Nos últimos anos, as discussões em torno do aquecimento global elevaram o tema da sustentabilidade ao topo da prioridade das maiores empresas do mundo e ajudaram a despertar o interesse por métodos construtivos sustentáveis. Há uma série de processos e materiais que, combinados, podem gerar maior ou menor impacto
ambiental. Talvez por isso, uma das dificuldades que envolvem o tema sustentabilidade é determinar de forma clara o quão sustentável é uma edificação.
A criação de construções sustentáveis está baseada em conceitos e princípios que buscam a racionalização da gestão dos recursos naturais, em especial a análise da totalidade do ciclo de vida dos materiais, o desenvolvimento de matérias-primas e energias renováveis e a economia de materiais utilizados. Em seguida, temos a acomodação do projeto ao terreno, procurando, tanto quanto possível, facilitar os escoamentos e a drenagem. A realidade climática local, as construções vizinhas e sua influência no projeto, os quadrantes de maior radiação, a amplitude térmica local, a média da umidade relativa do ar e a direção e a velocidade dos ventos predominantes devem ser consideradas condicionantes (SZABO 2005).
Além disso o fato do setor da construção civil mundial responder por 25% das emissões de CO2, segundo estimativas do IPCC, evidencia a importância da sustentabilidade tornar-se, gradualmente, prioridade, tanto em relação ao aumento da eficiência energética em edifícios, como em relação à contribuição dos materiais de construção (JOHN e AGOPYAN 2012).
Todavia, é importante ressaltar que o consumo per capita de energia nos edifícios do Brasil é ainda pequeno e possui matriz elétrica em geral limpa, o que corrobora a ideia de que a política de mitigação de GEE na construção não deve se concentrar apenas na substituição de chuveiros elétricos por aquecedores solares e no aumento da eficiência energética. É fundamental adotar essas medidas por razões econômicas, sociais e ambientais, porém será necessário focar as estratégias de mitigação na produção e transporte dos materiais de construção e, nesse cenário, as obras de infraestrutura – pontes, barragens, viadutos e rodovias – passam a se tornar prioritárias (JOHN e AGOPYAN 2012).
Ainda assim, é necessário pensar no que os recursos ambientais podem contribuir para se fazer um edifício sustentável, como por exemplo aproveitar a amplitude térmica durante o dia, as temperaturas durante a noite e a iluminação natural (ROMERO e BRUNA 2010), obedecendo critérios de qualidade e eficiência de materiais.
A aplicação destes conceitos construtivos que garantem a sustentabilidade de um empreendimento passa, necessariamente, por uma análise da sua viabilidade
econômica e estudo que visa dar suporte à tomada de decisão, para se adaptar ao disposto nos artigos 14 a 17 da PMMC:
Art. 14. As edificações novas a serem construídas no Município deverão obedecer critérios de eficiência energética, sustentabilidade ambiental, qualidade e eficiência de materiais, conforme definição em regulamentos específicos.
Art. 15. As construções existentes, quando submetidas a projetos de reforma e ampliação, deverão obedecer critérios de eficiência energética, arquitetura sustentável e sustentabilidade de materiais, conforme definições em regulamentos específicos.
Art. 16. O Poder Público Municipal deverá introduzir os conceitos de eficiência energética e ampliação de áreas verdes nas edificações de habitação popular por ele desenvolvidas.
Art. 17. O projeto básico de obras e serviços de engenharia contratados pelo Município que envolvam o uso de produtos e subprodutos de madeira somente poderá ser aprovado pela autoridade competente caso contemple, de forma expressa, a obrigatoriedade do emprego de produtos e subprodutos de madeira de origem exótica, ou de origem nativa que tenha procedência legal.
§ 1º. A exigência prevista no "caput" deste artigo deverá constar de forma obrigatória como requisito para a elaboração do projeto executivo.
§ 2º. Nos editais de licitação de obras e serviços de engenharia que utilizem produtos e subprodutos de madeira contratados pelo Município de São Paulo, deverá constar da especificação do objeto o emprego de produtos e subprodutos de madeira de origem exótica, ou de origem nativa que tenha procedência legal.
§ 3º. Para efeito da fiscalização a ser efetuada pelo Poder Público Municipal, quanto à utilização de madeira de origem exótica, ou de origem nativa que tenha procedência legal, o contratado deverá manter em seu poder os respectivos documentos comprobatórios.
que trata este artigo, a apresentação, pelos contratantes, de declaração firmada sob as penas da lei, do compromisso de utilização de produtos e subprodutos de madeira de origem exótica, ou de origem nativa que tenha procedência legal.
Os edifícios verdes, ou green buildings, podem ser definidos como aqueles que buscam um balanço entre fatores econômicos e compromissos com o ambiente e a sociedade. Devem promover uma relação atrativa entre custo, valor e risco para os empreendedores. As principais características destas edificações são: fontes alternativas de energia; menor emissão de poluentes; uso de materiais recicláveis; maximização da iluminação natural; preservação de áreas verdes ou nativas; boa qualidade do ar interno (CEAG 2007).
Os primeiros prédios verdes foram construídos na Holanda, na Alemanha e nos países nórdicos. A sede do Parlamento alemão – Berlin Reichstag Building8-, por
exemplo, tem um gerador que não só produz a própria energia com base em combustíveis renováveis como envia o excedente para construções vizinhas (GONÇALVES e DUARTE 2006). Só mais tarde essas construções ambientalmente corretas apareceram nos Estados Unidos e na Ásia.
Como os green buildings são construções que empregam alta tecnologia para reduzir os impactos negativos causados pela construção no meio-ambiente, oferecendo também melhor qualidade de vida a seus ocupantes e benefícios financeiros para seus empreendedores, não é de se surpreender que este conceito de edificações constitua-se como o novo paradigma do setor da construção civil.
Há mais de uma década, a prática de construir green buildings vem crescendo substancialmente em países mais desenvolvidos. Nos países em desenvolvimento ainda é uma novidade a existência dessas construções. Como ilustração importante, provavelmente simbolizando novos caminhos, a Universidade de São Paulo está
8. A sede do parlamento alemão chega a produzir 82% da energia elétrica utilizada. O trabalho apresentado no “Proceedings World Geothermal Congress”, em 2000, por Frank Kabus e Peter Seibt, pode ser obtido no site <http://www.geothermie.de/egec- geothernet/ci_prof/europe/germany/0493.PDF>.
implantando seu primeiro edifício sustentável, em processo de construção no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências da Atmosfera - IAG , com a coordenação do Professor Tercio Ambrizzi, e envolvendo o Professor Marcelo Romero, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, pela sua atuação no que se refere aos conceitos e diretrizes de green buildings, entre outros cientistas. No caso brasileiro, os poucos edifícios com estas características representam um avanço e deverão servir de estimuladores deste novo e necessário paradigma.
Estas construções são submetidas a protocolos internacionais de certificação que atestam seu desempenho, sendo um deles o LEED - Leadership in Energy and Environmental Design, aplicado pela “United States Green Building Council” – USGBC.
O Green Building Council Brasil desenvolve a adaptação do sistema de certificação LEED para a realidade brasileira. Construções verdes bem projetadas gastam menos em serviços básicos. A partir da promulgação da PMMC, todas as edificações novas a serem construídas no Município deverão obedecer aos critérios de eficiência energética, sustentabilidade, qualidade e eficiência de materiais, conforme forem definidos em regulamentos específicos. E as construções já existentes deverão atender aos referidos critérios quando submetidas a projetos de reforma e ampliação.
Cumpre ressaltar ainda que o Poder Público Municipal deverá introduzir estes conceitos nas edificações de habitação popular desenvolvidas. E, observado o principio da função social da propriedade, segundo KRING e ROSSIN (2008), os proprietários urbanos cedem, respeitam, parcelam, constroem, deixam de construir, para que a cidade caminhe para a direção do sustentável, exercendo assim sua cidadania.