A ideia de cidade liga-se, inicialmente, ao modo de vida que permeia essa estrutura urbana marcada pela luta de classes. Ela pode ser compreendida como fruto da intervenção humana no espaço, algo que está além de uma definição quantitativa, por considerar as relações de poder como modeladoras do seu uso e forma. Isso sugere afirmar que a cidade é produto e condição de reprodução de uma sociedade, a cidade pode, então, ser explicada como um ambiente que é um produto social.
Por ser compreendida como produto histórico-social de caráter processual e ininterrupto a cidade torna-se palco das transformações sócio-político-econômicas. Assim, podemos definir e analisar em diferentes perspectivas seja em áreas como a Geografia, História, Arquitetura, ou Estudos Urbanos e Regionais, o que possibilita uma interdisciplinaridade na construção da natureza desse fenômeno urbano.
Essa característica de múltiplas perspectivas sugere o estudo sobre a sociedade formadora do espaço urbano como elemento importante para o entendimento da cidade, já que para cada sociedade existe uma forma estrutural e funcional particular de organização. Haesbaert (2006) contribui nesse debate ao afirmar que no espaço geográfico se estabelece territórios dos quais são produto da relação desigual de forças, envolvendo o domínio ou controle político-econômico do espaço.
Conceber a cidade é ao mesmo tempo delimitar um espaço cujas atividades são definidas por uma sociedade singular que caracteriza esse território não só pelo controle politicamente estruturado, mas também por uma apropriação que engloba as dimensões simbólicas e identitárias dos grupos que a constituem. Com isso, as cidades se tornam reflexo concreto do trabalho humano, a materialização desse trabalho que, ao longo da história, foi efetivado e influenciado por diversos pensamentos como cita Oliveira (2002, p. 10).
Ao longo da história do Ocidente, a vida urbana tem recebido uma avaliação diferenciada. Ora é espaço do progresso, ora é espaço da desordem.
Durante muito tempo se pensou a cidade como lugar de modernidade e progresso em oposição ao mundo rural, considerado os lócus da tradição e do atraso. A cidade passou a ser identificada como campo da racionalidade e do planejamento e, simultaneamente, como fonte de fragmentação e de aviltamento do indivíduo.
Sendo construídas historicamente pelas sociedades ali instaladas, as cidades expressam por meio das dimensões política, econômica e cultural uma configuração capaz de criar uma pluralidade de modos de vida, possibilitando ao homem desenvolver suas relações, sua vida social e afetiva. Por esse motivo, Carlos (1997) define a cidade como lócus onde se expressam todas as nossas contradições sociais.
É nesse ínterim que a cidade capitalista, mais precisamente no contexto da globalização, evidencia em sua configuração urbana marcas que a caracterizam como vitrine de um novo modelo de produtividade ao mesmo tempo em que podemos identificar o aumento progressivo das desigualdades socioespaciais. Esse processo de transformação do modelo produtivo desencadeado a partir da década de 1970 é possibilitado segundo Rochefort (2002, p.8),
Graças ao sucesso das novas técnicas de comunicação e de informação, a serviço de novas estruturas de produção posteriores à época fordista. Ela abala as concepções anteriores de redes urbanas hierarquizadas em zonas definidas pelo princípio de proximidade e impõe visão de um território mundial de redes organizadas a partir de polos e de fluxos. A análise destes polos da globalização permitiram identificar novas funções metropolitanas, novos processos de metropolização das grandes cidades que puderam ou souberam adquiri-las.
Nessa perspectiva, a globalização evidenciou nas últimas décadas um protagonismo citadino tanto nas transformações urbanísticas, consequente, criação e ampliação de serviços, quanto na atração de investimentos internacionais na lógica do mercado global. A inserção da cidade no mercado global da economia trouxe transformações que não podem ser ignoradas e que formam territórios complexos e articulados com novas funções. Pode-se entender então, que as cidades são atores sociais complexos e de múltiplas dimensões (CASTELS; BORJA, 1996).
Ao mesmo tempo, como citado por Rochefort (2002) a inserção no mercado global desencadeia um processo desigual na organização comercial e na estrutura social urbana. Na América latina, os efeitos da reestruturação produtiva iniciada na década de 1990 refletiram de maneira profunda na economia e no papel do Estado. Para superar a crise e reestabelecer a rentabilidade e o dinamismo econômico das
economias capitalistas, medidas neoliberais de forte impacto no mercado de trabalho e consequente precarização e desregulamentação do mesmo foram adotadas em boa parte dos países latino-americanos a partir da década de 1980.
No Brasil, essa situação não foi diferente. Desde a década de 1930, quando o processo de industrialização concentrou e fixou uma massa de trabalhadores nos centros urbanos, passando pela década de 1990 onde a população urbana superou numericamente a população rural, as cidades brasileiras tornaram-se grandes polos de atração e densidade populacional. Os efeitos dessas mudanças estruturais desencadearam um processo de retração das forças do trabalho formal, aumentando assim o desemprego, as formas de trabalho informais e a periferização.
Diante desse histórico, as cidades dos países subdesenvolvidos de industrialização tardia tornaram-se incapazes de suprir a sociedade com formas de produção mais horizontais. O processo de urbanização associa-se a superexploração da força de trabalho e a precarização do mesmo, sendo crescente fenômenos como o da segregação sócio espacial da população citadina (OJIMA et
al., 2015). Devemos destacar que a discussão sobre segregação apresenta nas
Ciências Sociais uma vasta bibliografia por estabelecer diferentes campos de investigação, interligando “as dimensões econômicas, culturais e políticas com as dimensões espaciais da realidade social” (SABATINE, 2006, p.169).
A divisão social do espaço urbano é traduzida em numerosas áreas sociais, e discutida por Corrêa (2013) como reflexo, em meio à condição de existência e reprodução das classes sociais e suas frações. Cada área, portanto, é caracterizada por uma relativa homogeneidade interna e heterogeneidade entre elas. Indicadores como renda, ocupação, fecundidade, qualidade de habitação e status migratório, definem o conteúdo dessas.
Constituído como produto e meio social, a segregação é parte integrante dos processos e formas de reprodução social, pois “a relativa homogeneidade interna de cada área social cria condições de reprodução da existência social que ali se verifica” (VASCONCELOS, 2013, p. 9). Sendo assim, a segregação é um processo dialético, em que a segregação de uns provoca ao mesmo tempo e pelo mesmo processo, a segregação de outros. Nesse contexto, verificamos que as
desigualdades sociais refletem no espaço urbano e “as formas resultantes delas diferem em função de cada contexto” (VASCONCELOS, 2013, p.17).
As consequências da reestruturação produtiva, discutida anteriormente, podem ser compreendidas segundo Ribeiro (2010) a partir de três mecanismos relacionados. Primeiramente a difusão de ideias e programas liberais que gerou mudanças dos modelos e paradigmas regulatórios nos países; em segundo lugar a consequente privatização dos serviços urbanos que ocasiona o aumento das desigualdades no acesso a esses serviços; e em terceiro lugar, a especulação imobiliária que tem se tornado o principal mecanismo de distribuição da população na cidade.
Nessa discussão, que (CASTELS; BORJA, 1996) acrescenta que as limitações destes processos e os efeitos sociais das políticas de ajuste, acrescentadas às desigualdades e marginalidades herdadas, à debilidade da sustentação sociocultural das cidades e aos graves déficits de infraestrutura e serviços públicos, atrasaram a emergência da cidade da América Latina como protagonista.
Cabe destacar, que os efeitos mais perversos dessa realidade se expressaram nos países de desenvolvimento tardio, caso do Brasil, apresentando singularidades na sua estrutura urbana e social. Diante disso, Santos (2013) cita a cidade brasileira como espaço contraditório por excelência, ajustada às condições do mundo globalizado incluindo poucos e excluindo muitos num processo simultâneo.
Para que possamos entender melhor como ocorreu o processo formativo das regiões metropolitanas no Brasil será necessária uma breve explanação sobre o que é metropolização, seus processos característicos e suas consequências na estrutura social e urbana. Esse será o tema do próximo tópico.