Diário, memória, autobiografia compreendem, segundo Lacerda (2003), a trilogia clássica ou mais conhecida da memorialística – “o gênero literário das memórias” ou “conjunto de produções desse gênero”, conforme define Ferreira (1986, p.1117) em seu Novo dicionário da língua portuguesa. No Brasil, a literatura memorial produzida é matéria pouco estudada, sem limites nitidamente definidos, por se apresentar, nos termos de Zagury (1982, p.14),
talvez vítima de um purismo esteticista que a tenha desdenhado, por estar mais próxima de suas motivações sociais e psicológicas que o fascinante produto de transformação que são a poesia, a ficção ou o teatro – não por outras razões ainda detentores com exclusividade da denominação de
grandes gêneros. (grifo da autora)
Antonio Candido (1987), em uma palestra intitulada Poesia e ficção na autobiografia, lembra que a presença do memorialista Pedro Nava na categoria de grandes escritores, entre eles Drummond e Murilo Mendes (que estamos acostumados a considerar), pode causar espanto a alguns, pelo fato de se tratar de um escritor de aparecimento recente em meio aos contemporâneos da época e de as pessoas ainda não estarem habituadas a admitir que um livro de memórias (O baú dos ossos, por exemplo) pode ter a altura das grandes obras literárias. Como se vê, a questão do pertencimento ao cânone e do gênero memorialística, considerado por alguns como menor, constitui, nessa passagem do texto de Candido, objeto de reflexão pelo crítico que, a certa altura de sua palestra, ao tratar dos escritores mineiros que se dedicaram à produção autobiográfica em geral, confere destaque especial ao livro Minha vida de menina (1998, p.4): “[...] nos últimos anos do século Helena Morley enchia os seus cadernos com essa flor de graça e verdade que é Minha vida de menina, uma das obras-primas
da literatura pessoal no Brasil.”. Não foi sem razão que Ascendino Leite previra estar seu Jornal fora do gosto de um público maior, que não alguns poucos leitores:
[...] Uma obra como esse jornal, num país que não tem o gosto da literatura de confissões, não chegará a interessar senão a meia dúzia de leitores, um magro público de curiosos, mais preocupados talvez em procurar aspectos excitantes geralmente aflorados em escritos de tal gênero [...]. (LEITE, 1988, p.213)
O tema da autobiografia ganha relevo na palestra de Candido à medida que desmitifica o teor marginal da escrita memorialística, ao mencionar, por exemplo, o diário de uma menina (Helena Morley), fruto de um caderno de anotações escrito à margem da literatura, e também quando discute três livros autobiográficos de cunho poético e ficcional, partindo de um gênero considerado pouco afeito à matéria literária ou distante da “denominação de grandes gêneros”. Embora o meu interesse nesta seção não vise à discussão dessa questão, e sim à estrutura e configuração híbrida do Jornal Literário de Ascendino Leite, o registro justifica-se pela possibilidade de realização de outros estudos que daqui possam advir com esse jornal, respaldados no que Antonio Candido avaliou como “algo tão contingente e particular que é em princípio a vida de cada um”, que aqui se revela pelo olhar detido de um “narrador” que observa a si e aos outros situado em um determinado tempo e lugar.
Segundo Lacerda (2003), as formas literárias da memorialística – diário, memória, autobiografia – diferem basicamente de outras pelas marcas da escritura do eu e pelos modos de inscrição de si mesmo, resultando num pacto que Philippe Lejeune (2008) denominou de “pacto autobiográfico”, ou “pacto de referencialidade”, que pressupõe um compromisso de fidelidade entre autor e leitor em relação ao acontecido, isto é, o que se narra pretende ser realmente o que aconteceu e o fato apresentado submetido à comprovação, devendo o autor convencer o leitor de que ele próprio (o autor), narrador e personagem seriam uma só pessoa, a quem caberia a responsabilidade pela narração, estabelecendo-se, aí, um “princípio de identidade” entre essas três figuras. O problema estaria no estabelecimento dessa identidade, que Lejeune propôs tratar-se de um contrato selado pelo nome próprio. Em outro momento, o autor admitiu que, sendo o discurso autobiográfico fundado sobre a memória do sujeito, escapava às possibilidades de comprovação, concluindo que o texto autobiográfico extrai sua validade referencial do pacto que ele estabelece com seu leitor, portanto, da leitura que se faz do texto (LEJEUNE, 1980), considerando os indicadores presentes em sua publicação (prefácio, posfácio, quarta-capa, entrevistas).
É a partir dessa noção de pacto e do conjunto dos discursos sobre a escrita de si que situo o Jornal Literário de Ascendino Leite, pelo modo como essa escrita, conhecida como
memorialística, serviu para constituir esse sujeito que assinava o próprio Jornal, afirmando estar presente aí “toda a sua vida, toda a sua sensibilidade, todo o seu „eu‟” e o desejo de ser lido61: “[...] É em bom estado destes [dos humores] que inicio mais este caderno no qual hão de me encontrar, os que um dia o lerem, mais perto do que sou se me descrevesse em romance ou numa biografia formal. [...]” (LEITE, 1989, p.362). Revelou-se, sob a forma da autoanálise e da crítica, um leitor de si próprio, de inúmeras obras e de uma época, fazendo uso do hibridismo de gêneros na construção do texto. Expressão que se associa aqui ao conceito de plurilinguismo, definido por Bakhtin (2010, p. 127) como “o discurso de outrem na linguagem de outrem”, podendo sua introdução e organização se apresentar por meio dos gêneros intercalados. Aplicando esse conceito ao romance, o teórico russo afirma que qualquer gênero (literário ou não) pode ser introduzido a essa narrativa, sem que se altere sua estrutura, autonomia e originalidade, seja estilística ou linguística, porém, há gêneros que, quando intercalados, acabam por determinar a estrutura do romance sem conservar sua totalidade, devido à sua força estilístico-composicional, é o caso da confissão, do diário, da biografia, da carta, entre outros.
A intercalação de gêneros na antologia Sementes no Espaço (1938-1988) I e II, de Ascendino Leite, aponta não só para fragmentos do eu da escrita memorialística – diário, memória, autobiografia – que tem como traço primacial a evocação de fatos centralizados no próprio eu, sendo mais conhecida atualmente como escritas autobiográficas, de que também são aparentados os gêneros biografia, romance pessoal (ou autobiográfico), cartas/romance epistolar, relatos de infância, ficção biográfica de escritor, ensaio autobiográfico, autoficção (FIGUEIREDO, 2013), mas também para fragmentos de gêneros característicos de outros domínios discursivos, como a crônica, o ensaio ou a crítica, o perfil, o aforismo, em sua maioria voltados para observação e análise de temas literários ou para a leitura e a escrita literárias. Essa constelação de fragmentos, ora do “eu”, ora de um observador (crítico) que se posiciona frente a um determinado tema, permite avançar quanto à natureza composicional desse Jornal Literário, situando Ascendino Leite como um escritor que se encontrava na fronteira entre o exercício pessoal e intelectual.
Convém lembrar que, para Ascendino, a escrita representava uma atividade indissociada da leitura, reconhecida na mesma medida que esta: “Ler e escrever são partes de um único efeito sobre o meu interior. Absorvem-me por inteiro [...] (LEITE, 1989, p.365)”, ao
61 Ivonete Belarmino relatou que, em conversa com Ascendino Leite, o escritor assim expunha a importância do
Jornal Literário em sua vida: “Minha filha, se eu morrer, eu vou ficar conhecido por conta desse Jornal Literário, porque está tudo, a minha vida está aqui dentro. Toda a minha vida, toda a minha sensibilidade, todo o meu eu.”
mesmo tempo que significava (juntamente com a leitura) um caminho para o conhecimento de si mesmo: “Lendo e escrevendo não faço mais que empreender uma singular e misteriosa viagem à procura do meu eu [...].”, numa alusão ao princípio délfico – “Conhece-te a ti mesmo” – que consta no “Primeiro Alcibíades”, de Platão. Neste texto, Sócrates, em diálogo com Alcibíades, advertia: “Quer seja coisa fácil, quer difícil, Alcibíades, o que é certo é que, conhecendo-nos ficaremos em condições de saber como cuidar de nós mesmos, o que não poderemos saber se nos desconhecermos” (PLATÃO, 2007, p.275), o que mostra que o conhecimento da alma é anterior ao “cuidado de si” e o que, em princípio, deve reger as ações humanas, a conduta ética.
Ascendino demonstrou ter acolhido esse primado na escrita dos fragmentos de Sementes no Espaço (1938-1988) I e II, admitindo como “o pior tipo de fracasso: o homem que destrói a própria relação consigo mesmo” (LEITE,1989, p.106). Na atividade escrita, tanto espiritual, quanto intelectiva, o escritor buscou o conhecimento e a reflexão62 não apenas sobre si mesmo, mas também sobre pessoas com quem conviveu e sobre a literatura. O ato de escrever se revela, muitas vezes, como uma exigência do espírito para aplacar os humores, daí porque sentimento e pensamento caminham juntos na escrita do Jornal Literário: “[...] Digo- me: – se tenho um sentimento é porque vivo no hábito de pensá-lo [...]” (LEITE, 1989, p.105). Ascendino entendia a escrita como a busca pelo entendimento de si e da vida (incluindo a literária), de que logrou alguns conhecimentos que costumava aplicar à própria vivência (confessava à sua secretária que antevia os sinais de sua velhice e conhecia tudo o que estava experimentando nessa fase, a leitura de biografias de escritores dava-lhe esse esclarecimento). Pensava a escrita conforme registrou no fragmento a seguir:
[...] Escrever, como pensar, é uma tática do espírito para nos descobrirmos no fundo de nossos próprios tumultos.
Comigo, uma força maravilhosa, considerando o tempo que já vivi, e ainda sobrar algum para me esclarecer suficientemente sobre a melhor maneira de findar. (LEITE, 1989, p.362)
Foucault (2004), ao abordar a escrita dos movimentos interiores, na cultura greco- romana, argumenta que essa escrita é disciplinadora, à medida que contribui para o adestramento de si por si mesmo, induzindo ao autocontrole do corpo, do pensamento e do combate espiritual, com vistas à formação de si. A base desse pensamento de Foucault são as anotações de Santo Atanásio sobre a escrita espiritual, que desempenha o papel de um
62 A esse respeito, ver MENEZES, José Rafael de. O poder reflexivo de Ascendino Leite. João Pessoa: Grafset,
companheiro, quando nos obrigamos a escrever, por suscitar “o respeito humano e a vergonha”, atenuando os perigos da solidão:
Que a escrita tome o lugar dos companheiros de ascese: de tanto enrubescermos por escrever como por sermos vistos, abstenhamo-nos de todo o mau pensamento. Disciplinando-nos dessa forma, poderemos reduzir o corpo à servidão e frustrar as astúcias do inimigo. (FOUCAULT, p.130)
De acordo com Foucault, entre todas as formas que tomou esse treinamento de si por si mesmo (askesis), relacionado à arte de viver (abstinências, memorizações, exames de consciência, meditações, silêncio e escuta do outro), parece não haver dúvida do importante papel desempenhado pelo ato de escrever para si e para outrem, já que, como exercício pessoal associado à prática do pensamento, a escrita constitui-se como uma etapa essencial no “processo de elaboração dos discursos recebidos e reconhecidos como verdadeiros em princípios racionais de ação” (p.134), operando, dessa forma, para a transformação da verdade em ethos. Os hypomnêmatas e a correspondência se apresentaram, nos séculos I e II, como representantes dessa escrita de si. Os primeiros se caracterizam como cadernos de notas individuais em que se registravam citações, fragmentos de obras, reflexões ou debates ouvidos ou oriundos da memória, oferecendo-se, como tesouro acumulado, à releitura e à meditação posteriores, visando à constituição de si. Ler, reler, meditar, entreter-se a sós ou com outros constituíam exercícios a que se destinava esse material que se buscava não somente ter à mão ou servir de simples auxiliar de memória, mas de poder utilizá-lo em prol de si próprio (ou do “cuidado de si”), sem, contudo, se tratar de uma narrativa de si mesmo, como os diários íntimos, que só aparecem na literatura cristã posterior, com valor de purificação. Já a correspondência, embora seja um texto por definição destinado a outrem, não se esquiva do exercício pessoal, uma vez que atua, pela leitura e releitura, tanto sobre aquele que a envia quanto sobre quem a recebe.
Para inserir a antologia Sementes no Espaço (1938-1988) I e II, de Ascendino Leite, num campo mais amplo dos estudos da escrita de si, outras formas modernas, como a confissão, o diário, a autobiografia e a memória precisam ser revisitadas, considerando a construção da subjetividade em relação com a escrita e ainda o fato de esses gêneros, ou pelo menos fragmentos deles, estarem na composição dessa antologia.
É com o bispo de Hipona, Agostinho, e suas Confissões que a escrita de si aparece como uma das tradições mais antigas do Ocidente. Entendido como relato autobiográfico, de conversão, o texto de Santo Agostinho volta-se para a própria individualidade deste, com vistas a afirmar antes a divindade ou o louvor a Deus que o conhecimento de si mesmo, pois
se fundamenta numa verdade que já está posta: o conhecimento supremo é o do bem. Nesse sentido, a interioridade humana se apresenta no texto agostiniano face à onipotência divina.63
Leitor que foi do relato confessional de Santo Agostinho: “[...] E chego, a caráter, no fim da vigília pascal, ao livro VIII das confissões agostinianas, ótimo para sanar incredulidades [...]” (LEITE, 1989, p.389), Ascendino Leite também fez uso do gênero confissões – “narrativa autobiográfica em que o autor proclama com sinceridade os erros que em vida cometeu”64– como parte constitutiva do seu Jornal Literário. Ainda mais que foi um escritor cristão de tendência religiosa católica, não há, pois, que se admirar da presença de textos desse teor em seu Jornal, como o que se segue. Neste, após algumas indagações a R (sua esposa) sobre preocupações com I (provavelmente uma de suas filhas), o escritor torna-se solitário e confesso:
[...] Preocupa-nos I. com os seus problemas íntimos, seus desgarramentos e bloqueios.
Faço duas ou três indagações a R.; as coisas se tornam mais turvas. Melhor cancelar as inquietudes pela simples disposição de se negar a conhece-las. [...]
Penso nos que eram maus e se tornaram bons, sem embargo dos bons que se fizeram danosos a uns e a outros. E vejo que a terra, que nos modelou e nos envolveu nas mesmas penas, não faz honra ao Senhor.
Quanto a mim, talvez tenha sido mau por minha vez, e não suficientemente bom para merecer a ressurreição. E então?
– É motivo para estar alegre, Senhor?
Eis porque me vejo aqui a carpir o meu fadário, pois é bem o que me resta, já que estando morto desde a deserção da minha infância, Vós a vida me devolvestes.
Ressuscitado estou.[...] (LEITE, 1988, p.482)
Fragmentos de diário aparecem como parte de outra modalidade de escrita autobiográfica em Sementes no Espaço (1938-1988) I e II, de Ascendino Leite. De acordo com Roger Bastide (1948, p.4), “o diário, como o nome indica, é obra escrita no decorrer dos dias e, pelo menos a princípio, escrita sem preocupação de publicação futura”, com um caráter intimista ou introspectivo acentuado. Outros autores, como Blanchot (2005) e Lejeune (2008), também situam o gênero do ponto de vista do rigor cronológico, ainda que pareça, para o primeiro,
[...] tão livre de forma, tão dócil aos movimentos de vida, capaz de todas as liberdades, já que pensamentos, sonhos, ficções, comentários de si mesmo,
63 Aprofundo essa questão em um artigo intitulado O exercício da subjetividade em Confissões de Santo
Agostinho, publicado na Revista Principia: divulgação científica e tecnológica do IFPB. João Pessoa: IFPB. Ano 13, nº 18, jun.2011.
64 Cf. HOUAISS, Antonio. Confissões. In: Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa. Disponível em:
acontecimentos importantes, insignificantes, tudo lhe convém, na ordem e na desordem que se quiser. (p.270)
Embora não escreva necessariamente todos os dias, há uma preocupação do diarista de marcar a passagem do tempo, devendo respeito ao calendário, “esse é o pacto que ele assina. O calendário é seu demônio, o inspirador, o compositor, o provocador e o vigilante”, como assinalou Blanchot (2005, p.270). Para Lejeune (2008), a definição desse gênero cabe em poucas palavras: “uma série de vestígios datados” (grifo do autor), cujo começo visa “apreender o tempo em pleno movimento, mais do que fixá-lo em um acontecimento fonte” (p.296). Em Sementes no Espaço (1938-1988) I e II, Ascendino Leite quebrou essa regra da escrita diarista (e praticamente em todo o conjunto do seu Jornal Literário), esquivando-se de apresentar datas nas entradas ou registros de suas anotações. Neste fragmento, tratou com indiferença a marcação do tempo em um dos seus volumes do Jornal: “Avancei alguma coisa no ordenamento dos registros para o volume Um ano no Outono./Em muitas, somente a indicação do dia da semana. Noutras, um número qualquer de um calendário impreciso e obscuro” (LEITE, 1988, p.463). Pode-se dizer que as datas, quando aparecem, tornam-se figurativas, porque, segundo registrou o próprio Ascendino:
[...] Há notas que não correspondem ao instante em que foram escritas, de tal maneira estão defasadas em relação à data mencionada no jornal. Esta é uma das razões pelas quais nem sempre indico o dia, a semana ou o mês em que determinada situação deflagrou algum reflexo no meu espírito.
As legítimas reações da sensibilidade independem das medidas circunstanciais. Sua intensidade dentro de mim é o seu limite, e este limite a sua duração. [...] (LEITE, 1989, p.328)
As anotações seguem, portanto, o registro dos dias significativos vividos à época pelo escritor, dependendo somente do “cronômetro das emoções”, como definiu o romancista Permínio Asfora65, ao se referir ao Jornal de Ascendino, corroborando com este registro: “[...] os dias memoráveis nem sempre são os melhores, mas os que não foram marcados, não tiveram datas. Os que mais se casam à essência da vida e acabam incorporando à nossa propensão para o excepcional. Os que são integralmente nossos, como as superstições [...]” (LEITE, 1989, p.296). O rigor cronológico, que no diário é traço recorrente, na antologia Sementes no Espaço (1938-1988) I e II foge a essa característica, destituindo esse escrito da natureza diarista típica daquele gênero. Ademais, Ascendino teve intenção de publicar seus escritos, como já comentei no capítulo 1, o que não representa um propósito dos diaristas. No máximo, o diário íntimo atende privilegiadamente ao universo temático da experiência
pessoal e apresenta-se, dentre outras funções, como instrumento de acesso ao conhecimento de si, como um documento da memória destinado às gerações futuras ou como exercício de construção de uma obra (Cf. MACHADO, 1998; BARTHES, 2004).
A propósito desta última função, tem-se o caso dos diários de Virginia Woolf, que revelavam reflexões da escritora sobre seus próprios escritos, o processo de construção de suas obras, a ansiedade em relação aos lançamentos e às críticas66. O diário, assim representado, assume o valor de testemunha de leituras e de reflexões oriundas de leituras realizadas. Outro fato que fundamenta essa ideia, segundo Machado, Lousada & Abreu- Tardelli (2007), é que os diários íntimos dos escritores tendem a repercutir uns nos outros, tendo em vista o julgamento que estes faziam dos escritos de seus colegas, demonstrando, através da escrita privada, uma atividade que conduz ao desejo contínuo de escrever.
A heterogeneidade e a natureza literária dos conteúdos presentes na antologia Sementes no Espaço (1938-1988) I e II, de Ascendino Leite, não permitem que se enquadre esse escrito no domínio de um diário privado, principalmente se se levar a sério o que afirma Blanchot (2005), que o interesse desse gênero está na sua insignificância, devido à banalidade do que é registrado, à exceção do exemplo de Virginia Woolf (mencionado acima) e do diário de Kafka, que parece conter “rastros anônimos, obscuros” de um livro que não chegou a desenvolver – realizando, talvez, um “diário da experiência criativa”. Barthes (2004) também delibera sobre a missão do diário íntimo, associando-o basicamente às funções que podem aflorar o espírito, podendo se configurar em obra literária, o que transbordaria o território do íntimo.
Os fragmentos de Sementes no Espaço (1938-1988) I e II escapam à superficialidade de marcação do cotidiano, que é típica do diário íntimo, e estão longe de se configurar como registros de apontamentos para elaboração de uma obra do devir, já que, em muitos momentos, o escritor remete o leitor para reflexões sobre o processo de composição/revisão/reescritura/leitura do Jornal Literário, usando o próprio Jornal para realização dessa ação – o que traduz o caráter metalinguístico de algumas passagens do texto. É o que se observa neste fragmento, em que o escritor registra o momento de composição de textos para um de seus Jornais: “[...] Toda a manhã a compor os textos que irão constituir A