BAUXITA DA ALCOA WORLD ALUMINA BRASIL LTDA.
No Município de Juruti-PA está instalada uma das principais minas de bauxita do Brasil, quiçá do mundo. A concessão mineral da ALCOA outorgada nos autos do processo administrativo DNPM nº 808.954/1975, é desenvolvido às custas da resistência da identidade territorial e no uso coletivo do território e dos recursos naturais pela Associação das Comunidades da Região de Juruti Velho (ACORJUV) e a Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Extrativista da Gleba Lago Grande (FEAGLE) que, segundo Marialva (2011), é compostas por comunidades tradicionais descendentes dos índios mundurukus.
aos seus processos de tomada de decisão e às necessidades de grupos de pessoas deficientes ou vulneráveis. A consulta a Povos Indígenas deve atender aos critérios específicos e detalhados do Padrão de Desempenho 7. Outrossim. é preciso abordar os direitos especiais dos Povos Indígenas, conforme reconhecidos pela legislação do país-sede (grifo nosso).
A tensão teve início já na fase de pesquisa e foi agravada na de exploração quando os comunitários foram proibidos de acessar a área destinada à lavra embora estivesse localizada no interior do território por eles tradicionalmente usado para caça, pesca e extrativismo de recursos florestais não-madeireiros.
Como resultado das lentas negociações, os integrantes das populações tradicionais ocuparam a área da ALCOA. Ações judiciais possessórias foram propostas pela mineradora contra a Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Extrativista da Gleba Lago Grande (FEAGLE) e mais 20 comunitários. O grau de polarização do conflito foi tão grande que provocou o surgimento de duas forças antagônicas: o ―Movimento 100% ALCOA‖ vs. o ―Movimento 100% Juruti‖.
Lopes (2012, p. 180) afirma que o mote do conflito concentra-se na apropriação e uso da terra que, para essas comunidades, sempre foi um grande desafio por gerações em virtude das riquezas naturais. Porém, no ano 2000 com a chegada da mineradora
―[...] a luta pela regularização fundiária se tornou o epicentro das reivindicações coletivas entre muitas comunidades do município de Juruti, mais especificamente na região de Juruti Velho.
A partir desse momento, cada vez mais os comunitários se envolveram em luta coletiva, e a regularização fundiária passou a ser um dos instrumentos indispensáveis para reivindicar e negociar com a empresa.‖
O produto da atuação social organizada e os desgastes socioeconômicos sofridos pela mineradora fizeram com que o INCRA, em 2009, acelerasse e concluísse o processo de criação do Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Juruti Velho com 109.551ha, atendendo 1.998 famílias, e o Governo do Estado do Pará outorgasse aos comunitários Contratos de Concessão de Direito Real de Uso sobre as suas terras.
Imagem 10 – Mapa ilustrativo que demonstra a atuação minerária da ALCOA Ltda. em terra pública federal e
estadual e também em comunidades tradicionais. Fonte: Pará (2014)/DNPM (2013).
No entanto, o conflito continuou no âmbito da luta pelos comunitários em prol do reconhecimento da obrigação da empresa de pagar a participação nos resultados da lavra.
Como resultado, Treccani (2014) explica que foi firmado o Termo de
Compromisso, Responsabilidade e Ajustamento de Conduta entre ALCOA-
INCRA-ACORJUVE191 no qual foram assegurados:
―[...] direitos à participação no resultado da lavra, renda pela ocupação
do terreno, indenização por danos e prejuízos e servidão minerária, os
quais reverterão em benefício do PAE JURUTI VELHO e constituirão fontes
191 Explica o documento: ―Os signatários do presente Termo de Compromisso reconhecem neste ato que as unidades familiares beneficiárias do Projeto Agroextrativista PAE JURUTI VELHO, criado pela Superintendência Regional do INCRA de Santarém, Estado do Pará, por meio do Processo Administrativo SR-30/STM Nº 54501.000656/2005-23, com apensos
54501.004431/2007-16 e 54501.018355/2007-18 e...., constituem Comunidades Tradicionais da Região de Juruti Velho, nos
termos do Decreto nº 6.040/2007, possuindo formas próprias de organização social, que ocupam e usam o território e recursos naturais de forma permanente, que lhes foi destinado e reconhecido pelo INCRA como seus, como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos, também, pela tradição. Esse reconhecimento tem por base o estudo denominado ―Aspectos Históricos e
de renda daquelas famílias, ficando desde já acordado que as especificações para assegurar objetiva, concreta e efetivamente cada direito decorrente serão tratadas em ajuste individualizado, tão logo firmado este Termo de Compromisso e desde que os elementos estejam todos reunidos (grifos no original).
Marialva (2011, p. 82) esclarece que essa participação seria correspondente a 1,5% da receita apurada nos quais estariam inclusos o ―[...] pagamento por danos e prejuízos pela ocupação da terra e retirada da água‖, cujo montante pago seria distribuído da seguinte forma: a) 50% entre as famílias; e, b) os 50% restantes, gerenciado pela Associação para investimentos coletivos em produção e necessidades básicas. Em relação à parcela destinada aos comunitários, a pesquisadora informa que gerou para cada uma das 2.500 famílias uma renda trimestral de R$ 600,00.
Lopes (2012), por sua vez, consigna que, de acordo com os dados fornecidos pela ALCOA, foram feitos os seguintes repasses a ACORJUVE: a) ano de 2009: R$ 757.000,00; b) ano de 2010: R$ 5.600.000,00; e, c) ano de 2011: R$
3.600.000,00. Informações estas que não foram confirmadas pela Associação
beneficiária até o fechamento deste trabalho.
Contudo, as duas referências bibliográficas não explicam a forma de obtenção desses números, não se sabendo ao certo a metodologia do cálculo que, por certo, não utilizou os parâmetros legais previstos no art. 11, ―b‖, § 1º, do Código Minerário em vigor, conforme a comparação que pode ser feita a partir dos dados apresentados no quadro abaixo.
ANO Valores recolhidos CFEM192 (R$)
Projeção da participação nos resultados da lavra –
Art. 11, “b”, § 1º, do Código de Mineração. (50% CFEM) (R$)193 Valores efetivamente pagos (R$) Projeção da participação nos resultados da lavra –
Art. 75, SPL 37/2011. (20% CFEM) (R$) 2009 0,0 0,0 0,0 0,0 2010 11.933.171,49 5.966.585,74 0,0 2.386.634,29 2011 10.864.196,69 5.432.098,34 0,0 2.172.839,33 2012 10.577.749,14 5.288.874,57 0,0 2.115.549,82 2013 10.428.411,44 5.214.205,72 0,0 2.085.682,28 TOTAL 43.803.528,76 21.901.764,38 0,0 8.760.705,75
Tabela 14 – Quadro dos valores estimados a título de participação do proprietário nos resultados da lavra –
ALCOA (proc. DNPM nº 808.954/1975): período 2009-2013. Fonte: RAMOS (2014)/DNPM (2014).
192 Fonte DNPM/2014
193 Valores sem a aplicação de multa por atraso e de correção previstos no art. 11, §§ 2º e 3º, do Decreto-Lei 227/67 com a redação dada pela Lei nº 8.901/94.
Não obstante a incompatibilidade entre valores e a confusão entre institutos jurídicos da renda pela ocupação e uso da água, participação nos resultados da lavra e indenização por prejuízos, o certo é que o caso em estudo demonstra os resultados positivos da luta qualificada das comunidades tradicionais pelo reconhecimento dos seus direitos territoriais para que a mineradora fosse compelida a cumprir suas obrigações legais.