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BÖLÜM 3: YÖNTEM

3.3. VERĠ TOPLAMA ARAÇLARI

3.3.1. Pilot ÇalıĢma

O paciente aqui está a nove meses da perda quando expressa uma revisão sobre a fé e Deus:

Estive pensando que tenho encontrado outro jeito de acreditar no que acreditava. Nessa história toda, você fica, parece, que tentando encaixar as peças de um quebra-cabeça, às vezes acontece porque você pensa nas coisas, mas às vezes não. É uma sensação de ser ajudado e só isso, não dá muito pra explicar. Uma coisa eu sei, eu tenho pensado mais em Cristo do que em Deus, porque em Deus as coisas que a gente vive, por mais que a gente esteja falando de amor, ficam confusas, e o silêncio Dele machuca, mas Cristo sofreu, ele sentiu a vida da gente. Tenho pensado mais Nele, que acaba sendo um caminho do meio bom. A Igreja deveria investir mais na experiência de Cristo, não digo naquilo de dor, sofrimento e sacrifício, não isso, que é mórbido, culposo, mas da vida dele, das coisas que viveu como a gente vive. Um Cristo gente. Mas também entendo que o costume dos Anjos, Santos e Deus pra algumas pessoas pode ser melhor. É só que quando você passa por algo dessa magnitude, você precisa de uma lógica suficiente, então as injustiças vividas por Cristo parecem fazer mais sentido do que o famoso “Deus quis assim”, ou “Você não deve questionar os desígnios de Deus”. Se isso é só uma busca racional pra não perder a fé, bom eu penso que também não seria um erro encontrar meios de ficar com o que sempre fez parte de você, tu mesmo diz isso, o que não dá é ficar com algo que não faz mais sentido. E essa ideia de que Cristo pode ser uma ponte entre o nosso mundo e o mundo de lá, é confortável, porque, até certo ponto, todo mundo que ama e perde também fica mais perto e mais aberto ao mundo de lá, eu penso.

198

MOLTMANN, J. O Deus crucificado: a Cruz de Cristo como base e crítica da Teologia cristã, p. 351-352.

Nesse recorte, o paciente confirma sua identificação com Cristo, uma perspectiva tanto na direção da memória de seus sofrimentos e abandono, quando se aproxima e associa à concepção de Deus, silêncio e amor, quanto como referência empática, na busca de sentido, a partir daquilo que Cristo teria vivido.

Refere-se a Cristo como um caminho do meio, sugerindo importância central, equilíbrio, senso de aproximação com sua realidade, um norte ou norteador. Parece que o paciente estabelece aqui o início de uma compreensão de que Cristo mostra ser modelo de referência, talvez similar ao que foi explorado no capítulo anterior a partir das construções de Bowlby, uma base segura.

Considerando o que define Bowlby na formação de vínculos afetivos, a modelagem segura, ou seja, a figura vincular cuidadora oferece ao indivíduo segurança para o enfrentamento do stress, dos traumas, das doenças ou do medo.

E para que um vínculo seja considerado seguro, é necessário que o dispositivo por busca e proximidade da figura vincular seja acionado, dispositivo que, em adversidades, se mostra no comportamento de vigília e premência para manter- se na rede de proteção e apoio confiável e cuidadora do sujeito em risco ou temor.

A mesma compreensão teórico-antropológica considera ainda que é a maneira como a figura vincular responde ao stress que orientará o modo como o indivíduo construirá suas estratégias de enfrentamento para administrar a adversidade, desenhando um caminho de modelagem de respostas e impulsos para o vinculado e identificado.

Outro aspecto interessante é que só se pode considerar vinculado um indivíduo que se sentiu de algum modo concretamente cuidado pela figura vincular, ou seja, que tenha recebido respostas, atenção e acompanhamento.

Para Bowlby o luto é risco de ambiguidades, ambivalências e evitações afetivas duradouras, enquanto uma boa fonte vincular é sinônima de segurança, renovação e júbilo.

Nesse compasso, torna-se possível sustentar que as inferências de Bruno em relação a Cristo, então como sentido, citado e compreendido pelo jovem na direção de uma figura vincular vêm auxiliá-lo no enlutamento, inclusive como perspectiva de um eco de suas experiências de vida. Jesus Cristo tornou-se para Bruno uma pessoa, figura de apego e suporte, vínculo protetivo.

Talvez Bruno tenha encontrado em Jesus Cristo um modelo funcional e significativo acerca de um modo humano de amar, sofrer, perder e reconstruir-se.

Essa pode ser uma das chaves de auxílio para uma ética do cuidado no enlutamento, essencialmente, ainda, naquilo que escreve Moltmann em toda sua obra.

Diante da perspectiva de Jesus, como alguém que também viveu lutos, e quando Bruno descreve que compreende que Cristo sofreu, referindo-se à Cruz e ao silêncio de Deus, faz pensar na oração do monte das Oliveiras que descrita de acordo com A carta aos hebreus, sinaliza o enlutamento no coração de Cristo, ou seja, o momento em que Jesus, angustiado, tem seu dispositivo vincular acionado e busca a proximidade dos apóstolos e do Pai.

No que se refere à Igreja e aos sofrimentos de Cristo, Moltmann defende, citando Arnulfo Romero, que transformou a Catedral de El Salvador em um hospital para feridos e de despedida para tantos mortos; que, nos crucificados na história, mostra-se o rosto desfigurado de Deus. E considera, numa rápida análise, a participação de três dimensões do sofrimento de Cristo: a primeira do sofrimento pela fé; a segunda do sofrimento na resistência do poder injusto e anárquico, e a terceira da opressão do povo.199

A experiência de todo o Mistério Pascal, para Moltmann, portanto, acolhe e acompanha o ser humano em suas adversidades no sofrimento de Cristo, em suas alegrias e transformações, na ressurreição, oferecendo suporte à vida real na experiência de um mundo que foge do controle; no entanto, precisa de ambos, Cristo e homem, a trazer o futuro e a esperança para dentro do presente.

Bruno tenta compreender as modificações que vive: ora as percebe com surpresa, ora de modo mais natural e, no intento de melhor compreendê-las, busca organizar-se.

A palavra tras-passado, aqui relacionada ao luto, torna-se também, dos pontos de vista psíquico e antropológico, um novo e seguro lugar para o tão amado passado em Bruno. Seu amor por Clara, nessa comunhão, há de nutri-lo sempre.

Desse modo, é possível afirmar que a ponte (Cristo), como abertura e acesso, no eco da experiência de dor e sofrimento, inicia do luto; em Bruno tornar- se-á nessa comunhão, possibilidade não de ruptura do vínculo, mas de sua ressignificação e preservação, um importante fator facilitador da recuperação no seu processo de elaboração do enlutamento por Clara.

199

Portanto, nesse período de acompanhamento, as associações latentes das palavras: amor, abertura, ligação e comunhão em Bruno não oferecem primazia à Cristo em detrimento de Deus, apesar de sua revolta inicial. Isso se confirma quando Bruno faz entender que “em Deus as coisas que a gente vive são amor”.

O silêncio e o abandono entre progressões e regressões, aos poucos, se dissolvem. Bruno parece estar amanhecendo, saindo da noite escura de sua alma, como encontrado nos escritos da filósofa Edith Stein. Noite que, no luto em Bruno, foi de fato metáfora de dor intensa e escuridão, porém no amor tornou-se uma profunda experiência de premência e encontro com Deus.

Ao mergulhar na compreensão intrínseca da experiência de enlutamento de Bruno, vê-se que a Cruz não está a serviço da dor, mas da vida. Aspectos que Moltmann contempla em sua obra sobre a teologia da esperança enriquece e complementa na teologia da Cruz. Para o autor a identificação com a Cruz não existe para que a Cruz seja amada, mas para transformar o mundo, libertá-lo, abrindo-o a um futuro sem trevas.200

E como se aproxima Bruno, Moltmann vê no Crucificado e Ressurreto a possibilidade de comunhão em uma Igreja que não se fossiliza, mas se modifica na direção das novas circunstâncias e necessidades da humanidade.201 Quando a existência cristã encontra, como também aponta o recorte do paciente, um duplo processo de identificação com Cristo; na esperança ponderada e pró-ativa, ela padece os sofrimentos deste mundo, mas torna o clamor de cada criatura atormentada seu próprio clamor por Deus, justiça e liberdade.202

No que se segue, é interessante notar que a condução clínica, nas elaborações do paciente, adota o percurso previsto nas análises até aqui expostas e pensadas. Como exemplos, estão transcritos conteúdos da consulta de número 33:

Ou a gente pensa num Deus que sofre, que sofreu ou num Deus que não existe. [...] É preciso que seja um Deus que se importe, que de algum modo nos responda. Tenho rezado, mas como te disse, antes eu rezava para ter boas sensações, me sentir em paz, acreditava num mundo bom, fazia todo o bem possível porque eu pensava nisso... Era agradecer e pedir, acho que aquela maneira que a maioria faz. Eu mais agradecia do que pedia. Hoje rezo para conversar e faço o que me parece mais coerente, não rezo para ser bonzinho, para criar boas vibrações, rezo porque isso faz parte de mim, foi uma compreensão minha, um desejo meu. Ajudo as pessoas no que

200 MOLTMANN, J. O Deus crucificado: a Cruz de Cristo como base e crítica da Teologia cristã, p. 17.  201 Ibidem, p. 29.  202  Ibidem, p. 44.   

posso, penso mais nelas, porque sei que nosso mundo é difícil. Não é que não pensasse antes, só que é diferente. Hoje quando vejo uma notícia de jornal, penso na dor que todos vivemos. No começo voltei a conversar com Deus e pensei que fosse pela minha sensação de vulnerabilidade, medo de morrer, de adoecer, depois pensei, sim, mas disso Ele não me protege, pois não nos protegeu, então acho que hoje tenho sido bem mais honesto e realista com a minha fé. [...] E honestamente já tô meio que fazendo as pazes com Deus, não é animador, é mais ou menos, tenho pensado a diferença entre silêncio e indiferença. Acho que Deus não é indiferente à nossa dor, mas é bem duro o seu silêncio, ainda mais porque o que dizem dele, de Deus, deixa qualquer enlutado desnorteado também.

Ainda no ANEXO B, na consulta de número 40, o percurso das mudanças relacionadas à fé e a Deus confirmam-se na direção de que Bruno agora amplia e aprofunda suas compreensões sobre o silêncio de Deus.

4.3.6 Análise do conteúdo teológico do Caso B – sexto recorte contido na

Benzer Belgeler