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Bastante elucidativa a lição de José Frederico Marques para diferenciar coisa julgada material e coisa julgada formal. Esclarece o renomado jurista que a sentença, no que diz respeito aos seus efeitos, deve ser vista sob dois aspectos: como ato processual e na eficácia do comando que dela emerge.136

A sentença, vista como um ato processual, irradia os seus efeitos para dentro do processo. Nessa ordem de idéias, coisa julgada formal seria os efeitos da imutabilidade da sentença, vale dizer, aqueles gerados dentro do processo, impossibilitando as partes, juiz, ou tribunal de modificar o seu conteúdo, tornado-o imutável por força da coisa julgada.137

A coisa julgada formal é também conhecida como “preclusão

máxima”. Aliás, Nelson Nery Jr e Rosa Maria de Andrade Nery entendem que a expressão coisa julgada formal é equívoca, pois trata-se, na verdade, de preclusão. Todavia, reconhecem os juristas que a expressão encontra-se sedimentada na doutrina.138 Isto porque o artigo 473 do Código de Processo Civil dispõe ser “defeso à parte discutir, no curso do processo, as questões já decididas, a cujo respeito se operou a preclusão”.

Cândido Rangel Dinamarco lembra que “O sistema procedimental

brasileiro é muito mais preclusivo que os europeus, o que é uma decorrência

I - se, tratando-se de relação jurídica continuativa, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito; caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença;

II - nos demais casos prescritos em lei.

136MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. 1. ed. at. Campinas: Ed. Millenium, 2000. p. 351.

137Os efeitos da coisa julgada formal, como bem definiu Patricia Miranda Pizzol, são “endoprocessuais, impedindo as partes entre as quais foi dada a sentença de discutir dentro daquele processo a matéria julgada” PIZZOL, Patricia Miranda. Liquidação nas ações coletivas. São Paulo: Lejus, 1998. p. 223.

das fases em que a lei distribui os atos do procedimento, sem possibilidade de repetições ou retrocessos e daí ser a rigidez do procedimento um dos mais destacados elementos caracterizadores do modelo processual infraconstitucional brasileiro”.139

A preclusão temporal ocorre quando a parte não pratica o ato processual no prazo assinalado pela lei. A preclusão consumativa ocorre quando a parte já tenha exercido o ato processual. A preclusão lógica ocorre quando a parte adota atos processuais incompatíveis com outros já realizados no processo.

A preclusão cujo destinatário é o juiz é conhecida na doutrina como

pro judicato. A preclusão pro judicato impede juiz ou tribunal de alterar sentença já transitada em julgado. Mas não é só: como dito, sua ocorrência também impede o legislador de elaborar leis com efeito retroativo para alcançá- la, por força constitucional.

A ocorrência da coisa julgada formal está ligada ao fato de a parte não interpor os recursos cabíveis em face das decisões judiciais, ter interposto recurso, mas não preenchido os requisitos legais de admissibilidade previstos no estatuto processual ou já ter esgotado as vias recursais. Tanto pode incidir sobre as sentenças terminativas de que trata o artigo 267 do CPC, quanto as sentenças que efetivamente enfrentam o mérito, de que cuidam o artigo 269 do CPC.

José Frederico Marques ensina que a coisa julgada formal é condição prévia para a ocorrência da coisa julgada material.140 Nelson e Rosa Nery lecionam que a coisa julgada formal ocorre simultaneamente com a coisa julgada material, mas nem sempre. Citam como exemplo decisão judicial contra a Fazenda Pública em que a parte não recorreu, operando coisa julgada formal.

139DINAMARCO, Cândido Rangel. Relativizar a coisa julgada material. Revista de Processo, São Paulo, v. 28, n. 109, p. 13, jan./mar. 2003.

140“a coisa julgada formal é condição prévia da coisa julgada material, que é a mesma imutabilidade em relação ao conteúdo de julgamento e mormente aos seus efeitos”. MARQUES, José Frederico. op. cit., p. 353.

Todavia, a coisa julgada material só vai ocorrer após a apreciação pelo Tribunal (reexame necessário CPC 475).141

Com a ocorrência da coisa julgada formal, a sentença em si – como ato processual – torna-se imutável, não mais permitindo discussão, nos mesmos autos, de toda a matéria jurídica ali ventilada. Trata-se,. pois, do último ato processual insusceptível de reforma.

Já a coisa julgada material é o nome que se dá aos efeitos da sentença, ou seja, o comando que emerge para fora do processo, atingindo as partes, as pessoas. Sua ocorrência traz como conseqüência prática o impedimento de qualquer outro juiz ou tribunal, no mesmo processo, ou em qualquer outro, de rediscutir a matéria jurídica sobre a qual foi finalizada a jurisdição.

O comando que flui da sentença, uma vez alcançado pela coisa julgada, torna-se imutável, fazendo lei entre as partes, por força do artigo 468 do CPC. 142 Só fazem coisa julgada material aquelas advindas de sentenças que enfrentaram o mérito, isto é, as situações previstas no artigo 269 do CPC, independentemente de serem constitutivas, declaratórias, mandamentais, condenatórias ou executivas.

Cândido Rangel Dinamarco entende que a coisa julgada material não é instituto meramente processual. Isso porque a situação jurídica acobertada pelo manto da coisa julgada, nessa hipótese, por atingir a vida das pessoas, é muito mais ampla do que as normas e técnicas que regem o procedimento do processo.143

141NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. op. cit., p. 767.

142Art. 468 do CPC: “A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas”.

143“Com essa função e esse efeito, a coisa julgada material não é instituto confinado ao direito processual. Ela tem acima de tudo o significado político-institucional de assegurar a firmeza das situações jurídicas, tanto que erigida em garantia constitucional. Uma vez consumada, reputa-se consolidada no presente e para o futuro a

José Afonso da Silva salienta que a Constituição Federal, ao tratar da coisa julgada, cuidou apenas da coisa julgada material. São do jurista as seguintes palavras:

“Dizemos que o texto constitucional só se refere à coisa julgada material, em oposição à opinião de Pontes de Miranda, porque o que se protege é a prestação jurisdicional definitivamente outorgada. A coisa julgada formal só se beneficia da proteção indiretamente na medida em que se contém na coisa julgada material, visto que é pressuposto desta, mas não assim a simples coisa julgada formal. Tutela-se a estabilidade dos casos julgados, para que o titular do direito aí reconhecido tenha a certeza jurídica de que ele ingressou definitivamente no seu patrimônio”.144

Tanto a coisa julgada formal, quanto a material são fenômenos que ocorrem quando já não mais é possível rediscutir aquilo que foi julgado. Na ocorrência dos dois fenômenos ocorre o que a doutrina chama de autoridade da coisa julgada.

É por meio da coisa julgada formal, material e da preclusão que o Estado busca a estabilidade das decisões e, por conseqüência, a segurança das decisões jurídicas, impedindo assim a existência do front perpétuo dos litígios.

Benzer Belgeler