematização que não a apresentada por Sarmento (2003a), pela consideração dos eixos estruturadores das culturas da infância: interatividade, ludicidade, fantasia do real e reiteração. Por outro lado, vale ressaltar que, embora se busque essa afinidade com as crianças, elas não recebem a canção ou qualquer outro produto cultural de forma passiva, pois, como temos visto, a criança interpreta crítica e criativamente aquilo que lhe é destinado.

Desse modo, a compreensão da prática discursiva da canção para crianças passa pela consideração das culturas da infância, as quais compõem a identidade das crianças. E essas crianças, por sua vez, compõem o público para quem se destina essa canção, configurando um mercado específico, cujas características essa produção musical precisa respeitar e mesmo motivar, sob pena de inviabilizar suas possibilidades de circulação e consumo.

Não obstante a importância das culturas da infância como um todo para o estudo do Discurso Literomusical Brasileiro para Crianças, uma vez que os responsáveis pela produção e difusão desse discurso se valem, mesmo que não conscientemente, do

conhecimento sobre essa cultura, demos destaque, nesta pesquisa, a uma das faces dessas culturas: a cultura lúdica infantil, visto que o discurso lúdico para crianças se caracteriza não apenas como um discurso ou produto cultural destinado à infância, mas como um discurso lúdico, o qual julgamos manter estreita relação com a cultura lúdica infantil. Além disso, entendemos que a cultura lúdica, como é apresentada por Brougère (1998a), não deixa de contemplar os quatro eixos estruturadores das culturas da infância, a saber: a interactividade, a ludicidade, a fantasia do real e a reiteração. A abordagem da cultura lúdica infantil será feita especificamente a partir de Gilles Brougère (1998a), pesquisador francês que tem se dedicado ao estudo da cultura infantil, particularmente aquela atrelada ao jogo e ao brinquedo, ou seja, ao lúdico.

Antes de nos determos na cultura lúdica infantil, reiteramos que essa cultura compreende parte das culturas da infância e, portanto, estas não se resumem àquela e não devem ser tomadas como sinônimas. Enquanto as culturas da infância, segundo Sarmento (2003a), consistem em modos sistematizados de significação do mundo e de ação intencional produzidos de forma autônoma pelas crianças, a cultura lúdica infantil trata, conforme Brougère (1998a), de um conjunto de significações menos abrangente, específicas ao jogo e que servem de parâmetro para definir uma atividade como lúdica.

Portanto, a análise da constituição do Discurso Literomusical Brasileiro para Crianças como um discurso lúdico infantil passa pela consideração não só da infância, enquanto categoria geracional e uma construção social, da qual a discurso, ao mesmo tempo, participa e é produto, mas também pela consideração das culturas da infância, com foco na cultura lúdica infantil, as quais os produtores da canção para crianças tomam como referência de significação, respectivamente, do mundo e do jogo / brincadeira em específico, mesmo que de modo não consciente e assistemático, para adequarem seu produto ao público infantil e buscarem sua adesão.

Benzer Belgeler