2. YENİLENEBİLİR ENERJİ
3.2 Pirolizden Elde Edilen Ürünler
Se alguns negros desejam ser brancos, da mesma forma, o branco brasileiro deseja ser branco americano. Neste caso, a identidade americana é atribuída aos cidadãos dos Estados Unidos da América, de forma restrita. Os estadunidenses se vangloriam de serem americanos, como se fossem os únicos e são reconhecidos como tais. Como se o continente americano, salvo o Canadá, pertencesse somente a eles. Assim como sugeriu Guerreiro Ramos, o branco brasileiro deseja ser mais branco (Ramos, 1995[1957]b, p. 215-240). Ele deseja ser branco estadunidense, branco americano, porque o considera virtuoso, um branco mesmo. Ser branco brasileiro é ser não-branco mesmo, por outras palavras, não branco-estadunidense.
Ser branco estadunidense [ou branco americano] significa ser capitalista, moderno, “ser o dono do mundo”. O “americano” é referência estética, cultural, educacional, econômica. Faz mais de meio século que os Estados Unidos colocam-se como nação modelo do capitalismo desenvolvido, sinônimo da própria cultural ocidental. Portanto, o americanismo ou “estadunisismo”, se preferirem, é o novo ocidentalismo difundido ao mundo
não-ocidental. Edward W. Said discorre a respeito do papel central geopolítico e cultural ocupado pelos norte-americanos no mundo contemporâneo.
(...) A França e a Inglaterra já não ocupam o centro do teatro político mundial; o império americano desalojou-os. Uma vasta rede de interesses une hoje todas as partes do antigo mundo colonial aos Estados Unidos, da mesma forma que a proliferação de especialidades acadêmicas divide (e, no entanto, relaciona) todas as antigas disciplinas filológicas criadas na Europa, como o orientalismo. (...) (Said, 2004, p. 336).
Em síntese, “americanizar-se”, “estadunizar-se” é ocidentalizar-se, tornar-se civilizado, moderno, desenvolvido, branco, branco-branco (branco-mesmo). O branco brasileiro, por ser um não-branco estadunidense, ao objetivar embranquecer, subir no patamar da hierarquia da branquitude, opta por esquecer/invisibiliza sua ancestralidade portuguesa, indígena e africana. Pois, seu plano consiste em se reconstruir como moderno, ocidental.
O passar dos anos, o distanciamento da memória da colonização pode favorecer a ocidentalização do branco brasileiro isso seria o branqueamento no sentido cultural. Possível ao branco que opte por recusar sua parte negra: herança cultural e biológica africana, indígena e ibérica. Rejeição mesmo que seja num discurso frágil ou sofisma. Porém, como nos lembra Liv Sovik, nem todos os brancos brasileiros rejeitam sua parte negra, nos dias de hoje, pode considerá-la, inclusive, um valor em determinadas ocasiões, como é caso do campo cultural (Sovik, 2005, p. 159-180).
O que importa reter é que, se por um lado, o branco brasileiro opta por se “estadunizar”: ser moderno, ao rejeitar sua parte negra, por outro lado, aquele que está confortável com sua herança africana pode, igualmente, se considerar moderno, por causa de sua matriz ibérica, característica não-negra, diga-se de passagem. Neste caso, seria uma antropofagia34 entre o mundo ocidental e o oriental. Numa perspectiva freyreana, o branco moderno seria aquele “do mundo que o português criou” (Freyre, 2010).
5.1 A raça regeneradora e o branqueamento do branco não-branco
De modo breve diria que o ideal do branqueamento é a ambição de uma nação querer ser branca, por parte de vertentes de sua intelligentsia (Munanga, 2004). Eles elaboram tais “teses desenvolvimentistas” com base num quadro teórico centro-europeu, aquilo que tem vindo a ser designado como evolucionismo e darwinismo social. Ao realizarem uma leitura particular, apesar de possíveis divergências, existe o consenso quanto à relevância da ideia de
raça. Para “sciência”, a raça é um elemento fundamental para se pensar o Brasil do início do XX (Schwarcz, 2007, p. 92-93). A raça, ou mais concretamente, a população negra é responsabilizada pelo nosso atraso, pela nossa “pré-modernidade”.
O ideal do branqueamento enquanto (idem, op. cit) “tese desenvolvimentista” procurou solucionar o problema nacional, o negro. Não estava em discussão a ideia de inferioridade e superioridade para a intelligentsia, ou mais concretamente, para Silvio Romero, o negro era desigual, inferior, a ideia de igualdade entre os homens é falsa (idem, ibidem, p. 154-155). Diante dessa perspectiva, diga-se de passagem, racialista racista (Guimarães, 2005b), não faz sentido discutir a ideia de superioridade-inferioridade, pois, seria um dado natural, a desigualdade entre os homens. Logo, o branco é superior ao negro. Além de inferior, o negro é um entrave para o desenvolvimento. Problema que coube ao branco resolver, pois era o adulto, assim compete-o solucionar complicações, por vezes, provocadas pela criança ou problemas que são as crianças, isto é, negros. A reelaboração do darwinismo social e do evolucionismo por parte dos “scientistas” restringiu ao branco o princípio de igualdade, individualidade, “direitos do homem” (Fonseca, 2009, p. 46-58), ou melhor, direitos do branco no Brasil.
Um Estado nacional branco representa progresso, desenvolvimento, modernização, ocidentalização. Os africanos tornaram-se personae non gratae. O trabalho “escravo” passa a ser símbolo do atraso. Em nosso processo de modernização ocorreu à abolição gradual da escravatura, houve o estímulo para imigração centro-europeia, o que equivale dizer, branco- branco. Os não-brancos não eram mais necessários, especialmente, os africanos. Aliás, por razão semelhante, não seriam bem-vindos: japoneses, chineses, porque eles poderiam acentuar a feiura do povo brasileiro, que já era horripilante por causa de sua matriz portuguesa, indígena e africana, três povos feios, povos não-brancos mesmo.
O conde Arthur Gobineau esteve no Brasil durante quinze meses. O diplomata era o mais expoente pensador de uma teoria “raço-histórica”. Em síntese, a humanidade estava em franca decadência por causa da mistura das raças. O mestiço é um ser degenerado, levando-se em conta que quando os povos se miscigenam, o branco se relaciona com um não-branco, resultando num fruto degenerado. Por causa da inevitabilidade do cruzamento inter-racial entre os grupos humanos, tornamo-nos todos mestiços, todos degenerados por isso a civilização está destinada à extinção (Arendt, 2006, p. 223). A estadia do conde francês em nossa terra, período em que observou o povo brasileiro, tornou-o mais seguro de que sua teoria estava correta. Isto significa que o povo brasileiro é feio, débil, degenerado, sem futuro (Fonseca, 2012).
A pureza racial é um dos pressupostos básicos da teoria racista de Gobineau. Isto é, o grupo branco puro original seria composto pelos povos germânicos e nórdicos, porém, eles já não seriam mais puros, pois teriam se misturado com outros grupos – “Os Outros”, por essa razão, teriam formado raças inferiores. Os “brancos puros”, ao se relacionarem com “os Outros”, conduziram a civilização ao declínio, porque o mestiço nunca seria igual ao branco, uma vez que ele também possui herança genética do ser inferior. Essa conclusão, digamos científica, no final do século XIX e início do XX, influenciou os “homens da sciência” como Nina Rodrigues (Costa, 2006, p. 169-186). O argumento “raça superior”-“raça inferior” vigorou como tese científica no pensamento social e político brasileiro.
O ideal do branqueamento contém em sua matriz a lógica da superioridade branca e da inferioridade negra. Os negros, ao deixar de serem necessários, tornaram-se indesejados, porque os consideravam inferiores. Na emergência do trabalho livre, urbanização e industrialização, os brancos tornaram-se desejados em virtude de serem vistos como superiores. O branco tornava-se necessário para solucionar o problema que se tornou o negro. A imigração centro-europeia, as condições insalubres, a Guerra do Paraguai, a mestiçagem (apostando-se na diluição do negro, no embranquecimento), tudo isso e outros fatores colaboraram para diminuir o número populacional de negros no Brasil (Munanga, 2004, p. 91-96, Nascimento, 1978, p. 69-77).
No que diz respeito à imigração, espanhóis, alemães, principalmente, italianos chegaram ao Brasil, no período próximo e após a abolição. Eles substituíram o negro no mercado de trabalho, quase que totalmente,35 em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Entretanto, o Estado paulista destacou-se como o maior exemplo de marginalização do negro (Gorender, 1990, p, 197-198), justamente o território brasileiro com a industrialização mais forte. Os imigrantes, a título exemplificativo, o branco italiano misturou-se ao branco português, ao negro africano, ao mestiço, ao ameríndio, em menor proporção, pois, no caso, já haviam sido dizimados (Ribeiro, 1995, p. 47), outros se encontravam em isolamento territorial, portanto, “excluídos da modernização”36.
Diante da ótica “branqueadora regeneradora”, o negro desapareceria ao cruzar com o branco no decorrer das gerações (Hofbauer, 1999, p. 172-173). Ponto de vista otimista partilhado por pessoas de prestígio como Silvio Romero, João Batista de Lacerda e Francisco José de Oliveira Viana, por outras palavras, trata-se de uma perspectiva racista, uma solução
35 No Rio de Janeiro o negro encontrou alguma inserção no mercado de trabalho, Cf. Kowarick, 1987, p. 117. 36 Digamos “incluído de forma excludente”, Cf. (Santos, 2006a).
para o Brasil por parte de sua intelligentsia. Porém, nem todos eram otimistas quanto à mistura racial (Munanga, 2004, p. 61).
De acordo com Nina Rodrigues embranquecer, na verdade, significava enegrecer (Costa, 2006, p. 171-175), macular a raça branca, “raça ariana”, perder a pureza. Por isso, a segregação, branco de um lado, negro do outro, ou expulsão do território (Esteves; Souza, 2011, p. 24), parece uma solução viável. Prática mais característica aos países de colonização de matriz anglo-saxônica do que de matriz ibérica. Resta dizer que o cruzamento entre não- branco e não-branco, ou se preferirem, negro e negro, mulato e negro representava um retrocesso para o país por parte da intelligentsia branca racista de perspectiva otimista e pessimista quanto à busca de uma solução para o Brasil.
No que diz respeito ao cruzamento entre branco e branco, no caso do português e o italiano, será incentivado, benquisto. A relação ocorre entre um branco não-branco e um branco mais branco ou branco-branco, pois o italiano pertence à Europa central, encontra-se em maior hierarquia se comparado ao português, menor hierarquia se comparado ao alemão (Costa, 2006, p. 174). A título de ilustração, o fruto do branco português com o italiano será um filho branco com fenótipo da brancura; um branco mais branco do que o pai.
O ideal do branqueamento também diz respeito ao branco em seu desejo de ser mais branco, ser de um nível hierárquico superior (Cardoso, 2008, p. 194). O cruzamento branco e branco pode gerar conflitos por causa da etnia, condição socioeconômica, gênero, ideologia, de geração, etc., contudo, o filho não herdará na pele a marca da inferioridade. Ou melhor, seu corpo, caso possua traços evidentes da brancura, não carrega as marcas que indica ser branco menos branco: fruto de um português e italiano ou alemão e português.
Porém, cabe mencionar que um padrão ideal branco da contemporaneidade é o estadunidense, todos os brancos, especialmente, de matriz ibérica por ser não-branco desejam ser branco mesmo, este é o impacto do ideal do branqueamento em seu pensamento. Ser branco-branco, branco-mesmo, hoje, é ser branco estadunidense37. Mesmo quando o branco é branco-branco aqui [Brasil], caso do próprio branco de matriz ibérica com fenótipo da brancura, torna-se menos branco, transforma-se em etnia, Lá (Estados Unidos). O desejo de
37 Isto não é uma perspectiva consensual conforme as pessoas que entrevistei apontaram, dependerá do ponto de
ser branco-branco, branco estadunidense, não faz com que ele seja considerado como “branco igual”. Jamais será igual, por causa da geografia, sotaque, cultura38.