Além das observações relacionadas às variantes fonéticas de vogais e consoantes nos dialetos gregos, os escólios de Acarnenses também contêm informações sobre as variações de aspiração e acentuação nos mesmos dialetos. O primeiro escólio a apresentar esse tipo de informação é Σ Ac. 26, no qual lemos:
ἅθροοι: ἀντὶ τοῦ ὁμοῦ. προπαροξύνειν δὲ δεῖ τὸ ὄναμα καὶ δασύνειν τὴν πρώτην συλλαβὴν Ἀττικῶς.
Ἅθροοι: É igual a ὁμοῦ (‘todos juntos’). Mas é necessário pronunciar este adjetivo como proparoxítona e aspirar de maneira ática a primeira sílaba.
Como se vê nessas anotações do escoliasta, a palavra ἅθροοι (‘todos juntos’) no dialeto ático era pronunciada com aspiração forte e como proparoxítona. Isso indica que tal palavra também era pronunciada com aspiração branda e de forma paroxítona. De fato, na edição de Olson (2002), encontramos a forma paroxítona desse vocábulo: ἁθρόοι. LSJ, por sua vez, apresenta as três variantes dessa palavra: ἅθροοι, ἁθρόοι e ἀθρόοι.
Nos comentários anexados a Ac. 329-30, temos outro exemplo de observação sobre variação de aspiração no dialeto ático. Eis as palavras de Σ Ac. 329-30:
εἵρξας: ἀποκλείσας. δασέως δὲ τοῦτο Ἀττικοί. τὸ μέντοι παρ᾿ Ὁμήρῳ “ἐρχθέντ᾿ ἐν μεγάλῳ ποταμῷ” ψιλῶς. τὸ δὲ ἕρξας δασέως ἀναγινώσκομεν, ὅταν τὸ πράξας δηλοῖ “ἡ μὲν ἄρ᾿ ὣς ἕρξασ᾿ ἀπεβήσατο δῖα θεάων.” τὸ δὲ ἐπὶ τῆς εἱρκτῆς δασέως Ἀττικοί. Εἵρξας: É [igual a] ἀποκλείσας (‘tendo trancado’). Mas os áticos pronunciam este [verbo50] com espírito rude. Certamente, em Homero, ele esta com espírito brando: “Tendo sido cercado (ἐρχθέντα) pelo grande rio” (Il. 21.282). Mas o ἕρξας, com
aspiração rude, que nós conhecemos, significa ‘tendo executado’ (Od. 18.197): “Depois, tendo concluído (ἕρξασ᾿), a deusa preclara voltou [ao Olimpo].” Os áticos usam o espírito rude por influência de εἱρκτῆς (‘prisão’).
Os áticos também pronunciavam o verbo εἵργω (‘trancar’) com aspiração forte. De acordo com Σ Ac. 329-30, o uso dessa aspiração entre os áticos se dá por influência da palavra εἱρκτῆς (‘prisão’). A partir do que disseram os escoliastas, podemos subentender que os outros dialetos gregos falavam o referido verbo com aspiração branda. De fato, essas duas variantes – εἵργω e εἴργω – estão dicionarizadas no LSJ.
Assim como ocorreu em Σ Ac. 1026, aqui os escoliastas novamente nos dão a entender que não usavam o dialeto ático. É interessante atentar para isso porque pode ser uma pista para identificação dos autores dos escólios de Acarnenses.
Como antecipamos há pouco, os escólios de Acarnenses também apresentam informações sobre as variações de tonicidade vocabular nos dialetos gregos. Considerando-se os temas gramaticais, os escólios que tratam da tonicidade das palavras são os mais numerosos. Em Σ Ac. 142, temos um exemplo desse tipo:
τὸ φιλαθήναιος προπαροξύνειν δεῖ, ἐπεὶ τὰ εἰς ος λήγοντα προπερισπώμενα ἁπλᾶ ἐν τῇ συνθέσει ἀναβιβάζει τὸν τόνον, οἷον δῆμος Ἀριστόδημος, πῶλος ἐχέπωλος· [...] κνεφαῖος ἀκροκνέφαιος, ὀμφαῖος πανόμφαιος, ἀρχαῖος φιλάρχαιος. οὕτω καὶ φιλαθήναιος.
É necessário pronunciar φιλαθήναιος como uma proparoxítona. Quando palavras paroxítonas simples formam novas palavras compostas, o acento delas passa para a antepenúltima sílaba, como nos seguintes exemplos: δῆμος e Ἀριστόδημος; πῶλος e ἐχέπωλος [...]; κνεφαῖος e ἀκροκνέφαιος; ὀμφαῖος e πανόμφαιος; ἀρχαῖος e φιλάρχαιος. Φιλαθήναιος também é assim.
Esse comentário apresenta uma regra de acentuação bastante prática: palavras compostas geralmente são proparoxítonas, mesmo quando no final da composição esteja uma paroxítona. Pelo fato de não ter sido identificado um dialeto específico, pode-se supor que tal regra era comum a todos os dialetos gregos de então.
Σ Ac. 263 contém outra observação acerca das variações de tonicidade. Desta vez, os escoliastas fazem o cotejo entre os dialetos ático e dórico. Vejamos as palavras escritas pelos mencionados comentaristas:
περισπωμένως δὲ τὸ Φαλῆς ἀναγνωστέον, ὡς Ἑρμῆς. οὕτως δὲ Ἀττικοί· παρὰ Δωριεῦσι δὲ βαρυτόνως. “ὁ δ᾿ αὖ Φάλης κατακυπτάζει”. οὕτω Σώφρων ἐχρήσατο. Φαλῆς (‘Fales’) é recitado com acento circunflexo, como Ἑρμῆς (‘Hermes’). Os áticos [pronunciam] assim. Mas, entre os dóricos, é com acento grave: “Mas de novo Fales (Φάλης) se inclina”. Deste modo foi anunciado por Sófron (Mimos fr. 39 Kaib.).
Segundo os escoliastas de Ac. 263, os dialetos ático e dórico divergem em relação à pronúncia do nome da citada divindade. Para os áticos, a pronúncia era oxítona, mas para os dóricos, paroxítona. Ao dicionarizar essas duas variantes, Φαλῆς e Φάλης, e indicar qual delas pertencia ao dialeto dórico, LSJ corrobora as informações apresentadas pelos comentaristas de
Ac. 263.
Outro escólio de Acarnenses parece mostrar que o dialeto ático preferia as oxítonas às paroxítonas. Trata-se de Σ Ac. 1054-5, no qual lemos o seguinte comentário:
χιλιῶν περισπῶσιν Ἀττικοί. γράφεται καὶ χιλίων.
Os áticos pronunciam χιλιῶν (‘mil’), com acento circunflexo na última sílaba. Também se escreve χιλίων.
Como se vê, os áticos pronunciavam o nome da unidade de milhar com um “circunflexo na última sílaba”: χιλιῶν. LSJ reconhece que essa forma do genitivo plural é tipicamente ática, embora não faça menção da variante paroxítona: χιλίων.
Σ Ac. 671 contém igualmente uma observação sobre tonicidade vocabular. Eis o que diz o referido escólio:
[...] οἱ δὲ Θάσιόν φασι βάμμα λέγεσθαι ἐκ τῶν ἀπὸ πυρὸς ἰχθύων. ἰδίως Θασίαν ἐκάλουν. Κρατῖνος “εἶδες τὴν Θασίαν ἅλμην”.
[...] Outros dizem que Θάσιον se refere a um molho dos peixes vindos do fogo. Eles pronunciavam de uma forma distinta: Θασίαν. Cratino (Arq. fr. 6 K.) escreveu: “Que olhes a salmoura de Tasos (Θασίαν)”.
Segundo esse comentário, a palavra em questão possuía duas variantes, distintas em relação à tonicidade: Θάσιον e Θασίαν. Embora o escoliasta não identifique os dialetos que usavam as respectivas variantes, ele afirma que Cratino era um dos que preferiam a forma paroxítona: Θασίαν. LSJ também dicionarizou essas duas variantes, inclusive fazendo menção de Σ Ac. 671 e de Cratino.
Outro escólio de Acarnenses apresenta informações sobre variações de tonicidade vocabular nos dialetos gregos: Σ Ac. 1111. No entanto, ele não indica os dialetos que faziam uso das variantes apresentadas. Eis o comentário do referido escoliasta:
τριχόβρωτες: σῆτες. θρὶψ, σκώληξ κατεσθίων τὰς τρίχας. καὶ προπερισπωμένως δὲ λέγεται τριχοβρῶτες.
Τριχόβρωτες: É [sinônimo de] σῆτες (‘traças’). É um inseto, um verme que come os pelos. Mas também se pronuncia τριχοβρῶτες, com acento circunflexo na penúltima sílaba.
Como está nítido, existiam duas variantes para a palavra analisada: uma proparoxítona, τριχόβρωτες, e outra paroxítona, τριχοβρῶτες. LSJ, fundamentando-se unicamente em Σ Ac. 1111, também apresenta essas duas variantes junto do verbete τριχόβρως.
Ainda tratando de tonicidade, Σ Ac. 684 apresenta uma explicação acerca da acentuação da palavra ἠλύγη (‘sombra’). Para o escoliasta, o mencionado vocábulo só é paroxítono por causa da proximidade com λύγη (‘crepúsculo’). Tudo indica que, se essa proximidade não existisse, ἠλύγη teria uma pronúncia oxítona. Eis o que disse Σ Ac. 684:
οἱ γέροντες ἡμεῖς δηλονότι οὐδὲν ὁρῶντες ἐν τῷ δικαστηρίῳ, εἰ μὴ τὴν σκιὰν τῆς δίκης. ἠλύγη γὰρ τὸ σκότος. καὶ ἠλυγισμένον, τὸ ἐσκοτισμένον. βαρύνεται δέ. παρὰ γὰρ τὴν λύγην. πλεονάζει τὸ η.
“É evidente que nós, os velhos, não estamos vendo nada no tribunal, a não ser a sombra da justiça.” Pois ἠλύγη significa ‘trevas’ e ἠλυγισμένον denota ‘o que está em trevas’. Mas [ἠλύγη] é pronunciado sem acento na última sílaba, porque tem um paralelo com λύγη (‘crepúsculo’). O eta (η) é redundante.
Todos esses exemplos de escólios que apresentam informações sobre as variações de aspiração e tonicidade nos dialetos gregos – Σ Ac. 26, Σ Ac. 142, Σ Ac. 263, Σ Ac. 329-30, Σ
Ac. 671, Σ Ac. 684, Σ Ac. 1054-5 e Σ Ac. 1111 – dão testemunho da época em que os textos
gregos não continham acentuação nem sinais de aspiração. Daí a razão de ser de todos esses comentários.