PCSK 9 varyantı Heterozigot (n, %) Homozigot (n, %)
3.5. PCSK 9 Mutasyonu saptanan ve saptanmayan hastaların karşılaştırılması
Após o percurso apresentado que une Benveniste e Lacan, adentro a gramática de Damourette e Pichon, a fim de solidificar a pesquisa que se apóia no tripé mencionado na introdução; ao articular o inconsciente, a enunciação e, por fim, a gramática que respalda os dois primeiros níveis. Esse tripé sedimenta os três momentos de reflexão sobre a linguagem em relação com a Psicanálise: um momento estrutural, seguido de um momento da enunciação e, por fim, como será abordado no presente capítulo, o momento da gramática.
Inicio com uma breve biografia da dupla de gramáticos, e de uma maior explanação sobre a natureza da obra Des mots à la pensée: Essai de grammaire de la langue française. Damourette e Pichon foram dois gramáticos franceses que, a despeito de sua franca e eminente preocupação com os fatos mais propriamente da gramática, foram também linguistas membros da Sociedade de Linguística de Paris e, no caso específico de Pichon, também um psicanalista. O gramático francês foi um importante analista da primeira geração de pós-freudianos, dialogando com nomes de peso da época como Loewenstein, Allendy, Lagache e Marie Bonaparte; assim como foi um dos principais nomes da terminologia da escola psicanalítica francesa ao lado de Laforgue.
Na quinta lição do Seminário 6 O desejo e sua interpretação, Lacan (2005, p. 58)191
refere-se a Pichon como um de nossos psicanalistas primogênitos. Já a vigésima segunda lição do Seminário 3 As psicoses se inicia com uma referência de Lacan (1985,
191
LACAN, J. (1958-59) Seminário 6: O desejo e sua interpretação. Recife: Traço Freudiano, 2005. (publicação online)
p. 306)192 a duas frases recolhidas por ele da gramática de Damourette e Pichon, sendo que Lacan atesta que a primeira delas constitui uma frase dita em análise por uma paciente de Pichon, denominada de Sra. X. Mais ainda, o capítulo Expression strumentale de la personne193, pertecente ao sexto tomo da gramática, lança mão de duas frases de um paciente recolhidas durante uma análise, com o objetivo de demonstrar a oposição entre me (pessoa tênue) e moi (pessoa densa). Como não há referência do psicanalista em questão que recolheu tais frases, é lógico concluir que se trata de um caso clínico do próprio Pichon.
De fato, Edouard Pichon foi o primeiro linguista a se tornar psicanalista. De acordo com
os sucintos dados bibliográficos levantados por Arrivé (1999)194, Damourette era um
filólogo, e Pichon era psiquiatra e psicanalista. Ambos faziam parte da Sociedade de Linguística de Paris e ali trabalhavam ativamente. Colaboraram também para a revista Français Moderne, que, naquele tempo, era um esboço de revista de linguística francesa. Pichon também publicou no Journal de Psychologie o artigo A linguística na França. Ressalto o fato de que o termo psicologia, na época de Pichon, ainda não se referia à ciência da Psicologia como entendemos nos dias de hoje, sendo um termo amplo e difuso para se referir ao campo psíquico. Pichon, dessa forma, publica um texto de linguística em um jornal que, segundo o título atesta, ocupa-se das questões do psiquismo. Lanço, então, uma pergunta: teria sido Pichon, já que fora linguista e depois se tornara psicanalista, o primeiro a propor uma interface entre a Linguística e a Psicanálise? A resposta parece positiva, já que Pichon foi o primeiro linguista a ser tornar psicanalista. Em um artigo fundamental intitulado Sobre a significação psicológica da negação em francês, a preocupação de Pichon em articular os dois campos de investigação surge logo no primeiro parágrafo:
Considerando que a linguagem é uma das manifestações mais importantes e naturais do pensamento humano, seu estudo fornece à investigação
192
LACAN, J. (1955-56) Seminário 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
193
Expressão instrumental da pessoa.
194
ARRIVÉ, M. (1994) Linguagem e Psicanálise, Lingüística e Inconsciente: Freud, Saussure, Pichon,
psicológica um dos caminhos mais úteis, que deve remontar, segundo nos parece, do fato linguístico ao fato psíquico, do qual é a exteriorização. (...) É a própria língua que deve ser questionada sobre os segredos de sua estrutura psicológica interna. (Damourette e Pichon, 2003, p. 131)195
Parece legítimo tomar Pichon como o pai da interface linguagem-psicanálise, ainda que esse título seja frequentemente concedido a Freud e Lacan, pensadores de muito maior prestígio, repercussão e reconhecimento.
Jacques Damourette, nascido em 1873, estudou arquitetura, mas, por limitações de saúde, não exerceu a profissão e se ocupou exclusivamente da linguística. Édouard Pichon, seu sobrinho 17 anos mais novo, estudou medicina, especializou-se em Psiquiatria e teve contato com a Psicanálise. Logo, não é por acaso que Lacan parece ter um reconhecimento maior por Pichon do que por Damourette. Um exemplo muito notável desse fato pode ser encontrado no Seminário 3 As psicoses, na vigésima segunda lição anteriormente comentada. Lacan inicia sua lição evocando a gramática de Damourette e Pichon, mas todos os seus posteriores comentários se focam exclusivamente no nome de Pichon.
No início da lição número dezoito, Lacan (1985, p 253)196, ao evocar a oposição entre
pensamento e palavra, comparando-a com a oposição entre significante e significado, assim se expressa: “Alguém, um gramático sensacional, fez uma obra notável, na qual há apenas um erro, seu infeliz subtítulo, Das palavras ao pensamento.”
É curioso constatar que Lacan refere-se à obra Das palavras ao pensamento, redigida a quatro mãos por Damourette e por Pichon, caracterizando uma única e singular autoria. Um dos autores é explicitamente omitido por Lacan, por razões aparentemente não
195
DAMOURETTE. J., PICHON, E. (1928) Sobre a significação psicológica da negação em francês. In:
Revista da APPOA. Porto Alegre, 2003. 196
claras. Ainda que não se possa afirmar com segurança qual dos dois é o “gramático sensacional” evocado por Lacan, a leitura do seminário permite deduzir que se trata do nome de Pichon, e que Damourette foi simplesmente ignorado por Lacan como autor da obra nesse trecho supracitado.
Semelhante situação se repete na quinta lição do seminário 6 O desejo e sua interpretação, no momento em que Lacan evoca a análise da negação em francês desenvolvida na gramática Das palavras ao pensamento. Estranhamente, Lacan atribuiu a autoria da análise da estrutura da negação, e de seus componentes que são o forclusivo e o discordancial, apenas ao nome de Pichon, tratando-o, inclusive, com termos de grande reconhecimento, como notável, admirável e um de nossos psicanalistas primogênitos. Sobre essa questão, reproduzo um trecho que torna essas considerações ainda mais claras. Ao discorrer sobre a análise da negação em francês, Lacan novamente refere-se à gramática Das palavras ao pensamento como obra de autoria única de Pichon:
Édouard Pichon, a propósito da negação, fez essa distinção da qual é preciso que vocês tenham pelo menos um pequeno apanhado, uma pequena noção, uma pequena idéia. Ele percebeu alguma coisa, ele teria até desejado ser um lógico – manifestadamente queria ser psicólogo, ele nos escreveu que aquilo que faz é um tipo de exploração Des mots à la pensée.
(Lacan, 2005, p. 58)197
Lacan, propositalmente ou não, induz o leitor, no decorrer de toda essa lição, a acreditar que Des mots à la pensée e a análise da negação em francês são frutos unicamente da mão de Pichon. Em contrapartida, no Seminário 3 As psicoses, o nome de Pichon também é silenciado. O único ponto que orienta o leitor é uma nota de rodapé logo após a citação anteriormente reproduzida, em que os tradutores especificam que a obra citada
197
LACAN, J. (1958-59) Seminário 6: O desejo e sua interpretação. Recife: Traço Freudiano, 2005. (publicação online)
por Lacan possui a dupla autoria de Damourette e Pichon. A despeito do nome do primeiro ser omitido durante toda a quinta lição, Lacan abre a sexta lição dizendo que da última vez fizera alusão à gramática francesa Jacques Damourette e de Édouard Pichon. Tal fato não deixa de soar como uma contradição por parte de Lacan.
Retomando as relações travadas por Pichon com a Psicanálise, Arrivé (1999)198 fornece
outros dados importantes. O gramático foi um dos fundadores da Sociedade Psicanalítica de Paris, em 1925, e foi presidente da mesma, em 1938. Pichon foi, ainda, uma figura central e decisiva no ingresso de Lacan na Sociedade. A conturbada análise de Lacan com o psicanalista judeu e polonês Rudolph Loewenstein, iniciada em 1932, colocou-o em contato direto com Pichon. Loewenstein, como atesta a biografia de Roudinesco (2001), foi acolhido e cercado de benevolência por parte de Pichon ao se instalar em Paris em 1925, tornando-se sete anos mais tarde o melhor analista didata daquela Sociedade. Após um processo analítico marcado por uma infinidade de rivalidades, Lacan se torna membro efetivo da Sociedade Psicanalítica de Paris contra a vontade de seu analista Loewenstein e com o apoio de Pichon. O gramático pareceu ser o único a acolher a incômoda personalidade de Lacan, não compreendido por suas inovações no meio do freudismo em sua época e por sua recusa em se submeter às rígidas regras de formação estabelecidas pela IPA.
Pichon, assim, interveio em um impasse ocorrido na análise de Lacan com Loewenstein, que, de acordo com Roudinesco, se alongava excessivamente para os padrões da época e parecia eternizar-se em um processo de chantagem e desafio recíprocos. Essa análise se mesclava com questões políticas e institucionais da Psicanálise dos anos trinta, sendo o próprio Loewenstein um obstáculo para a entrada de Lacan na Sociedade Psicanalítica de Paris. Lacan, com o auxílio e a intervenção de Pichon, se desembaraça da análise interminável com Loewenstein ao ser nomeado titular na SPP, em dezembro de 1938, nunca mais retornando ao divã de seu analista. Roudinesco comenta sobre esse importante fato histórico que enlaça Lacan e Pichon:
198
ARRIVÉ, M. (1994) Linguagem e Psicanálise, Lingüística e Inconsciente: Freud, Saussure, Pichon,
Ao agir desse modo, Pichon não se contentava, às vésperas da morte, em designar um possível herdeiro dessa tradição francesa pela qual havia militado, ele reparava também uma injustiça. Com efeito, não havia nenhuma razão válida para que Lacan não fosse nomeado titular, depois de passar seis anos no divã de Loewenstein. (Roudinesco, 2001, p. 99)199
No que tange a sua atuação como linguista, Pichon presidiu a Comissão Linguística para a unificação do vocabulário psicanalítico francês. Trata-se de outro fato que mostra claramente a maneira como Pichon transitava na interface Linguística e Psicanálise, antes de qualquer outro teórico e até mesmo de Lacan fazê-lo. Uma curiosidade interessante a esse respeito foi seu esforço bem sucedido de, em 1927, impor ça como tradução para o termo freudiano es, em detrimento de soi. De fato, o ça se tornou um termo consagrado na literatura psicanalítica francesa, tendo sido, inclusive, adotado pelo próprio Lacan. De forma semelhante, a tradução para o termo freudiano ich se mostrou polêmica e uma vasta discussão se fez a respeito da famosa frase escrita por Freud ao final de A dissecação da personalidade psíquica, lição 31 das Novas conferências introdutórias à psicanálise, datadas de 1932. Nessa frase, considerada por Lacan como
o imperativo ético da Psicanálise, Freud declara: “Wo es war, soll ich werden.” Uma
corrente psicologista e adaptativa da psicanálise adotou a seguinte tradução para a frase: Le moi doit délonger le ça (o eu deve desalojar o isso), ou seja, o inconsciente deve ser adaptado aos moldes do consciente. Lacan, por sua vez, contestou a tradução e se utilizou do par je/ça, proposto por Pichon, para reinterpretar a frase: Là où ça était (c´était), le je doit être (dois-je advenir). (Lá onde isso era [isso estava] o je deve estar [deve advir]).
Pichon ainda, como demonstra Lacan (1985, p. 115)200 em partes do Seminário 3 As
Psicoses, ocupou-se da tradução para o francês das Memórias de um doente de nervos, autobiografia de Daniel Paul Schreber que serviu de ponto de referência para Freud
199
ROUDINESCO, E. (1993) Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de
pensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 200
teorizar a psicose paranóica: “Há os que em aparência vivem, se deslocam, seus guardas, seus enfermeiros, e que são sombras de homens atamancados às três pancadas, como disse Pichon, que está na origem dessa tradução...” Em De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, texto de 1957, Lacan novamente menciona o nome de Pichon como tradutor do Caso Schreber, fazendo referência específica à famosa expressão flüchtig hingemachte Männer (imagens de homens feitos às pressas), traduzida em francês pelo gramático como “sombras de homens feitos às pressas”.
No que se refere especificamente a Pichon, a diferenciação entre as palavras cultura e civilização foi um dos fundamentais pontos de discordância com Lacan. De acordo com
Roudinesco (2001)201, Pichon era representante de uma linha de pensamento fundada na
crença em uma superioridade universal da civilização francesa sobre as demais e, em particular, sobre a Kultur alemã. Lacan, em um posicionamento claramente antagônico, rejeitava radicalmente tal posicionamento, o que lhe rendeu recriminações por parte de Pichon. Se Lacan não atribuía uma hierarquia entre culturas, independente de quais fossem as diferenças internas de cada uma, Pichon era dotado de uma absoluta convicção da superioridade universal da cultura francesa. Essa “francesidade” xenofóbica de Pichon é exemplificada nessa passagem:
O sr. Lacan, sem nada abdicar de sua originalidade, é, quanto a essa francesidade intrínseca, inteiramente dos nossos. Por mais embebido que seja do hegelianismo e do marxismo, não me parece em parte alguma infectado pelo vírus humanitário: não comete a tolice de ser o amigo de todo homem, percebe-se ser o amigo de cada homem: é que esse psicanalista é um aristocrata tanto por sua feição étnica e familiar quanto
201
ROUDINESCO, E. (1993) Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de
por sua formação profissional médica parisiense. (Pichon apud Roudinesco,
2001, p. 162)202
A xenofobia de Pichon, explicitada em expressões como vírus humanitário, assim como sua assumida francesidade não podem ser dissociadas das páginas da gramática Des mots à la pensée. Trata-se de um trabalho que claramente supervaloriza a cultura francesa sobre vários aspectos e, no caso, a língua francesa, colocando-a no lugar de certa exceção dentre as demais línguas do mundo. O importante e famoso artigo Sobre a significação psicológica da negação em francês, escrito em 1928 por Pichon ao lado de Damourette, demonstra essa “ideologia da exceção” construída em relação ao francês. Estar munido de tais informações é indispensável para uma leitura e análise críticas dos fundamentos da gramática.