Refletir os aspectos relacionados à educação em saúde no espaço religioso com adolescentes se configura como algo desafiador, daí a necessidade de buscarmos uma metodologia libertadora e, acima de tudo, emancipatória, encontrando tais características no Método Paulo Freire.
Paulo Freire foi um educador além de sua época, que desafiou seu tempo com uma metodologia capaz de transformar os indivíduos em seres que participam ativamente de suas histórias através da autonomia, da liberdade, do amor e do diálogo, possibilitando a transformação do mundo a partir da busca da melhoria de suas vidas, através da busca da conscientização como um compromisso histórico, enquanto homens que assumem o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo, que criam sua existência com o material que a vida lhes oferece (FREIRE, 1980).
O método de Paulo Freire foi inicialmente utilizado na educação de jovens e adultos, porém ultrapassou os aspectos da pedagogia para a dimensão de vivência no mundo e com o mundo, isto se dá através das construções realizadas nos círculos de cultura, espaço onde se amplia o diálogo e possibilita às pessoas uma leitura crítica da realidade social com seu próprio trabalho.
O círculo de cultura é coordenado por um animador que não dirige e sim busca, a cada instante, animar um trabalho de orientação à equipe, cuja participação ativa em todos os momentos do diálogo é caracterizada como uma qualidade e como único método de estudo. Neste circulo são produzidos modos próprios e novos, solidários e coletivos de pensar (BRANDÃO, 2006).
Paulo Freire parte do pressuposto de que o ser humano é histórico, é submerso em condições espaço-temporais, ou seja, quanto mais refletir de maneira crítica sobre a sua existência, mais poderá influenciar-se e tornar-se mais livre. Essa ideia se apóia em seis pressupostos que Freire (1980, 2008a, 2008b) designa como ideia-força, descritos a seguir: 1) Toda ação educativa deve estar precedida de reflexão sobre o homem e de uma análise do meio de vida.
2) O homem chega a ser sujeito por uma reflexão sobre sua situação, sobre seu ambiente concreto.
3) Através da integração do homem com o seu contexto, haverá a reflexão, o comprometimento, a construção de si mesmo e o ser sujeito. Onde considera a capacidade do homem em reconhecer que existem realidades que lhe são exteriores, e de discernimento. É a partir dessas relações que o homem chega a ser sujeito.
4) O homem cria cultura a partir da integração das condições de seu contexto de vida, realizando reflexão e obtendo respostas aos desafios que lhe são apresentados.
5) O homem é criador de cultura e fazedor da história.
6) A educação precisa permitir que o homem chegue a ser sujeito, construindo-se enquanto pessoa, transformando o mundo, estabelecendo relações de reciprocidade, fazendo cultura e história.
Para a enfermagem, alguns conceitos de Paulo Freire são úteis para o desenvolvimento das atividades de educação em saúde numa perspectiva transformadora do indivíduo, tais como: liberdade, humanização, conscientização, diálogo, cultura, reflexão crítica, ética e problematização (MIRANDA; BARROSO, 2004). Outros conceitos também muito presentes na obra do autor que se aproximam do cuidar da enfermagem como amor pelo outro, paciência, dedicação entre outros.
Então, para que a enfermagem possa desenvolver ações de educação em saúde, é necessário compreender que o profissional não estar ali para ensinar, e sim para, junto com o sujeito, aprender, pois para Freire (2008b, p.23) “não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”.
Contribuindo com Freire, Boff (1999) afirma que a libertação dos oprimidos deverá provir dos próprios sujeitos quando estes se conscientizam da situação de injustiça a que estão inseridos, e procuram se organizar para realizarem práticas que transformem as relações sociais iníquas.
Ainda, para o autor, oprimidas são as classes desfavorecidas, tais como os pobres, os indígenas, os negros discriminados, as mulheres e os portadores do vírus da Aids ou de qualquer outra deficiência. Considera também que algumas pessoas embora não sendo oprimidas, se aliam a estes, para junto deles e na sua perspectiva, empenhar-se por transformações sociais profundas, e que estas lutas são principalmente contra a pobreza a favor da vida e liberdade, sendo os grupos sociais e as Igrejas os que mais participam destas
Para Boff (1999) os conceitos de amor como fenômeno biológico, justa medida, ternura, carícia, cordialidade, convivialidade e a compaixão são descritas como ressonâncias do cuidado, traduzindo-o em distintas concreções. Daí a atuação da enfermagem com o adolescente necessitar de atitude de cuidado entranhado por tais sentimentos. Neste contexto, entende-se por amor como o fenômeno biológico sendo fundamental no convívio em sociedade, este se caracteriza por uma abertura ao outro e uma con-vivência e co-munhão com o outro.
Para a enfermagem, profissão de cuidado, é importante assumir uma dupla função, ou seja, a de prevenção de danos futuros e de regeneração de danos passados. Deste modo, seu cuidar reforça a vida, zela pelas condições físico-químicas, sociais e espirituais, permitindo assim a reprodução da vida (BOFF, 2009).
A cordialidade, a convivialidade e a compaixão são energias que interagem com o cuidado. Entendendo por cordialidade o modo de ser que descobre um coração palpitando em cada pessoa. Por convivialidade a capacidade de conviver com as dimensões de produção e de cuidado, de efetividade e de compaixão; usando criatividade, liberdade e fantasia. E, finalmente, por compaixão, não como sentimento menor de “piedade” para com quem sofre, mas ativa, sugerindo o compartilhamento da paixão do outro e com o outro (BOFF, 1999).
5 CAMINHO METODOLÓGICO