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PAY BAŞINA KAZANÇ / KAYIP

Krediler 31 Mart 2016 31 Aralık 2015

36 PAY BAŞINA KAZANÇ / KAYIP

PENAL E PROCESSO PENAL. TRÁFICO INTERNACIONAL DE SERES HUMANOS. EXPLORAÇÃO SEXUAL DE MULHERES. ARTIGO 231 C/C O ART. 14, II e PARÁGRAFO ÚNICO, AMBOS DO CÓDIGO PENAL. QUADRILHA OU BANDO (ART. 288 DO CP). CONSENTIMENTO DAS VÍTIMAS. AUTORIA E MATERIALIDADE COMPROVADAS. 1. O consentimento da vítima em seguir viagem não exclui a culpabilidade do traficante ou do explorador, pois que o requisito central do tráfico é a presença do engano, da coerção, da dívida e do propósito de exploração. É comum que as mulheres, quando do deslocamento, tenham conhecimento de que irão exercer a prostituição, mas não têm elas consciência das condições em que, normalmente, se vêem coagidas a atuar ao chegar no local de destino. Nisso está a fraude. 2. O crime de tráfico de pessoas - foi a Lei 11.106, de 28.03.2005, que alterou a redação do art. 231 do Código Penal, de tráfico de mulheres para tráfico internacional de pessoas - consuma-se com a entrada ou a saída da pessoa, homem ou mulher, seja ou não prostituída, do território nacional, independentemente do efetivo exercício da prostituição - basta o ir ou vir exercer a prostituição -, e ainda que conte com o consentimento da vítima. 3. O Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças, que suplementa a Convenção da ONU contra o Crime Organizado Transnacional, adotada em novembro de 2000, trouxe a primeira definição internacionalmente aceita de tráfico de seres humanos: "a) 'Tráfico de pessoas' deve significar o recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso da força ou outras formas de coerção, de rapto, de fraude, de engano, do abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle sobre outra pessoa, para o propósito de exploração. Exploração inclui, no mínimo, a exploração da prostituição ou outras formas de exploração sexual, trabalho ou serviços forçados, escravidão ou práticas análogas à escravidão, servidão ou a remoção de órgãos; b) O consentimento de uma vítima de tráfico de pessoas para a desejada exploração definida no subparágrafo (a) deste artigo deve ser irrelevante onde qualquer um dos meios definidos no subparágrafo (a) tenham sido usados". 4. "O tráfico pode envolver um indivíduo ou um grupo de indivíduos. O ilícito começa com o aliciamento e termina com a pessoa que explora a vítima (compra-a e a mantém em escravidão, ou submete a práticas similares à escravidão, ou ao trabalho forçado ou outras formas de servidão). O tráfico internacional não se refere apenas e tão-somente ao cruzamento das fronteiras entre países. Parte substancial do tráfico global reside em mover uma pessoa de uma região para outra, dentro dos limites de um único país, observando-se que o consentimento da vítima em seguir viagem não exclui a culpabilidade do traficante ou do explorador, nem limita o direito que ela tem à proteção oficial" (Damásio de Jesus, in Tráfico Internacional de Mulheres e Crianças - Brasil, São Paulo: Saraiva, 2003, p. XXIV). 5. O crime de formação de quadrilha ou bando é delito formal, que se consuma com a reunião ou a associação do grupo, de forma permanente e estável, para a prática de crimes, independentemente, portanto, do cometimento de algum dos crimes acordados

pelos membros do bando. 6. O crime de formação de quadrilha ou bando difere do concurso de pessoas, em razão deste derivar de uma associação momentânea, de caráter transitório, para a prática de determinado crime, enquanto que naquele os membros se associam para a prática de um número indeterminado de crimes, de forma permanente e estável. 7. Materialidade e autoria dos crimes de formação de quadrilha ou bando e tráfico internacional de pessoas, na forma tentada, comprovados pelo conjunto probatório contido nos autos. 8. Apelações não providas.

RELATÓRIO

O EXMO. SR. JUIZ FEDERAL PEDRO BRAGA FILHO (RELATOR CONVOCADO):

1. Trata-se de apelações criminais interpostas por JUAN RUIZ BLANCO e CLEBERSON RODRIGUES SIGARINI contra sentença proferida pelo Juiz Federal da 1ª Vara Federal da Subseção Judiciária de Mato Grosso/MT, Julier Sebastião da Silva, que condenou o primeiro acusado à pena de 04 (quatro) anos e 06 (seis) meses de reclusão e o segundo à pena de 03 (três) anos e 07 (sete) meses de reclusão, pela prática dos delitos previstos nos artigos 231 e 288 c/c o art. 69, todos do CP.

2. Narra a denúncia que (fls. 03/09):

“[...] Narram os autos do presente Inquérito Policial que, no dia 22/04/2007, no Aeroporto Internacional Marechal Rondon, localizado na cidade de Várzea Grande/MT, foi preso em flagrante delito JUAN RUIZ BLANCO, no momento em que embarcava em aeronave com destino à Espanha acompanhado de Elisete Glória de Souza, com intuito de levá-la àquele país, onde a mesma exerceria a prostituição.

Apurou-se, por meio dos monitoramentos telefônicos, o efetivo aliciamento da vítima ELISETE e que esta, juntamente com JUAN, embarcariam, na madrugada do dia 22/04/2007, com destino final Madrid, Espanha. Após contatos com as empresas aéreas e agências de viagens de Cuiabá, restou demonstrado que os dois bilhetes foram comprados em conjunto, na mesma empresa, nesta capital cuiabana, bem como que JUAN havia pago a maior parte da passagem de ELISETE.

Foi realizada operação de vigilância no aeroporto de Várzea Grande/MT, acompanhando-se JUAN e ELISETE até o momento em que embarcaram na aeronave. Após, fazerem check-in e tomarem assento na aeronave, uma vez configurada a flagrância delituosa, foi dada voz de prisão em flagrante delito conduzido.

Consta das anexas peças de informação que as pessoas denunciadas associaram-se em quadrilha, juntamente com o equatoriano apenas identificado como LININ DE TAL, para o fim de cometer crimes de tráfico internacional de pessoas, com o intuito de obterem lucro com a saída do território nacional de mulheres com o objetivo de exercer a prostituição na Espanha.

Com efeito, consoante depreende-se dos autos em tela, recebeu a Polícia Federal diversas informações acerca da atuação de um estrangeiro de cidadania espanhola nesta Capital. Segundo tais informações, o aludido cidadão espanhol estaria aliciando mulheres com o intuito de levá-las para a Espanha, para lá prostituírem-se.

Realizadas as diligências preliminares, logrou-se êxito em identificar o estranho como JUAN RUIZ BLANCO e verificou-se que ele estava hospedado no “Hotel São Francisco Caramuru”, localizado próximo ao Terminal Rodoviário desta Capital.

As informações acerca da conduta ilícita do indiciado foram corroboradas por funcionários do próprio hotel em que estava o denunciado JUAN RUIZ BLANCO

hospedado, as quais asseveraram terem sido alvos de tentativas de aliciamento por parte daquele.

Ainda segundo o apuratório, JUAN RUIZ BLANCO foi monitorado por agentes da Polícia Federal, os quais constataram que ele, de fato, vinha mantendo contato com diversas mulheres, bem como com CLEBERSON RODRIGUES SIGARINI, que fazia visitas freqüentes a JUAN.

Foi então requerida pela autoridade policial a expedição de mandados de busca e apreensão, assim como a interceptação telefônica dos terminais utilizados por JUAN e CLEBERSON.

As medidas pleiteadas foram devidamente deferidas no âmbito dos feitos de n. 2007.36.00.002707-4 (fls. 13/14) e 2007.36.00.002928-7 (fls. 58/60), conforme denota- se da documentação que compõe o Apenso I.

Durante as interceptações telefônicas levadas a cabo pela Polícia Federal, constatou-se que JUAN RUIZ BLANCO mantinha contato com diversas mulheres, aliciando-as com o intuito de levá-las à Espanha para lá exercerem a prostituição. Dentre elas destacam-se Luciana Caetano Tomasine, Angelita Batista Costa, Janaína Maidana Bica e Elisete Glória de Souza.

Note-se, aliás, que o modus operandi a ser efetivamente empreendido pela quadrilha seria bem menos complexo. Primeiro, seria feito o contato, seleção e aliciamento de mulheres, aqui em Cuiabá/MT, por parte de JUAN.

Após esses contatos e efetivo aliciamento, JUAN retornaria à Espanha sozinho, e apenas lá, juntamente com seus comparsas fariam o envio de dinheiro e passagens às vítimas, que iriam até a Espanha desacompanhadas.

Tal fato se verifica, aliás, do depoimento da vítima ELISETE, por ocasião da lavratura do APFD de JUAN, além de outros elementos coligidos, que noticiam que a pessoa de LUCIANA (ainda não qualificada) iria para Espanha também, assim que JUAN, tendo chegado a seu país, lhe enviasse o dinheiro das passagens.

Acreditavam, com certa razão, tanto JUAN como seus comparsas que residiam na Espanha que, assim, fora do território brasileiro no momento da efetiva saída das vítimas, não se lhes poderia atribuir qualquer responsabilização penal por eventual tráfico de mulheres, notadamente porque a legislação penal espanhola é deveras mais branda que a legislação pátria no trato desses crimes, exigindo outros elementos para sua configuração que o simples aliciamento e entrada naquele país de pessoas para o exercício da prostituição.

Justamente por desconhecer a amplitude das presentes investigações, a existência de escutas telefônicas e, certamente, por necessitar justificar todos os gastos empreendidos por seus financiadores, JUAN resolveu retornar à Espanha em companhia da vítima Elisete, momento em que se deu sua efetiva prisão em flagrante.

Apurou-se que JUAN RUIZ BLANCO mantinha estreitas ligações com “LENIN DE TAL”, FERNANDO DE OLIVEIRA RODRIGUES, CLESIMAR MARSOL SANTANA e CLEBERSON RODRIGUES SIGARINI, pessoas estas que agiam em um esquema criminoso voltado para o tráfico internacional de mulheres.

Com efeito, observa-se das transcrições de diálogos travados entre membros da citada organização criminosa, constantes do relatório policial de fls. 82/104, que JUAN de fato atuou no aliciamento de Elisete (índice 2874794 – fls. 85/86) e de Luciana e Angelita – “Lili” – (índice 2955029 – fl. 86, além dos índices 3044976 e 2956485, acostados às fls. 04/05 do Auto de Circunstanciado 06/2007/NA/DRCOR/SR/MT, juntado aos autos do Apenso I).

Ouvidas, as três vítimas confirmaram terem sido aliciadas por JUAN, sendo uníssonas no que atinge à proposta de prostituírem-se no exterior feita pelo denunciado (fls. 51/53).

A atuação de JUAN dava-se em conjunto com CLESIMAR MARSOL SANTANA, brasileira que teria adquirido a cidadania espanhola através de um casamento contraído com um espanhol.

Segundo denota-se do teor das interceptações, CLESIMAR utilizava-se de sua cidadania adquirida com o intuito de facilitar o ingresso das mulheres aliciadas por JUAN na Espanha. Sua vinda ao Brasil foi alvo de intensa negociação entre os membros da organização criminosa, consoante percebe-se do teor dos diálogos transcritos (índices 2867637- fls. 84/85 e 2871783 – fl. 85).

Outrossim, sua participação no esquema revelou-se deveras importante na angariação de recursos junto aos financiadores da atividade criminosa, FERNANDO DE OLIVEIRA RODRIGUES e “LENIN DE TAL”.

Com efeito, a análise dos autos permite concluir que “LENIN” (cidadão equatoriano residente na Espanha) e FERNANDO (brasileiro residente na Espanha) são responsáveis pelo “financiamento” das atividades ilícitas do grupo. São eles que demandam pela remessa de mulheres para a Espanha e respondem pelo repasse de dinheiro aos membros da organização atuantes no Brasil e, em especial, a JUAN para que este possa voltar àquele país trazendo consigo as mulheres aliciadas, o que resta claro através da leitura dos diálogos telefônicos interceptados (índices 2867637 – fls. 84/85, 2871783 – fl. 90 – e 2845655 – fl. 93, além dos índices 2964066 e 3011063, acostados à fl. 02 do Auto Circunstanciado 06/2007/NA/DRCOR/SR/MT, juntado aos autos do Apenso I).

No Brasil, JUAN atuava ainda em conjunto com CLEBERSON RODRIGUES SIGARINI, vulgo “Binho”.

CLEBERSON é primo de FERNANDO e foi o responsável por apresentar a JUAN diversas mulheres. As interceptações telefônicas levadas a cabo pela Polícia Federal denotam que ele passou a cobrar de JUAN sua “participação financeira” em decorrência de seus “serviços prestados”, o que se afere através da análise das transcrições dos índices 3044592, 3044621, 3634771, 3066636 e 3072911 (fls. 90/91).

A atuação de CLEBERSON no aliciamento de mulheres em conjunto com JUAN é ainda corroborada pelas declarações de Luiz Rodrigo Ferreira da Silva, porteiro da “Boate Crystal Night Club”, o qual reconheceu CLEBERSON como sendo um dos aliciadores a atuar naquele estabelecimento (fl. 54).

Diante de todo o exposto, verifica-se que a autoria e a materialidade delitiva encontram- se devidamente comprovadas através do farto substrato probatório coligido aos autos, mormente pelo teor das conversas telefônicas interceptadas mediante autorização judicial. [...]”.

3. O MM. Juiz a quo entendeu que a materialidade e a autoria restaram devidamente comprovadas: pela prisão em flagrante de Juan Ruiz Blanco quando já havia embarcado em aeronave para Madrid/Espanha, levando consigo a vítima Elisete Glória de Souza; pelas passagens aéreas apreendidas na posse do acusado (fls. 42 e 45); pelos autos de apreensão (fls. 28/29); pelos relatos do acusado Juan e da vítima à autoridade policial; pelas interceptações telefônicas nºs 007.36.00.002928-7 e 2007.36.00.005901-9, constantes do Apenso I a estes autos, nas quais constam os diálogos entre os membros da quadrilha, organizando o aliciamento de brasileiras para se prostituírem no exterior; e pelas conversas telefônicas e depoimentos das testemunhas (fls. 191/192, 202/203, 204/206, 207/209, 210/212, 262/263, 266/268, 282/282 e 283/284), nas quais constam

que os acusados contataram várias mulheres para trabalharem como prostitutas na Espanha.

Disse que a participação do acusado Cleberson restou demonstrada pelos diálogos de telefones registrados entre ele e o acusado Juan Ruiz Blanco, entre 19 e 08 de abril de 2007, nos quais cobra valores para praticar os crimes e afirma que o dinheiro a ser cobrado estava sendo mandado por Fernando de Oliveira Rodrigues diretamente da Espanha. Diante disso, concluiu pela condenação dos réus (fls. 341/349).

4. Em Apelação, Cleberson Rodrigues Sigarini alega que não há nos autos elementos capazes de embasar um juízo condenatório, pois, além de ter negado a prática do crime e contribuído para sua elucidação (fls. 143/149), as testemunhas de acusação – as possíveis vítimas do crime - são unânimes em afirmar que não o conheciam, de forma que não constituem provas em seu desfavor (fls. 189/190, 283/284, 191/192, 202/203, 204/206, 207/209 e 210/212). Afirma que a testemunha Frederico Novaes de Almeida, policial federal, não informou com precisão a sua participação nos fatos delituosos, ou esclareceu qual foi a mulher que apresentou ao acusado Juan para exercer prostituição. Alega, também, que não restou comprovado que tenha apresentado mulheres ao Espanhol Juan Ruiz com a finalidade de prostituí-las.

Assevera que o fato de ter cobrado dinheiro de Juan e de ter lhe perguntado sobre as “chicas” não é suficiente para concluir que tenha participado dos fatos. Assim, afirma que deve ser aplicado o princípio do in dúbio pro reo, pois não pode ser condenado com base em meros indícios e suposições. Requer sua absolvição (fls. 431/443).

5. Em contra-razões, o Ministério Público Federal aduz que a materialidade e a autoria restaram devidamente demonstradas nos autos: pela prisão em flagrante delito de Juan Ruiz Blanco; pelas interceptações telefônicas levadas a cabo pela Polícia Federal; pelas transcrições de diálogos lavrados entre os membros da organização, nas quais constam que o acusado Juan atuou no aliciamento de Elisete Glória de Souza (índice 2874794 - fls. 94/95), Luciana Caetano Tomasine e Angelita Batista Costa – “Lili” – (índices 2955029 (fls. 95) 304496 e 2956485 (fls. 04/05 do Apenso I); pelos depoimentos prestados pelas vítimas em sede policial (fls. 191/192, 204/206, 210/212 e 138); pela informação policial nº 11/2007 (fls. 02/04 do Apenso I); e pelas análises das transcrições dos índices 3044592, 3044621, 36341771, 3066636 e 3072911 (fls. 90/91). Diante do exposto, requer o não provimento do recurso (fls. 476/485).

6. Em Apelação, Juan Ruiz Blanco alega que, de acordo com o conjunto probatório colhido nos autos, os acusados são primários, não registram antecedentes criminais e não se conheciam anteriormente, de forma que não estão presentes os requisitos básicos para se configurar o delito previsto no art. 288 do CP, eis que não houve união estável e permanente. Afirma que, na hipótese, restou configurado apenas um encontro eventual que culminou na tentativa de se praticar um crime, o que não caracteriza o delito de formação de quadrilha. Requer sua absolvição da imputação do crime de quadrilha (fls. 496/501).

7. Em contra-razões, o Ministério Público Federal sustenta que a materialidade e a autoria do crime de formação de quadrilha restaram comprovadas pelo auto de prisão em flagrante (fls. 22) e pelas provas testemunhais colhidas em Juízo (fls. 191, 204 e 213/214). Alegou que restou devidamente demonstrada na sentença a presença dos requisitos necessários para a caracterização do crime de quadrilha. Requer o não provimento da apelação (fls. 505/510).

8. Nesta instância, o Ministério Público Federal, pelo Procurador Regional da República Ronaldo Meira de Vasconcellos Albo, opina pelo não provimento das apelações (fls. 513/536).

10. Ao eminente Revisor em 10/07/2008.

VOTO

O EXMO. SR. JUIZ FEDERAL PEDRO BRAGA FILHO (RELATOR CONVOCADO):

1. Dos fatos

No caso examinado, os acusados Juan e Cleberson foram condenados por terem se associado, de forma estável e permanente, com os acusados Clesimar Marsol Santana e Fernando de Oliveira Rodrigues, atualmente presos na Espanha, para aliciarem mulheres no Brasil com o objetivo de exercerem a prostituição em Madri/Espanha, o que configurou o crime de quadrilha ou bando, bem como por terem, no dia 22/04/2007, patrocinado e auxiliado a saída de Elisete Glória de Souza do Brasil, com o mesmo objetivo, ação que foi impedida pelos policiais federais que prenderam o acusado Juan, em flagrante delito, no Aeroporto Internacional de Várzea Grande/MT, o que configurou o crime de tentativa do tráfico internacional de mulheres.

A atuação da quadrilha foi desvendada mediante as interceptações telefônicas nºs 007.36.00.002928-7 e 2007.36.00.005901-9, constantes do Apenso I, nas quais se verificaram os intensos diálogos travados entre os réus, nos meses de fevereiro a abril de 2007, nos quais acertavam a participação de cada um no aliciamento de mulheres para se prostituírem na Espanha.

O processo foi desmembrado em relação aos acusados Clesimar Marsol Santana e Fernando de Oliveira Rodrigues, por estarem presos na Espanha.

2. Do crime de formação de quadrilha ou bando

O crime de formação de quadrilha ou bando configura-se pela associação de mais de três pessoas, de forma permanente e estável, com a finalidade de cometer crimes, ou seja, mediante um acordo de vontades sobre a atuação duradoura em comum.

Trata-se de delito formal, que se consuma com a reunião ou a associação, ou seja, com a convergência de vontades, para a prática de crimes, porquanto já apresenta perigo suficiente para conturbar a paz pública. Dessa forma, ele se configura independentemente do cometimento de algum dos crimes acordados, tanto que um membro da quadrilha ou do bando, mesmo que não tenha participado do crime cometido, responderá pelo delito, tipificado no art. 288 do CP.

Acerca do momento consumativo do crime de formação de quadrilha ou bando, o STF manifesta-se no sentido de que basta a associação para a prática de crimes, verbis: “Quadrilha: requisitos de fundamentação da sentença condenatória. 1. O crime de quadrilha se consuma, em relação aos fundadores, no momento em que aperfeiçoada a convergência de vontades entre mais de três pessoas, e, quanto àqueles que venham posteriormente a integrar-se ao bando já formado, no momento da adesão de cada qual; crime formal, nem depende, a formação consumada de quadrilha, da realização ulterior de qualquer delito compreendido no âmbito de suas projetadas atividades criminosas, nem, conseqüentemente, a imputação do crime coletivo a cada um dos partícipes da organização reclama que se lhe possa atribuir participação concreta na comissão de alguns dos crimes-fim da associação. 2. Segue-se que, à fundamentação da sentença condenatória por quadrilha bastará, a rigor, a afirmação motivada de o denunciado se ter associado à organização formada de mais de três elementos e destinada à prática ulterior de crimes; não é necessário, pois, que se demonstre a sua cooperação na prática dos delitos a que se destine a associação, aos quais se refira a denúncia, a título de evidências da sua formação anteriormente consumada. II. [...]” (JSTF 190/359).

"Quadrilha. Configuração. Tratando-se de crime formal, suficiente é a associação de mais de três pessoas para o fim de cometer crimes, de cuja existência se prescinde" (RT 729/477).

"O crime de quadrilha se consuma pela simples associação e não pelo resultado da participação conjunta das pessoas associadas, de forma que num roubo ou num furto praticado por membros de uma quadrilha só respondem os que efetivamente participaram do delito. Precedentes" (JSTF 253/281).

Diante disso, como já dito, não é necessária a prática dos crimes idealizados pelo grupo para a configuração do crime de formação de quadrilha ou bando, mas apenas a associação entre os membros, já que é um delito autônomo ou formal, ou seja, sua consumação se dá com a convergência de vontades e independe da punibilidade dos delitos alvejados pelo grupo.

Benzer Belgeler