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Paralel Bilgisayar Hafıza Modelleri

3.3. PARALEL HESAPLAMA

3.3.3. Paralel Bilgisayar Hafıza Modelleri

A abolição da escravatura acabou representando inicialmente uma transição para os negros da condição de escravos formais para a de escravos informais (SILVA, 2006). Jogados à própria sorte, eles acabavam mantendo relações de trabalho com seus antigos senhores. Oportunidades de trabalho eram negadas a esses indivíduos por conta de sua cor de pele e também pelas características fenotípicas que socialmente representavam as marcas de uma categoria racial inferior (CONCEIÇÃO, 2009).

Mesmo antes da abolição, a própria alforria representava, nas palavras de Barros (2009, p. 128), um “[...] controle sobre a passagem da diferença escrava à desigualdade liberta”. Muitos continuavam dependentes de seus senhores. Há registro, por exemplo, para mencionar apenas um, de uma carta de alforria concedida a uma escrava de 17 anos chamada Maria. A carta de alforria concedia liberdade à jovem apenas depois que os senhores morressem, ficando ela obrigada a servir-lhes até sua morte. Essa condição também se estendia a filhos que ela viesse a ter (BARROS, 2009).

Após a abolição da escravatura, a situação das ex-escravas domésticas era bastante próxima à situação da escravidão. Muitas delas residiam na própria casa dos patrões, que podiam metaforicamente ser consideradas senzalas domésticas. Não havia horário de trabalho e muitas delas não recebiam qualquer tipo de remuneração pecuniária. Quando recebiam, se tratava de uma remuneração irrisória. Era comum que o trabalho fosse exercido desde a infância, quando as meninas se mudavam para as casas de seus patrões (CORONEL, 2010). Nesse ambiente, não eram tratadas como sujeitos, mas como servas disponíveis a satisfazerem todas as vontades de seus patrões.

Nesse período pós-escravocrata, a personagem das babás era comum para a manutenção cotidiana das famílias. Negras, elas poderiam ser, não só amas de leite, mas também amas secas (CORRÊA, 2007), o que revelava a manutenção de uma relação não justificada apenas pela necessidade de amamentação dos filhos das portuguesas. A situação de desproteção social, as baixas qualificações que tinham e a manutenção de relações que começavam na

infância, somadas, acabavam confinando essas mulheres àquela vida, o que ocorria, não só por falta de melhores opções, mas também pela criação de um elo e de uma dependência psicológica em relação à família para a qual trabalhavam (CORONEL, 2010).

Mesmo com a manutenção dessas relações de dependência, a sensação de perda de controle por parte dos senhores em relação aos servos advinda da abolição (RONCADOR, 2007) acabou influenciando a maneira como as relações entre criadas e patrões foram sendo tecidas. A desconfiança gerava a necessidade de um controle permanente, o que se tornou uma estratégia utilizada pelos patrões, sobretudo pelas patroas, já que as mulheres eram as responsáveis pelos assuntos que se referiam ao serviço doméstico (RAGO, 1985). Roncador (2007) cita uma passagem interessante de uma publicação portuguesa intitulada A dona de

casa: a mais útil publicação em portuguez, cuja data se refere justamente ao período posterior à abolição.

V.Ex., que é dotada naturalmente de um espírito fino e tem pela vossa casa o amor arraigado que tem por tudo quanto se possue e governa, não se confiará na boa- vontade de uma pessoa a quem não conhece. Portanto a V.Ex. visitará por imperiosa necessidade, e durante várias vezes ao dia, a cozinha, tendo a ocasião de a fiscalizar (JUNIOR, 1894 apud RONCADOR, 2007, p. 127).

As criadas eram nesse período consideradas ameaças para a família para a qual trabalhavam, especialmente no que se refere ao temor pela transmissão de doenças e de costumes considerados maus, temor este que refletia a ideia da pobreza como uma ameaça. Essa ideia não implicava uma preocupação com a existência da pobreza em si, mas, sim, uma preocupação com a proximidade dessa pobreza que era invocada a partir da convivência cotidiana com as criadas (CORRÊA, 2007). Essa noção de ameaça remonta ao período da escravatura e também ao período posterior à abolição, em que os servos domésticos eram considerados ameaças à integridade física e moral das famílias burguesas (RONCADOR, 2007).

Diante dessa noção, tentativas pedagógicas de domesticar e civilizar as criadas surgiram no período republicano e pós-escravocrata brasileiro revestidas sob o discurso de preparação das mulheres (as senhoras) para suas responsabilidades com a casa, com os filhos e com a administração do trabalho das criadas. Foram publicados, inclusive, manuais que visavam ensinar o modo adequado de se lidar com as empregadas. Além disso, recorreu-se a mecanismos estatais para controlar os criados, como a exigência de registro de saúde e de matrícula na polícia (RONCADOR, 2003; 2007).

Um exemplo de mecanismo estatal foi a criação, em São Paulo, do Serviço de Registro de Empregados Domésticos. De acordo com o próprio documento de criação, o objetivo do registro era

[...] salvaguardar o lar e o bem público, mediante exame de sanidade e controle policial dos candidatos como medida de proteção à família e à propriedade, pois objetiva a seleção do material humano, muitas vezes perigoso e nocivo, que ingressa em nossos lares como cozinheiros, arrumadeiras, pagens, lavadeiras, etc... gente na maioria das vezes portadora de moléstias infectocontagiosas, quando não possui ainda o estigma do roubo e do mal, e que, de casa em casa, vai espalhando doenças, roubando haveres, prejudicando os patrões e desaparecendo em seguida (SÃO PAULO, 1946, p. 85, apud DUARTE, 1992, p. 07).

Na carteira de registro, eram anotadas, por exemplo, as ocorrências durante o período de trabalho e os motivos de despensas de antigos trabalhos (DUARTE, 1992), o que marcava os empregados diante de quaisquer falhas que cometessem.

Nesse período, quando deixavam de residir na casa dos senhores para os quais trabalhavam, os servos domésticos passaram a morar em casas populares nas cidades, as quais eram chamadas de cortiços. Os cortiços eram considerados ambientes promíscuos e infectados, tanto por médicos, quanto por membros das classes dominantes (RONCADOR, 2007).

Um episódio que marcou a história dos cortiços foi a primeira destruição dessas moradias ocorrida na cidade do Rio de Janeiro, então capital do País, realizada a mando do presidente Rodrigues Alves (1902-1906) em nome dos discursos da modernização e da higienização (BARDANACHVILI, 2013b).

Em pouco tempo, cortiços e casas de cômodos vieram abaixo, avenidas foram abertas, ruas alargadas, o porto ampliado, a luz elétrica estabelecida, epidemias controladas, a cidade embelezada e saneada. A transformação da Capital foi feita com eficiência e rapidez, mas com muito autoritarismo. As populações pobres reagiram mas não puderam impedir as desapropriações e o bota abaixo que as expulsaram de suas casas, obrigando-as a buscar moradia nos subúrbios ou a viver em um dos morros que rodeavam o centro da cidade (BARDANACHVILI, 2013b, s/p).

Mesmo após as ondas de destruição dos cortiços, o objetivo dos grupos dominantes de se distanciar dos negros, então desalojados, não foi completamente alcançado (BARDANACHVILI, 2013c), pois muitos se instalaram em morros que hoje são conhecidos como favelas, o que não nos afastou tanto assim da cidade.

Uma data de nascimento certa para as favelas talvez não exista. Mas pesquisas indicam que o Morro de Santo Antônio e o Morro da Providência foram as primeiras [no Rio de Janeiro]. Entre 1893 e 1894, soldados que combateram na Revolta da Armada instalaram-se no Morro de Santo Antônio, no centro da cidade, sendo seus

primeiros moradores. [...] Hoje, o Morro de Santo Antônio não existe mais pois, nos anos 50, houve o seu desmonte [...]. Já a história do Morro da Providência, apesar de controversa, parece ter relação direta com a demolição do cortiço Cabeça de porco, posto abaixo em 1893 pelo prefeito Barata Ribeiro. Alguns moradores, aproveitando restos de madeira colhidos da demolição, teriam subido o morro, próximo ao cortiço destruído, e reconstruído suas casas. [...] nos anos 20 a palavra ‘favela’ tornou-se o substantivo que até hoje é utilizado para qualificar todos os morros e colinas em que há habitações populares (BARDANACHVILI, 2013c, s/p.).

Ao longo dos anos, as favelas foram cada vez mais se tornando alternativas de moradia para as criadas negras, que continuavam tendo suas moradias destruídas. Essas favelas foram então crescendo em alta velocidade e frustrando os interesses de grupos dominantes que as condenavam (BARDANACHVILI, 2013c). Como se tornaram uma espécie de mundo à parte no imaginário desses grupos, os lugares de moradias das criadas e as práticas a eles pertencentes se tornaram uma espécie de ameaça.

Nesse cenário, esse foi um período marcado por uma intensa repressão a práticas culturais populares advindas da população negra que não se adequavam aos padrões culturais europeus. Manifestações como o candomblé, a capoeira, o violão, o pandeiro e manifestações carnavalescas eram reprimidas em função dessa não adequação e, sobretudo, por serem consideradas práticas que, não só poderiam ameaçar a ordem social, mas também insuflar uma maior e indesejada união entre os negros, fortalecendo o sentimento de uma consciência negra (BARDANACHVILI, 2013b, s/p).

Disseminava-se a imagem dessas práticas como sendo de barbárie e falta de civilidade, havendo, inclusive, mecanismos legais para sua repressão. Elas eram comumente enquadradas nos artigos 157 e 399 do Código Penal Brasileiro por vadiagem e crime contra a saúde pública. A criminalização de práticas como o candomblé e o canto dos orixás era oriunda de discursos que condenavam a magia, o espiritismo e as práticas em prol da cura de doenças (BARDANACHVILI, 2013d). Não se buscava compreender tais práticas como sendo culturais e identitárias para os grupos negros. No caso do candomblé, generalizavam-se todas as suas práticas como sendo magia.

A capoeira, por exemplo, foi uma prática considerada criminosa no País por meio do Código Penal durante quarenta anos, o que ocorreu entre 1890 e a década de 30. Originalmente praticada pelos negros como forma de resistência à escravidão, veio a ser criminalizada mesmo depois da abolição porque era ainda uma prática de resistência mantida pelos negros (BARDANACHVILI, 2013a).

A seguir, apresento um diálogo realizado em uma das cenas da novela Lado a Lado18 (BRAGA e LAGE, 2013), da Rede Globo de Televisão, que ilustra bem o que está sendo discutido. A novela, embora seja uma obra de ficção, retrata a sociedade carioca no período posterior à abolição tendo como personagens centrais os negros e como tema sua situação social, considerando que as obras de ficção podem ser tornar discursos ficcionais sociais relevantes (FARIA, 2012b). Na cena apresentada, os dois protagonistas negros questionam a prisão de uma tia do morro pela prática do candomblé, diante da não prisão de uma protagonista branca pertencente à elite, embora ela tivesse cometido um crime.

Zé Maria (protagonista negro): Eu quero saber ‘por quê que’ a mulher do senador que roubou o filho da própria mãe não tá presa. Ah lembrei, é porque ela é mulher do senador. E por que a cadeia tá ocupada com a mulher mais iluminada dessa cidade, mas que é negra e pobre? Delegado Praxedes: Alto lá, você tá a um passo de desacato. Isabel (protagonista negra): Então por quê que prenderam a Tia Jurema? Delegado Praxedes: Aquela mulher é sua tia? Isabel: Aquela senhora é tia de todo mundo e eu não saio daqui sem ela. Delegado Praxedes: Isso não vai ser possível, a prisão dela foi rigorosamente dentro da lei, Artigo 157 do Código Penal de 1891 que, resumindo, se aplica a quem tenta fascinar e subjulgar a credulidade pública com jogos de adivinhação, cartomancia e outras coisas mais. É um crime contra a saúde pública. Zé Maria: Tá, mas que lei é essa, que lei... que mais essa agora, que país é esse que diz que você praticar sua religião é um crime contra a saúde pública? Isabel: A Tia Jurema... ela só faz o bem delegado. Ela é querida por todos na nossa comunidade. Delegado Praxedes: Vocês querem dizer bando de arruaceiros. Me diz, Zé Maria, você era ou não era um dos capoeiras que bateram nos meus homens? Zé Maria: Capoeira, candomblé, tudo que é da cultura negra é proibido, quer dizer, depois de séculos sendo arrastados da África até aqui, vocês querem proibir tudo que é da nossa cultura? (BRAGA e LAGE, 2012 / 2013).

Mesmo com a repressão, no entanto, os grupos negros resistiam cotidianamente buscando manter a realização dessas práticas. E foi essa resistência que acabou fazendo com que tais práticas fossem ao longo do tempo se constituindo em manifestações culturais reconhecidas como pertencentes ao povo brasileiro. Além de pertencentes, representativas da identidade desse povo, como ocorre no caso do samba. A manutenção, por esses grupos negros, de um contato cultural com a África se faz presente, inclusive, na culinária brasileira, como o uso do azeite de dendê e do noz de cola (FREYRE, 2003).

Por que falo dessas práticas e de sua repressão? Não só para ilustrar a situação dos negros no período pós-escravocrata, mas porque as mulheres, sujeitos da minha pesquisa, eram uma das maiores responsáveis pela manutenção dessas práticas culturais e religiosas. Além disso, são práticas mantidas até hoje em comunidades onde estão as empregadas domésticas, e

18 A novela Lado a Lado (2012-2013) foi uma obra de ficção livremente inspirada em aspectos históricos. Seu

pano de fundo é a cidade do Rio de Janeiro no período da República Velha, tendo como objetivo reconstituir as relações raciais e sociais ocorridas naquela época (TV GLOBO, 2012). O título Lado a Lado retrata justamente a necessidade de convivência entre brancos e negros, então, ex-escravos.

abordar os significados que essas práticas adquiriram durante esse período histórico nos ajuda a entender os próprios sentidos do que é ser empregada doméstica na sociedade contemporânea.

As mulheres negras ocupavam nessa época uma posição central em manifestações religiosas negras como o candomblé e o canto dos orixás (BARDANACHVILI, 2013d), centralidade esta que se estendia para várias outras práticas.

Dos terreiros para a vida cotidiana da comunidade, a força feminina foi se estendendo e se fazendo cada vez mais presente. Verdadeiras matriarcas, as negras baianas passaram a ser chamadas de tias. Eram matriarcas de famílias unidas por laços étnicos – e não necessariamente de sangue. Em torno delas eram cultivadas as tradições negras. As tias – com sua sabedoria, força e independência – eram conselheiras, rezadeiras, curandeiras, mediadoras de conflitos, organizadoras de festas e até administradoras dos recursos financeiros. Trabalhavam também como quituteiras e doceiras e providenciavam o que fosse necessário para as festas, os rituais e a sobrevivência da comunidade (BARDANACHVILI, 2013d, s/p).

Era na casa de uma das tias mais conhecidas do Rio de Janeiro, por exemplo, que os primeiros compositores de samba se reuniam, como Donga, Sinhô e João da Baiana. Nessa casa, eram organizados os ranchos que saíam nas ruas em período de Carnaval (BARDANACHVILI, 2013d, s/p.).

O que se observa é que as mulheres pobres e negras acabavam desafiando o modelo de família burguesa e de elite da época, modelo no qual a submissão da mulher em relação ao homem era uma regra. Além disso, a maternidade, considerada uma destinação natural das mulheres burguesas, nem sempre era vista como destino único e natural das negras. Elas se dividiam entre diversos tipos de atividades e era frequente a rejeição de filhos pelas mães (BARDANACHVILI, 2013e).

Essa centralidade da mulher nos grupos sociais periféricos é algo que se mantém ainda nos dias atuais. Nas periferias e favelas, é comum as mulheres serem as chefes de família, o que ocorre, não só em virtude de uma desestruturação familiar na qual os homens nem sempre cumprem suas obrigações sociais como pais e maridos, mas também em virtude da força que a imagem da mulher representa nessas comunidades. No período pós-escravocrata, mesmo os homens que apoiavam as mulheres tinham dificuldades para sustentar suas famílias, já que não conseguiam competir com os imigrantes no mercado de trabalho (SILVA, 2006).

Nesse período, torna-se também comum que meninas ainda crianças ou adolescentes mudem-se para a casa de famílias a fim de trabalhar como criadas, o que se mantém ainda depois da introdução de relações assalariadas de trabalho. O significado do trabalho doméstico na vida dessas jovens negras se associava a uma dinâmica que Zanetti e Sacramento (2009)

chamam de identidades entrecortadas, marcadas por pertencimentos como raça, sexo e geração que acabavam somatizando a situação de exclusão social em que viviam.

A partir do próximo tópico, discutirei a situação das criadas domésticas quando se iniciam as relações assalariadas de trabalho, o que não implicava necessariamente a ausência de elementos de precariedade do trabalho que foram mencionados neste tópico em relação ao período pós-escravocrata. O que veremos é o surgimento de uma personagem (res)-significada – a empregada doméstica – mas cujos significados e relações de trabalho ainda guardam bastantes influências dos períodos escravocrata e pós-escravocrata.

3.4.3 As mensalistas residentes: relações de trabalho assalariadas dividindo o mesmo espaço

Benzer Belgeler