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A utilização de modelos de crescimento liderados pela demanda com restrição via balanço de pagamentos aplicados ao desenvolvimento regional aponta a importância dos desequilíbrios comerciais interregionais na permanência/construção das desigualdades regionais mas, ainda assim, não captam com precisão o impacto da esfera financeira sobre o desenvolvimento regional. Em que pese o tratamento dado à moeda por Keynes, a sua incorporação à questão regional se deu de forma relativamente tardia. Conforme apontado a seguir, será relativamente recente que essa imbricação se constituirá num substrato consistente da teoria econômica.

Na realidade, como apontam Cavalcante et al. (2006, p. 2λ5) “os trabalhos com caráter de pura economia regional (...) sempre se pautaram por modelos que encaram a moeda como neutra (pelo menos em nível regional) ou (…) tivesse uma perfeita mobilidade entre regiões”. Assim, os fluxos financeiros não seriam mais do que o reflexo das diferenças regionais e não causadores dessas desigualdades.

É possível identificar algumas das razões que podem explicar esse atraso. A mais comum decorre do fato de que parte da economia regional tem como arcabouço teórico a economia neoclássica e nessa a moeda tem um papel neutro no longo prazo, portanto, sendo incapaz de afetar variáveis reais (CROCCO e JAYME JR., 2006). No máximo, a moeda poderia provocar fricções cujos efeitos seriam transitórios e, portanto, negligenciáveis. Nesse sentido, a moeda não poderia merecer um tratamento especial, pois não exerceria qualquer função que não fosse a de ser um instrumento de troca. Em todo caso, como aponta Chick e Dow (1988), para essa abordagem, mesmo as desigualdades regionais consistiriam apenas em efeitos temporários, de modo que no longo prazo as disparidades regionais seriam eliminadas, o que está suposto, por exemplo, na validade da hipótese de convergência.

Mas, cabe observar que entre o domínio da economia neoclássica e o advento de estudos sobre o papel da moeda no desenvolvimento regional houve a revolução keynesiana.

O que se quer chamar atenção é exatamente ao fato de que já em Keynes a moeda fora apontada como um instrumento que, dado o ambiente de incerteza, a partir do qual os agentes tomam suas decisões, se constitui num tipo de ativo que pode ser retido ao garantir aos agentes maior flexibilidade exatamente nos períodos de maior instabilidade econômica.

Conforme Paula (2006), esses são aspectos centrais que serão explorados na abordagem pós-keynesiana. A incapacidade dos agentes de prever o futuro a longo prazo, seja através de cálculos probabilísticos, seja como reflexo do passado, fundamenta a noção de não neutralidade da moeda, isto é, como representação máxima do poder de compra e liquidez imediata consiste num concorrente frente aos demais ativos, logo, afeta “as decisões de produção e de acumulação de riqueza” (PAULA, 2006, p. 185).

No entanto, essas considerações não seriam imediatamente incorporadas à discussão regional pois haveria uma interpretação de que mesmo aceitando-se sua validade, esta estaria circunscrita ao espaço nacional. Richardson (1973) apud Dow e Fuentes (2006) mostra que essa é uma das razões para que se desconsiderem as variáveis monetárias e financeiras na discussão regional, ou seja, na ausência de instrumentos monetários regionais não haveria sentido falar em identidade monetária regional.

Desse modo, a análise da problemática regional irá se ocupar de outras questões. Chick e Dow (1988) apontaram que parte da literatura interpretará as desigualdades regionais como um caso particular do comércio internacional. Nesse caso, as diferenças quanto às taxas de crescimento entre as regiões derivariam das distintas dotações e movimento de fatores, condições de mercado ou padrões de comércio, enfim, residiriam nas variáveis reais as explicações para a questão regional. Algumas abordagens procuraram incorporar ainda que de forma limitada a discussão financeira. Esse seria o caso da Teoria da Dependência, em que a existência de uma região central e outra periférica decorre da natureza dos recursos presentes em cada uma delas, porém suas posições relativas seriam reforçadas pelo poder financeiro do primeiro (AMADO, 1999).

Segundo Crocco e Jayme Jr. (2006), no processo de causação cumulativa proposto por Myrdal (1972) os já citados backwash effects também sofreriam os efeitos dos fluxos financeiros, assim como também apontam que Perroux (1964) não ignoraria a moeda ao propor o conceito de espaço econômico. Observe-se que essas contribuições iniciais não ensejam a elaboração de alguma teoria mais consistente relacionando moeda e desenvolvimento regional.

Já mostrou-se aqui que a partir dos anos 1970 a ciência regional ao encontrar um novo ponto de inflexão voltou-se para outras questões ainda ignorando as variáveis financeiras.

Mas, no final desse período será possível encontrar os primeiros trabalhos que procuram explorar de modo mais direto como as condições financeiras e a moeda podem impactar o desenvolvimento regional. A partir daí essa questão começa a ganhar contínuo destaque, a tal ponto que, como ilustram Crocco e Jayme Jr. (2006), nos anos 2000, já começam a surgir estudos que se ocupam de revisar a literatura que se construíra sobre o tema.

Em linhas gerais, esses “surveys” mostram que a discussão aceita distintas abordagens. Cavalcante et. al. (2006), Dow e Fuentes (2006) apontam que no enfoque da questão moeda e regiões, os estudos utilizam variadas correntes do pensamento econômico (do neoclassicismo ao pós-keynesianismo). De sorte que as respostas encontradas também tendem a ser as mais diversas, ora rejeitando, ora confirmando a relevância das questões relativas à moeda no tocante as desigualdades regionais.

O enfoque utilizado neste trabalho para essa questão se sustenta no arcabouço teórico pós-keynesiano. Nessa vertente retoma-se a análise de Keynes de que as modernas economias capitalistas devem ser vistas como economias monetárias de produção. Logo, assume-se a não neutralidade da moeda a partir de sua capacidade de influenciar as decisões dos agentes econômicos, no curto e no longo prazo. A possibilidade dos agentes reterem moeda como forma de preservar sua riqueza em momentos de incerteza, em que aumenta sua preferência pela liquidez, resulta na impossibilidade, segundo essa interpretação, de separação entre o lado real e o monetário da economia (CARVALHO, C., 2006).

Essa visão é francamente contrastante com a abordagem tradicional para a qual a moeda não é mais do que um instrumento facilitador das trocas. Como observa Mollo (2003), na concepção neoclássica a moeda não se constitui em si em um objeto de desejo, logo, as variáveis reais não poderiam ser “contaminadas” pelas variáveis nominais.

A hipótese assumida pelos autores pós-keynesianos de que moeda não é neutra e suas implicações no processo decisório dos agentes econômicos será então incorporada também no debate sobre o desenvolvimento regional. Nessa linha de investigação, de acordo com Crocco et. al. (2011), os trabalhos de Sheila Dow, explicitados a seguir, consistem na principal argumentação na discussão sobre a relação entre moeda e desenvolvimento regional.