1.3. Karaciğer ve Pankreas Histolojisi
1.3.2. Pankreas Histolojisi
...iniciar a esta disciplina, não é possível, a rigor, senão no sentido de iniciar à sua própria filosofia... Romano Galeffi - O que é filosofia?
dirigir o ensino da Filosofia, num sentido que acentuasse a importância histórica dos sistemas e dos problemas filosóficos” (USP, 1953, p. 441). “Se o ponto de vista histórico é o que predomina no ensino da Filosofia em geral, é claro que o estudo da própria História da Filosofia é de suma importância para o quadro geral do Curso” (USP, 1953b, p. 464).
135 Termo utilizado por Michel Foucault para cunhar que as manifestações conceituais no discurso não se
retêm às construções de frases ou de proposições, mas se articulam na relação com outras noções que formam um domínio associado para o conceito (2008, p. 108).
Para a análise da organização desse uso, não faço distinção entre termos como “introduzir”, “iniciar” ou “começar”, pois considero que se trata de nomes diferentes para a mesma função enunciativa136, que é a de (se) ingressar em um saber, função esta de fundamental importância para a presente pesquisa. Considero que tais aparecimentos, quando relacionados à filosofia, se deslocam do sentido de ensino, pois não se remetem, especificamente, à esfera escolar. Ora, não recorrem à lei, à fundação da Universidade ou à qualquer programa e didática, mas parecem afirmar outra coisa.
As aparições de introdução vinculam-se à emergência de um deslocamento para si na relação com a própria filosofia, mesmo quando pensada como disciplina: “Fazer uma introdução à filosofia, ou iniciar a esta disciplina, não é possível, a rigor, senão no sentido de iniciar à sua própria filosofia” (GALEFFI, 1954, p. 17, itálico meu). Considero que uma “iniciação à sua própria filosofia” não se retém à instrução para alguém, mas implica um envolvimento pessoal daquele que se inicia em algo “seu”. Este arquivo parece mostrar uma mudança fundamental no modo de se relacionar com a ensinabilidade filosófica. Mesmo a iniciação ao seu saber, implica um envolvimento daquele que o faz.
Essa relação torna-se candente nas recorrências enunciativas que se destacam em um mesmo texto, nomeado A introdução à filosofia como problema137. Quero aprofundar mais o sentido deste envolvimento, pois entendo que provoca um deslocamento de aparição que já se destaca de “ensino”. Ou melhor, de que se ensina (no sentido de instruir ou de transmitir) a filosofia para alguém. O próximo enunciado torna mais demarcada esta relação. Muito embora o
Nosso primeiro contato com a filosofia [seja] o contato com a filosofia enquanto instituição social. [Isto é,] Ouvimos, em primeiro lugar, a palavra e, em seguida, tomamos consciência de que a palavra alude a realidades inscritas na circunstância em que nos encontramos, tais como escolas, cursos, professores, livros, bibliotecas. (CORBISIER, 1952, p. 677).
136 A função enunciativa já foi especificada nesta pesquisa. Para o caso específico das modalidades
enunciativas como introduzir ou iniciar, resta afirmar que ela cumpre o desígnio de ingressar algo ou alguém em um saber, no caso, na relação com a filosofia. O seguimento desta análise revela os usos de tais aparições.
137 Ainda que a análise arqueológica não pretenda interpretar textos, dada a dispersão enunciativa reunida
em um mesmo documento, decidi referenciá-lo pelo título, posto que foi ele quem concentrou a maioria das repetições que volteiam “introdução” na relação com a filosofia. Mas vale dizer que em nada o meu modo de análise por enunciados se altera aqui. Segue também a referência completa: CORBISIER, R. A introdução à filosofia como problema. Revista Brasileira de Filosofia. V. II, nº 4, p. 668 – 678, 1952.
É preciso levar em conta que esse contato:
Não teriam para nós sentido algum se entre elas e nós não houvesse uma correspondência prévia, se não atendessem a nenhuma das necessidades em função das quais se configura a nossa existência, pois a sua presença no horizonte da nossa vida não bastaria para explicar a exigência que possamos sentir de nos aproximar delas (CORBISIER, 1952, p. 677).
É de fundamental importância notar que o campo disciplinar aparece no enunciado acima, mas como lugar de ultrapassagem. Ora,
Não é da filosofia ‘institucionalizada’ que podemos partir, pois essa filosofia na medida mesma em que se converteu em rotina, erudição e arqueologia, se inclui entre os sistemas da crise, mas da filosofia que não temos e que precisamos ter porque sem ela não podemos viver. (CORBISIER, 1952, p. 678).
O lugar de início na filosofia não se dá a partir da “filosofia institucionalizada”, mas de outra esfera, que o autor nomeia como algo “que não temos” - uma ausência, mas que confere também sentido à vida.
Para uma iniciação à filosofia entendida desse modo, a própria história da filosofia cumpre um papel diferente e serve para mostrar “todo um repertório de atitudes que ilustram as diversas maneiras de iniciar a reflexão filosófica” (CORBISIER, 1952, p. 669). Penso que a presente colocação permite apontar que uma introdução na história da filosofia como pura narrativa de sistemas138 parece cair no risco de nem propiciar uma história, tampouco filosofia. Ou, como dito no arquivo: “As introduções históricas à filosofia confundem-se assim com a própria história da filosofia que, quase sempre, não é nem história nem tampouco filosofia” (CORBISIER, 1952, p. 672).
Percebo, no auxílio dos enunciados anteriores, a frequência com que, à medida que os arquivos se afastam dessa “filosofia institucionalizada”, também se aproximam da “vida”, e vice-versa. Lembro que a análise do capítulo anterior é privilegiada para mostrar essa articulação. Neste, a afirmação de um conjunto discursivo que promove o ensino de filosofia à maneira científica, partindo de sistemas universais, parece também se afastar da vida. De modo contrário, quando os demais arquivos se referem a um
138 Cumpre retomar o capítulo anterior dessa dissertação, onde se opõe claramente a noção de um
“sistema universal” como sendo o conjunto de determinadas respostas oferecidas pelo filósofo, à sua relação com o “problema e com a vida”, de onde se origina também uma espécie de “atitude” filosófica.
ensino que se calca nos problemas e na vida, não se remete a teses sistemáticas e universais senão como lugares de oposição.
A título de exemplo, mostro outro enunciado da aparição de introdução como conceito. Noto que seu uso também afirma o envolvimento na filosofia como um “descobrir” e “ingressar” na própria dificuldade a ser vencida:
O problema do descobrimento da abertura, ou do poro que nos permitirá ingressar num recinto determinado, só se apresenta como uma dificuldade a vencer, um problema a solucionar, a aquele que se produz e pretende penetrar nesse recinto. (CORBISIER, 1952, p. 669). Novamente, tais enunciados afirmam que uma abertura na filosofia se apresenta como um problema a superar. Parece também que essa iniciação como superação não se pode restringir à pura escolarização do saber filosófico. A dimensão do arquivo como acontecimento permite notar essa espécie de detalhe que, ao se curvar para a análise de um texto ou de um livro, passaria despercebido.
Em suma, marcas que se reportam a verbos como “introduzir”, “iniciar”, “começar”, “ingressar”, “descobrir” a filosofia mostram a necessidade de uma colocação de si e também uma relação estabelecida com certa ausência em vida. Nisso, posso notar que cumprem a função de mostrar a limitação de instruir a filosofia para alguém.
Penso que esse deslocamento para si, que os arquivos mostram, é de fundamental importância para uma analítica do ensino de filosofia no Brasil, posto que mostra, ao menos, duas maneiras diferentes de se relacionar com a ensinabilidade da filosofia. Uma que provoca o ensino para o outro e a segunda que percebe uma iniciação na filosofia como um envolvimento de si.
Permito-me manifestar duas considerações em face do que os arquivos me mostram: do mesmo modo que o ensino não promove necessariamente uma iniciação, a iniciação não se retém ao ensino. Isto é, ensinar o outro não será, necessariamente, permitir que ele se inicie mais profundamente nesse estudo. A relação de ensino, no caso, da filosofia e em seus diferentes graus escolares, pouco se efetiva, quando certa introdução na vida do indivíduo não se fizer presente. Iniciar-se na filosofia implica certo envolvimento daquele que o faz a partir das coisas que lhe faltam. Agora interessa analisar a terceira circulação conceitual, a que se nomeia estudo.