B- Performans Bilgileri
2- Performans Sonuçları Tablosu
Um dos principais exemplos de legislação penal simbólica é a chamada Lei de Crimes Hediondos, pois apesar da tipificação específica e tratamento diferenciado para determinadas condutas assim qualificadas, não houve redução nos índices de realização desses crimes. Pelo contrátrio, houve um aumento vertiginoso no número de sequestros, o que demonstra que não há correspondência entre a gravidade da pena prevista para determinada conduta e a redução da criminalidade.100 Ademais, trata-se de uma lei que fora criada em razão de pressões sociais e alterada, não acredita-se que seja mera coincidência, em momentos anteriores a períodos eleitorais.
Outro fator que exerceu influência na edição da Lei fora o Movimento Law and Order, que ganhou grande amplitude nos Estados Unidos na década de 70, tendo como ideia princial a de repressão máxima e o alargamento das leis incriminadoras, exercendo grande influência em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil.101
Além disso, muitos dos dispositivos, conforme mencionado em momento anterior deste trabalho, foram criados e/ou modificados em momentos de clamores sociais, normalmente empós o choque do País em razão de algum crime, que fora explorado pela mídia, e tornou-se um caso emblemático.
A Constituição Federal, através do seu art. 5º, XLIII, introduziu no ordenamento jurídico pátrio a figura do crime hediondo, o qual teria um tratamento diferenciado dos demais delitos. Vejamos a redação do dispositivo constitucional.
Constituição Federal de 1988. Art.5º, inciso XLIII- a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem.
A lei a qual o artigo faz menção foi publicada no dia 25 de julho de 1990, sob o número 8.072/1990, contendo 13 artigos, os quais veiculam normas de direito material e processual.
100
Cf REALE Júnior, Miguel. Dos crimes hediondos, estudos jurídicos em homenagem a Manoel Pedro Pimentel. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1992, p. 212.
101
Cf FRANCO, Alberto Silva. Crimes Hediondos.-5 ª ed. rev., atual., e ampl. -São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2005, p.103-106.
Hediondo pode ser definido como um crime pavoroso, depravado, horrendo, arrepiante e que cause indignação moral. Para Damásio de Jesus, hediondo é o crime que, pela sua forma de execução, ou pela gravidade do seu resultado, provoca intensa repulsa.102
O primeiro artigo da lei que ficara conhecida como Lei de Crimes Hediondos prevê um rol taxativo de quais são os crimes assim qualificados, tipificando a conduta e estipulando as penas para o caso de realização de ação que se subsuma ao tipo penal.
No ordenamento jurídico brasileiro, prevaleceu o sistema legal para a escolha de quais crimes seriam escolhidos para ser classificados como hediondos, uma vez que a Constituição Federal assegurou o tráfico de drogas, a tortura e o terrorismo como merecedores de um tratamento penal mais severo, cabendo assim ao legislador ordinário definir quais crimes seriam classificados como hediondos. No sistema escolhido, qual seja, o legal, somente a lei pode indicar, em rol taxativo, quais crimes são classificados como hediondos.103 Sendo assim, não há uma margem interpretativa significativa para o julgador.
A lei supramencionada foi alvo de constantes alterações, já tendo sido modificado, por diversas vezes, o rol de crimes hediondos. No rol atual desta lei, este sendo taxativo, mas não imutável, há a previsão das seguintes condutas, tipificadas no artigo 1º da Lei, quais sejam: I- o homicídio (art. 121) quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido por um só agente, e homicídio qualificado (art. 121, §2º,I,II,III,IV e V); II- latrocínio (art. 157, §3º, in fine; III- extorsão qualificada pela morte (art. 158,§2º); IV- extorsão mediante sequestro e na forma qualificada (art. 159, caput e §§1º,2º e 3º); V- estupro (art.213, caput e §§1º e 2º);VI- estupro de vulnerável (art.217-A, caput e §§1º,2º,3º e 4º); VII- epidemia com resultado morte (art.267,§1º);VII-B- falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produtos destinados a fins terapêuticos ou medicinais (art. 273, caput e §1º,1º-A e §1º-B, com a redação dada pela Lei nº 9.677 de 2-7-1998). O parágrafo único prevê que consideram-se também hediondos o crime de genocídio previsto nos artigos 1º,2º e 3º da Lei 2.889 de 1º de outubro de 1956, tentado ou consumado.
Ademais, equiparam-se aos crimes hediondos, conforme o artigo 2º da Lei 8.072/1990, a prática de tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e o terrorismo, e torna os crimes hediondos e equiparados insuscetíveis de graça, anistia, indulto e fiança.
Como tratamento mais gravoso para esses crimes, além do supramencionado, os parágrafos do artigo 2º preveem que a pena será cumprida inicialmente no regime fechado, e
102
Cf JESUS, Damásio Evangelista de. Novas questões criminais. São Paulo:Saraiva,1993, p.28.
103
Cf CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal-legislação especial, volume 4, 7 ed. São Paulo: Saraiva,2012, p. 195-196.
que a progressão de regime dar-se-á após o cumprimento de 2/5 (dois quintos) da pena se o apenado for primário, e 3/5 (três quintos) se for reincidente.
E, por fim no art.2º §3º a lei prevê que caberá ao juiz decidir fundamentadamente se o réu poderá apelar em liberdade.
Uma vez explanado quais são os crimes que encontram-se no rol de crimes previstos como hediondos e as disposições legais que diferenciam o tratamento deles em relação aos demais crimes, que não tem essa rotulação, passa-se a traçar breves comentários acerca do contexto social no qual a lei fora criada, e no qual foi feita alguma das suas alterações.
Ao contextualizar, fica claro a maneira como essa lei foi usada como mecanismo político para manipular o imaginário social, e fica evidente o exemplo da legislação simbólica, mais especificamente na sua modalidade legislação-álibi. A criação da lei bem como as modificações no rol de crimes hediondos teve influência clara dos meios de comunicação em massa.
Conforme mencionado, a aprovação da Lei de Crimes Hediondos ocorreu no ano de 1990, o que coincidiu com um período no qual houve um intenso aumento da violência urbana. O final da década de 80 e o começo da década de 90 foram marcados por um grande número de crimes violentos, como latrocínios, estupros, que tornaram-se delitos comuns, o que se deu, dentre outras razões, pelo aumento da densidade demográfica dos centos urbanos, somado ao desemprego e a inflação.
Dos crimes cometidos nesse perígoso, os mais emblemáticos foram a extorção mediante sequestro do empresário paulista Abílio Diniz, do grupo Pão de Açúcar, que ocorreu em em 11 de dezembro de 1989104, e do publicitário Roberto Medina, em 6 de junho de 1990. O publicitário ficou em poder dos sequestradores durante dezesseis dias, e foi liberado mediante o pagamento da quantia equivalente a US$ 2,5 milhões. 105
A ampla cobertura jornalística de tais crimes, somada ao fato de tratarem-se as vítimas de duas pessoas muito influentes na sociedade brasileira acelerou o processo de tramitação da Lei, que ocorreu num curto prazo de tempo.
104
Cf FOLHA ONLINE. Sequestro Abílio Diniz também teve participação de estrangeiros. Folha Online, São Paulo, 3 fev. 2002. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u45205.shtml. Acessado em: 3 de outubro de 2013.
105
Cf ALMANAQUE FOLHA UOL. Resgate de US$ 2,5 milhões encerra sequestro de Medina. Banco de Dados Folha, São Paulo, 22 de junho de 1990. Disponível em http://almanaque.folha.uol.com.br/cotidiano_22jun1990.htm. Acessado em: 3 de outubro de 2013.
Em 1994, quatro anos depois da criação da Lei, foi aprovada a Lei 8.930/1994, que acrescentou ao rol de crimes hediondos os crimes de homicídio praticado em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido por um só agente, e homicídio qualificado.106 O que se deu em seguida ao caso também emblemático do assassinato da atriz Daniella Perez, 22 anos, filha da novelista da Globo Glória Perez, morta a tesouradas em dezembro de 1992.
Glória Perez liderou um projeto de iniciativa popular com o objetivo de inserir o homicídio qualificado no rol de crimes hediondos, que contou com 1,3 milhões de assinaturas, tratando-se do primeiro projeto de lei no Brasil proposto mediante iniciativa popular.107
Ademais, no ano de 1993 duas chacinas ficaram famosas quais sejam a Chacina da Candelária e a Chacina do Vigário Geral. Na primeira, que ocorreu em julho de 1993 um grupo de policiais civis e militares, membros de grupos de extermínios, atirou contra crianças que dormiam nas imediações da Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. A segunda, ocorrida em agosto do mesmo ano, resultou no assassinato de 21 pessoas na favela carioca que deu nome ao crime. As investigações indicaram que policiais civis e militares realizaram a matança em represália à morte de quatro policiais, crimes atribuídos à traficantes da região.108
Em 1998, foi criada a Lei nº 9.695/1998, a qual incluiu no rol dos crimes hediondos a falsificação, a corrupção, a adulteração e alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais. Há controvérsias acerca do dispositivo, pois até um cosmético pode enquadrar-se neste tipo mencionado, que foi criado em seguida ao caso da falsificação do contraceptivo Microvlar, produzido pelo Laboratório Schering Química e Farmacêutica Ltda, que pôs a venda lotes do contraceptivo sem o seu princípio ativo, o que resultou em muitas gravidezes indesejadas.109
106
Cf PIMENTEL, Aldenor da Silva, O jornalismo e a história da Lei de Crimes Hediondos, VIII Encontro Nacional de História da Midia, disponível em: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/8o-encontro 2011-
1/artigos/O%20jornalismo%20e%20a%20historia%20da%20Lei%20de%20Crimes%20Hediondos.pdf/view. Acessado em: 3 de outubro de 2013.
107
Cf DANIELLA PEREZ. A emenda popular. Disponível em http://www.gloriafperez.net/?page_id=591. Acessado em 3 de outubro de 2013.
108
Cf PIMENTEL, Aldenor da Silva, O jornalismo e a história da Lei de Crimes Hediondos, VIII Encontro Nacional de História da Midia, disponível em: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/8o-encontro 2011-
1/artigos/O%20jornalismo%20e%20a%20historia%20da%20Lei%20de%20Crimes%20Hediondos.pdf/view. Acessado em: 3 de outubro de 2013.
109
Cf PIMENTEL, Aldenor da Silva, O jornalismo e a história da Lei de Crimes Hediondos, VIII Encontro Nacional de História da Midia, disponível em: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/8o-encontro 2011-
A Lei nº 12.015/2009 também modificou a Lei de Crimes Hediondos no tocante ao crime de estupro. Na época em que tramitava o projeto de lei para a modificação dos crimes relativos à dignidade sexual houve intensa divulgação na mídia de casos de escândalos envolvendo abuso sexual de crianças e adolescentes, o que na prática foi a maior mudança trazida por este dispositivo legal.
Portanto, através dessa breve exposição sobre casos que tiveram repercusão nacional, o que levou a uma cobrança social por medidas, em razão da revolta que a maior parte deles causou na população brasileira, houve uma resposta legislativa simbólica, o que, a médio e longo prazo tende a gerar uma descrença no Estado e no sistema, pois esse tipo de legislação simbólica quanto mais é elaborada mais tende a desestabilizar a situação que busca harmonizar. O que percebe-se da explanação feita é que ao invés de medidas efetivas ligadas a apuração e processamento de crimes, bem como aos fatores sociais que contribuem para o cometimento destes.