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É consenso entre os operadores do Direito o fato de que há uma crise no Poder Judiciário, evidenciada, principalmente, pela demora na prestação jurisdicional. Nos últimos anos, uma série de medidas, de natureza legislativa, foi criada, visando a uma simplificação do processo, para torná-lo mais célere. A necessidade de uma reforma processual foi reforçada com a Emenda Constitucional nº 45 de 2004, que introduziu na Constituição Federal como direito fundamental, no inciso LXXVIII do art. 5º, a garantia a todos, no âmbito judicial e administrativo, à razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Passaram-se alguns anos, com diversas alterações em diplomas processuais, sem que o problema na demora do processo e a crise no Judiciário tenham sido resolvidos. Acredita-se que o problema ultrapassa o âmbito dos procedimentos e chega à própria gestão do Judiciário.

Sabe-se que cada um dos chamados poderes do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) possui funções típicas e atípicas. No Poder Judiciário, por exemplo, o juiz possui a jurisdição como função típica, ou seja, a competência para o julgamento de litígios surgidos entre pessoas físicas e/ou jurídicas, mas também deve administrar a secretaria de vara onde atua ou até mesmo o próprio fórum ou tribunal, dependendo da instância em que atua.

A literatura acadêmica expõe a Administração como via para operar as mudanças necessárias para o cumprimento efetivo e eficaz das funções do Poder Judiciário:

Para vencer esse desafio, a ciência da Administração apresenta-se como um instrumento valioso, na medida em que possui, atualmente, uma gama expressiva de técnicas e métodos de planejamento, gestão e controle, tais como o planejamento estratégico, a gestão por processos e a gestão do conhecimento. A evolução que se operou na administração empresarial, motivada pela crescente demanda por novos produtos e serviços e pela necessidade de uma readaptação permanente das empresas, tornou imperiosa uma mudança cultural para que as organizações mantivessem sua competitividade. (SILVA, 2006).

Como o juiz ou desembargador, em sua formação acadêmica, não é preparado para administrar, fica evidente a necessidade da intervenção por profissionais habilitados para assessorá-lo na gestão da secretaria de vara ou tribunal em que é responsável. Também é fácil deduzir que a introdução de uma disciplina sobre gestão do Judiciário nos currículos dos cursos de Direito, apesar da importância, não é suficiente para que o juiz possa, com autonomia, exercer a função administrativa. O conhecimento profundo das técnicas e instrumentos atualmente utilizados em gestão, como o planejamento estratégico, a análise

SWOT1, o Balanced Scorecard (BSC)2, somente para citar os mais conhecidos – dentre muitos outros, demanda uma carga horária de estudo no patamar da graduação de proporções incompatíveis com o currículo jurídico, já extenso.

Nesse caso, profissionais de outras formações na área de Ciências Sociais Aplicadas, como Administração, Ciências Contábeis e Economia, são imprescindíveis para, com as habilidades adquiridas em suas formações, proporcionarem as mudanças na gestão do Judiciário. Theodoro Júnior (2004) exprime o entendimento de que o jurista não pode sozinho operar alterações necessárias:

É necessário que a organização dos serviços da Justiça se faça segundo os preceitos técnicos da ciência da administração e com o emprego dos meios e recursos tecnológicos disponíveis. Não serão, como é intuitivo, as simples reformas das leis de procedimento que irão tornar realidade, entre nós, as garantias cívicas fundamentais de acesso à justiça e de efetividade do processo. (...) Cabe, agora, à sociedade do século XXI, exigir dos responsáveis pela Justiça brasileira que a façam

‘passar pela mesma revolução tecnológica por que estão passando as modernas

administrações públicas e privadas, sob o impacto do planejamento, coordenação, controles, estatística, economia, ciência da administração, teoria das comunicações, informática, cibernética, processamento de dados, etc.’. É preciso que os juristas tenham a humildade e a sabedoria de reconhecer que a modernização e aperfeiçoamento da Justiça não é tarefa que eles sozinhos possam executar. (THEODORO JÚNIOR, 2004).

Notório é também, pela lição do jurista supra, o entendimento defendido anteriormente de que as reformas processuais não são suficientes para superar a crise no Judiciário brasileiro, havendo a necessidade da incorporação da Ciência da Administração.

A importância da Administração para a melhoria da prestação jurisdicional parece evidente na literatura acadêmica, mas a formação desses profissionais para o serviço em específico é pouco abordada. Surge novamente o que se pretende defender neste trabalho, a integração entre estudantes e docentes no estágio de prática jurídica como forma de preparar os profissionais para o trabalho interprofissional.

Adquirir as mencionadas habilidades demanda não só o conhecimento teórico, mas também aquele adquirido na prática. Mesmo que os cursos de Administração possuam laboratórios onde diversas situações cotidianas são simuladas, o contato com situações reais acompanhadas nos estágios de prática jurídica, bem como a integração com os operadores e

1 Ferramenta utilizada para análise de ambiente, mediante a verificação dos pontos fortes, fraquezas, oportunidades e ameaças das sociedades empresárias. Atualmente é muito utilizada também no serviço público como base para o Planejamento Estratégico.

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Desenvolvido por Robert Kaplan e David Norton, professores da Universidade de Havard, trata-se de um método de avaliação do desempenho de uma empresa, mediante o estabelecimento de indicadores, auxiliando na gestão das corporações. Também, atualmente, ganha destaque no serviço público.

estudantes de Direito, certamente contribuem com a atribuição de maiores competências para o estudante que pretenda atuar nos tribunais.

Benzer Belgeler