2.4. Oyun
2.4.4. Çağdaş Oyun Kuramları
2.4.4.1 Piaget Kuramı
“Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas - de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.” Riobaldo – Personagem de Grande sertão: veredas. A fala de Riobaldo, personagem mineiro de Guimarães Rosa, auxilia-me na elaboração metodológica que sustenta a tese apresentada. “O balancê, o remexer dos lugares” pede um olhar amplo, porém preso às especificidades, por parte do investigador sobre o espaço geográfico. Um olhar das relações, das correlações, das tramas, dos processos, das formas, estruturas e funções. Um olhar que capta o movimento das formas e as mudanças dos conteúdos dos territórios. Um olhar sisudo e atento ao passado, fixado no presente e lançado ao futuro. Um olhar que mira a totalidade e enxerga o lugar.
Na atual fase histórica, os novos objetos técnicos trazem também novos signos. Testemunhamos a multinacionalização das empresas, a internacionalização da produção e do produto, a mundialização da economia, os novos papéis do Estado e a revolução da informação que, com o progresso da informática, passa a conectar instantaneamente os lugares.
No contexto de novas realidades espaciais e frente aos processos globalizantes que ocorrem concomitantemente às múltiplas fragmentações socioespaciais, a particularidade do lugar bem como a sua interpretação a partir do método dialético, são encaradas como possibilidade teórica para tentar explicar as materialidades dadas pelos objetos e ações no movimento do mundo. O lugar, nesse sentido, passa a ser a realidade em movimento. “O lugar não é um fragmento, é a própria totalidade em movimento que, através dos eventos, se afirma e se nega, modelando um subespaço do espaço global” (SILVEIRA, 2002, p. 205).
A partir das formas particularizadas do olhar geográfico, propõe-se entender, dialeticamente, a funcionalização do mundo no lugar, sob a perspectiva de encará-lo como depositório final dos eventos. Nas palavras de Sobral (2005, p. 18) “Evento é um ato abarcador que inclui vários atos da atividade do homem ao longo desse diálogo permanente que é a vida [...]”
O conceito evento, para Bakhtin (2003), perpassa “a filosofia do ato”,podendo ser definido, no plano histórico concreto, como processo de irrupção de entidades ou
objetos, “como a presentificação, ou apresentação dos seres à consciência viva”, isto é, situada no concreto. Assim, como não há objetos que não ocorram, ou seja, que não se tornam eventos, não há eventos que ocorram sem a presença de objetos, ou entidades, sem a possibilidade de estarem num lugar.
Na interpretação elaborada por Adail Sobral, tendo como base o pensamento de Bakhtin, assim distingue-se evento de fato21:
O evento ocorre num dado lugar e num dado espaço; os fatos por ele gerados permanecem no tempo e no espaço. Se os eventos são individualizáveis, as propriedades que nele se repetem são universalizáveis, o que não implica necessariamente abstração. Por outro lado, embora a noção de evento sugira um dinamismo e uma singularidade, e a de objeto sugira estaticidade e universalidade, nada impede de generalizar tanto sobre uns como sobre os outros, dado que nem o evento nem o objeto contêm apenas um ou outro desses aspectos, pois evento e objeto se pressupõem mutuamente (SOBRAL, 2005, p. 15).
A partir de uma concepção geográfica da leitura do mundo, os eventos representam um instante do tempo e um ponto no espaço, sendo, portanto, portadores das ações do presente. Ações estas que, carregadas de intenções, modificam os espaços. Pelos eventos, a todo momento, normas e ações diversificam o mundo, possibilitando o fazer da geografia.
“O evento se inscreve na totalidade característica de um determinado momento, mas o faz como parte do todo” (SANTOS, 2005, p. 160). O destino do evento é permitir a realização da totalidade na particularidade, e assim contribuir com o fazer da totalidade, permitindo-lhe renascer com novas características.
Interpretado dessa forma, podemos dizer que um evento é uma causa de outro evento. “De fato, só a totalidade em movimento cria novos eventos” (SANTOS, 2005, p. 161). Mas a totalidade em movimento também inclui as ações tornadas possíveis em um lugar particular, a partir do qual acabam por influenciar outros lugares. Os homens estão em distintas realidades geográficas, na superfície
21 Uma perspectiva mais proveitosa com relação ao evento é reconhecidamente a fenomenológica, que vê tanto o aspecto singular quanto o aspecto universal de cada evento ou objeto. O evento do ser de que fala Bakhtin, no âmbito de sua proposta fenomenológica peculiar, é, nesse sentido, o ato concreto e dinâmico de instauração do ser no mundo, de apresentação do ser à consciência dos sujeitos. Deve-se destacar, nessa formulação, que a consciência apreende o ser como evento, a ação do ser, como postulado, e não de modo essencialista, ou teorético, como conteúdo, como dado, e que a consciência se orienta com relação ao ser tomando-se como evento, não como substância. Essa formulação lembra o ato pelo qual o desein (o ser-no-mundo) é instaurado, ou melhor, é lançado no mundo, desenvolvido por Heidegger em O ser e o tempo (1962) (SOBRAL, 2005).
terrestre, e suas ações não são indiferentes à realidade do espaço, pois a própria localização dos eventos é condicionada pelas estruturas dos lugares.
Nesse sentido, vemos, na possibilidade da pesquisa geográfica, um pensar dialético do espaço, na medida em que significa pensá-lo através da complexidade; uma complexidade que incorpora a unidade heterogênea do saber e do existir humanos, numa totalidade una, ao mesmo tempo tão contraditória e heterogênea, diversa, desigual, portanto múltipla: a unidade das diferenças no movimento que se faz vida. O espaço é construção, é resultante do acontecer humano e “ser resultante não é ser teatro da história, mas sim a própria história territorializada (SANTOS, 2002ª, p. 33).
O mundo de hoje é marcado por este sempre novo meio-técnico-científico- informacional, cujos maiores elementos explicativos denominam-se cultura e técnica. “Hoje, graças aos progressos técnicos e à mundialização da economia, a existência, ainda que incompleta de uma comunidade humana universal, permite reconhecer, em cada acontecer, uma fagulha do mundo” (SANTOS, 2005, p. 162). A produção do conhecimento, como elemento racional do e para o uso das técnicas, ocupa lugar central neste debate, introduzindo algumas particularidades a aspectos como crescimento e espacialização dos estabelecimentos de ensino superior no Brasil: lugar privilegiado da (re)produção do conhecimento, revelador de novas técnicas de produção/informação a cada dia.
A interpretação que elaboramos do território brasileiro, a partir da emergência e da consolidação das IES no país, tem base na leitura do território usado por esta atividade. Isso significa dizer que a interpretação do território usado, incorporado e transformado por estas instituições deve ser pautada pela epistemologia da “dialética do concreto”, do movimento, da necessidade de ter esta análise incluída sob o método do movimento da totalidade, aquele a que Jean-Paul Sartre (1979) referia-se como totalização.
Porção do espaço de história territorializada, como um “ser-em-situação”, o município de Juiz de Fora, assim como outras cidades do território brasileiro, exibe os processos socioespaciais de difusão e concentração de IES, elucidando, portanto, a tese que defendemos.
Partindo de uma concepção de leitura do mundo, tento chegar a uma compreensão da totalidade deste mundo possibilitado nos lugares, remetendo-me ao pensamento de Silveira (2002, p. 11):
À busca de entender o mundo a partir das coisas específicas, a partir dos fragmentos, poderíamos opor uma vocação mais universalista centrada no descobrimento das lógicas contraditórias de um território feito de objetos e ações. A unidade dessa compreensão provém da teoria e de seus esquemas para apreender a realidade, que corresponde à unidade do mundo refazendo-se, a cada dia, nos lugares.
Assim, explicitamos a “grande teoria” que sustenta a elaboração de um modo geográfico do nosso posicionamento dentro e, ao mesmo tempo, perante o mundo: o lugar é uma forma como enxergamos as diferenças espaciais do território usado. O lugar não existe por si só, ele é, na verdade, uma interpretação dos usos do território.
Partindo desse princípio, a escolha por compreender o uso do território brasileiro e, em especial, a cidade de Juiz de Fora, está vinculada à advertência de Blikstein (1995): as subjetividades dos lugares de onde se escreve, se vive e se olha. Numa tentativa de compreender as conexões dos lugares com o mundo, sentimos não só vontade, mas principalmente necessidade de compreender essas relações presentes a partir do lugar de onde escrevemos, vivemos, lemos, olhamos, enfim, onde estamos imersos e de onde estamos emergindo.
A leitura que fazemos do espaço geográfico, a partir da geografia nova, reconhece e afirma o sentido da vida na sua constituição, na medida em que enxerga, na interação entre a vida (ação) dos seres humanos e seu meio físico e propriamente humano, a matriz onde, continuamente, são produzidos, transformados e gerados espaços heterogêneos, porém entrelaçados, entremeados, conectados. Estes espaços plásticos, que se tecem mutuamente em suas interações, compreendem, por sua vez, signos que os sustentam, representações que os evocam, pessoas que os conduzem, enfim, toda a situação em seu conjunto. Santos (2002, p. 112) salienta que “os lugares realizam e revelam o mundo, tornando-o historicizado e geografizado, isto é, empiricizado”. Como já destacamos, o mundo, como um conjunto de essências e possibilidades, não existe para ele próprio; apenas o faz para os outros.
Com a consolidação da globalização, os sujeitos têm a possibilidade, pelo meio técnico-científico-informacional, de estar no mundo e no lugar ao mesmo tempo. No entanto, o mundo não pode ser encarado como uma justaposição de
partes, já que ele é uma totalidade, uma complexidade. A evolução técnica dos objetos, cada vez mais acelerada no atual período histórico, acaba por impor novas possibilidades de ações nos lugares. Podemos constatar que, dadas as possibilidades técnicas e de ações que o mundo oferece e permite, há um processo conjunto e rápido de mudanças nos diversos usos.
As “situações geográficas” (SILVEIRA, 1999) significam “uma posição em relação a”. Isso quer dizer que a situação é uma ideia sobre a mediação dos lugares em relação aos eventos, explicitando o momento do mundo que se particulariza nos lugares22.
Entendo que os lugares tornados mundiais passam a abrigar as densidades técnicas, científicas e informacionais, as quais aderem, como “próteses”, ao território usado, realizando as funções demandadas pelo grande capital hegemônico. Dessa forma, os lugares vão caracterizando-se pelas densidades e usos que abrigam: passam a se diferenciar porque o fenômeno técnico e seus possíveis desdobramentos espacializam-se desigualmente, assim como as contrarracionalidades também podem se impor.
Os lugares são, pois, o mundo, reproduzido de modos particulares, específicos e individuais. São, ao mesmo tempo, únicos, singulares, mas também globais, “manifestações da totalidade-mundo, da qual são formas particulares” (SANTOS, 2002, p. 112).
Souza (2008) explicita que “felizmente o mundo é uma complexidade e é ela que devemos tocar com nossas metodologias, para tentar chegar bem perto do impossível: a realidade”. Esta realidade é intocável exatamente porque é dinâmica, complexa e, no mundo de hoje, excessivamente acelerada.
Cada vez mais complexo e mais estranho às lógicas dos lugares, o uso do sistema técnico está relacionado ao fato da aceleração do tempo que amplia a sucessão dos eventos, provocando a ampliação da diferenciação dos lugares. Esta
22 De acordo com o dicionário de filosofia organizado por Nicola Abbagnano, o conceito de situação se refere à “relação do homem com o mundo, na medida em que limita, condiciona e, ao mesmo tempo, fundamenta e determina as possibilidades humanas como tais [...] Heidegger notou que esse termo também tem significado espacial, mas designa, sobretudo, a determinação pela qual a existência, como ser no mundo, decide acerca de seu próprio lugar [...] E Sartre disse: „Se o para-si (a consciência do homem) nada mais é que sua situação, decorre que o ser em situação define a realidade humana, dando conta ao mesmo tempo de seu estar aí e de seu estar além. Com efeito, a realidade humana é o ser que está sempre além de seu ser-aí. E a situação é a totalidade organizada do ser-aí, interpretado e vivido por e para o ser, além deste mesmo ser” (Lêtre et lê néant, 1943, p. 634).
constatação remete-nos ao pensamento de Whitehead (1971), quando diz que “uma grande parte do mundo escorregou por entre as malhas da rede científica”.
Santos (1996, p. 8) alerta para o fato de que o valor do homem depende do lugar onde está:
A totalidade do mundo é formada das possibilidades que jamais estão em todas as partes e, em nenhum momento, dão-se de maneira total. E é isto que faz a diferença entre os homens, que também são a sede destas possibilidades realizadas, e é isto que faz a diferença entre os lugares, que são a sede destas diferentes possibilidades realizadas. Cada homem realiza um feixe de possibilidades num dado momento. A totalidade das possibilidades existentes somente se dá de forma parcial, nunca de forma total, e é por isso que não há espaço total. E se dá como função, como função do todo, sobretudo nesta fase da globalização (SANTOS, 1996, p. 13).
Apesar de identificarmos outras vertentes de análise das realidades a partir do lugar, como geografia humanística e perspectiva pós-moderna, por exemplo, tratamos aqui de analisar a relação do mundo nos lugares, concebendo este conceito a partir de uma perspectiva dialética, nos pressuposto da Geografia Nova. Assim, o lugar pode ser considerado, no contexto da globalização, como já destacamos anteriormente: a globalização indica uma tensão contraditória entre a homogeneização das várias esferas da vida social e a fragmentação, diferenciação e os antagonismos sociais. Por encararmos a análise dessa forma, a compreensão da globalização requer a análise das particularidades dos lugares, que permanecem, mas não podem ser entendidas nelas mesmas. O que há de específico nas particularidades deve ser encarado na totalidade, ou seja, os lugares e seus fazeres, são, pois, fazeres do mundo.
O lugar, possibilidade de manifestação dos aconteceres da globalização, sofreria, a partir desse entendimento, os impactos das transformações produzidas e provocadas em outros lugares, conforme suas particularidades e em função das suas múltiplas possibilidades. “O lugar é a própria totalidade em movimento que, através do evento, se afirma e se nega, modelando um subespaço do espaço global” (SILVEIRA, 1993, p. 205). A eficácia das ações em nível global estaria, assim, na dependência da possibilidade de sua materialidade nos lugares. Do mesmo modo, no lugar é que ser observam as resistências ao movimento do mundo, ao chegar dos eventos, à imposição da globalização e às suas consequências, pois é no lugar
que se constroem as identidades, o coletivo, o subjetivo, o questionamento, a subversão. Para Santos (2002, p. 42) o evento é a própria “flecha do tempo” sartreana, ao se encontrar com um pedaço do território, com o lugar: “O evento é a trazida do tempo possível a um ponto da superfície da terra para tornar esse tempo possível um tempo efetivo, existente, eficaz historicamente, eficaz geograficamente”.
Em 1985, Milton Santos escreve que “lugar é o objeto ou conjunto de objetos” e que “cada lugar constitui na verdade uma fração do espaço total”. Em 1994, define-o como “encontro entre possibilidades latentes e oportunidades preexistentes ou criadas”. Em 1996, acrescenta que a “divisão territorial do trabalho cria uma hierarquia entre lugares” e que “o lugar é o quadro de uma referência pragmática do mundo”. Mais tarde, ao falar de lugar como território usado, complementa argumentando que o lugar é uma “manifestação da divisão territorial do trabalho”.
Na interpretação geográfica, ao partir das especificidades locais – da totalização histórica dada nos lugares –, essas conceituações remetem-me à necessidade de também levar em consideração os processos mais gerais que incidem sobre elas: processos provenientes das escalas regionais, nacionais ou mundiais. “Por isso a importância das relações: o lugar determina as relações e estas o lugar. Daí, a decorrência ontológica: o lugar e a relação entre os lugares, assim como entre a população e esta e o lugar. Uma trama de relações e lugares” (SILVA, 1978, p. 7).
Nessa acepção de lugar, é inevitável entender esse conceito como sendo tanto produto de uma dinâmica que lhe é própria, única, ou seja, resultante de características históricas e culturais intrínsecas ao seu processo de formação, quanto como uma expressão do que é de fora, daquilo que lhe é externo, de uma certa globalidade.
Podemos dizer que a origem dessa percepção encontra-se vinculada ao processo de expansão do modo de produção capitalista que, através da diluição territorial dos sistemas técnicos de engenharia, conseguiu incorporar os pontos mais longínquos da superfície da terra, capturando a lógica de reprodução ampliada e desigual do capital. A incorporação histórica de novos territórios e os dados usos imperialistas verificados após as expansões marítimas europeias dos séculos XVI e XVII, por exemplo, ampliou o conhecimento do mundo, de suas terras, de seus povos, de seus recursos, de suas possibilidades, e isso indicou, concomitantemente, que o mundo era finito e potencialmente apreensível.
Essas constatações levam-nos a entender que, à medida que a dimensão do espaço foi tornando-se cada vez mais finita, inclusive “cabendo” nos novos mapas, na nova cartografia do mundo que surge desse contexto, a dimensão do tempo, controlado e racionalizado, foi aos poucos sendo reduzida. Esta foi uma consequência direta do aprimoramento das técnicas ou dos sistemas técnicos que passam a povoar e compor a superfície terrestre.
Isnard (1982, p. 231) observa que a comunidade mundial, durante muito tempo, uma justaposição de unidades independentes, transformou-se num sistema mundial cuja “coerência se baseia na interação das partes constitutivas num sistema complexo que apóia o seu dinamismo nas contradições resultantes da desigualdade das relações entre seus componentes”. A concretude advinda desse processo dá-se somente agora, no final do século XX e no início do XXI, com níveis de universalidade e desenvolvimento pouco imaginados, permitindo avançar na reflexão sobre a construção do lugar (SANTOS, 1988). Entendendo que as contradições internas consistem na principal razão de existência do capitalismo, o lugar, segundo essa perspectiva interpretativa, teria também, em sua constituição, a presença das contradições, das relações dialéticas entre o mundo e o local, entre totalidade e parte, entre globalização e fragmentação.
A partir dessas observações, entendemos o lugar tanto como uma expressão do processo imposto pela homogeneização das relações, dos fazeres e aconteceres do/no espaço, em virtude das dinâmicas globalizantes, quanto como uma expressão da singularidade, da particularidade, na medida em que cada subespaço, cada porção da superfície terrestre, ou cada lugar, adquire uma forma-conteúdo que lhe é própria. Além disso, exerce uma função imposta pela divisão internacional do trabalho. O “acontecer” alia-se, dessa forma, ao uso do território e define o lugar como tal: “como acontecer”.
Contudo, apesar de compreendermos as particularidades dos processos, das funções, das formas e da estrutura na constituição dos lugares, afirmamos que estes encontram-se profundamente interconectados, dadas pelas variadas “conexões geográficas”. De acordo com Santos (1988, p. 34), ao mesmo tempo em que a singularidade garante configurações únicas, os lugares estão em interação, graças à atuação das forças motrizes do modo de acumulação hegemônico.
Leite (1998, p. 18) enfatiza que, na atualidade, o que se verifica é o prescrito pela Lei da Interconexão Universal, proposta por Marquit (1981): “todas as coisas
estão ligadas às demais por uma infinidade de conexões”. De fato, esta é uma realidade do mundo contemporâneo, onde uma intensa rede de fluxos (mercadorias, capital, energia, dinheiro, informações, entre outras) marca a conexão entre os lugares:
As novas redes de telecomunicação – como no passado o telégrafo e o telefone – constituíram a resposta técnica contemporânea à necessidade de tornar mais veloz e mais fluido o processo de circulação de fluxos financeiros, ordens, mensagens, dados (DIAS, 2004, p.67).
As desigualdades, heterogeneidades, diversidades e complementaridades do lugar podem ser entendidas como linhas de convergências que poderiam nos conduzir ao entendimento solidário do mundo e seus lugares. Assim entendidos, os lugares, na interpretação de Souza (2006), são reveladores, basta atingi-los. O entendimento do lugar como presença e como coexistência permite a compreensão das contradições do mundo: das mazelas e riquezas, das acelerações e lentidões, da abundância e escassez, do que aglutina e do que separa, da competição e da cooperação, da dispersão e da concentração.
Uma questão que se coloca frente a esta proposição de entender a manifestação do mundo nos lugares é saber o significado da divisão internacional (territorial) do trabalho e seus desdobramentos na construção deste novíssimo mundo e seus respectivos lugares:
Dependendo da maneira através da qual se compreende a