Para AA, todos os alcoólicos são passageiros de um grande navio após serem salvos de um naufrágio, em que o que é primordial é o estar junto para encontrar uma solução comum para o problema. De acordo com a literatura do grupo, o alcoolismo é uma doença que envolve todos os que rodeiam os AAs, que traz ressentimentos, desgosto para familiares, amigos, empregadores, e que pode ter uma solução ao confiar em um outro alcoólico. Nestes termos, o fim do problema está na identificação entre os alcoólicos, na troca de experiências entre eles. No trecho baixo, fica claro que um alcoólico identifica outro e que, a partir do momento que integra o grupo, deve ajudar outros alcoólicos a parar de beber, deve passar a mensagem de AA para frente.
Que o homem que está abordando o alcoólatra já passou pelas mesmas dificuldades, que evidentemente sabe do que fala, que todo seu comportamento grita ao novato que este homem está realmente com a solução, que ele não toma o papel de um evangelista, que só abriga o desejo sincero de poder ajudar; que não há mensalidades a pagar, nem necessidade de dar satisfações a ninguém, nem obrigação de agüentar sermões – estas são as condições que têm dado resultado para nós. Depois de uma abordagem desse tipo, muitos se levantam das camas para andar novamente. (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1994, p.38)
A irmandade sugere ainda algumas estratégias terapêuticas para ajudar o alcoólico a atingir a sobriedade e a sair do “fundo do poço”. Os Doze Passos representam a essência do programa de recuperação de AA. Segundo a literatura de AA, estes passos foram elaborados com base nos acertos e fracassos dos primeiros membros e que aqueles que os seguem sinceramente, que os praticam cotidianamente, têm maiores chances de permanecerem sóbrios. Mota (2002) salienta que estas estratégias possuem preceitos da medicina, da religião e da própria experiência dos membros e divide-os em decisão, do 1º ao 3º passos, em ação, do 4º ao 9° passos, e, em manutenção, do 10° ao 12º passos, como veremos a seguir.
1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio
Para iniciar o programa de recuperação, o alcoólico tem que reconhecer que tem a doença do alcoolismo. Doença progressiva e incurável, cujas causas não são discutidas com afinco na literatura do grupo, mas que pode ser controlada por meio do programa de recuperação. Segundo AA, ser doente não é um pecado, mas os AAs têm que assumir a doença, reconhecer que não têm escolha perante o álcool e desejar veementemente parar de beber.
Conforme Bernardino (2000, p.60), durante o processo de surgimento e consolidação da irmandade, este passo não foi bem aceito pelos membros porque exigia o reconhecimento da impotência e fracasso pessoal do alcoólico. Por isso, aqueles que assumiam o fracasso eram normalmente pessoas que já haviam perdido tudo, família, amigos, emprego, ou seja, somente aqueles cujas estórias são dramáticas.
Com o desenvolvimento e a expansão da irmandade, dela aproximaram-se outros alcoólicos portadores de casos menos dramáticos. Para estes que ainda não haviam chegado ao fundo do poço, era mais difícil, ainda, aceitar a realização do primeiro passo. Para convencê-los, os primeiros membros dos alcoólicos Anônimos (...) sedimentaram a idéia de que somente o depoimento detalhado de suas experiências com o alcoolismo poderia funcionar como argumento capaz de atrair estes membros novatos sem que antes eles tivessem que necessariamente chegar ao fundo do poço, ou, ao menos, que o fundo do poço se tornasse mais raso.
2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à
sanidade.
3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
O segundo e o terceiro passos estão interligados. Deixam claro que, nesta batalha de conquista da sobriedade, o alcoólico deve entregar sua vida a Deus, que o conduzirá. Para AA, esta experiência parece impossível para aqueles que se consideram ateus ou agnósticos, mas as experiências em AA mostram o contrário. Cerca de metade dos primeiros membros de AA pertencia a essas categorias, mas que, depois de algum tempo, reconheceu que era necessário uma base espiritual na vida para guiá-los. No trecho seguinte, extraído da "bíblia" da irmandade, AA esclarece a necessidade de haver um Poder Superior que conduza a vida dos alcoólicos.
Falta de poder, esse era o dilema. Seria preciso um poder mediante o qual pudéssemos viver e teria que ser um Poder Superior a nós mesmos, evidentemente. Porém onde e como encontrá-lo? (LIVRO AZUL, 1994, p.62)
É para isso que AA publica o Livro Azul (1996, p.63), para ajudar o alcoólico a encontrar o Poder Superior. Como AA não mantém vínculo com nenhuma religião, o Deus de AA é concebido de acordo com a espiritualidade de cada alcoólico ou ainda com a própria irmandade. No excerto abaixo, Deus é descrito como acessível a todos que o busquem com sinceridade.
Compreendemos, então, que Deus não impunha condições árduas aos que em verdade O buscavam. Para nós, o reino do espírito é amplo e espaçoso; nele não está vedada nem restringida a entrada aos que O busquem sinceramente. Está aberto, acreditamos, a todos. Portanto, quando falamos de Deus, referimo-nos à própria concepção de cada um.
4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
Trata-se de uma auto-análise minuciosa, com honestidade, procurando os defeitos de caráter, aqueles que levaram o alcoólico ao fracasso. Os AAs acreditam que o defeito está no ego e em suas várias manifestações. Segundo Mota (2002), os alcoólicos em recuperação aborrecem-se quando chegam a esse passo, por acharem desagradável recordar estórias tristes de alcoolismo.
5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza
exata de nossas falhas.
Este passo é o da confissão. De acordo com Mota (2002), uma vez já feito o inventário, a fase seguinte é confessar, revelar sua vida íntima. Em clínicas de recuperação de dependência química, este passo é realizado antes da alta do paciente, para que provoque sensação de alívio.
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de
caráter.
Relacionam-se novamente à entrega a Deus para que Este elimine os defeitos de caráter do alcoólico. Mota (2002) acrescenta que os alcoólicos não desejam de todo o fim dos defeitos, pois isto os elevaria à condição de santos.
8. Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a
reparar os danos a elas causados.
9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo
quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem.
Com estes passos, o objetivo é pedir desculpas, corrigir os danos causados a pessoas inocentes. AA recomenda que seja feito com sinceridade, evitando promessas infundáveis. É relevante frisar a interferência do discurso moralista nestes passos, que dita a conduta humana como certa e errada.
10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o
admitíamos prontamente.
É a continuação do quarto passo. Realiza-se um inventário pessoal, relembra-se o passado doloroso de alcoolismo ativo e, quando errado, deve-se admitir o erro. É importante lembrar que o inventário pessoal deve ser continuamente feito, pois alcoolismo é incurável, na concepção de AA, mas pode ser controlado. Neste termo, o tratamento deve ser feito todos os dias.
11. Procuramos, através de prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com
Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.
12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses passos, procuramos
transmitir essa mensagem aos alcoólicos e praticar esses princípios em todas as nossas atividades.
Retoma a crença no Poder Espiritual e recomenda ao alcoólico anônimo que, após ter tomado conhecimento do programa de recuperação e ter parado de beber, tem a obrigação de
passar para outros alcoólatras esta mensagem, ajudar outros alcoólicos a tornarem-se sóbrios.