Para ciência social do século XIX, influenciada pela antropologia racista e pelo determinismo geográfico, migrar era uma afronta à civilização. O ato de migrar também reforçava a tese da patologia da miscigenação, no sentido de que os indivíduos migravam porque eles eram mestiços. Os sertanejos, tais como os brasileiros em geral, eram mestiços e, por isto, inferiores: eles migravam então por causa de sua mestiçagem, inferioridade. A razão e a natureza eram, pois, invocadas pela antropologia racista para “consagrar hierarquias como justas e inevitáveis” (GOULD, 1999, p. 17). Assim, para Rodolfo Teófilo (1974, p. 100), a verdadeira causa da migração era o “nomadismo da raça vermelha”, transmitido por atavismo aos cearenses. Para Antonio Bezerra de Menezes (2001, p. 15), “o horror à imobilidade” que o cearense nutria também era reflexo de atavismo, mas ele surgia do “nomadismo cigano”.
Os adeptos de Ratzel, porém, defendiam que o grande fator de mobilidade das populações sertanejas estava na aridez do clima. Era o clima semiárido que provocava o “fanatismo religioso”, responsável pela criação de comunidades tais como Pedra do Reino e Canudos. Além de produzir fanáticos, a aridez do clima levava a população sertaneja a seguir estes fanáticos. Neste sentido, Arrojado Lisboa (2010, p. 41) afirma que no Ceará e na Paraíba “foram as secas que fizeram o nomadismo” das suas populações, que eram muito mais educadas que os maniçobeiros nômades do Piauí. Para ele a migração era causada sobretudo pelas secas.
Todavia, o êxodo rural não estava condicionado a defeitos atávicos nem muito menos ao clima. Ele era datado: antes dele, existia somente uma migração para as províncias do Piauí e do Maranhão, que procedia do pequeno comércio ou “é forçada por perseguições de justiça, crimes e lutas de família” (BRÍGIDO, 2001, p. 185). Ele era, portanto, impulsionado por uma “configuração social extremamente favorável à migração”, que teve início na década de 70 do século XIX. Além da migração subvencionada, que garantia aos sertanejos a transferência para áreas longínquas do território nacional, essa configuração social teve como impulsores: as
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três grandes secas de fins do século (1877, 1888 e 1900), o processo crescente de subordinação da agricultura de subsistência à agricultura comercial, o liberalismo adotado pelos estados como política econômica, “o chamariz da Amazônia”, considerado pelos sertanejos como um contexto de destino promissor, a decadência do algodão, causada pelo ocaso da Guerra de Secessão, que trazia desemprego para a região semiárida, e “o contexto da abolição”, no qual os escravos abandonavam em massa as fazendas de café, desorganizando a produção e fazendo com que os cafeicultores manipulassem a política de socorros públicos com o intuito de subsidiar as passagens dos retirantes para a região cafeeira.
Nessa conjuntura, portanto, havia dois tipos de migração: a migração espontânea, direcionada às plagas da Amazônia (os seringais), sendo motivada por agenciadores e paroaras52. Este fluxo voluntário também se direcionou ao Sul
cafeeiro: só que, em relação à migração para o Norte, ele era de menor proporção, pois os trabalhadores preferiam os seringais da Amazônia. Tudo levar a crer que esta preferência se devia aos laços afetivos e sociais que, primeiramente, os cearenses construíram na Amazônia, sendo a migração para esta região uma viagem de oportunidades de emprego nos seringais e um reencontro de amigos e familiares.
O segundo tipo de migração era o da migração forçada ou “expatriação”. Esta era organizada pelo governo central, cujo objetivo era deslocar os retirantes que estavam apinhados no litoral do Norte, à procura de ajuda, para as fazendas de café do Sul que, devido à abolição da escravatura, estavam com as relações de produção desmanteladas. Era forçada porque os retirantes não tinham direito de escolher o lugar de destino para onde desejavam emigrar, sendo tal destino, pois, escolha exclusiva do governo federal.
Isto acontecia porque, no final do século XIX, os cafeicultores não tinham estruturado a imigração de trabalhadores europeus, limitando-se a poucas experiências isoladas e malsucedidas. Assim, eles transformavam os socorros públicos das vítimas da seca em passagens de navio para o Sul: “Governo julga conveniente de preferência outras medidas concessão de passagens dos retirantes” (Telegrama da Secretaria da Agricultura em 14 de novembro de 1888). Esta ação contradizia o racismo da época que julgava o braço nacional inferior (ver Braga Neto,
52 Paroara: nordestino que vive na Amazônia; agenciador de trabalhadores para os seringais da
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2012). Em razão da falta de alternativas para garantir seus meios de sobrevivência, os retirantes se obrigavam a aceitar a ajuda oficial. O contexto geral da época era, pois, de migração subsidiada. Migração esta que incentivou o despovoamento de algumas regiões do Ceará.
Segundo as palavras de José Pinto Acióli, secretário do Interior do Ceará: “O Ceará despovôa-se de dia para dia e as indústrias e a agricultura definham pela carência absoluta de braços e concomitante elevação do salário” (Relatório sobre a Instrução Pública e Obras Públicas da Secretaria do Interior de 1897, s/p). Seu pai – o presidente Acióli – desejava, conforme o espírito da época, introduzir imigrantes “para anular o efeito do despovoamento das nossas terras” (Mensagem do Presidente do Ceará, em 1 de julho de 1897, p. 27). João Brígido, porém, culpava os Acióli pela crise econômica e pelo êxodo da população: “O povo sabe como é ruim a politicagem dos Acciolys; - os cearenses sofrem callados as maiores affrontas, para não morrer, o Estado definha e se despovôa [...]”53. De acordo com o racismo da época, Rodolfo
Teófilo (1974, p. 100), além de responsabilizar os governos pelo êxodo, dizia que era o “nomadismo da raça vermelha, transmitido, por atavismo à população mestiça, a qual constitui talvez quatro quintos dos habitantes do Ceará, [...] o fator principal do despovoamento da terra cearense”.
Contudo, havia uma configuração social favorável ao êxodo que começava a atingir as relações de produção. As circunstâncias econômicas dessa conjuntura e a instrumentalização do Estado pelos cafeicultores, que transformaram os socorros públicos em passagens para o Sul, fizeram os trabalhadores rurais procurarem os agenciadores de mão de obra com o fito de mudar de vida. Assim, a transumância de mão de obra prejudicava os produtores não apenas com a ausência de braços, mas também com o aumento dos salários rurais. Esta transumância só acontecia em virtude do expediente das passagens subsidiadas. A responsabilidade dela era então dos governos, porque os retirantes conseguiam, no máximo, chegar ao litoral dos seus respectivos estados.
Até 1915, eles chegavam as cidades da costa com as próprias pernas, após longas e extenuantes caminhadas. Buscavam alcançar estas cidades porque nelas os socorros públicos estavam concentrados. Porém, nessa conjuntura, eles tiveram
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somente uma alternativa: embarcar nos navios. O alistamento em frentes de trabalho em sua terra natal era praticamente nulo. Muitos embarcaram contra sua vontade, especialmente porque só distribuíam passagens para o Sul, onde ainda não dispunham de familiares para seu acolhimento.
As migrações ganhavam então grande impulso com as passagens subsidiadas pelo governo central. Além da saída para os seringais, criava-se uma corrente migratória para o Sul que, antes do subsídio do governo, era quase inexistente. Havia, com efeito, duas correntes migratórias: de um lado, os estados amazônicos recrutando braços para seus efetivos policiais, os seringais e a construção de Manaus e Belém, e, de outro, o governo central buscando trazê-los para o Sul. Tendo, pois, no Norte semiárido, grande número de trabalhadores desocupados, o governo central queria resolver o problema da falta de braços nos cafezais com estes trabalhadores. Arregimentar mão de obra para o ciclo econômico do café, prejudicando a economia da região Norte mediante a transformação dos socorros públicos em passagens de navio, era indício da dominação que a economia do semiárido (dominada) sofria da economia cafeeira (dominante).
As cifras geradas por esses fluxos migratórios se assemelharam às migrações que partiram da Europa: conforme Celso Furtado (2009, p. 202), no primeiro decênio do século XX, “a população destacada para a região amazônica não seria inferior a meio milhão de pessoas”. Joaquim Alves (1945, p. 342) afirma que, de 1869 a 1899, mais de 300 mil cearenses emigraram, sendo 255 mil para Amazônia e 45 mil para o Sul. Na seca de 1888-1889, um terço dos migrantes (dez mil) foi para o Sul, em virtude do combate à seca ter sido realizado mediante a subvenção de passagens: destes migrantes, a metade deles foi para o Rio de Janeiro, dois mil para São Paulo e mil para o Espírito Santo (ver Relação de Emigrantes Norte-Sul, 1889). Entre 1892 e 1897, conforme os dados de Arthur Dias (1913, p. 241), 60 mil emigraram, sendo 51 mil para o Norte e 9 mil para o Sul. De 1901 a 1943, diz Joaquim Alves (1945, p. 342), saíam mais de 300 mil pessoas do Ceará: 293 mil para o Norte e 15 mil para o Sul. Tudo indica que os trabalhadores que foram para o Sul se alistaram nas fazendas do Vale do Paraíba, onde os cafeicultores, mergulhados em profunda crise econômica, aproveitaram-se dos retirantes, pois não podiam arcar com as despesas da vinda dos imigrantes europeus.
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Foram diversos os efeitos dessas migrações no contexto de origem. Dentre eles, a desagregação do sistema de moradores. A migração espontânea, patrocinada pelos lucros da borracha amazônica, e a migração forçada, subsidiada pelo governo central, golpearam fortemente os fazendeiros, levando sua mão de obra – seus agregados. Nessa conjuntura, portanto, a migração se tornou um poderoso elemento dissolvente da morada.