A primeira promessa não cumprida da democracia refere-se à distribuição do poder. A democracia moderna, filha da concepção individualista da sociedade49, surge como fruto da vontade dos indivíduos, sendo estes soberanos em relação a si mesmos e aos demais igualmente soberanos (BOBBIO, 2009a). Considerando esta soberania dos indivíduos, a democracia não se desenvolveu em sociedades do tipo idealizado pela doutrina democrática
48 Tradução nossa: [Nel saggio di apertura di Il futuro della democrazia Bobbio elabora la tesi delle
“promesse non mantenute della democrazia”. È uno degli aspetti più noti e discussi della sua filosofia politica e si tratta, a mio parere, del suo contributo più importante a una riflessione realistica sul funzionamento delle istituzioni democratiche entro società complesse. La “democrazia reale”, sostiene Bobbio, non ha realizzato la la sovranità popolare, non ha eliminato le oligarchie, ha investito soltanto alcuni settori limitati della società e, soprattutto, non ha sconfitto il “potere invisibile].
49 Em contraponto, como já mencionado, à concepção orgânica dos antigos e medievos, segundo a
clássica. Ao invés de indivíduos singularmente considerados, é cada vez maior a presença de intercessores entre os sujeitos e o Estado, os chamados corpos intermediários, que são “característicos da sociedade corporativa das cidades medievais e do estado de camadas ou de ordens anterior à afirmação das monarquias absolutas” (BOBBIO, 2009a, p. 35). Deste modo, o que se percebe nas democracias atuais é o frequente aparecimento, e a presença predominante, dos grandes grupos, das organizações, dos sindicatos profissionais, das associações e, ainda, dos partidos políticos que assumem um lugar que seria destinado aos indivíduos no papel de “protagonistas” da vida política.
Numa sociedade pluralista, como é a que vive e floresce num sistema político democrático, onde o conflito de classe é multiplicado por uma miríade de conflitos menores corporativos, os interesses contrapostos são múltiplos, donde não é possível satisfazer um deles sem ofender o outro, numa cadeia sem fim (BOBBIO, 2005, p. 94).
É preciso considerar que nas democracias atuais “não existe mais o povo como unidade ideal (ou mística), mas apenas o povo de fato dividido em grupos contrapostos e concorrentes, com a sua relativa autonomia diante do governo central” (BOBBIO, 2009a, p. 35). Os indivíduos autônomos e soberanos permaneceram no campo da democracia ideal, mas não se efetivaram nas complexas sociedades contemporâneas que, conforme Anderson (2002), tornaram impraticável a composição das vontades individuais e sua transformação em vontade coletiva, nos termos postulados pelo pensamento liberal-democrático clássico. Ao contrário, no seu lugar surge o conflito de agrupamentos consolidados e oligárquicos, “cuja interação – seja em âmbito político-partidário, seja em âmbito socioeconômico – tipicamente assume a forma de uma barganha corporativa que solapa o próprio princípio de livre representação, tal como era entendido por Burke ou Mill” (ANDERSON, 2002, p. 223). Nem mesmo o ingresso das massas no sistema político, com o advento (e cada vez maior desenvolvimento do sufrágio universal), contrabalançou estas tendências.
Uma das características das sociedades democráticas é a existência de mais de um centro de poder, estando este “mais amplamente distribuído do que nos regimes autocráticos” de forma que o poder se encontra difuso e, além disso, também é “fragmentado e de difícil recomposição” (BOBBIO, 2005, p. 94). Ocorre que a sociedade idealizada para a democracia representativa era monista, centrípeta, com apenas um centro de poder, como é o caso, por exemplo, da “vontade geral” de Rousseau, enquanto as sociedades contemporâneas são pluralistas (ou policêntricas), admitindo vários centros de poder além do Estado. Há ainda
dois outros aspectos preocupantes nessa diversidade de centro de poder, o primeiro consiste na disputa interna que inevitavelmente vai recair sobre tal sociedade e, consequentemente, incide sobre o segundo aspecto, qual seja, a fragilidade que pode comprometer o poder central. Uma vez que se observe a fragmentação interna do Estado, é possível se pensar que pode estar comprometida a estrutura do Estado como um todo. Neste aspecto, Revel (1984, p. 19) afirma que se verifica o esfacelamento das democracias, estando estas divididas em grupos isolados, que disputam vantagens entre si, sem preocuparem-se com os demais. Também a opinião pública (que segundo Tocqueville chegaria ao estágio de ser uma “doce ditadura” que levaria à homogeneidade de sentimentos, ideias, gostos e costumes) de fato também foi fragmentada nas sociedades. Assim, Revel (1984, p. 19) ressalta as múltiplas culturas das sociedades democráticas do século XX, “às vezes tão diferentes umas das outras pelos gostos, modos de vida, moral, linguagem, que pouco conseguem ou até mesmo não conseguem compreender-se. Estão lado a lado, mas não convivem. A opinião pública, na civilização democrática de hoje, não é um continente, é um arquipélago”. Mas há também um aspecto que pode ser positivo nas sociedades pluralistas atuais: os vários grupos de poder existentes podem concorrer entre si de forma pacífica para que as decisões coletivas sejam tomadas mediante acordo desses grupos. Esta é uma possibilidade que Bobbio (2004, p. 99) refuta como possível, visto que “a democracia dá vida a uma sociedade eminentemente contratual”.
Embora os conceitos de democracia e pluralismo pareçam ser similares, têm extensões diferentes e não se confundem. Pode, por exemplo, haver sociedades pluralistas não democráticas como as sociedades feudais que tinham vários centros de poder, mas se tratava de um conjunto de oligarquias, como também o contrário, isto é, as sociedades democráticas e não pluralistas, como no caso da democracia dos antigos que era direta e não tinha corpos intermediários entre os indivíduos e a polis. Segundo Bobbio (2009a, p. 71)
Rousseau tinha em mente a democracia dos antigos e a democracia direta quando, condenando as “sociedades parciais” como nocivas à formação da vontade geral – pois, dizia, o juízo que acabaria por prevalecer seria um juízo particular –, apresentava as condições de uma democracia não pluralista e, mais ainda, sustentava que o pluralismo seria a ruína da democracia.
Assim, não há como se imaginar que nas sociedades políticas contemporâneas os mesmos modelos de participação direta popular possam ser vivenciados com êxito. A
democracia direta, no sentido próprio do termo, somente seria possível nos Estados atuais, caso os territórios fossem menos vastos, tanto no número de habitantes quanto nos problemas a serem resolvidos. O surgimento desta sociedade pluralista, portanto, retrata a complexidade das sociedades contemporâneas. Assim, a existência de grupos que funcionam por vezes como intermediários entre os indivíduos e o Estado é inconteste, tratando-se de uma nova opção de organização no âmbito político. O fato é que esses mesmos grupos por vezes têm interesses contrapostos entre si (algo inerente à pluralidade na composição das sociedades atuais) refletindo o descumprimento de, pelo menos, duas das promessas elencadas por Bobbio, quais sejam, o mencionado nascimento da sociedade pluralista, bem como a segunda, referente ao vício da representação de interesses em contraponto à idealizada representação política.