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Na obra inteira de Guimarães Rosa, não há como separar, rigorosamente, prosa de poesia. Importa ressaltar que o primeiro livro do escritor mineiro – Magma – era de poesia. Em Sagarana, como vimos, há elementos poéticos. No entanto, é em Corpo de baile que tais elementos se manifestam com mais intensidade. Rosa via essa obra como um grande poema, que deveria ser publicado em um só livro. Só por sugestão da editora é que dividiu a obra em três volumes.

Na correspondência com o tradutor alemão, o autor insistia em afirmar que em Corpo de baile deveria haver algo de obscuro. Acreditamos que essa obscuridade estaria ligada a um projeto de escrita condensada, que só seria concretizado em Tutaméia. Como podemos notar, esse “obscuro” a que se refere o autor, essa opacidade, que se insinua

brevemente no conto São Marcos, surge em Corpo de baile, mas ainda de modo frouxo. Na correspondência com o tradutor italiano, o escritor mineiro dá a seguinte informação sobre o conto O recado do morro:

O recado do morro é a estória de uma canção a formar-se. Uma “revelação”,

captada, não pelo interessado e destinatário, mas por um marginal da razão, e veiculada e aumentada por outros seres não-reflexivos, não escravos ainda do intelecto: um menino, dois fracos de mente, dois alucinados – e, enfim, por um artista, que, na síntese artística, plasma-a em CANÇÃO, do mesmo perfazendo, plena, a revelação inicial (Correspondência com seu tradutor italiano..., p. 92).

Um ponto fundamental, no texto citado acima, é a importância do irracional na arte e na própria vida. Essa irracionalidade pode ser entendida como a capacidade de ver o mundo com um olhar diferente do bom senso. Nesse sentido, a criança, o louco e o poeta estariam aptos a ver a realidade de outra forma, valorizando mais o intuitivo do que o racional. Um outro ponto interessante, no trecho comentado por Rosa, é que O recado do morro “é a estória de uma canção a formar-se”. Essa preocupação com o nascer de um texto aponta para o fragmento, para os estilhaços textuais. Em outros termos, Rosa parece mostrar, nesse conto, os rabiscos de uma narrativa que, numa espécie de rascunho, vão sendo reelaborados até se constituir em canção. Nesse sentido, entendemos que o “formar-se” é o processo de construção do texto, sendo, pois, mais importante do que o “formado”, o significado. O recado em si é secundário. O que importa são os percursos do recado, que passa por diversas traduções e faz lembrar o seminário lacaniano sobre A carta roubada. No final da narrativa rosiana, Pê-Boi faz o seu recorte do recado e consegue escapar da emboscada. Na verdade, Pê-Boi dá um sentido provisório a ele. Como texto poético, reconhecido pelo escritor, na correspondência com o tradutor, a mensagem do morro possibilita outras leituras, uma vez que o enigma prevalece, como afirma Bolle (1973, p. 66):

“Em O recado do morro, a história do homicídio tem que ceder a primazia ao outro filão da narrativa – relato de uma mensagem enigmática.”(Grifo nosso).

Durante todo o conto, realmente o que predomina é o enigma da mensagem (um rei menino que seria traído, uma morte à traição). Essa mensagem teria sido recebida do Morro da Garça por Gorgulho, sendo “traduzida”, isto é, transcriada, por diversos seres não- reflexivos, cifrada em pedaços de frases e reelaborada por um poeta e cantador sertanejo, Laudelim. Ao cantarolar a canção do rei traído, no final da narrativa, como foi dito, Pê-Boi constrói um sentido, ainda que provisório, da mensagem, associando a traição do rei, na canção ouvida, à traição de seus inimigos, conseguindo, assim, escapar da emboscada que estava sendo preparada para ele.

Em vários trechos da narrativa, o autor vai colocando em itálico fragmentos desse recado, retalhos da canção que será composta, no final da narrativa, por Laudelim. A palavra Laudelim vem de laudes, orações canônicas que se seguem às matinas, louvores a Deus. Ora, a canção de Laudelim é um louvor ao Rei menino: “O Laudelim mal ouvia. Relou as cordas, ponteando, silamissol cantava. Arrastou um rasgado. Pê-Boi se despediu. – ‘O rei menino... Passagens fortes! A toque de tambor... Passagens fortes... Passagens fortes [...]’ – O Laudelim deu resposta.” (O recado do morro, p. 87).

Assim, o recado vai sendo reelaborado em canção. E é significativa a passagem do conto em que o narrador faz referência a cobras: “Jararaca, cascavel, cainana... Cunhão de um gato, cunhão de um rato [...].” Nesse fragmento, o signo “cobra” aponta não apenas para a traição da qual Pê-Boi será vítima, no final da narrativa, como também para uma outra traição: no plano da linguagem, é a traição dos sentidos do recado do morro, recado que vai deslizando, sonoramente, na boca de vários seres irracionais, numa constante suspensão do significado.

Gorgulho é o primeiro a receber a mensagem enigmática. A palavra Gorgulho tem vários sentidos: fragmentos de rocha misturados com ouro; caruncho, inseto que perfura madeira e cereais. No sentido figurado, ainda segundo o dicionário, caruncho é aquilo que mina, corrói, destrói. O recado do morro é, assim, metaforicamente corroído, minado, traduzido-traído, reelaborado pelo poeta Laudelim. O vocábulo “caruncho”, outro significado de gorgulho, tem ainda o sentido de antiqualha. E Gorgulho escuta um texto que vem do Morro da Garça, espaço mítico, composto de cavernas pré-históricas, com mensagens inscritas nas pedras: “Nos rochedos, os bugres rabiscavam movidas figuras e letras, e sus se foram.” (O recado do morro, p. 29).

Vale aqui notar que a palavra “sus” é variante do prefixo sub, que significa posição inferior. Além disso, esse vocábulo pode ser lido da esquerda para a direita e vice- versa. As mensagens criptografadas, inscritas nas rochas do Morro, apontam para a opacidade

do recado, sempre hermético e lido de diferentes modos pelos membros da comitiva. As frases desconexas de Gorgulho, na percepção racional de Frei Sinfrão, estariam relacionadas às terras que desciam das montanhas e não a uma morte à traição, conforme propõe o lunático Gorgulho. Interessante notar que a palavra “gorgulho” tem também uma relação com o vocábulo gorge, garganta em francês. Gorgulho, no seu balbuciar, é aquele que fala da garganta. Seu recado desconexo é um gaguejar que incita leituras variadas, mas nunca definitivas. Rosa, tal como Deleuze analisa, está na linha dos escritores que fazem gaguejar a língua (DELEUZE, 1997, p.122).

É importante ainda observar que alguns nomes dos mensageiros do morro têm sílabas repetidas, o que remete à gagueira: “Qualhacôco (repetição dos fonemas /kê/ em três sílabas). Já o vocábulo Guégue contém o fonema /guê/ duplicado e acena, fonicamente, para a palavra gago. Importa ainda ressaltar que o Guégue sempre troca as mensagens que leva. O mesmo ocorre com o mensageiro Joãozezim, vocábulo que traz o fonema /zê/ repetido. Pê- Boi, o protagonista, contém em seu nome os fonemas /p/ e /b/, consoantes bilabiais, uma surda e uma sonora, mas bem próximas na pronúncia. Além disso, são explosivas, o que remete para o comportamento explosivo do protagonista. Também a personagem Nominedomine tem raiz dupla: “nomine” e “domine.”

Pedro Orósio, nome de Pê-Boi, é o personagem de destaque no texto. Seu nome já aponta para a sua força descomunal. A palavra Pedro está sintonizada com o vocábulo “pedra”. O seu segundo nome é Orósio, que vem do grego – orós – e significa montanha. Assim, Pedro é como uma montanha, um gigante. Sua força física é fundamental para se defender dos inimigos, no final da narrativa. Ele é o guia da comitiva, é o que escala a montanha, como se pode comprovar no texto: “Tal modo que muitos homens lhe tinham ódio, queriam o fim dele, se não se atreviam a pegá-lo era por sensatez de medo, por ele ser turuna e primão em força, feito um touro ou uma montanha.” (O recado do morro, p. 29, grifo nosso). É o que conhece os desfiladeiro do Morro da Garça. Há um traço importante de Orósio: seu físico avantajado lhe dá uma grande capacidade de seduzir as mulheres. Ele é vaidoso e sempre se mira em um espelhinho. Na sua simplicidade, soletra o recado do morro, a seu modo: “[...] Essa festa, meio longe, quando a ocasião maior estava sendo no arraial, aquilo mesmo desdizia, uma dúvida lhe soletrava assim.” (O recado do morro, p. 83, grifo nosso). Outros membros da comitiva vão fazendo recortes racionais, e evidentemente superficiais, da canção de Laudelim, que por sua vez recria o recado do morro a partir da boca dos dementes.

Seu Jujuca, um dos membros da expedição guiada por Pedro Orósio, mesmo sendo uma pessoa simples, pressente estar ouvindo o nascimento de uma canção, soletrada pelo sertão: “Era o que pensava seu Jujuca, molhando cerveja na boca e atendendo às perguntas do senhor Alquist. Comovido, ele pressentia ou estava assistindo ao nascimento de uma dessas cantigas migradoras que pousam no coração do povo: que as violas semeiam e os cegos vendem pelas estradas.” (O recado do morro, p. 98).

Seu Alquiste, outro membro da expedição, sempre anota e pergunta (a palavra “Alquist” – pode ter relação com quest, pergunta, em inglês). Sendo estrangeiro e de outra cultura, quer em vão entender a canção de Laudelim, mas capta apenas a materialidade sonora do canto: “Sem apreender embora o inteiro sentido, de fora aquele pudera perceber o profundo do bafo, da força melodiã e do sobressalto que o verso transmuz da pedra das palavras.” (O recado do morro, p. 98, grifos nossos). A canção de Laudelim, não sendo compreendida por Seu Alquiste, é como uma inscrição, um hieróglifo inscrito na pedra. Em outros termos, a canção do poeta, que recria a mensagem do conto O recado do morro, cujo espaço é constituído de pedras e grutas pré-históricas, se oferece aos membros da expedição, enquanto opacidade. Apenas os seres ligados à irracionalidade conseguem recriar esse recado, mantendo a indecidibilidade do texto.

Seu Alquiste, Frei Sinfrão, como representantes da racionalidade, querem dar uma explicação lógica ao que é ilógico e opaco, por excelência, a poesia, isto é, o recado do morro. Já seu Jujuca, na sua simplicidade, capta a mobilidade da mensagem, que possibilita a emergência de sentidos múltiplos: as cantigas migrarão pela boca do povo, semeadas pelas violas e vendidas pelos cegos nas feiras. Assim, a tradução de Laudelim é apenas uma leitura possível do recado, metáfora da poesia em constante sinuosidade do sentido.

Há uma relação metafórica entre a palavra poética opaca, que remete ao recado do morro, e a pedra da caverna endurecida há milhões de anos. Essa relação da palavra com a pedra pode ser comprovada com uma nova descrição da gruta de maquiné, espaço que faz parte do Morro da Garça:

Aí entrar outra vez dentro da Gruta , a Lapa Nova do Maquiné – onde a pedra vem, incha, e rebrilha naquelas paredes de lençóis molhados, dobrados, entre as rôxas sombras, escorrendo as lajes alvas, com grandes formas e bicos de pássaros que a pedra fez, pilhas de sacos de pedra, e o chão de cristal semelha um rio de ondas que no endurecer esbarraram, e vindas de cima as pontas brancas, amarelas, branco- azuladas, de gelo azul, meio-transparentes, de todas as cores, rindo de luz e dansando, de vidro, de sal: e afundar naquele bafo sem tempo, sussurro sem som, onde a gente se lembra do que nunca soube e acorda de novo num sonho, sem perigo sem mal: se sente. (O recado do morro, p. 103, grifo nosso).

A caverna aponta para o silêncio, para a inscrição, para o signo em estado de primeiridade: “[...] e afundar naquele bafo sem tempo, sussurro sem som, onde a gente se lembra do que nunca soube [...]” (O recado do morro, p. 103, grifos nossos).

Há ainda nesse texto uma figura fonológica que merece destaque: a freqüência da letra S. Se atentarmos para o início do conto, veremos que há uma relação da letra S com a aliteração da expressão “sussurro sem som.” No segundo parágrafo, ao descrever o Morro da Garça, o narrador afirma: “Desde ali, o ocre da estrada, como de costume, é um S que começa grande frase.” (O recado do morro, p. 27, grifo nosso). Interessante ainda observar que a primeira palavra do conto é iniciada pela letra S: “Eem que bem se saiba [...]”. (Grifo do autor). A estrada do Morro da Garça, cheia de sinuosidades, também é em forma de S. Convém ainda notar que o verbo “dansar” aparece grafado com a letra E, o que aponta para a “danEa” de formas petrificadas na gruta. A caverna de Maquiné, que está nesse mesmo morro, é um “sussuro sem som”, expressão esta que contém a aliteração do S e conota a sinuosidade de um sentido que desliza.

Assim, a geografia do Morro da Garça, com caminhos em forma de S, bem como as ondulações da caverna descrita, apontam para o silêncio (“sussurro sem som”), morada primeira da palavra, isto é, ausência de significado, primeiridade, recado que é metáfora do poético, enigma inscrito na pedra, transcriado por seres irracionais, traduzido e traído por um poeta, inscrição apenas vislumbrada magistralmente através da letra S, que apenas insinua significados provisórios.

Benzer Belgeler