M. Semimembranosus (SM): Tuber ischiadicum’dan başlar Tibianın medial
2.3. Patellofemoral Ağrı Sendromu (PFAS)
2.3.1. Patellofemoral Ağrıda Risk Faktörler
Ainda que aquelas três esferas de compreensão da idéia de autonomia sejam apresentadas, separadamente, com o intuito de melhor sistematização, não pretendemos dissociá-las, para afirmarmos nossa convicção de que elas se acham imbricadas. Tal é a certeza dessa condição, que a própria gênese da comunidade em que se realizou a pesquisa ora relatada já revela o envolvimento de questões religiosas e econômicas. Sr. D. explica a questão da propriedade:
“Só tinha uma casa, bem ali. Esse lugar era da finada vó da minha esposa. Esse lugar foi vendido duas vezes: prum português e a mulhé dele, e hoje em dia, é da Diocese, que a gente num pode fazê nada aqui! [...]” (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 209).
Do trabalho lá desenvolvido, envolvendo famílias da comunidade vizinha, resultou que, em alguns casos, trabalhadores contratados pela segunda proprietária
também conseguissem se instalar, em Ponta de Pedras, como moradores.A vida de cada uma delas semeia a terra, e o próprio húmus da floresta vai sendo transformado em um espaço humanizado.
“Aí, a gente vinha de lá, a gente vinha trabalhar aí; ela tinha roça e a gente vinha fazer farinha pra ela, e naquele sacrifício todo. A grana era pouca. Eu com ele, a gente fazia carvão; a gente levava ela (a filha mais velha) com a gente, que era pequena, pra lá, pra onde a gente fazia carvão; lá, eu deixava ela dormindo e ia ajudar ele. Com esse carvão, a gente descia lá prá beira e ia vender na cidade. Aí, até que foi com, passando os tempo, e os morador que moravo, lá no Macaco, foram descendo e fizero; inclusive, o primeiro que desceu foi esse J., o segundo foi senhor A., ali. Aí, foi o tempo que a gente morava lá; e aí, tinha um lugar, ali em cima, e a gente morando lá. Aí, resolvemos descer; pedimos mais um terreno que a dona H. tomava de conta, e ela deu pra gente. Aí, ele fez uma casinha lá na beira, enquanto ele fazia o roçado pra poder fazer a casa lá em cima; e aí, depois, ele fez a casa e nós subimos pra lá. Aí, foi o tempo que nós fomos plantando roça; aí, nos já tinha a roça, a gente fazia a farinha. Foi o tempo que começou, fizeram essa igreja, aqui. Aí, foi evoluindo, né, abriram essa estrada aqui.” (Anexo I. Entrevista nº 5, p. 240-1).
A propriedade cria limites para os moradores, fazendo-os descobrir o que representa não ser dono da terra.
“Hoje em dia, esse terreno é da Diocese. Tudinho, só que ela doou aqui prá comunidade. Foi 500m de frente por 100m de fundo, esse pedaço aqui... Só que ela pediu prá nós, que num vendesse pra ninguém aqui, prá gente de fora. Que a Diocese é... aquela igreja, lá de Santarém, ela comprô... Então, ela pede pro pessoar daqui, que tão morando aqui, que não venda prá ninguém. Ela doou pra comunidade, pro pessoar fazere casa, fazere sítio, fazere o que eles quizere aqui, só não vendê. Os padre da Diocese dissero assim: − ‘Olhe, quem for filho naturar, nascido no lugar, em Ponta de Pedras, se ele morá em Belém, se ele morá em Santarém, se ele morá seja lá onde for, se um dia ele fazê procuração de um pedaço de terra, em Ponta de Pedras, ele tem o direito. Porque ele é filho de lá!’ Pois é, é
isso que eles falaro. Assim: ‘Ele tem o direito porque ele é filho de lá. Foi nascido e criado lá. Então ele tem direito.” (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 212-3).
Direito que não permite outra condição senão a de tomar posse, tornando-os guardiões da propriedade, o que os deixa sempre a postos contra aqueles cuja ambição não conhece limites. Os moradores de Ponta de Pedras percebem que as investidas são freqüentes, objetivando a exploração comercial do lugar, da mesma maneira como o são as formas de monitoramento dessas mesmas investidas.
“Logo quando começô essa venda aqui, a Secretaria de Turismo veio aqui pra financiá o dinheiro pra gente, aqui. Pra levantá uma pousada, levantá restaurante, levantá hoter, mais outras coisa... Então, eu fui o primeiro a ficá escorado (quieto, desconfiado). Digo: ‘Se o pessoar aceitare, eu num vô aceitá.’ E também, todo mundo escorando com essa arrumação. Aí, eu ainda disse assim: ‘Vocês quere se metê nesse abacaxi, se meto. Mas eu num vô me metê. Sabe por quê eu num vô me metê? Porque a Diocese tá sabendo de tudinho.” (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 214).
Criada a Associação de Moradores, esta se rende à situação de tutela que se configura. Condição que se reveste como proteção, mas não permite independência.
“Aí, eu preguntei pro presidente: ‘Vocês já falaro cum ela, cum a Diocese, sobre esse negócio desse plano que tão fazendo aqui?’ Ele disse: - ‘ Não!’ Eu digo: ‘Olha, então tem uma coisa, tenho que sabê e ir falá com ela. Sabê se ela consente. Aí eles falaro com ela. Só que ela respondeu, disse que não. Ela deu pro pessoar morare, fazere venda e sobrevivere do que eles quizere aqui. Só que num deixava ninguém vendê e acabasse com esse negócio de pousada, restaurante e hoter, que ela num queria não! É só o que ela recomenda muito pro pessoar daqui: que num venda nada pra ninguém. As outras coisa você pode fazê. Sempre ela orienta a gente nisso. Sempre ela tá nos orientando que a gente num caia nessa patetice de fazê isso. Porque, como ela diz: ‘Vocês vão sê engolido!” (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 214).
O alerta soa falso, pois mascara a prática da própria ação que agora condena.
Até mesmo as vantagens assim identificadas pelos moradores expõem a desproteção, o não-pertencimento, o alijamento. Estão completamente à margem dos benefícios a que teriam direito, perdidos no meio da floresta. Mas, diante de uma possibilidade de alterar esta condição, surgem as instituições, por meio de seus representantes mais ilustres, para fazer a revelação: a área que visam explorar, a praia, pertence à União.
“Nós num pagamo imposto, nem aluguel, inclusive essa área das barraca não é da Diocese, é da Marinha. Já viero advogado, já veio, já olhou. Procurador da República já teve uma reunião aqui, com nós, olhou e disse que ela num tá na área da Diocese, e a própria advogada da Diocese reconheceu. Aí, não há impedimento, nós mesmo já fizemo requerimento prá Capitania, prá ver qual é limite que ela nos dá, e a permissão, por exemplo, de fazer um padrão de barraca. Se pode fazer, e qual é a área? Se é essa ou é mais ali? O que nós fazemo aqui é lutar na Associação pra ver se a gente consegue alguma coisa pra cá. Até agora, tudo o que a gente tem é reivindicação nossa.” (Anexo I. Entrevista nº 2, p.230-1).
Os sujeitos sabem qual é a saída e buscam alcançá-la, pelos meios que consideram adequados:
“Temos que fazer requerimento e levar até o prefeito. O último tem três prioridades: era a energia, o cais aqui, pra proteger contra a subida d’água, e o padrão das barracas, que foi prometido a inauguração no dia dez de julho e até agora tá parado.” (Anexo I. Entrevista nº 2, p. 231).
Porém, não há saída possível no mundo administrado.
“Tem essa barraca aqui; pra fazê a continuação dessas barraca, daqui prá cá, nós já temo na lista 12 barraca. Já tá
nossa... o nosso documento tudo na Prefeitura, pra ir pro BASA (Banco da Amazônia S.A.). Que é o BASA que vai financiá esse dinheiro, pra nós mandá fazê essa barraca. É dois mil real pra cada um de nós. Quem vai fazê essas barraca é um rapaz de Santarém, é o O. R. B. (famoso arquiteto de Santarém) que faz. Então, com esses dois mil tem que organizá tudo. Tem que comprá talher, garfo, tudinho, tudo bonito. Que eles querem mandá fazê assim. Só que o dinheiro, ninguém vai pegá nesse dinheiro. É só ele...” (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 213).
Pudemos acompanhar, no capítulo II, a trajetória dessa comunidade, que foi sendo levada a substituir suas atividades primitivas pelas novas formas de trabalho que surgiram.
“Aí tem que lutar: prá pegar e pra viver. Se não, não dá pra viver! Aqui, a gente tem que dar o jeito da gente. Trabalha na roça, tece tipiti prá vender, faz caieira prá vender carvão prá esse barraqueiro aqui. Aí, trabalha todo mundo: a mulher, os filho, e ainda assim, tá difícil.” (Anexo I. Entrevista nº 2, p. 230).
A integração experimentada entre os sujeitos nas ações que desenvolviam − pesca, agricultura (roça e extrativismo) e produção rural doméstica (farinha de mandioca, carvão, produtos e artefatos artesanais) − torna-se incompatível com a comercialização nas barracas. As mulheres e crianças desenvolvem, desde muito pequenas, atividades idênticas às que são desenvolvidas pelos homens, e, da mesma maneira, essas não asseguram uma condição privilegiada a nenhum deles.
“Antigamente a gente pegava pouco dinheiro, comprava muita coisa. Hoje, a gente pega, num sabe o que compra, e vai procurar dinheiro, num existe mais, some. Num tem mais pra comprar nada. É essa diferença que tem. Também, ninguém trabalhava muito assim, antigamente. Agora tem que trabalhar demais! Só vive pra trabalhar! Também eu me preocupo, porque eu já tenho esses menino e eu sou pobre. Não desses pobre já demais, né? Mas sou pobre. Não posso dizê que eles
num passo fome, porque tem dia que a gente não tem mesmo.” (Anexo I. Entrevista nº 3, p. 234).
Todas as alternativas buscadas para afastar a ameaça que representa a fome resultam ineficazes. Diante da impossibilidade de terem seus direitos básicos garantidos, os sujeitos se transformam em heróis para enfrentar as dificuldades que surgem, o que só reforça a dominação do sistema e o seu descompromisso para com aqueles que o nutrem com suas vidas.
“No meu caso, aqui (a barraca da praia) é o meu sustento; quando aqui tá muito fraco, a gente pesca e também faz farinha, prá poder sobreviver. Eu tenho três filhas, três meninas, todas tão estudando. A minha caçula tá com oito anos, a mais velha com quatorze, e a outra, a do meio, tá com doze. Essa com doze, ela tá morando em Fortaleza, com a minha tia. Minha tia num tem filho; aí, chegou aqui, ela gostou dela, se apaixonou por ela e levou ela. Hoje em dia, ela tá morando lá, ela tá tendo o que eu não posso dar prá ela, que é os estudos, né. Ela já tá fazendo aula de inglês, tá bem adiantada. E a que está aqui, eu faço o que eu posso Agora, ela tá fazendo curso de informática. Tem dia que a gente não come nada, pra mim manter ela na escola.” (Anexo I. Entrevista nº 4, p. 236).
A situação atual é esta, apontada pelo velho pescador da comunidade, que fala da especialização a que chegaram, depois que os moradores ficaram divididos diante da exigência de executar apenas uma das atividades, de forma quase exclusiva:
“O jeito que tem é nós apelá pra quem tem mais possibilidade de pescá. Porque depois dessas casa (barracas) tarem pronta, um qualquer de nós num pode saí pra pescá. Porque, da vez que essa luz baixá aqui, e espalhá energia aqui, aí, num vai tê possibilidade de camarada pescá. Porque já foi falado assim: - ‘Olhe quem tem sua barraca aqui de venda, ele num vai podê fazê a sua granja, ele num vai podê fazê um carvão pra vendê pro barraqueiro, nada. O barraqueiro tem que ficá efetivo aí, só pra recebê o que vem de fora!’ (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 213, grifo nosso.).
O resultado é que são transformados, de produtores, em mero consumidores:
“Mas, antes comprar a carne que o peixe. Que aqui, eles num querem outra vida, aqui é só isso, é pesca. Eu como, como muito, mas eu num posso pescar. Olha, eles acho ruim quando vem um de fora [...] Eles acho ruim ele vender aquele peixe [...] aqui, eles acham ruim ele vender muito barato. Ele tá certo.[...] e não está explorando. Vocês estão explorando. É pra gente mesmo daqui, a gente nem vem de fora. É, tá muito caro a comida aqui. E eu num sei não, daqui pra frente como é que vai ser com esse pessoar daqui.” (Anexo I. Entrevista nº 1, p.223). Aquele pescador sabe que sua família ocupa posição privilegiada se comparada à maioria da população local:
“Naquele tempo o ganho era pouco, num dava pra quase nada. Agora, não; ela (esposa) ganha duzentos e sessenta e eu ganho quinhentos e vinte, por que eu sou aposentado como soldado da borracha. Aí, nós saímos de lá (da barraca). Eu ainda disse pra essa gente: ‘Olha, vocês vão sentir uma farta muito grande de nós!” (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 219).
Ao comparar sua situação à de outras famílias, Sr. D. desvela o modo pelo qual algumas idéias são assimiladas, em função de políticas assistencialistas adotadas para a população pobre. É relevante observar que a apreensão particular dos sujeitos, a partir da divulgação da medida, se efetiva como um imperativo categórico, ou melhor, uma imposição alheia seja à sua vontade, seja à sua necessidade, seja à sua decisão.
“Ainda mais, tem essa ordem, o governo vem aí e diz: ‘A criança num pode trabalhar! ‘Aí, foi que piorou! Aí, foi que melhorou pra eles. Aí, ele vem: ‘Eu num vou trabalhar! Sempre quando um filho vai trabalhar, o outro vem e diz: ‘Olha, tu não é pra trabalhar. Pra isso tem essa bolsa-escola que veio.’ Já tem bolsa-escola aqui, tem muitos que num recebe, mas tem muitos que recebe; já veio esse negócio de bolsa-escola. Outro dia, tinha um rapaz conversando aqui, que ele queria que acabasse com isso, porque tem muita gente que num quer mais trabalhar; quem tem três filho numa casa ganha essas bolsa-
escola, é quinze reais de cada um, tudo fiado só naquilo. Mas o que é que dá aquilo? Num dá pra nada! Vai acabar na cidade! Se o governo desse trabalho pra ele, era melhor. Eles num sobrevive não. Tem gente que sai daqui, passa o dia inteiro, lá, esperando; às vezes, é dois filhos, são trinta reais; às vezes, é um, passa o dia inteiro, mais pobre que sempre. É uma coisa muito difícil mesmo!” (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 221, grifo nosso).
Em outra situação extrema, as escolhas realizadas pelos sujeitos transformam-se em uma segunda natureza, que ganha vida própria e, novamente, submete os sujeitos ao que parece ser coação.
“Esse negócio do dinheiro aqui, eu num sei nem como é que pode ser, porque o pessoar procura um trabalho, num acha; e quando ele pega, acha, a gente vai falar com a pessoa que quer emprego, ele pede vinte, vinte e cinco a diária dele. Por exemplo, tu, olha, se ele gosta de trabalhar de pedreiro, tem pedreiro, aqui mesmo, que ele trabalha, ele cobra trinta reais a diária dele. É muito caro isso. É por isso que muita gente já não quer pagar gente pra trabalhar. Num é que não tenha dinheiro, é que eles tão pedindo muito caro. Se ele trabalha uma diária pra gente, ele pede quinze reais; passa do salário da pessoa, o salário tá duzentos e sessenta, não sai dez reais o dia, num sai não. É por isso que eles reclamo muito aí. A gente fala pra trabalhar, eles num quer ir. ‘Te pago tanto.’ Dizem: ‘Não, vou por tanto!’ Esse aí num vai dar duro. ‘Se é pra mim ir fazer um trabalho por isso, eu vou dormir na minha casa, que é melhor. Vou andar por aí.’ É o que eles diz. Mas tá certo? Eles tão fazendo isso. Nós, velho, temo seguro; agora, vocês que tão começando, vocês vão se esburrachar um bocado, aí. Agora, até chegar nesse ganho, tem muito mar. Muita coisa que o pessoar exploraro muito, aqui. A pescaria foi muito explorada. Porque que hoje em dia o peixe tá caro? Porque, naquele tempo, que a senhora andô por aqui, num tinha essa tanta ambição de ter [...]”. (Anexo I. Entrevista nº 1, p. 223-4, grifo nosso.).