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Besse (2006), defende que alguns elementos não sofreram alterações, como no caso da fisionomia da paisagem que entende essa paisagem como uma expressão. O autor considera a fisionomia como um conceito fundamental nos estudos geográficos do início do século XX, de autores como Paul Vidal de La Blache (1845-1918), da escola francesa de geografia e em Carl Sauer (1889-1975), da escola americana. Besse defende que a fisionomia e as características da paisagem “são realidades objetivas, que identificam verdadeiramente um território, e que é necessário reconhecer, localizar, delimitar, tanto espacialmente como qualitativamente, a fim de reproduzi-las”(BESSE, 2006, p. 66).

Os estudos vinculados ao conceito de paisagem estavam sempre associados aos aspectos materiais da cultura, os instrumentos e artefatos utilizados pelos diferentes povos para intervir na paisagem e o resultado dessas alterações era o que importava nas conclusões destes trabalhos.

Vidal de La Blache defendia que os estudos geográficos deveriam considerar as características do território: suas especificidades e particularidades como o mais necessário a ser compreendido. Jean Brunhes seguiu os ensinos de La Blache e levou o conceito de fisionomia da paisagem como o fundamental objetivo do pensamento geográfico (BESSE, 2006).

Já a escola alemã definiu o fato geográfico como uma marca em que os objetos de estudo da geografia emanam de registros da atividade humana presente em determinado espaço, nele deixando suas impressões. Tais impressões seriam uma noção de paisagem. Besse explica a categoria paisagem, como uma noção e possibilita o entendimento dessa forma de pensar da escola alemã: “A noção de

paisagem encontra nesta definição do fato geográfico sua plena legitimidade. A paisagem, aos olhos do geógrafo, é uma impressão(BESSE, 2006, p.67).

Segundo Carl O. Sauer, é por meio da apropriação da natureza pela sociedade e das transformações que esta realiza que as paisagens são recriadas ou transformadas e assim identificam um dado território. O homem como dominador do ambiente e sua formação fisiográfica, compõem as características de uma dada paisagem:

A geografia baseia-se, na realidade, na união dos elementos físicos e culturais da paisagem. O conteúdo da paisagem é encontrado, portanto, nas qualidades físicas da área que são importantes para o homem e nas formas do seu uso da área, em fatos de base física e fatos da cultura humana (SAUER, 2004, p. 9)

Da mesma forma, Aziz Ab’Saber (2003) entende que a paisagem é um legado deixado pela natureza que passa por reformulações e recriações à medida que o ser humano requalifica esse ambiente de acordo com suas necessidades e interesses.

Para esses autores, as paisagens eram heranças e resultado das ações e transformações humanas no ambiente de acordo com interesses e momentos históricos das diversas sociedades que passaram ou ocupam um dado território.

A segunda metade do século XX trouxe para ciência geográfica novas acepções sobre os objetos de estudo desta disciplina, revolveu-se para o estudo de aspectos imateriais da cultura, para as representações e para o simbólico. O conceito de paisagem é revisto e passa a ser entendido como um portador de sentido em um grande número de trabalhos.

Um dos expoentes dessas novas acepções do conceito de paisagem é o geógrafo inglês Denis Cosgrove, que dedicava seus estudos à “interpretação simbólica que os grupos e classes sociais dão ao ambiente, as justificativas estéticas ou ideológicas que propõem e o impacto das representações sobre a vida coletiva” (CLAVAL, 1999, p. 56).

Cosgrove (2004) classificou dois tipos de paisagens: “paisagens da cultura dominante” e “paisagens alternativas”. As denominadas “paisagens da cultura dominante” tratam-se de uma junção de elementos espaciais e imateriais que demonstram as formas de poder de um grupo dominante que se mantém e se reproduz através da comunicação que atinge e convence todos os níveis sociais que a experiência de mundo destes é o modelo ideal a ser vivido por cada um.

As denominadas, por Cosgrove, “paisagens alternativas” são formadas por grupos de menor representatividade social, mas que apresentam uma grande diversidade simbólica. O autor ainda distingue as “paisagens alternativas” em três: “paisagens residuais”, “paisagens emergentes” e “paisagens excluídas”.

As paisagens residuais são os registros da subjetividade, que tomam forma num imaginário que está além da aparência visual da paisagem. As paisagens emergentes são formadas por novos grupos que desejam ou trabalham por uma mobilização social e espacial que antecipa o futuro com uma nova mensagem social. As paisagens excluídas são formadas de minorias ou grupos com pouca capacidade de integração e influência social, destarte, suprimidas por isso.

É importante salientar que o estudo da paisagem a partir da década de 1980 voltou-se para os estudos de representação, mas a geografia cultural não renunciou o estudo dos aspectos materiais da cultura. Desse modo, podemos considerar que nunca houve um rompimento total com os trabalhos da primeira metade do século XX.

Entretanto, as pesquisas que têm o conceito de paisagem como referencial se prendem a uma dimensão etnogeográfica e se voltam para os sentidos dos discursos dos sujeitos que integram as diferentes culturas. Passam a levantar questionamentos sobre as relações da sociedade contemporânea com as práticas culturais e a identidade com o espaço vivido.

A presente pesquisa destaca o caráter simbólico da paisagem como portadora de significados que expressam valores e definem crenças. O caráter político também não é negado, antes disso possibilita a captura dos embates políticos e sociais e ainda a análise dos interesses e intencionalidade de poderes econômicos. Quando analisamos essa paisagem com o intuito de percebermos elementos para uma possível formação de um patrimônio cultural imaterial evangélico, é primário recorrermos à ideia de que a paisagem carrega em si marcas que devem ser analisadas não somente como resultados de processos, mas como uma formação recheada de intenções. Ao pensarmos assim, temos que o peso do acúmulo de tempo não é o fundamento do patrimônio e sim o significado que esse adquire para o sujeito inserido no espaço em que dada paisagem foi construída.

No que concerne ao patrimônio cultural evangélico vale salientar que o conceito de paisagem possibilita um pensamento de formação também no tempo atual. Ela comporta a ideia de um patrimônio emergente na contemporaneidade,

mas que não nega suas raízes no passado e ainda acrescenta uma visão triunfalista de futuro:

A paisagem traz a marca da atividade produtiva dos homens e de seus esforços para habitar o mundo, adaptando-o às suas necessidades. Ela é marcada pelas técnicas materiais que a sociedade domina e moldada para responder às convicções religiosas, às paixões ideológicas ou aos gostos estéticos dos grupos. Ela constitui desta maneira um documento-chave para compreender as culturas, o único que subsiste frequentemente para as sociedades do passado. (CLAVAL, 1999, p.58)

Como síntese do que foi tratado até aqui, trazemos uma pequena reflexão sobre o texto “Paisagem-Marca, Paisagem-Matriz: Elementos da Problemática para

uma Geografia Cultural” de Augustin Berque (2004), segundo o qual a paisagem é

tratada como uma marca impressa pela sociedade na superfície terrestre e ao mesmo tempo estas marcas são matrizes que possibilitam a existência e a ação humana. O autor afirma que “a paisagem é plurimodal (passiva-ativa-potencial) como é plurimodal o sujeito para o qual a paisagem existe; (...) a paisagem e o sujeito são co-integrados em um conjunto unitário que se autoproduz e se auto- reproduz.” (Berque, 2004, p.86). A paisagem é, em parte, percebida, mas também é responsável por determinar qual a forma de se perceber o espaço.

Sendo assim, podemos considerar que a paisagem existe como fruto de uma relação interdependente com um sujeito coletivo. Sendo esse sujeito coletivo que produziu essa paisagem e o responsável pela reprodução e as transformações desta em virtude de certa intencionalidade. Para Berque, o dever do pesquisador é o de investigar essa relação entre o sujeito coletivo e a paisagem, porque assim capturamos o sentido da paisagem (BERQUE, 2004, p.84).

O conceito de paisagem e seus significados: marca e matriz, material e sensorial, real e simbólico, paisagem resultante das relações de poder, etc., dá a certeza de que tratamos de uma polissemia e de um conceito com diversas possibilidades de abordagem. Cada abordagem segue uma matriz epistemológica e possibilita construir diversificadas pesquisas, como esta que se propõe nas próximas páginas a apresentar a transposição do conceito de paisagem sonora, cunhado na música, para uma abordagem geográfica deste.

Benzer Belgeler