Na intensificação das novas conquistas feitas pelas mulheres e na reafirmação dos papéis exercidos por elas dentro do lar, percebe-se uma maior
presença da mídia, afinal, com tantas conquistas é necessário um mecanismo de controle, uma das funções exercidas pelos meios de comunicação midiáticos.
Em consonância com essas mudanças, no século XX, surgem as Revistas Femininas4, as quais trazem conselhos e dicas de comportamento em relação à vida familiar, ao casamento, ao trabalho.
As primeiras revistas feministas, como A Mensageira (1897-1900), destinadas ao público feminino, defendiam um discurso que apontava a mulher profissionalmente ativa e politicamente participante como uma mulher que teria melhores condições de desenvolver seu lado materno. A revista Feminina (década de 30) já trazia artigos médicos que incentivavam um bom relacionamento sexual do marido com sua esposa, que tinha as mesmas necessidades que ele. E ao mesmo tempo em que ressaltava a importância da constituição familiar também estimulava o trabalho fora de casa. Porém, esses discursos enfrentavam forte resistência na época. Havia uma grande preocupação em direcionar a mulher, através da leitura, por caminhos retos, com vistas a manter a submissão ao marido e a manutenção da família. As revistas exerciam também o papel de uma sociedade de controle em relação às atitudes e comportamentos da mulher. Com essas atitudes, observam-se, então, “as técnicas disciplinares de poder” (FOUCAULT, 1999, p. 221), e para se aplicar essas técnicas era preciso a vigilância sobre as mulheres. De acordo com Bassanezi (2008, p.610), “a educação moral e a vigilância sobre elas se faziam necessárias”. Essa educação moral e vigilância poderiam vir através das revistas, que ensinavam pela leitura, dando conselhos e disciplinarizando os corpos, tornando-os dóceis e obedientes à voz da mídia.
Discutiam-se, frequentemente, os perigos da leitura privada. No século XVII a atividade da leitura ainda “era vista como perigosa, especialmente quando praticada por grupos subordinados, como mulheres e „gente comum‟” (BRIGGS e BURKE, 2006, p.68). Alguns homens pregavam o analfabetismo para as mulheres, pois, entre outros perigos, poderiam receber/escrever cartas de amor; outros homens não chegavam a tanto, porém, achavam que a leitura para as mulheres
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Trata-se aqui por revistas femininas as revistas publicadas especialmente para mulheres. Essas revistas, informativas, educativas, trazem assuntos ligados ao cotidiano, à vida familiar e social, à criação dos filhos, à beleza, entre outros temas. Quanto às revistas feministas, poderiam trazer tudo isso e algo mais, como textos inquietantes e provocativos em relação à situação da mulher na época. Enfatizava a luta pela igualdade de direitos e outros temas polêmicos. (v., por exemplo, texto de “A Mensageira” – capítulo II).
deveria ser controlada, restringindo-se à Bíblia ou livros religiosos; poucos eram os que defendiam a leitura, mais especificamente a dos clássicos – porém, esse tipo de leitura era um privilégio somente das mulheres de classe mais alta (BRIGGS e BURKE, 2006). Essas concepções começaram a mudar a partir do século XVIII, mesmo assim, muitos livros eram interditados para as moças. No início do século XX, por exemplo, O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, não entrava em todas as casas de família pela porta da frente, pois, esse tipo de leitura, que mostrava a sedução, o amor proibido, a traição, poderia corromper a inocência das moças e/ou o comportamento das mulheres casadas. Mas, como reitera Perrot (1998, p.91), “entender as proibições é também compreender a força das resistências e a maneira de contorná-las ou de subvertê-las”. E assim as mulheres tentam atravessar as fronteiras e reivindicar mudanças, provocando irrupções, resistindo ao que lhes era imposto.
Com as mudanças sendo encaminhadas, era preciso assegurar o poder do patriarcalismo e, nos discursos que circulavam pelas revistas tornava-se necessário ter um certo controle sobre os dizeres. Segundo Foucault (2006a, pp.08-09),
em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.
Esse controle, seleção, organização e circulação dos dizeres faziam-se necessários ao olhar daqueles que comandavam a situação, para que não fosse instigada mais ainda a luta das mulheres por emancipação, pois, a moral e os bons costumes dentro da família deveriam prevalecer sempre.
De acordo com Chanter (2011, p.67), “por meio do aparato da mídia, o olhar masculino é internalizado quando as revistas femininas de moda e os anúncios da internet instruem as mulheres com o intuito de promover sua „individualidade‟”. Nos dizeres midiáticos, encontram-se então, o olhar masculino em direção ao possível controle dos comportamentos femininos.
Para melhor conhecer como se dão as práticas discursivas em torno da mulher trabalharemos com o arquivo seguindo o trajeto temático “Mulher, trabalho e família”, na história contada pela mídia, e, para contemplar os eixos escolhidos: 1)a
mulher e o mercado de trabalho, 2) a mulher trabalhadora e a relação de gêneros e 3) a mulher trabalhadora e a constituição familiar, optamos por coletar e analisar variados gêneros discursivos que circularam, do século XIX aos dias de hoje, pelos meios midiáticos, como revistas, jornais, TV, internet. Esses textos, reportagens, propagandas, músicas, charges, utilizados aqui remontam à memória sobre a história que a mídia conta sobre a mulher, o trabalho e a família. A partir do arquivo montado para este trabalho de pesquisa, pode-se ter uma imagem da vida da mulher no setor privado e a sua passagem para a vida pública.
Mas, por que utilizar gêneros tão variados ao invés de se escolher um só? Quando se optou por trabalhar com a noção de arquivo e de trajeto temático verificou-se a necessidade de analisar as redes de memória e os deslocamentos discursivos que se dão entre os vários gêneros que se manifestam pela linguagem verbal e/ou imagética. Segundo Bakhtin (2003, p.282) “dispomos de um rico repertório de gêneros de discurso orais (e escritos)”, dessa forma, a cada vez que nos pronunciamos, nos comunicamos através de algum gênero, isto nos faz reconhecer “a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso”. O autor ainda ressalta que
em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado campo; é a esses gêneros que correspondem determinados estilos. Uma determinada função (científica, técnica, publicística, oficial, cotidiana) e determinadas condições de comunicação discursiva, específicas de cada campo, geram determinados gêneros, isto é, determinados tipos de enunciados estilísticos, temáticos e composicionais relativamente estáveis. (BAKHTIN, 2003, p.266).
Isso desperta a curiosidade sobre a forma como determinados campos discursivos – interligados à mídia - realizam seus enunciados sobre a mulher, por meio dessa heterogeneidade de gêneros, os quais nos mostram a riqueza da produção de sentidos através da linguagem. Esses sentidos que emanam dos mais variados gêneros são apreendidos pela memória discursiva, e é pela memória que se possibilita encontrar uma regularidade entre os dizeres dos gêneros analisados.
O estudo desses textos (artigo, propaganda, charge, música, entre outros) torna-se necessário para se compreender as mudanças discursivas sobre a temática abordada e para melhor entender como a mulher se enquadrou no estereótipo da
mulher “reprodutora/produtora” ou como a mulher “multitarefas”, que se apresenta hoje, pelos discursos midiáticos.
Procurando acompanhar o olhar analítico da mídia sobre a mulher que trabalha fora de casa e constitui família, analisaremos os discursos que surgem, que cristalizam determinadas imagens sobre a identidade feminina e que (re)atualizam os papéis exercidos por essa mulher, de acordo com os acontecimentos discursivos de cada época. Procurou-se aqui, mais especificamente, olhar discursivamente para a mulher de classe média - seja por nascimento ou por ascendência - essa que hoje tem direito aos estudos e, geralmente, à escolha de uma profissão. Escolheu-se esse perfil de mulher por ter sido uma classe mais vistoriada e cobrada pela sociedade na boa conduta do lar e da família, por ter sido, no passado, a que mais recebeu proibições no sentido de exercer uma profissão e de ter independência financeira. Essas mulheres da qual falamos, em movimentos organizados, se debateram perante o poder que sobre elas era destinado, fizeram acontecer, foram discriminadas e mal-faladas, mas, mesmo assim, não desistiram e foram à luta por seus direitos e melhores condições de vida matrimonial junto ao seu cônjuge que, por muito tempo, foi quem decidiu o destino daquela com quem se casava, inclusive o direito a ter uma educação formal e uma profissão.
Observando as redes de memória que se apresentam no arquivo desta pesquisa, percebem-se os jogos discursivos que se entrelaçam nesses textos midiáticos para narrar a história e operar o jogo da contradição pela linguagem, quando, a mídia, ao mesmo tempo em que apoia a mulher moderna, a que trabalha arduamente e tem uma profissão, tenta também mostrar que a família precisa de alguém para comandar o lar. E esse alguém, é claro, é preferencialmente a mulher.
Para conhecer então como se dá essa multiplicidade de identidades femininas e como a sociedade começa a lidar com essas diferenças, é preciso olhar para o arquivo de forma a reconhecer os lugares da mulher no mercado de trabalho, sem deixar de averiguar como ficam as relações de gêneros, os cuidados com os filhos e com o lar, diante de tantas mudanças. Para isso, serão analisados aqui, de forma mais complexa, seis artigos (matérias discursivas) de revistas impressas que circulam por todo o Brasil e que obtêm o conceito de formadoras de opinião pública.
Os textos em análise são:
b) Sucesso profissional atrapalha a vida amorosa das mulheres (CLAUDIA, julho de 2009);
c) 43 milhões de mulheres e um dilema: focar na carreira ou na família? (CLAUDIA, novembro de 2010);
d) Ser mãe não é profissão (VEJA MULHER, junho de 2010); e) Mudança à Vista (VOCÊ S/A, março de 2011);
f) De Salto na Plataforma (VOCÊ S/A, outubro de 2011).
Esses textos, que dialogam com o imaginário e o real do que realmente representa a mulher produtora/reprodutora para a sociedade, encontram-se na mídia impressa e circulam pelos lares dos brasileiros. Além disso, é possível encontrar versões on-line das citadas revistas, em seus respectivos sites, na Internet.
Nos discursos analisados, tenta-se captar nas lentes da mídia o que é ser mulher, hoje, no século XXI, e continuar a sustentar os papéis assumidos há tantos séculos atrás. No sentido de direcionar melhor a constituição do arquivo e a análise dos dados e pensando em subsidiar a questão de pesquisa que norteia este trabalho: "De que modo se inscreve na mídia a história da mulher trabalhadora e sua relação com o mercado de trabalho e a família, se observada a constituição da identidade dessa mulher, a partir dos movimentos da memória?”, outras questões complementares foram formuladas. Nesse sentido, pergunta-se, então: Como a mídia capta e conta a história dessa mulher trabalhadora, a qual tem uma família que depende de seus cuidados? Como se dão as relações entre os gêneros, após tantas mudanças, em relação ao direito de trabalho da mulher? Qual o lugar dos filhos na modernidade? Qual o papel dos maridos nesse mundo contemporâneo em que a mulher não tem mais dedicação exclusiva ao lar? Como o mercado de trabalho consegue ajudar na realização dos vários papéis que precisam ser exercidos pelas mulheres, dentro e fora do ambiente de trabalho? O que mudou e o que ainda pode mudar? Essas são algumas inquietações que instigam e orientam esse trabalho de pesquisa.
Para tentar compreender e refletir sobre a história dessa mulher, com o perfil escolhido para esta pesquisa, passemos ao capítulo seguinte.
2 A HISTÓRIA DAS MULHERES: RELAÇÕES DE PODER, DISCIPLINA E