Inicialmente, cabe evidenciar as características e requisitos de cabimento da ação rescisória para, então, abordarmos como ela pode enquadrar-se na situação de impugnação da sentença inconstitucional transitada em julgado.
Nas palavras de Janaína Noleto: “A ação rescisória é ação por meio da qual se pede a desconstituição ou declaração de nulidade de sentença de mérito transitada em julgado e eventual rejulgamento do mérito”. Então, podemos aferir que a rescisória incide sobre a coisa julgada, permitindo seu desfazimento ou anulação, devolvendo a questão à apreciação da autoridade judiciária competente.
80 DINAMARCO, Cândido Rangel. Relativizar a coisa julgada material. In: Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo, Centro de Estudos, São Paulo, jan./dez. 2001, n. 55/56, p.25/70. Disponível em <http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/revistaspge/2001>
Evidenciamos que há três requisitos ou pressupostos de cabimento da ação rescisória, ou seja, condições que devem ser satisfeitas para que seja possível manejar, naquele caso de coisa julgada, a ação rescisória.
Primeiramente, a sentença a ser impugnada deverá, obrigatoriamente, ter discutido o mérito da questão, pois esse tipo de sentença possibilita a formação de coisa julgada material e impede a propositura de nova ação para rediscussão do mérito, características incompatíveis com as sentenças terminativas. A sentença deve também ter sofrido o trânsito em julgado, ou seja, não se deve admitir mais o uso da via recursal. Por fim, o vício deve estar previsto em uma das hipóteses elencadas no art. 485 do Código de Processo Civil.
Logo, sendo a sentença de mérito, transitada em julgado e contaminada por vício de nulidade que se enquadra no rol do art. 485 do CPC, restarão satisfeitos todos os requisitos de cabimento da ação rescisória.
Quanto à coisa julgada inconstitucional, é bastante assente na doutrina seu enquadramento no inciso V do referido artigo 485 do CPC. De acordo com o disposto no inciso V, a rescisória é cabível quando a sentença de mérito transitada em julgado “violar literal dispositivo de lei”. Portanto, entende a doutrina que a violação à norma constitucional equipara-se à violação de lei, uma vez que a Constituição é a Lei Maior ou Lei Suprema, é “a 'lei das leis', ocupando posto da mais alta hierarquia no sistema normativo”, nas palavras de Janaína Noleto81.
Nessa situação, está-se usando o termo 'lei' em sentido que abrange a Constituição Federal, logo, essa tese encontra respaldo pelo seu fundamento teleológico, já que a norma visou a impedir a consolidação de sentença contrária à lei infraconstitucional, não teria qualquer interesse em preservar sentença que se oponha ao positivado na norma constitucional.
Bem, o entendimento doutrinário e jurisprudencial está consolidado quanto à utilização da ação rescisória na impugnação da coisa julgada
81 CASTELO BRANCO, Janaína Soares Noleto. Coisa Julgada Inconstitucional: teoria e prática. São Paulo: MÉTODO, 2009, p. 138.
inconstitucional, já que o Superior Tribunal de Justiça vem admitindo esse meio processual em casos de desconstituição de decisão inconstitucional transitada em julgado.82 Porém, há um aspecto dessa modalidade de ação bastante específico e
que compromete sua plena utilização no combate à coisa julgada inconstitucional, que é o cronológico.
O aspecto cronológico que caracteriza a ação rescisória, qual seja, o prazo decadencial de dois anos para sua propositura, a partir do trânsito em julgado da sentença de mérito, é fator limitante para sua aplicação ao caso concreto.
Vejamos o posicionamento de Humberto Theodoro Júnior e Juliana Cordeiro de Faria:
A admissibilidade da ação rescisória para a impugnação da coisa julgada inconstitucional expressada nos julgados supra, porém, não significa a sua submissão indistinta ao mesmo regime da coisa julgada ilegal, de modo a que, ultrapassado o prazo de dois anos para o manejo daquela ação, impossível o seu desfazimento. Do contrário seria equiparar a inconstitucionalidade à ilegalidade, o que é não só inconveniente como avilta o sistema e valores da Constituição.83
Os doutrinadores, demonstrando preocupação com a questão do limite temporal para o uso da rescisória na impugnação da coisa julgada inconstitucional, lançam sua proposta:
Há que serem extraídas todas as conseqüências do reconhecimento da impossibilidade de subsistência da coisa julgada inconstitucional, de modo a que se submeta exatamente ao mesmo regime de inconstitucionalidade dos atos legislativos, para o qual não há prazo.
Deste modo a admissão da ação rescisória não significa a sujeição da declaração de inconstitucionalidade da coisa julgada ao prazo decadencial de dois anos (...).84
82 THEODORO JÚNIOR, Humberto; FARIA, Juliana Cordeiro de. A coisa julgada inconstitucional e os instrumentos processuais para seu controle. In: NASCIMENTO, Carlos Valder do (Coord.). Coisa julgada inconstitucional. 3. ed. Rio de Janeiro: América Jurídica, 2003, p. 105.
83 Id., Ibid., p. 107.
Pela explanação dos referidos juristas, percebemos que o prazo decadencial de dois anos que se impõe para o manejo da rescisória é um óbice, uma problemática para a qual não se vislumbra solução no ordenamento processual pátrio, visto que essa ação submete-se a tal limite temporal.
Os doutrinadores chamam a atenção ainda para o caráter de extraordinariedade do uso da rescisória para o caso em comento, visto que se apresenta como paliativo, e não como solução completa e definitiva:
Nada obstante e porque as nulidades podem ser decretáveis até mesmo de ofício, como é a hipótese da inconstitucionalidade, a eleição da via da rescisória, ainda que inadequada para a arguição da coisa julgada inconstitucional não importa na impossibilidade de conhecer-se do vício. O que se deve ter em mente é o fato de que a admissibilidade da rescisória, nesta hipótese, é medida extraordinária diante da gravidade do vício contido na sentença.85
Com relação ao inconveniente limite cronológico imposto pelo prazo decadencial de propositura da rescisória quanto à alegação de inconstitucionalidade, posiciona-se também a doutrinadora Janaína Noleto Castelo Branco:
A inconstitucionalidade é vício de tão grande monta que não se admite o estabelecimento de prazo para que este possa ser alegado. À vista do prazo decadencial legalmente previsto, e no intuito de preservar o conteúdo da Carta Magna contra atos que lhe sejam incompatíveis, parte da doutrina propõe a reforma do dispositivo, para ressalvar que, em se tratando de sentença viciada de inconstitucionalidade, não se aplicaria o prazo decadencial de 2 (dois) anos, ou melhor, simplesmente não se aplicaria prazo algum.86
Portanto, acerca da utilização da ação rescisória como meio processual para impugnação da coisa julgada inconstitucional, é possível concluirmos que seu uso é perfeitamente cabível, por entendimento tanto doutrinário quanto jurisprudencial, com base no art. 485, V, do CPC. Contudo, até o presente momento,
85 THEODORO JÚNIOR, Humberto; FARIA, Juliana Cordeiro de. A coisa julgada inconstitucional e os instrumentos processuais para seu controle. In: NASCIMENTO, Carlos Valder do (Coord.). Coisa julgada inconstitucional. 3. ed. Rio de Janeiro: América Jurídica, 2003, p. 108.
86 CASTELO BRANCO, Janaína Soares Noleto. Coisa Julgada Inconstitucional: teoria e prática. São Paulo: MÉTODO, 2009, p. 142.
o manejo da rescisória fica restrito ao prazo legalmente estabelecido de dois anos após o trânsito em julgado da decisão. Passado tal prazo, necessário se faz o uso de outros meios processuais.