O cristianismo deixa claro, assim como outras religiões, que o desapego e a entrega a algo superior caracterizam uma Consciência mais amadurecida. Sanford conecta a crucificação e a ressurreição à emergência da nova Consciência e à graça de Deus:
A morte e o sepultamento de Jesus são parte do simbolismo geral da
mortificatio: antes que qualquer coisa nova possa nascer, algo primeiro tem
de morrer. Da morte do que é velho, emerge algo que é novo. Trata-se de uma porção universal do simbolismo que é encontrado na alquimia, e que C. G. Jung [mostrou] ter profundo significado psicológico para a individuação. [É a mesma imagem do] grão de trigo que dever cair na terra e morrer, de modo a gerar uma farta colheita. Assim, Cristo morreu e foi sepultado, mas três dias depois, o Cristo ressurreto trouxe-nos uma enorme torrente de uma nova consciência e da graça de Deus. (SANFORD, 1993, p. 320, tradução livre).
A parábola do Bom Samaritano também nos fala de uma morte simbólica da Consciência, isto é, de uma transformação da Consciência. Quando o Messias leva o seu interlocutor a concluir que o próximo do samaritano era “aquele que usou de misericórdia para com ele”, propõe a morte do entendimento racional da vida (seja pela leitura literal das Escrituras ou pelas racionalizações que dissociam a pessoa do sentimento) e a ressurreição do significado verdadeiro e profundo da existência humana pela ação da misericórdia. Essa palavra, como nos ensina Leonardo Boff (1996), significa “ter entranhas”115, como uma mãe tem. O convite de Jesus, portanto, não é um convite ético e comportamentalista dissociado da vida interior. Ele convida à compreensão profunda que só se dá pela graça de uma Consciência expandida que transcendeu as representações coletivas típicas do Dinamismo
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Leonardo Boff, grande teólogo e autor brasileiro, também estudioso da Psicologia junguiana, nos fala de um Deus-mãe: “Misericórdia, em hebraico, significa ter entranhas. Portanto, um Deus-Mãe, próximo ao sofrimento humano, sensível ao grito do oprimido” (BOFF, 1996, p. 120). O autor mostra que Jesus tinha para com o Pai acolhedor uma relação íntima e afetiva, tanto que o chamava de “paizinho” (Abbá). Para Boff, Jesus descreve seu Pai de modo tal “que se revela como Mãe, cheia de misericórdia. É um Pai maternal e uma Mãe paternal (BOFF, 2005, p. 41)”. Para a palavra misericórdia, o dicionário Houaiss traz as seguintes acepções, entre outras: “sentimento de dor e solidariedade com relação a alguém que sofre uma tragédia pessoal ou que caiu em desgraça, acompanhado do desejo ou dadisposição de ajudar ou salvar essa pessoa; dó, compaixão, piedade” e “segundo o cristianismo, a imensa bondade de Deus, que o leva a conceder graça aos homens e perdão aos pecadores” (HOUAISS, 2001).
Patriarcal que suspeita do corpo, do feminino, do altruísmo, enfim, de tudo aquilo que possa comprometer aquele que optar por estar no mundo de maneira que transcenda o egoísmo e suas próprias convicções.
Na linguagem teológica, a transcendência da visão legalista e redutivista, representada pelo doutor da lei, ocorre pela ação do Espírito Santo que tem como propósito a elevação da Consciência humana à Consciência divina. O Dinamismo de Consciência Patriarcal, que se caracteriza pela identificação com as leis, com as escrituras e com o ponto de vista do ego é transcendido pelo Espírito Santo que, de acordo com Boff (2005), é o aspecto feminino de Deus116. Assim, neste momento, falo do Espírito Santo para referir-me a um agente de transformação da Consciência pela integração da polaridade feminina, que envolve o sentimento e a misericórdia. A morte da visão racional e separatista induz, simultaneamente, às Consciências de Unidade e de Totalidade.
Wilber faz uma boa síntese da morte de uma Consciência literal para o nascimento de uma Consciência expandida:
Ao transcender o sentimento de separação, [o eu] se desdobra no verdadeiro divino. A união com o divino – uma união, ou unidade, que estava presente, mas inconsciente, desde o início – agora fulgura na Consciência, numa explosão brilhante de iluminação e num choque do indescritivelmente simples: o eu se dá conta de sua suprema identidade com o próprio Espírito, talvez enunciada em nada mais do que uma brisa fresca de um dia de primavera, algo afrontosamente óbvio. (WILBER, 2005, p. 58).
Percebemos, assim, que o simbolismo da morte, tanto pelo comentário de Sanford quanto pelo de Wilber, é bem mais profundo do que normalmente costumamos crer. Trata-se, paradoxalmente, do romper da morte para a vida, e não
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Boff, ao discorrer sobre a Trindade, explica que Ela se revelou em nossa história na família terrena de Jesus: “A Família divina, num momento preciso da evolução, assumiu a família humana. O Pai se personalizou em José, o Filho em Jesus e o Espírito Santo em Maria” (BOFF, 2005, p. 25). “O Espírito vem e ‘arma sua tenda’ [sobre Maria], quer dizer, mora definitivamente em Maria. Em hebraico, armar a tenda e morar é shakan, de onde vem shekinah [...]: a tenda de Deus no Templo. A shekinah é tão decisiva para a teologia judaica que, mais tarde, ela vai substituir o tetragrama YHWH (Javé, o nome de Deus). [...] Ele, o Espírito Santo, terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é o primeiro a ser enviado ao mundo. Ele vem e faz de Maria seu Templo.” (BOFF, 2005, p. 87). O autor acrescenta que o evangelho de Lucas diz que o Espírito veio sobre Maria e que, “com isso, atingiu-se um ponto culminante e intransponível. É tão surpreendente, que até hoje não foi assimilado pelas Igrejas cristãs e pela teologia oficial, reféns do masculinismo que vastamente predomina nos meios eclesiásticos. Com razão, ela comparece como a personificação do Espírito Santo. E é assim que os fiéis a experimentam em sua caminhada de fé, como, aliás, o grande psicanalista C. G. Jung comprovou em suas investigações.” (BOFF, 2005, p. 88).
da vida para a morte. A ilusão de ser algo separado e narcisicamente superior ou inferior àquilo ou àquele que é diferente é um estado de Consciência infantil. Por não abarcar a totalidade, esse estado restringe o homem ao imediato e o subjuga ao princípio da razão, que também é subjugado por forças coletivas da psique, que mantêm o homem cativo e distante da graça que, paradoxalmente, também é sofrimento. O desenvolvimento da Consciência não é apenas o despertar para o belo, mas também para o inferno que exige a compaixão em relação a todos que sofrem.
Wilber prossegue comentando aspectos da evolução da Consciência:
À medida que o eu infantil cresce em percepção e consciência, ele vai ficando, aos poucos, consciente da dor intrínseca da existência, do tormento inerente ao samsara, do mecanismo de loucura inseparavelmente enroscado no mundo manifesto: ele começa a sofrer. Ele é apresentado à Primeira Verdade Nobre, uma iniciação atribulada dentro do mundo da percepção, cuja única matemática é o fogo torturante dos desejos insaciados e insaciáveis. Esse não é um mundo sem desejos que estava faltando no “maravilhoso” estado imerso anterior, mas apenas um mundo que dominava esse estado de maneira inconsciente, um mundo do qual o eu agora começa a ficar consciente lenta, dolorosa e tragicamente. (WILBER, 2005, p. 58).
A religião, vista criativamente, transporta a Consciência tanto para o estado de unidade e bem-aventurança quanto para a Consciência do samsara tão bem descrita pelo budismo, que pode ser entendida como o sofrimento originado com a vida de fome e frustrações, oriunda da Vontade faminta e bestial estudada por Schopenhauer117. A Consciência de Unidade abrange a compaixão, pois tudo que vive está fadado a adoecer e morrer. A parábola do Bom Samaritano une as Consciências de Unidade e de Totalidade com a abertura para a compaixão. Não existe compaixão legítima sem a conexão do eu com a interioridade viva.
Como vimos no capítulo anterior, a mentalidade narcisista é egocêntrica e desconhece a necessidade da ampliação da Consciência que vem por meio da frustração e da morte. O narcisista vive para si e é insensível à realidade humana. O estado narcotizado do narcisista o impede de comungar tanto com o sofrimento, o seu e o alheio, quanto com a Unidade que pulsa em beleza e graça, em objetivações
infinitas dentro do finito. O narcisista é dissociado da Unidade e da compaixão e pode ser religioso ou não. Pode estar preso às Escrituras e ao racional, ou apenas ao mundo material, ao mundo do certo e errado, e à necessidade de gratificações constantes. Muitas vezes, ele se nega a entregar-se à transformação narcísica, porque, invariavelmente, ela o levaria à frustração, ao sofrimento e à morte de suas convicções e desejos.
Wilber faz mais uma brilhante síntese a respeito da condição precária e narcotizada, que poderemos chamar, aqui, de Consciência narcisista:
E, assim, à medida que o eu cresce em percepção, ele vai do inferno inconsciente ao inferno consciente, e aí talvez passe toda a sua vida buscando, acima de tudo, as consolações entorpecentes que cauterizarão seus sentimentos feridos em carne-viva, e obscurecerão seus esboços de desespero. Sua vida se torna um mapa de morfina, fechando-se no brilho anestético de todas as compensações, talvez até conseguindo se convencer, ao menos pelo precioso relance de um momento cor-de-rosa, de que o mundo dualista é uma coisa realmente linda. (WILBER, 2005, p. 58).
A Consciência narcisista convence-se, portanto, que permanecer estagnado em suas próprias convicções pode até ser entendido como demonstração de coerência e força de caráter. Basicamente, tal Consciência tem medo do novo.
5.3.1 A graça vem com o conflito
Ao mesmo tempo, se fizermos do desapego um dogma rígido, desequilibraremos a psique, pois o apego também é importante ao desenvolvimento da Consciência. A sombra da religião é, muitas vezes, tornar-se unilateral, pervertendo o fluxo natural do desenvolvimento da Consciência em nome de um ideal pré-estabelecido. A Psicologia da Religião deve, portanto, estar atenta tanto aos aspectos defensivos quanto criativos da religião. A vida de Jesus, então, não pode ser copiada literalmente. Assim, não devemos ter somente a fé em Jesus, mas, principalmente, a fé de Jesus, isto é, a fé de nos entregarmos ao nosso destino, carregar a nossa cruz, curar nossas feridas e realizar Deus à nossa maneira.
Para que faça sentido toda essa elaboração e essa aproximação entre a Psicologia e a Religião, é preciso que entendamos a cruz como símbolo do conflito que pode levar à libertação da fixação narcísica e da estagnação da Consciência, que são a morte em vida. A vida em abundância118, proclamada por Jesus, implica
uma liberdade espiritual que advém da ressurreição que não se faz após a morte concreta biológica, mas na vida que, pela elaboração simbólica suplantou as grandes identificações primárias inconscientes com os self-objetos extremamente idealizados e as possessões pelos complexos negativos.
Tenho procurado demonstrar, no decorrer deste trabalho, que a transcendência de uma vida espiritualmente comprometida por vínculos incestuosos para uma vida de mais autonomia e entrega afetiva exige uma participação ativa, isto é, um compromisso do indivíduo com o seu processo de individuação. A pessoa deverá estar comprometida com a busca da graça. A graça que é, em última instância, comungar com a realidade divina, e que só se dá com o romper das amarras das idealizações narcísicas, também pode ser entendida como o sucesso do processo de diferenciação dos vínculos incestuosos. A graça pode também ser compreendida como a recompensa pelo sacrifício do self grandioso, o despertar da ilusão de ser especial e o abrir-se para a vida afetiva, no que diz respeito à família e ao próximo como um igual. A graça é, assim, o renascer em uma Consciência na qual a ressonância empática, a capacidade simbólica, a sexualidade plena e a espada da diferenciação estejam juntas em nome de uma vida digna de ser vivida. Na linguagem religiosa, uma vida em comunhão com Deus.